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Grandes contos (12): Dickens

por Pedro Correia, em 24.12.11

 

Há muitos contos de Natal. Mas nenhum tão perene, tão influente, tão memorável como este que Charles Dickens escreveu em seis semanas para o Natal de 1843, no rescaldo imediato de uma visita a Manchester, onde ficou assombrado com as situações de injustiça e miséria ali vigentes. Um Cântico de Natal impôs-se desde logo como um hino à fraternidade, à esperança e à recuperação dos ideais evangélicos, perdidos no coração da Inglaterra no auge da Revolução Industrial -- gananciosa, desumana e fria.

A primeira frase, que logo agarra o leitor, é digna de um policial: "Marley estava morto, é ponto assente." Mas este longo conto -- quase uma novela -- pertence afinal a outro género, o da literatura fantástica. Com um pressuposto: nenhum homem é mau por natureza. E uma convicção: estamos sempre a tempo de corrigir o rumo das nossas vidas. Este é o repto lançado à personagem principal: o prestamista Ebenezer Scrooge, talvez o homem com o mais endurecido coração da Londres vitoriana, um ser incapaz de se integrar na atmosfera festiva do Natal. "Feliz Natal! Que direito tens para ser feliz? Que razão para isso? Para mais, pobre como és!", atira o velho avarento ao sobrinho que lhe dirige palavras de boas festas.

Scrooge não imaginava então o que lhe sucederia horas mais tarde, ao recolher ao leito na vasta, velha, feia e fria casa onde vive solitário: três espíritos visitam-no em sonhos, proporcionando-lhe a visão dourada de um remoto Natal da sua infância, a visão real do Natal contemporâneo -- na cidade, no campo, nas minas e no mar -- e a visão aterradora do primeiro Natal futuro, com ele morto sem ninguém a velar-lhe o corpo ou a lamentar-lhe o infortúnio. Um dos espectros fala-lhe ao coração: "Nenhum remorso pode resgatar as ocasiões perdidas da vida."

Estas visões conjugadas funcionam nele como um toque a rebate: o Scrooge que desperta deste estranho sonho, não sendo um homem novo, é no entanto um novo homem. "Tornou-se um bom amigo, um bom patrão, um bom homem, tão bom como nenhum comerciante de Londres antes ou depois dele" (Contos de Natal, de Charles Dickens; tradução de João Costa; Guimarães Editores, 2003).

 

Um escritor atinge verdadeiramente a imortalidade quando as suas personagens se tornam arquétipos da espécie humana: foi precisamente o que Dickens conseguiu com este conto, onde são patentes os traços autobiográficos de menino miserável em Londres -- de resto presentes em toda a sua obra. Scrooge incorporou-se no vocabulário inglês, tornando-se símbolo de cupidez, insensibilidade e desprezo pelos restantes mortais. "Vi os seus pensamentos mais nobres desvanecerem-se um a um, até a paixão dominante, a paixão do lucro, o ter absorvido", diz-lhe Belle, a antiga noiva com quem nunca chegou a casar, na mágica digressão ao passado guiada pelo primeiro dos três espíritos.

A Christmas Carol foi um êxito imediato de público, reforçado com o aplauso da crítica. A tal ponto que contribuiu para recuperar as celebrações natalícias, que estavam em desuso no Reino Unido, e popularizou a expressão "Merry Christmas", que desde então já deu incontáveis voltas ao mundo em cada Natal que passa. As reuniões familiares em fartas mesas com bebida e comida, os cânticos e até o peru da consoada anglo-saxónica são tradições que se devem igualmente à extrema popularidade deste conto, confirmando como a vida pode tantas vezes imitar a melhor ficção.

Dickens foi escrevendo outras histórias natalícias, até 1865. Reunidas em volume, nunca deixaram de ser reeditadas nos mais diversos idiomas. A fama de Scrooge -- e outras personagens deste conto, como o sobrinho Fred, o amanuense Bob Cratchit, o sócio Jacob Marley e o pequenito deficiente, Tiny Tim -- consolidou-se com inúmeras adaptações para teatro, cinema, televisão, ópera, bailado e até um musical da Broadway. Despertando, no tempo e no espaço, esta convicção que nos anima em cada noite de Natal: é sempre possível darmos um novo rumo à vida. Regressamos afinal à mensagem de Jesus, relatada de forma admirável no texto eterno de São Marcos: de que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se acabar por perder a alma?

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12 comentários

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De Teresa Ribeiro a 24.12.2011 às 22:30

Este é "o " conto de Natal, sem dúvida. Eterno, marcante, comovente. Gostei de o rever através de ti. Como tantas vezes acontece quando te leio passaste-me muita informação que não sabia. Ignorava, por exemplo, a influência que esta pequena obra-prima de Dickens teve na recuperação das comemorações do Natal no Reino Unido.
Beijo, Bom Natal.
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 01:45

Tens razão, Teresa: este é "o" conto de Natal.
Desejo-te um Natal muito feliz.
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De zedeportugal a 25.12.2011 às 01:00

"Pois," como escreve Mateus (6,21) "onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração."

E, o nosso "tesouro" somos nós que escolhemos.

Um texto belíssimo o seu, Pedro.

Merry Christmas. ;)
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 01:44

De facto, a opção é nossa.
Merry Christmas, meu caro amigo.
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De Ana Vidal a 25.12.2011 às 01:16

Mestre Dickens no seu melhor, sem dúvida. É um conto impressionante e eternamente actual.
Bom Natal, Pedro.
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 01:44

Regresso a este conto sempre com o mesmo estado de encantamento que tinha em menino, quando o li pela primeira vez.
Desejo-te um doce Natal, Ana.
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De AEfetivamente a 25.12.2011 às 10:57

Belíssimo texto. A ilustração tb é fabulosa, transmitindo de forma ímpar o espírito de Natal que a obra perpassa. Dickens acreditava, pois, na natureza humana - isso é mais do que fundamental para construir, no natal ou fora dele. Era aquariano - que bem o percebo:::))) (perdoe-me a graça)
Feliz dia da natal, Pedro, mais uma vez.
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 22:11

É verdade, AE. Dickens era um ilustre aquariano. Estamos quase a celebrar o bicentenário do nascimento deste genial escritor. É já a 7 de Fevereiro.
Bom Natal também para si. E que o espírito do Natal perdure para além da quadra.
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De JFC a 25.12.2011 às 13:10

Nem mais, caro Pedro Correia. Óptimo texto e análise. Li este conto, pela primeira vez, já quando adulto e, mesmo assim, garanto-lhe, fiquei com a ideia de que o conto merece uma leitura atempada dos nossos três espíritos: a infância, a idade adulta e a velhice. E após a primeira leitura, todas as outras permitirão uma avaliação nossa enquanto homens do passado, presente e futuro. E nenhuma leitura, felizmente, será igual. É a benção da correcção.

Um bom dia de Natal para si e para todos os «delituosos».
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 22:14

Agradeço-lhe as suas palavras, meu caro. E a perspectiva deste conto que aqui nos deixa enquanto leitor atento. É, de facto, um texto com vários patamares de leitura - como aliás sucede em regra com as grandes obras literárias.
Espero que este Natal tenha sido do seu agrado e que os ecos da quadra perdurem na nossa vida particular e colectiva.
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De sammyopaquete a 25.12.2011 às 15:44

Todos nós guardamos um conto de Natal e, necessariamente, lido na infância.
O meu é "O Presente dos Reis Magos" de O. Henry que constava de uma colectânea de contos de Natal, publicada nos anos 50, penso que da Arcádia Editora.
O conto de O. Henry desenha o encanto e a ternura da impossibilidade, o sem sentido de alguns presentes de Natal. Della vendeu o lindo e comprido cabelo para comprar a Jim uma corrente para o relógio, de que ele tanto gostava. Ele vendera o relógio para lhe comprar as travessas para o cabelo, de que ela, também, tanto gostava,
“Dell – começou ele -, vamos pôr as nossas prendas de lado e guardá-las por uns tempos. São demasiado boas para serem utilizadas agora. Eu vendi p relógio para arranjar dinheiro e comprar as tuas travessas. E se pusesses agora as costeletas ao lume?”

Um abraço
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De Pedro Correia a 25.12.2011 às 22:20

Obrigado pela sugestão, meu caro. Se encontrar na minha desorganizadíssima biblioteca hoje espalhada por três casas esse volume do O. Henry a que faz referência, pode ser que 'O Presente dos Reis Magos' figure aqui no próximo Natal.
Cumprimento-o pelo pseudónimo. Faz-me sempre recordar 'O que faz correr Sammy?', um romance de Budd Schulberg de que gosto muito.
Grande abraço.

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