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Impressões da China (II)

por José Maria Gui Pimentel, em 18.11.11

Seguem-se, com algum atraso, mais impressões deste país em rápida – talvez demasiado rápida – evolução.

 

É muito interessante observar o efeito do rápido desenvolvimento da última década sobre a disparidade de rendimentos, com a frota automóvel maioritariamente nova por oposição às sempre presentes ebikes, substancialmente mais acessíveis, porém, na sua maioria, aparentando levar já largos anos de labuta. Muitas vezes, ademais, carregando mais passageiros do que o permitido e nas posições mais estrambólicas, como ilustram as imagens abaixo e o post recente do João Carvalho.

 

 

Mais do que novos, os carros são muitas vezes espampanantes, com um claro objectivo exibicionista, sendo porventura o expoente máximo da procura crescente de bens de marca como sinal exterior de riqueza e, por conseguinte, evidência de estatuto. Observe-se, a esse propósito, a fotografia abaixo. Se o leitor tivesse um orçamento ilimitado para comprar o carro mais espampanante do mercado, em que modelo e cor recairia a sua opção? Um Lamborghini verde-alface, pois claro. E se, com esse mesmo objectivo em mente, o leitor tivesse de entrar num hotel, onde deixaria o bólide? À frente do dito, claro está, para toda a gente reparar.

 

 

Esta ostentação estende-se à roupa, óculos (mesmo sem lentes!), relógios etc. No fundo, todo o tipo de acessórios visíveis, capazes de evidenciar uma posição social real ou desejada. Isso explica que muitos desses bens – particularmente a roupa – sejam mais caros do que nos países ocidentais. A electrónica, de boa ou má qualidade, é um omnipresente, com qualquer estudante a almejar a aquisição de um iPhone. Os asiáticos parecem, definitivamente, ter um fraco por tecnologia.

 

Outro exemplo da exibição do luxo observa-se no sector imobiliário, onde os receios da formação de uma bolha especulativa já duram há cerca de 2 anos. Depois de anos confinado ao campo ou, em alternativa, a apartamentos de dimensões reduzidas, o chinês subitamente endinheirado quer, o que é em certa medida compreensível, alcançar o paradigma americano ao jeito da MTV ou do E!.   

 

O mais recente boom no mercado chinês diz respeito à procura por um bem, aliás, serviço, aparentemente efémero, mas com um efeito no status social muito persistente: o casamento, claro está. As lojas de organização deste tipo de eventos brotam de todos os cantos, sendo invariavelmente as mais bem apresentadas das redondezas. Nestas, mais do que o serviço, vende-se o Sonho: desde a marcha nupcial à entrada dos noivos, ao bolo enorme, não descurando, evidentemente, exuberantes vestimentas, o fato para o noivo e o vestido para a noiva. Muitas vezes, segundo consta, a noiva usa vários vestidos ao longo da cerimónia, qual apresentadora dos Oscars.

 

 

Por contraste, a alimentação, acaso por ser menos visível do que acessórios e carros – continua aser bastante acessível, mesmo nos restaurantes melhores. Isto embora o conceito chinês de restaurante ainda divirja, na minha opinião, bastante do nosso, não deixando nunca (a não ser, imagino, nos espaços topo de gama) de ter um certo ambiente de cantina. Por outras palavras, continua a não existir, quanto a mim, o conceito de jantar como mais do que uma simples refeição. O conceito de entrada, por exemplo, foi claramente introduzido à força nas ementas, pois não existe na cultura local. A existir estou convicto que representa a ideia oposta, isto porque muitas vezes as entradas aparecem no fim da lista, por um lado, e, por outro, são invariavelmente o último prato a chegar à mesa (o que é particularmente arreliante). Um pormenor interessante é o facto de cadeias como o McDonalds, ou o KFC (este, aparentemente, com mais sucesso do que aquele) serem aqui consideradas de média gama (com refeições por cerca de 2€, por oposição a 1€ nos locais mais baratos), com a Pizza Hut a praticar preços idênticos aos dos restaurantes de gama média-alta.

 

Toda a ostentação relatada acima contrasta, ainda, com aspectos menos agradáveis. Ao pôr o pé numa movimentada rua de uma cidade chinesa, os nossos sentidos podem passar por maus momentos. O nosso nariz sofrerá inevitavelmente o impacto da forte poluição. Ao afastarmo-nos do trânsito, teremos uma forte probabilidade de encontrar uma das omnipresentes tendas de comida, e uma real possibilidade de receber o choque do indescritível cheiro a tofu cru. Os nossos ouvidos, por seu lado, entrarão, numa primeira fase, em contacto com o coro das buzinas dos veículos, correndo posteriormente o grande risco de detectar o inconfundível som do escarro de um (ou de uma!) qualquer transeunte. Isso mesmo, um escarro, por vezes na pessoa mais insuspeita, e de uma profusão que chega a ser intrigante. Além do mais, parece existir na China uma ideia lógica apenas na aparência, que pode ser resumida na seguinte máxima: o que é para ser sujo não tem por que parecer limpo. É por isso que os caixotes do lixo (não me refiro apenas aos contentores de rua, mas também aos cestos dos restaurantes ou lojas) são muitas vezes tão sujos por fora como por dentro. É também por isso que é preciso ir a um restaurante de gama média alta para se encontrar uma casa de banho com mínimas condições. Aliás, e para terminar este tema pouco agradável, a China deve ser o único país do mundo onde as casas de banho das mulheres cheiram pior do que as dos homens, uma vez as senhoras têm apenas direito a uma espécie de buraco no chão, que (acabo de descobrir pela Wikipedia) dá pelo nome de retrete turca.

 

Ao fim de algum tempo de frequência de lojas ou restaurantes na China há dois aspectos que se vão progressivamente tornando evidentes, um positivo outro negativo. O primeiro é a abundância de trabalhadores. Dificilmente se vive num supermercado chinês aquela sensação irritante de ter o tempo contado e não se ver um único funcionário no horizonte. Esta realidade tenderá, naturalmente, a inverter-se assim que os custos do trabalho aumentem. O aspecto negativo prende-se com a falta de cuidado com os pormenores. Mesmo nos espaços supostamente mais cuidados, como restaurantes, casas de chá ou lojas de casamentos (à falta de melhor expressão), a mesa mais composta tem a poucos metros uma parede semi rebocada ou um cesto do lixo com mau aspecto.

Co-autoria: Diana Gui

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15 comentários

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De João Severino a 18.11.2011 às 19:58

O José Maria está a escrever sobre um país que é tudo e não é nada. Encerra vários "países" no seu imenso território. A sua imensidão assusta. De tal forma, que já existem centenas de milhões de desempregados. Já se registaram e foram "abafadas" centenas de revoltas populares. A corrupção é tão gigantesca que é impossível exterminá-la. A China ainda existe como nação unitária e congregadora de povos estrutural e culturalmente diferentes porque ainda "reina" o Partido Comunista. Na China o respeitinho pela "pirâmide" é muito bonito...
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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 12:03

É verdade o que diz (e refiro-o no primeiro post). Mas note também que a China, para a sua dimensão, até é um país com uma cultura relativamente unitária, se excluirmos as províncias ocidentais e do norte. Pelo menos em comparação com a incrível fragmentação cultural da Europa.
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De João Severino a 19.11.2011 às 12:36

Caro José Maria
Acredite que a tal cultura unitária se deve apenas ao Partido Comunista. Se um dia a "pirâmide cultural" se desfizer assistiremos à maior tragédia social do planeta. E eu não sou maoista, sou apenas um ex-residente de 20 anos na China [Macau e arredores (Cantão, Changsha, Pequim, Wuhan, Nanjing, Fuzhou, Kashi, Xangai, Tianjin, Lanzhou, Yumen, Xian, Urumqi, Lhasa, etc.)].
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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 17:54

Com 20 anos de experiência aqui, acredito que saiba mais do que eu. Vai ser sem dúvida um dos acontecimentos do sec XXI a evolução da China.
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De lucklucky a 18.11.2011 às 21:32

Interessante.

Aqui está um artigo recente sobre os estereótipos automóveis na China, talvez possa confirmar ou desmentir:
http://www.nytimes.com/2011/11/15/business/global/in-china-car-brands-evoke-an-unexpected-set-of-stereotypes.html?pagewanted=1&_r=2


Com alguns números interessantes: Buick vende 3x mais carros na China que nos EUA e a Audi 2x mais.

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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 12:01

Muito interessante esse artigo, obrigado. E de facto complementa a minha análise "de olho". Uma coisa posso confirmar, sempre que "cheira" a oficial há Audis por perto.

P.S. A propósito do seu comentário no meu post sobre o livro, não tinha percebido a ideia do seu primeiro comentário. Em todo o caso note que eu refiro a supremacia da cultura chinesa até aos descobrimentos, ou, na melhor das hipóteses, até à revolução industrial.
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De lucklucky a 19.11.2011 às 15:21

Julgo que as civilizações são coisas frágeis e não tão estruturadas como os historiadores querem fazer querer.
As circunstâncias e modas podem mais do que a estrutura civilizacional.
A evolução tecnológica potencia essas circunstâncias.
Frases feitas habitualmente aplicadas à China como "civilização milenar" como se tal fosse atestado de sabedoria quando a China depois de 3000 anos de civilização adoptou o Comunismo matando milhões no processo...Onde estava sabedoria milenar que supostamente evitaria tal ?
A Europa com 2000 anos de Civilização provocou duas guerras mundiais e construiu o Nazismo e o Comunismo no ultimo século.
Criados e apoiados por pessoas educadas e cultas.
As circunstâncias podem ser mais fortes que a civilização.



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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 17:57

Os historiadores não querem fazer crer que são estruturadas, tentam tirar alguma lógica da irremediável falta de estrutura da História. :)

A China sofreu um enorme choque com a entrada da cultura ocidental moderna. Um choque que nunca tinha sofrido antes e de que ainda está longe de recuperar...
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De Rómulo da Silva a 18.11.2011 às 22:59

Esta triste mentalidade descrita no post é própia da natureza humana. O comunismo do século XX não alterou esta mentalidade (não fez o homem novo) apenas a reprimiu.
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De lucklucky a 19.11.2011 às 11:13

Reprimiu?!
Incentivou até à matança.
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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 12:08

A mentalidade é própria de um país que evoluiu muito rápido...
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De Teresa Ribeiro a 18.11.2011 às 23:27

Estou a gostar muito desta série, José Maria.
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De AEfetivamente a 19.11.2011 às 12:14

Muito interessante. Não apreciando propriamente a ostentação, alegra-me que possam sair de condições duras e que rumem ao desenvolvimento (com todas as implicações, positivas e negativas). Mas há, naturalmente, ainda um longo caminho a percorrer em várias áreas... como em mts partes do mundo. Todos os povos se vão refinando com o tempo e com as melhorias na economia...
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De José Maria Gui Pimentel a 19.11.2011 às 17:57

Claro. E isso é que é interessante observar!

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