Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
por Pedro Correia | 05.01.09

 

Um empresário basco foi assassinado há dias numa vila da província de Guizpúcoa com dois tiros – um na cabeça, outro no peito – disparados à queima-roupa a poucos metros do restaurante onde se deslocava diariamente para almoçar. Os assassinos foram dois membros da ETA que se puseram de imediato em fuga. Sucede que o empresário, de 70 anos, era dono de uma empresa à qual está adjudicada a construção da linha férrea de alta velocidade no País Basco, ligando as três capitais bascas – Bilbau, Vitória e San Sebastian – a Madrid e Paris. A ETA rejeita esta obra, delineada pelo Governo madrileno, alegando que irá descaracterizar o País Basco e torná-lo mais dependente de Castela. Em vez de discutir, mata. É o que tem feito nos últimos 40 anos, durante os quais assassinou mais de 800 pessoas.
Este último crime – o quarto do género em 2008 – confirmou que o País Basco vive mergulhado num clima de medo que trespassa o quotidiano até aos mais ínfimos pormenores. Enquanto o empresário agonizava junto ao restaurante, com a ambulância e as viaturas da polícia já concentradas no local, os seus habituais parceiros de cartas, lá dentro, continuaram a jogar tranquilamente, como se nada tivesse acontecido e nada lhes dissesse respeito. Eram conterrâneos e amigos do assassinado, mas procederam como se não o conhecessem nem lhes sobrasse um pingo de comoção humana.
“A sociedade basca está doente”, reclama o cineasta Iñaki Arteta, autor de documentários sobre as vítimas da ETA. É um diagnóstico certeiro, como ficou agora tristemente comprovado pelo episódio dos cobardes jogadores de cartas, alheios ao sangue de um amigo que acabava de jorrar a poucos metros, naquela tarde triste e chuvosa que parece pressagiar novos crimes numa escalada sem fim.
 
Ilustração: Jogadores de Cartas, de Cézanne (1890)
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15 comentários:
De PALAVROSSAVRVS REX a 5 de Janeiro de 2009 às 20:36
O absurdo em nome ou em vez das ideias e dos argumentos contaminou um País de um sangue abjecto. Não quero imaginar que Portugal, apesar da brandura excessiva para com quem o deprada e devora, algum dia trilhe tal carreiro doentio.

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 00:11
Também não, Joshua.

De Ana Vidal a 5 de Janeiro de 2009 às 22:07
Impressionou-me imenso esta notícia quando a ouvi, Pedro. Lembrou-me, inevitavelmente, como a espécie humana parece caminhar para a alienação e para a total insensibilidade, se exposta continuadamente à violência e ao medo. É inacreditável a cobardia daqueles jogadores, mas começo a acreditar que possa ser feita de uma espécie de demência colectiva que, felizmente e por agora, eu ainda desconheço.

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 00:19
Não temos direito a permanecer indiferentes perante o crime e a abjecção. Aqueles jogadores, amigos, conterrâneos e companheiros de sempre do assassinado, mostraram que a ETA não se limita a roubar vidas: também violenta as consciências no País Basco.

De Ana Vidal a 6 de Janeiro de 2009 às 00:31
É uma outra forma de roubar vidas, Pedro, talvez a pior de todas.

De Bia a 5 de Janeiro de 2009 às 23:00
Obrigada, Pedro, pelo tema.
Conheço a realidade de que fala. Haverá eleições regionais, no País Basco, no próximo dia 1 de Março. Trata-se dum território com pouco mais de dois milhões de habitantes, cuja área corresponde a Trás-os-Montes. É a segunda comunidade autónoma mais rica de Espanha (a seguir a Navarra, mesmo ao lado), com uma qualidade e nível de vida invejáveis, comparáveis aos países nórdicos. Não , o País Basco não é o que foi a Irlanda do Norte. Os que ali semeiam o medo, são uma escassa minoria, que a percentagem máxima que conseguiu nas urnas foi 15% e num tempo de cessar fogo. Agora, o Batassuna (braço político da ETA) e seus sucedâneos ANV e PCTV ) foram afastados da legalidade democrática. Contudo, ali, quem é democrata arrisca mais que no tempo do ditador Franco. Quem não é nacionalista, ou melhor, integrava um partido do "ESTADO", PSOE ou PP, é obrigado a viver com segurança pessoal, todas as acções , mesmo as mais simples como ir levar os filhos ao colégio, comprar pão , beber café ou comprar o jornal, nunca pode faze-lo como quer mas como os "guarda-costas" decidem, para proteger-lhe a vida. Agora, as ameaças, começam a generalizar-se contra pessoas nacionalistas não radicais, conhecidas como abertzales ".
Perante isto, há ainda tanta gente nas redacções dos jornais, rádios e televisores que classificam a ETA como grupo SEPARATISTA e não como TERRORISTA que é. Os separatistas usam só argumentos para defenderem as suas teses. Os terroristas juntam-lhe a ameaça de armas, bombas, extorsão e roubo de liberdade a quem se lhes oponha.
E, tudo isto ocorre num país da União Europeia, onde o habitante comum jamais fala de política, nem com conhecidos. Nunca sabe se o vizinho do lado é um informador ou mesmo um terrorista...
Como me dizia um jornalista basco, aqui a liberdade é inversamente proporcional ao nível de vida. Tudo tem um preço em todas as partes. No País Basco, o preço pode ser a própria vida.

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 05:01
É como diz, Bia. Garanto-lhe que este é um tema a que regressarei com frequência. Choca-me a complacência com que em Portugal se encaram os crimes da ETA.

De Humberto Dias a 5 de Janeiro de 2009 às 23:20
Não percebo é o que é que a ilustração, bonita por sinal, de pacatos cidadãos a jogar cartas, tem a ver com a abjecção de que fala. Será para vermos a diferença entre o belo e o horrível?

Humberto Dias

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 00:21
Ora aí está.

De eu quero ser Califa a 6 de Janeiro de 2009 às 00:40
Horrível!
Que matassem os trabalhadores que estão a construir a via férrea ainda vá. Mas, agora, se começam a matar empresários onde é que isto irá parar???

É fácil dizer mal da ETA quando temos de inventar qualquer coisa a martelo para meter no bloguezinho. Muito mais fácil do que nos darmos ao trabalho de a tentar entender, concordando ou não. É que, perceba, o estado castelhano quando ilegalizou o Herri Batasuna, fechou todas as portas ao diálogo com os patriotas bascos. A ETA não discute porque não a deixam.

Mas descanse. Parece que a ETA não mata escribazinhos superficiais.

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 00:50
Também não mata comentadores anónimos, fique descansado.

De João Carvalho a 6 de Janeiro de 2009 às 17:37
Então «o estado castelhano quando ilegalizou o Herri Batasuna, fechou todas as portas ao diálogo com os patriotas bascos», não é? E a trabalheira que isso deu não conta? É que os «patriotas bascos» andam há um ror de tempo a abrir portas à bomba.

Num mundo em que as fronteiras se atenuam e a cultura é o elemento diferenciador dos povos, o separatismo é mesmo coisa de Califas. Ou dos que apenas o querem ser...

De CM a 6 de Janeiro de 2009 às 00:47
“A sociedade basca está doente": de facto, não só ela mas toda a nossa sociedade ocidental. Caminhamos para o abismo, levados pela mão daqueles que se dizem detentores da verdade e "libertadores" ...

De Padeira de Aljubarrota a 6 de Janeiro de 2009 às 14:59
Não posso comentar, o mundo é um sítio perigoso.

De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2009 às 16:28
Viva, Padeira. Andava desaparecida... Gosto de a ver por cá.

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