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O empobrecimento colectivo português é inevitável. É-o, de resto, há muitos anos. O empobrecimento das pessoas que trabalham no sector público e das que trabalham no sector privado. Não é preciso a troika dizê-lo nem é preciso que o governo proceda a cortes «idênticos» em ambos os sectores para que tal se verifique. Tem de o fazer no público porque não há outra forma. É ele o patrão. No privado, os métodos são inúmeros e começaram a ser usados há muito. Vão agravar-se, claro. Desde logo, no comércio vão agravar-se tanto que muita gente vai ser despedida. Na indústria, dependerá das áreas de actividade e da capacidade exportadora. Mesmo em sectores como a banca e os seguros estão em marcha tentativas para acabar com complementos de ordenado que, sendo frequentemente ilógicos (prémios de antiguidade, por exemplo), representam muito dinheiro para muita gente. Fazer cortes «idênticos» aos do sector público em cima disto seria penalizar duplamente muitos trabalhadores do sector privado que, de resto, já tiveram aumentos salariais médios inferiores aos do sector público na últimas décadas (ver aqui, nas páginas 9 a 15). Mas a ilusão de justiça talvez o obrigue, até porque estamos habituados a viver em função de interesses de curto prazo do Estado – dos interesses dos políticos que o lideram, dos gestores públicos que o usam como salvaguarda da sua incompetência, dos funcionários que o vêem como garantia de direitos adquiridos e a adquirir – ou de pessoas que, não estando ligadas a ele, se servem dele (os empresários do regime) ou foram habituadas a pensar que a miríade de processos e serviços que ele exige e fornece, respectivamente, são fundamentais para o bem comum (alguns são, outros muito pelo contrário, em especial considerando o preço que acaba por se pagar). Já sei que não vale a pena atribuir culpas. Mas esta questãozita, que imensa gente continua a evitar, é fundamental para o futuro: por péssima que a iniciativa privada seja (e, em muitos casos, é mesmo muito péssima), foi o Estado que nos trouxe à actual situação. Nada resultará enquanto o Estado não emagrecer, não parar de sobrecarregar empresas e particulares com impostos e outros custos absurdos (a troika tem toda a razão sobre o nó górdio da energia), não reformar a Justiça, não sair do caminho. A diminuição dos salários no sector público é indispensável (a menos que se opte por despedir), a diminuição no sector privado é inevitável (ou haverá ainda mais despedimentos). Com ou sem troika, com ou sem cortes «iguais» em ambos os sectores, com ou sem euro, vamos empobrecer em conjunto. E depois, quando conseguirmos começar a crescer, seria bom que nos lembrássemos de que o Estado só pode aumentar a fatia que retira da economia depois de esta ter gerado uma fatia maior. Ou, pela enésima vez, faremos tudo ao contrário e não tardaremos a necessitar de empobrecer novamente.

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14 comentários

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De Anónimo a 18.11.2011 às 15:34

vai dar banho ao cao
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De José António Abreu a 18.11.2011 às 15:45

Não é preciso. Está a chover.
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De Luís Reis Figueira a 18.11.2011 às 15:40

De um modo geral, sou tentado a concordar com a análise que aqui faz à situação actual. Ela reflecte num ponto muito importante que já por diversas vezes por aqui (DO) tenho defendido que é o perceber-se que a sociedade é um todo e que o empobrecimento de uma sua larguíssima faixa como é o do sector público e o dos reformados, vai arrastar consigo, inevitavelmente, também o sector privado. Porém, verifica-se que muita gente ainda não percebeu isto e, de ambos os lados da barricada, continuam a ser destilados ódios e cultivadas invejas prontas para serem arremessadas ao 'inimigo' na primeira oportunidade. Acabemos pois, de uma vez por todas, com estas 'guerras do alecrim e manjerona', entre bons e maus, entre públicos e privados, que em nada nos vão favorecer para encararmos com a coragem e determinação necessários os tempos difíceis que se aproximam.
Quanto aos dados estatísticos que aqui nos traz, poderia apresentar outros de sentido contrário, tão válidos e credíveis quanto estes.
«Nada resultará enquanto o Estado não emagrecer...». Certíssimo, concordo plenamente consigo. Porém, tenhamos atenção que, como em tudo, há várias formas de se alcançar um mesmo objectivo. A este propósito, deixo-lhe aqui um excerto de um excelente texto que li há poucos dias:
...«Quando se fala de gorduras, permitam-me um pouco mais de senso-comum, há duas técnicas na ciência do emagrecimento. Uma exige que se transpire muito, esforço de ginásticas matinais ou de finais de dia, mas que resulta em corpos magros e saudáveis. A outra, todos conhecemos de fama… É fácil e eficaz: emagrece os corpos como nada, limpa gorduras até ao músculo e mais além. Chama-se fome. Por aqui, é seguro não sobrarão gorduras ao Estado, mas também nenhuma saúde.
Qual destes Estados quer o governo da nação?»
André Barata in http://www.sedes.pt/blog/?p=3979Out
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De José António Abreu a 18.11.2011 às 15:55

Tirando a questão dos dados estarem ou não certos (não fui eu que os elaborei - mas é inegável que, quaisquer que tenham sido as rubricas responsáveis pelo facto, o peso do Estado aumentou enormemente nos últimos anos), só tenho uma ligeira discordância, Luís: o empobrecimento no sector privado não vai apenas seguir-se; em muitos casos, começou há anos - através do desemprego, do recurso aos recibos verdes em vez da contratação sem termo definido, do corte de complementos salariais, etc. Mas - escrevi-o no post - concordo que ainda vai agravar-se.
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De lucklucky a 18.11.2011 às 16:15

O empobrecimento Português ainda não começou.
Porque parte do que o Estado gasta hoje é dinheiro que não é nosso.
O empobrecimento Português começará quando se começar a reduzir a Dívida.
Neste momento ainda estamos na fase em que se pede emprestado mas menos. Ou seja continua-se a aumentar a Dívida. Mas menos.
.
O que os portugueses precisam de enfrentar é a sua fraca produção de riqueza para o tipo de vida, direitos, chamem-lhe o que quiser, que ambicionam levar.
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De Rui Rocha a 18.11.2011 às 18:02

Admiro a tua persistência.
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De José António Abreu a 18.11.2011 às 18:31

Ora, já não falava do assunto há uma semana. E o Luís não ficaria triste se os tipos que "exultaram" com as vicissitudes dos funcionários públicos não escrevessem qualquer coisa, agora que parecem correr o risco de também acabarem devorados pelo crocodilo?

Já agora, faz-me o favor de aprovar os comentários que cheguem durante o fim-de-semana, que eu não estou certo de o poder fazer. Mesmo que recomendem que eu vá dar banho ao cão - para pior.
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De Rómulo da Silva a 18.11.2011 às 23:08

Paulo Portas dixit
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De José António Abreu a 20.11.2011 às 20:36

Nah, pense-o ou não, ele não pode dizê-lo abertamente. É político e as pessoas não gostam de franqueza.
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De Tamborim Zim a 19.11.2011 às 18:12

Probleminha dialéctico: n sei bem como viverão os trabalhadores em funções públicos com mais cortes no ordenado. Sinceramente, I rest my case.
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De José António Abreu a 20.11.2011 às 20:38

Da mesma forma (ou, ainda assim, um pouco melhor) que os do sector privado cujas empresas deixam de lhes pagar os salários ou vão à falência: mal, muito mal. A realidade pode ser lixada quando andámos muito tempo a ignorá-la.
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De Tamborim Zim a 20.11.2011 às 23:03

Os trabalhadores em funções públicas estão a ser expoliados há muito. É o PEC 1, é o PEC800, é o PEC 7890...É o IRS, são os cortes, os subsídios. Pensarão as pessoas que ganhamos como milionários? Talvez cortar também os subsídios aos privados a partir de determinada remuneração (ex., 1000 euros), como imposto especial ou algo assim?
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De José António Abreu a 21.11.2011 às 08:32

É curioso que nunca ouvi defender o contrário: cortar salários ou inventar um imposto especial recaindo sobre os trabalhadores do sector público para ajudar trabalhadores de empresas privadas em dificuldades. Tamborim: o sector público já retira demasiado da economia. Em grande medida, é por isso que ela definha. Não é, obviamente, uma questão apenas de salários mas a verdade é que, chegados ao ponto a que chegámos e tendo os salários e as pensões o peso que têm no orçamento, os cortes são inevitáveis.
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De Tamborim Zim a 21.11.2011 às 23:41

A questão n é pesar no privado p "ajudar", é dividir os sacrifícios por todos. N é correcto q gente qualificada, experiente, competente e c um percurso demonstrado ganhe o mesmo, ou abaixo, de uma empregada de limpeza (sem despretígio mas sem hipocrisia), e q ainda por cima ganhe cada vez menos. Qeer novo corte nos salários da função pública receberá a minha ira fumegante em retorno. E gente do privado q ganhe 1000, 1000 e poucos euros tb n pode ter cortes. Ou então é ir tudo p a rua em protesto por tempo indeterminado. N é a atirar um povo p a indigência de roupa engomada q se salva a Naçãozinha.

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