Quarta-feira, 8 de Abril de 2009
por Pedro Correia | 08.04.09
Na noite de 10 de Fevereiro de 1963, num dos Invernos mais frios de que há memória no Reino Unido, uma americana bonita e talentosa, de 30 anos, deitou a filha de três anos incompletos e o filho com apenas 13 meses nas respectivas camas. Na cozinha, preparou-lhes copos de leite e um prato com biscoitos que lhes deixou no quarto quando ambos já dormiam. Depois voltou para a cozinha, fechou a porta, acendeu o fogão a gás e meteu a cabeça envolta numa toalha dentro do forno. Era Sylvia Plath, uma das melhores escritoras de sempre em língua inglesa, autora de poemas decorados por sucessivas gerações de leitores que a idolatram. Tinha aquilo a que hoje chamamos uma personalidade bipolar: alternava sem transição os momentos de intensa euforia com os mais dilacerantes estados de depressão. No ano anterior, logo após ter dado à luz o filho Nicholas, descobrira que o marido, Ted – um escritor quase tão talentoso como ela –, a enganava com a alemã Assia Wevill, mulher de um poeta amigo do casal. Há quem garanta que jamais se recompôs do choque.
O bebé que dormia inocentemente naquele quarto de uma casa vitoriana em Primrose Hill, com um copo de leite e um prato de biscoitos na mesa de cabeceira, era Nicholas Hughes – o circunspecto e reservado filho de Sylvia que se tornou biólogo marinho e um dia decidiu viver nos confins do Alasca, em comunhão com a natureza. Cansou-se de viver numa segunda-feira, 16 de Março de 2009: como se cumprisse um desígnio do destino, enforcou-se num aposento da casa onde vivia. Dir-se-ia que o fantasma da mãe jamais o abandonara desde aquela noite invernosa, uma das mais frias de que há registo no Reino Unido.
Há famílias tocadas pelo sopro da tragédia. Ted Hughes, o pai de Nicholas, bem poderia dizê-lo: passou a viver com Assia pouco após a morte de Sylvia, mas a 23 de Março de 1969 a segunda mulher seguiu os passos da primeira, suicidando-se também com gás. Com a diferença de que não partiu só: minutos antes, matara a própria filha, Shura Hughes, de quatro anos.
Pouco antes de morrer de cancro em 1998, aos 68 anos, Ted escreveu uma longa carta a Nicholas – que nunca casou nem teve filhos – em que mencionava as profundas feridas que o suicídio de Sylvia Plath deixara na família: “Em 1963, sofreste um golpe ainda mais duro do que eu sofri. Terás de lidar para sempre com isso, tal como aconteceu comigo.”
Só quando Nicholas e a irmã mais velha, Frieda, já eram adolescentes Ted Hughes decidiu enfim revelar-lhes como haviam perdido a mãe. Há quem considere que o suicídio constitui um acto de suprema liberdade. Mas nunca saberemos até que ponto existe uma predisposição genética para um tal desfecho, o que invalidaria por completo tal raciocínio: como escrevia há dias Christina Patterson no Independent, “o suicídio é um acto violento que ressoa através de gerações.” Tal como nunca saberemos o que verdadeiramente levou Nicholas a seguir as pisadas da mãe 46 anos depois, no Inverno do Alasca. Talvez nos derradeiros instantes pensasse nestes versos de Sylvia Plath: “Dying / is an art, like everything else. / I do it exceptionally well.”
De
mdsol a 8 de Abril de 2009 às 00:18
Li, quase reli... Muito do que conta, sobretudo do que aconteceu a seguir ao suicídio de S. P. eu não sabia ... Fiquei macambúzia...
Faz parte...
:)))
Já conhecia a história (li há pouco tempo um artigo sobre ela), e é arrepiante: acontecimentos em cadeia, que parecem obedecer a um guião de tragédia grega.
Caro Pedro Correia,
Este comentário destinava-se ao seu e-mail. O que está referido na coluna da direita. Mas recebo isto:
Delivery to the following recipients failed .
pedro.correia@dn.pt
Obrigada por ter dado nota de "As mulheres...".
Soube pelo seu post do suicídio do filho de Sylvia Plath e Ted Hughes . Gosto muito da poesia de ambos. Muito. Mas a poesia TH foi penalizada pela mesma geração que elevou a poesia de SP à categoria de hino, quando a elevou a ela à categoria de ícone. Em nada, a poesia dele é inferior à dela, tem, apenas, menos visibilidade.
Será quase um despropósito, mas deixo-lhe um bocadinho - um excerto - de um poema diálogo que fiz para ambos a partir dos versos que escolheu para terminar o seu texto.
http:/ samarcanda-strada.blogspot.com /2008/04/linha-de-fuga-de-plath-para-hughes.html
Cumprimentos,
EV
Obrigado pela sua lembrança, que muito me sensibilizou, Eugénia. A história desta família toca-me profundamente pela tragédia que a percorre e que de algum modo nos faz reler a poesia de Sylvia Plath com outros olhos. Também aprecio o talento de Ted Hughes, mas falta-lhe alguma da vibração de que tanto gosto em SP. Questiono-me até onde chegaria ela se não tem feito o que fez.
De JuliaML a 9 de Abril de 2009 às 11:35
Impressionante, a genialidade de alguns bipolares que nos deixaram legados impressionantes nas Artes,
Mário Sá Carneiro, um deles.
conheço muito pouco da poesia do filho de SP...parece haver umca certa hireditariedade na bipolaridade,sim.
grande série que se avizinha, Pedro, que irei seguir.
De JuliaML a 9 de Abril de 2009 às 11:46
não consigo acessar o link que o comentário anteriro refere...
De JuliaML a 9 de Abril de 2009 às 12:07
PEdro, proponho a Pzarnic, a seguir, que eu adoro :-)
De macarvalho a 11 de Abril de 2009 às 21:47
Não conhecia, como tanta coisa que desconheço.
Fiquei sem palavras, a história é triste, macabra, levantando algumas questões dentro de nós, dá que pensar.
Brilhante o seu texto, a narrativa, lê-se num esforço controlado de chegar ao fim, desejando ao mesmo tempo que não se chegue lá, que não acabe nunca.
Parabéns!
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