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Crimestaminal

por Rui Rocha, em 17.05.12

Imagine que tem um filho e que um grupo de malfeitores o obriga a apontar-lhe uma arma. E que a arma tem duzentas câmaras. Cento e noventa e nove estão vazias e uma delas tem uma bala. Os malfeitores rodam o tambor da arma. A partir desse momento o leitor deve fazer um disparo. Existe uma hipótese em duzentas de ferir ou matar o seu filho. É uma posição insuportável para os pais. Pois é exactamente nessa posição que a Crioestaminal os quer colocar com o seu novo anúncio. No spot televisivo, com a imagem de uma criança sentada numa marquesa, uma voz começa por dizer que "há uma hipótese em 200" de um dia ser diagnosticada ao seu filho "uma doença cujo tratamento se pode encontrar nas suas células estaminais ou nas de um irmão". Doenças como "a leucemia, o linfoma, tumores sólidos", prossegue a voz em off. No final, a criança pergunta simplesmente: "Mãe, pai, guardaram as minhas células?" Ou seja, o que a criança realmente pergunta é: "Seus criminosos, como é possível que ponham a minha vida em causa e não recorram aos serviços da Crioestaminal?" Isto não é publicidade. É um delito de coação. Que recorre aos mais nobres sentimentos para dar origem a um sentimento de culpa injustificado, baseado em falsidades científicas. A Crioestaminal não está a pôr a ciência ao serviço da vida. Está a obrigar os seus eventuais clientes a jogar uma roleta russa vergonhosa a pretexto da doença e da morte. Fá-lo de forma consciente, como já admitiu no Facebook. A imprudência seria condenável. A agressão deliberada só pode suscitar repugnância.

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183 comentários

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De José António Salcedo a 17.05.2012 às 21:40

É isso mesmo, Rui. Também considero a mensagem passada no anúncio - directa e indirectamente - como contrária aos princípios de ética científica. No mínimo.
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De Marina a 18.05.2012 às 16:56

totalmente de acordo, ver aqui

http://asaidaporfavor.blogspot.com
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:47

Bom ponto, Marina.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:46

É o que me parece também, José António.
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De Ana Vidal a 17.05.2012 às 22:14

Tens muita razão. O anúncio é chocante, até pela pergunta estúpida na boca de uma criança daquela idade. E a acusação aos pais é óbvia: se não têm dinheiro para guardar as minhas células, são uns criminosos sem coração.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:51

Exactamente, Ana.
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De Helena Sacadura Cabral a 17.05.2012 às 22:17

Acabei de ver e ouvir. Lamentável!
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De Manuel Francisco a 18.05.2012 às 18:36

...Quando, ao ver e ouvir, tive a mesma opinião, pensei não estar no meu juízo; Felizmente que estava de boa saúde!...É mesmo lamentável e mais lamentável, é ter sido autorizado.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:56

Concordo, Manuel.
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De Roseanne a 19.05.2012 às 14:39

Minha cara Senhora, peço desculpa por me dirigir a si, não me conhece, mas...por favor aceite o meu mais profundo respeito e admiração por si.
Bem-haja!
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:51

Também achei, Helena.
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De ana cristina leonardo a 17.05.2012 às 22:31

Isto foi o que eu disse lá no Cara de Livro e repito aqui:

Hoje foi um dia para esquecer e macacos me mordam se isto não anda tudo ligado.
Começou com o Arnaut a dizer que "a Grécia não é um país". Acaba com o Pedro Bidarra, parece que grau 33 do marketing e publicidade, a mostrar uma campanha sobre células estaminais que está a indignar pais, futuros pais e gente ligada à ciência e à ética da ciência (não vou dizer "gente de bem" porque poderia parecer mal).
A coincidência, porque ele há mesmo coincidências do caraças, é que se trata do mesmo Bidarra que nos vendeu a West Coast, essa ideia brilhante em que se associou ao não menos brilhante ministro Manuel de Pinho.
Na altura, o guru publicitário garantia que a West Costa tinha «associações "aspiracionais" – Hollywood ou Silicon Valley, por exemplo – que sem nada termos que fazer contaminam o conceito positivamente, tornando-o mais glamouroso e mais cosmopolita. Depois há as pontes e colinas de Lisboa e S. Francisco, o Vale do Douro e o Napa Valley, a aridez da Baja Californiana e o nosso Alentejo, coincidências felizes que é só aproveitar.
Agora diz que a actual "campanha é forte e tem uma componente de serviço público, para educar as pessoas".
Ó Pedro Bidarra, cá para mim quem precisava de ser (re)educado eras tu. Em alternativa, podias ir tratar da imagem da Coreia do Norte que anda muito por baixo.
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De João Carvalho a 17.05.2012 às 22:49

Nem mais. E, como dizia o outro, podia mandar de lá saudades, que é coisa que cá não deixa.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:52

Bem dito, Ana Cristina.
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De João Carvalho a 17.05.2012 às 22:43

Muito bem, Rui.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:57

Obrigado, João.
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De lucklucky a 17.05.2012 às 23:06

Reacção histérica dos que julgam que existe a possibilidade dos zero erros e zero defeitos ao ter um filho. Não admira que os filhos cada vez sejam menos e mais caros. O desejo de perfeição é impossível de cumprir. E quando isso é exposto num anúncio reagem.

Não querem enfrentar a verdade.
E a empresa sabe que não querem enfrentar a verdade por isso pode explorar isso.

Acho bem a campanha - se os números forem correctos - será uma vacina para os pais saberem que não podem chegar a todo o lado, altura de os país aprenderem que não podem controlar tudo e assumirem as limitações de ser pai e mãe.

Se a criança fizer isto e aquilo, nadar, surf, moto etc também terá xyz mais chances de ter uma maleita qualquer ou morrer em acidente em vez de escolher tocar piano. Se não tiver o melhor médico do mundo com a melhor equipa em caso de doença também terá mais chances de algo correr mal...

Não podem chegar a todo o lado e isso não os torna maus pais. Sejam bons naquilo que podem controlar.
Só sabendo isso é que podem resistir a estas campanhas de emoções fáceis. De empresas ou políticas.
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De CM a 18.05.2012 às 17:07

Fiquei chocada com este anúncio, mas adorei o seu comentário. Acho que fez uma análise fria e realista da sociedade actual.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:53

Exacto, CM. A análise realista da sociedade actual não impede um juízo crítico sobre o anúncio.
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De looking a 19.05.2012 às 15:02

Achei o seu comentário muito bom, porém discordo
de algumas coisas que foram ditas.Eu não tenho
filhos e pelo andar dos anos nunca os poderei ter. Quanto a dizer que os pais não querem saber se os
filhos saem sãos ou não, não acho que seja verdade.
E já vi anúncios de Crioestaminal, que não são tão
capitalistas, pro-catástrofe e sobretudo virados só
para o «dinheiro». É claro que muitos pais querem
os filhos sejam saudaveis e que por algum motivo tenham algo que os socorra. O verdadeiro crime deste anúncio, é a falta de ética a todos os níveis,
e ainda mais pelo uso de crianças a fazerem uma chantagemzinha aos pais. Se tu nos deixares morrer foi porque não deste o que estes senhores queriam «dinheirinho», sim porque para eles não é verdadeiramente a saude que está em primeiro plano, mas sim o dinheiro.....
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:54

Concordo, Looking.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:52

Creio que o ponto fundamental é o do "se" que está algures no seu texto, Lucky.
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De José António Abreu a 17.05.2012 às 23:28

Ainda não vi o anúncio (ando a fazer uma dieta de televisão à base de ténis, séries e filmes) mas o texto parece-me na mouche, Rui.
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De maria torres a 18.05.2012 às 17:28

Pois eu ando, há já 6 anos, a fazer uma dieta de televisão à base de livros, alguns artigos de imprensa e passeios a pé pelo meu bairro e arredores... e estou a gostar muito! Há tanto para descobrir em São Vicente e Alfama!
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:58

E faz muito bem, Maria. Eu próprio vejo pouca televisão. Numa das raras vezes, este anúncio chamou-me a atenção.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:54

Obrigado, Jaa.
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De José Moura Pereira a 18.05.2012 às 00:01

... e depois imaginemos que esses malfeitores são vesgos, têm os pés tortos, e que entretanto mudaram o ramo de negócio e agora vendem estupefacientes, não disseram nada aos pais da criança...
- Olhe Rui, não consigo mesmo pegar neste assunto; de forma nenhuma. Só me saem disparates. Quando vi o anúncio morri um pouco, e quando não me sai nada é porque estou já meio podre.
O seu texto está bom como sempre, mas o título é um monumento!
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:55

Obrigado, José. É sempre um gosto tê-lo por cá.
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De Ana Lima a 18.05.2012 às 00:18

Eu também ainda não tinha visto. Mas agora percebo a pergunta de uma das minhas filhas esta manhã...
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:58

Pois, nem as crianças ficam indiferentes, Ana.
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De Zé Pinho a 18.05.2012 às 08:57

Confesso que quem me chamou a atenção para o "anúncio" foi uma das minhas filhas, que estava revoltada. É inadmissível.
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De Anónimo a 19.05.2012 às 16:15

Concordo plenamente em tudo.
Quando vi o anúncio pela 1ª vez na televisão, comentei logo com o meu marido isto é verdadeiro terrorismo e incomodo-nos bastante é realmente lamentável que ainda passe na televisão.
Já demos com o nosso que tem 5 anos a fazer-nos a mesma pergunta, sem saber o que estava a dizer e nós não guardamos.
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:59

De facto, é lamentável, Anónimo(a).
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De Rui Rocha a 20.05.2012 às 15:55

Até as crianças não ficam indiferentes. Inadmissível, como diz.

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