Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
por Ivone Costa | 27.01.12

Ontem dei uma volta por zonas da blogosfera onde raramente vou. Há uns blogues engraçados, de gente transbordantemente feliz. Têm templates clarinhos e belas frases de fabrico em série, mostram as mesas bem postas, as flores, os passeios e uma ostensiva perfeição que me faz murmurar Cesário: "Como é saudável ter o seu aconchego/ E a sua vida fácil."

Ao lado, estão os outros, os noir. Tristezas de porcelana tratadas com a ponta dos dedos, desencantos irremediáveis, impaciências várias sacudidas com gestos bruscos.

A felicidade é boa para a vida, mas não o é para a escrita. Nunca terá as potencialidades estéticas do desencanto e do seu séquito de amarguras variadas.

Há lá melhor coisa do que uma tristeza bem contada?

 

(excerto final de um post na minha Ronda)

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10 comentários:
De Bartolomeu a 27 de Janeiro de 2012 às 10:18
Não sei se Cesário Verde e o seu :
Como é saudável ter o seu aconchego,
E a sua vida fácil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quase sempre chego
Com as tonturas duma apoplexia.
poderão adequar-se aos template clarinhos e às frases fabricadas... Esses, reflectem existências fantasiosas, nem sempre vividas, nem sempre imaginadas, nem sempre desejadas, mas... aconchegantes, neste mundo áspero e amorfo, limbo de um desejo de vida maior que nunca chega.
Tal como no poema de Florbela Espanca:

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Os negros... esses não sonham a vida!
;)))


De Ivone Costa a 27 de Janeiro de 2012 às 14:33
Bartolomeu, foi só a evocação de um verso :)
Não sei se plasmam uma existência fantasiada, nem me preocupa, o que quero dizer é que, enquanto estética, me é mais cara a melancólica do que a jubilosa. :)

De José Navarro de Andrade a 27 de Janeiro de 2012 às 10:27
Este texto fez-me lembrar que o único filme inteiramente feliz de toda a história do cinema é "Meet Me in St. Louis". Ou seja, a Ivone é bem capaz de ter razão.

De Rita de Vasconcellos a 27 de Janeiro de 2012 às 12:54
:-)
abraço aos dois

De Ivone Costa a 27 de Janeiro de 2012 às 14:42
Abraço, Rita. E outro para o Walter.

De Ivone Costa a 27 de Janeiro de 2012 às 14:37
Ah, pois :))
Zé, eu sempre achei que as alegrias não davam grande material fílmico, mas é apenas uma questão de gosto, como em muitas coisas.

De José Moura Pereira a 27 de Janeiro de 2012 às 10:45
Estava a ler e lembrei-me, assim de repente, do Livro de San Michele do Axel Munthe, da Relíquia do Eça, das Cidades Invisíveis do Italo Calvino, e uma infinidade de livros de ficção cientifica escritos entre ninhos de galáxias e mares astrais onde de triste só a melancolia. Compreendo o que diz, mas tenho sido mais feliz noutras letras que não as tristezas.

De Ivone Costa a 27 de Janeiro de 2012 às 14:41
José, ainda bem. E ainda bem que há leitores da alegria porque também há quem a conte muito bem, claro, e os exemplos que dá são bem ilustrativos.

De João Carvalho a 27 de Janeiro de 2012 às 12:55
Se fizeres o favor de contactar o Pedro de novo, Ivone, ficarás a saber o que se passa com o meu e-mail. Nada de mal, como verás, mas nada de bom, no fundo.

De Ivone Costa a 27 de Janeiro de 2012 às 14:43
Yes, sir.

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