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Mitos urbanos

por Ana Vidal, em 06.12.11

       

 

É engraçado como nascem (ou se constroem?) os fenómenos mediáticos, que em pouco tempo se tornam virais. Pelo que tenho visto nos programas "No reservations", só posso classificar Anthony Bourdain - em termos gastronómicos, pelo menos - como um perfeito alarve. Onde está a sensibilidade, o requinte ou a expertise que fazem um bom gourmet, em alguém que literalmente se entope de gorduras e cervejas até ao limite, como se isso fosse saber apreciar comida? E no entanto o homem virou inexplicavelmente um guru, uma figura que todos querem conhecer por onde passa. Poucos são os que se atrevem a contradizê-lo, o mundo presta-lhe vassalagem. Bem sei, há os livros, que têm piada. Mas isso não é o mesmo que saber comer, nem chega para fazer do autor uma autoridade em gastronomia. Mais: é um insulto aos que o são, de pleno direito.


Com a delicadeza do costume, posou para a Playboy e disse isto na entrevista: “Learn how to cook a fucking omelet. I mean, what nicer thing can you do for somebody than make them breakfast? You look good doing it, and it’s a nice thing to do for somebody you just had sex with.”

 

Nota: Sobre o objectivo do programa que veio gravar a Portugal, esclareceu: "O que me interessa é saber onde é que vocês vão às duas da manhã quando estão bêbados." Não vale a pena embandeirarmos em arco com a sorte de termos despertado a atenção de Bourdain: temo o pior quanto à imagem que vai passar ao mundo sobre nós e a nossa gastronomia...

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53 comentários

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De Bartolomeu a 06.12.2011 às 17:34

Aquele osso... a que parte do animal pertence?
Não tou mêmaver...
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 17:44

É fácil, Bartolomeu: pertence ao cérebro do animal.
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De Laura Ramos a 06.12.2011 às 17:51

Completamente! Se bem que teve um momento atípico: «what nicer thing can you do for somebody than make them breakfast?»
Well, not the nicest one... but one of many nice things :)
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 17:53

Mine too. Mas nem isso o safa, aos meus olhos.
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De Bartolomeu a 06.12.2011 às 20:39

Ah prontechchch... sendassim já tou sessegado.
Pelos vistos, o homem possui um crâneo de Tyranossauro... REX!
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De João Campos a 06.12.2011 às 18:13

Não sei fazer uma omelete. Go figure...

Quanto ao senhor, não conhecia até há dias, mas já o tenho alto na minha consideração, e exactamente por os motivos que enumeras no teu post. Para mim, merece toda a minha admiração um chef/gourmet/gastrónomo/apreciador de boa comida (riscar o que não interessa) que, sendo estrangeiro, aterra em Lisboa e prefere ir para uma tasca provar bifanas a ir para um restaurante da moda, "chic a valer", (daqueles que aparece em todos os guias de todas as revistas lidas por malta que jamais terá dinheiro para lá ir fora da Restaurant Week). Ele que me ligue da próxima vez que por cá passar, que eu convido-o para uma matança de porco.
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 18:30

Não te iludas, João. Dou-te razão no que dizes - conhecer uma cidade é também conhecer as tascas e os locais menos "de moda" - mas não é isso que está em causa, mas sim a escolha que ele faz das comidas e a forma como come. Quanto à matança de porco no Alentejo, isso sim, seria conhecer uma tradição gastronómica portuguesa importante. Mas há muita sabedoria e muita técnica nesse ritual, não basta alarvar em gordura, tripas e sangue, como ele costuma fazer.
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De João Campos a 06.12.2011 às 23:04

Não estou iludido, estou apenas a ser do contra :) Apesar de não resistir a uns piques de toucinho frito com sopas de batata, e a um pão com "manteiga de carne" (leia-se banha).

No entanto, o homem, pelo pouco que sei, foi chef uma carrada de anos. Que seja alarve agora - também sabem bem.
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 00:24

Também não resisto a nada disso, João. Quando vivi no Alentejo, a banha chamava-se "manteiga de porco". Uso-a muito na cozinha ainda. :-)
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De João Campos a 07.12.2011 às 01:11

Barrada no pão (alentejano) com bocadinhos de carne frita é manjar dos deuses. Uma colega de trabalho uma vez ia tendo um chilique quando me viu comer uma sandes daquilo :)
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De Ivone Mendes da Silva a 06.12.2011 às 18:13

Sim, Ana, "alarve" é o adjectivo mais apropriado. Nem um excepcional pequeno-almoço o salva ...
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 18:35

Ora bem. Por acaso o homem até é um pão, mas isso não o habilita a falar de cátedra sobre pão... :-)
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De Laura Ramos a 06.12.2011 às 18:44

Por falar nisso... para onde (lhe) vai a gordura, a cerveja, etc? Grande metabolismo...
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 02:07

Muito speed, Laura...
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De CR a 06.12.2011 às 19:30

Anita, não será esse o motivo do post sobre este "chef":
Ser ou não ser pão?!! ;)
Estive a ler uma entrevista na Playboy e o homem não me deixou nada impressionada. É fu.. práqui e f... prácolá. Na, na. Nã me conbence. De todo. Mas há gostos para tudo. (E essa fotografia acima é horripilenta).

http://www.playboy.com/magazine/anthony-bourdain-interview/2
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 23:43

Não é, não. Mas devo confessar uma coisa, CR: acabei de ler a entrevista da Playboy na íntegra e fiquei a simpatizar mais com o homem. He's a fucking genuine guy, or at least he seems to be one. :-)
Mas isto não significa que eu deixe de achá-lo um alarve a comer.
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De Cristina Torrão a 06.12.2011 às 18:48

É tudo fogo de vista, Ana! Eu não o conhecia, vi-o ontem no telejornal (pela RTPi) e pareceu-me logo um grandessíssimo vigarista.

Acreditas mesmo que o gajo seria assim elegante, se se entupisse diariamente de gorduras e cervejas? Cá para mim, ele, no dia-a-dia, farta-se de fazer dietas e desporto. Essas presumíveis escolhas gastronómicas servem apenas de marketing, constroem aquela imagem do tipo que se está a marimbar para a comida saudável e os restaurantes finos. É tudo para ganhar dinheiro, todo ele é um produto mediático, a fim de se tornar o tal guru. E as pessoas vão atrás dele, claro. Essa questão de ser um insulto às autoridades da gastronomia é o segredo do seu sucesso.

Não acredites numa palavra do que ele diz nem em nada do que ele faz! A fim de comer a bifana e emborcar as cervejolas, o tipo esteve dois meses a pão, água e ginásio. É o que te digo!
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De Ana Vidal a 06.12.2011 às 23:47

Talvez, Cristina. Mas, a ser verdade, isso ainda piora as coisas...
Mas a verdade é que ele teve (ou tem ainda) um problema sério de drogas, de que aliás fala abertamente. Essa pode muito bem ser a razão de tanta "elegância", não sei.
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De Cristina Torrão a 07.12.2011 às 12:24

Olha, essa eu não sabia. Como te disse, eu nunca tinha ouvido falar dele (nem estou interessada em "conhecê-lo").

Desculpa a linguagem do meu comentário anterior, mas a verdade é que não gostei nada dele, quando o vi na televisão. Não sei, há algo que me repugna. E, quando li o teu post e vi aquela foto, a "bílis" soltou-se-me ;)
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 12:55

Acho que ele gostaria de saber isso, Cristina... a tua bílis solta seria até uma espécie de homenagem. :-)
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De Cristina Torrão a 07.12.2011 às 18:04

É verdade. O homem não me deixou indiferente. Será esse o seu primeiro objectivo.
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De Ega a 06.12.2011 às 20:02

É precisamente por reacções como esta da Ana Vidal que, com o devido respeito, gosto tanto do homem.

Ele é tudo o que um vulgar chef de programas de gastronomia não é: politicamente incorrecto, desbocado, culto (além da culinária, percebe bastante de literatura [principalmente os clássicos], cinema, música, BD, etc.), é possuidor de um excelente sentido de humor (por vezes bastante cáustico, não se coibindo de gozar consigo mesmo). Acima de tudo, o homem é autêntico, sem merdas, e procura o autêntico, de forma descontraída e sem artifícios (ou pelo menos só com os mínimos, afinal trata-se de televisão).

Por tudo isso, e ao contrário do que diz, Bourdain sempre foi detestado pelas pessoas do meio (e pelos a que chama "bons gourmets"). É, aliás, persona non grata para muita gente (muito por causa do que já escreveu).
Mas por outro lado, convive amiúde com grandes escritores, cineastas, artistas e gente da cultura nos seus programas, sempre com boa disposição e respeito mútuo.

A Ana Vidal pode até não gostar e abnegar o português autêntico, mas quer queria quer não, um português autêntico é feliz com umas boas bifanas e umas imperiais servidas num tasco. Não é fino? Não. Não é gourmet? Não. Mas sabe bem que nem imagina.

E na verdade, Bourdain, sempre que pode, participa em matanças do Porco (pelo menos fe-lo na Rep. Checa e parece que também em Portugal, aquando da visita em A Cook's tour, ao Porto aí há uns 10 anos) e em festas similares, onde o que ressalta, no fim, é o grande respeito que ele tem por estas tradições gastronómicas e pelas pessoas que, durante séculos, as cultivaram e ainda cultivam (ainda que a contragosto de muita boa gente das direcções de saúde, de veterinária, ASAE's e mais o raio).

Não há nos programas dele um segundo sequer daquele artificialismo e vazio deprimentes que existem normalmente nos programas de televisão de culinária e de viagens (então dos portugueses nem digo nada), e que nos aborrecem de morte.

E além de chef, Bourdain também é escritor. Faz um uso abundante de alegorias, metáforas e mais os quejandos no seu discurso. Assim, há que ir para além do sentido literal das palavras que o homem utiliza.
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 00:09

A ver se nos entendemos, caro Ega: eu não tenho nada contra o homem nem disse que ele era inculto. Sei que ele é escritor e não foi nessa vertente que o critiquei, certo? Embora ele se gabe - com bastante arrogância, por sinal - que hoje em dia lhe basta estalar os dedos para estar com quem quer e admira no mundo inteiro, escritores incluídos, está no seu direito e também só lá vai quem quer.
O que eu critico nele é a alarvice com que trata de um assunto que me é caro e que respeito muito: a cozinha. O que para ele é uma orgia, para mim é um encontro amoroso. Só isso. É claro que não posso estar de acordo consigo quando diz que os programas dele não têm nada de deprimente. Eu acho que têm, embora até possam ser divertidos. Mas chocar sempre foi um bom truque para atrair audiências e ele sabe disso muito bem. Está rico à conta disso e reconhece-o.

E não pense que sou uma fanática da nouvelle cuisine (pelo menos quando ela se traduz naqueles ridículos pratos lindos, caríssimos e quase vazios), pelo contrário: gosto muito de boa cozinha tradicional e até sou fã (pasme!) de tripas à moda do porto, língua de vaca ou rins salteados, para citar só algumas iguarias que aprecio. Quem me conhece sabe bem que prefiro uma boa tasca a um restaurante de moda que é mais decoração do que cozinha.
É a atitude, entende? A coberto de uma aparente vontade de preservar as tradições, o homem acaba por dignificá-las muito pouco.
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De IsabelPS a 06.12.2011 às 22:33

Nem de proposito, a unica coisa que eu li dele foi um excerpto (ja estou a ficar baralhada com estes acordos ortograficos, para nao falar dos acentos exclusivamente franceses deste desmiolado Asus) do primeiro capitulo do primeiro livro dele sobre uma matança, nao no Alentejo mas no norte (Tras os Montes?). Muito interessante, alias, especialmente este bocado:

"Understand this about me -- and about most chefs, I'm guessing: For my entire professional career, I've been like Michael Corleone in The Godfather, Part II, ordering up death over the phone, or with a nod or a glance. When I want meat, I make a call, or I give my sous-chef, my butcher, or my charcutier a look and they make the call. On the other end of the line, my version of Rocco, Al Neary, or Lucca Brazzi either does the job himself or calls somebody else who gets the thing done. Sooner or later, somewhere -- whether in the Midwest, or upstate New York, or on a farm in rural Pennsylvania, or as far away as Scotland -- something dies. Every time I have picked up the phone or ticked off an item on my order sheet, I have basically caused a living thing to die. What arrives in my kitchen, however, is not the bleeding, still-warm body of my victim, eyes open, giving me an accusatory look that says, 'Why me, Tony? Why me?' I don't have to see that part. The only evidence of my crimes is the relatively antiseptic boxed or plastic-wrapped appearance of what is inarguably meat. I had never, until I arrived on a farm in northern Portugal, had to look my victim in the face -- much less watched at close range -- as he was slaughtered, disemboweled, and broken down into constituent parts. It was only fair, I figured, that I should have to watch as the blade went in. I'd been vocal, to say the least, in my advocacy of meat, animal fat, and offal. I'd said some very unkind things about vegetarians. Let me find out what we're all talking about, I thought. I would learn -- really learn -- where food actually comes from."

O resto merecia ser citado, mas é muito compridp. Voilà:

http://www.readinggroupguides.com/guides3/cooks_tour3.asp
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 02:10

Obrigada pelo link, Isabel.
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De lucklucky a 06.12.2011 às 22:36

Como sempre obcecados com as opiniões dos outros sobre nós...
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De IsabelPS a 06.12.2011 às 22:50

Ou, como uma imagem vale mais que mil palavras (sobretudo com a banda sonora dos guinchos do porco censurada):

http://www.youtube.com/watch?v=4ryAL3VxftM
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De Patrícia Reis a 06.12.2011 às 23:08

Irra! Ana, ainda bem que eu seria incapaz de comer pequenos-almoços assim. beijos
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 00:35

LOL. Sim, pequeno-almoço substancial tem limites...
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De Leonor Barros a 06.12.2011 às 23:48

O problema não é ele, é o endeusamento mediático.
Não me parece que ele se encaixe no perfil que descreves, Ana. De todo. Ele não é gourmet e acho que não alimenta isso. Acho-lhe uma certa piada, mesmo que me irrite o ar blasé. Como sou bruta, prefiro o Gordon Ramsay.
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De Ana Vidal a 07.12.2011 às 00:42

Mas é isso mesmo que eu digo, Leonor: o que me irrita é a saloice desse endeusamento. E eu também lhe acho uma certa piada, sobretudo ao ar blasé (ao contrário de ti). Só acho que escusava de falar de cozinha... :-)

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