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Estou a ler... alcoviteirices (5)

por João Carvalho, em 18.11.11

 

Se fosse há ainda não muito tempo, teria de dizer-vos que estava a ler o "Manual de Acolhimento do Centro Hospitalar de Gaia", vejam só. Afastada esta que mais parece uma nota de humor negro, tenho de confessar que estou a ler (imaginem) Amantes dos Reis de Portugal, um livro de segredinhos e mexericos históricos de alcova que tive de interromper há já vários meses e em que repeguei agora.

Não, não posso cair na tentação alcoviteira de agitar camas e reposteiros, sedas e damascos, linhos e estopas; tão-pouco devo deixar que se escapem alfazemas e suores ou outros aromas e odores. Não posso, porque seria injusto. O trabalho de quase 400 páginas é sério na pesquisa profunda e no modo fundamentado como expõe as histórias da História que são propostas: «o "estatuto" das amantes dos Reis de Portugal», entre «o proibido e o legitimado».

 

Dir-se-ia que um tema destes só poderia ser escrito por mulheres, certo? Deixo isso aqui à vossa consideração. Ora vejam só: uma Professora Auxiliar do Departamento de História, uma licenciada em História e Mestre em História Moderna e uma doutorada, as três da (ou pela) Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, co-autoras deste livro.

Com elas, percorremos a Dinastia Afonsina, recuada ao nascimento do Reino e à relação de D. Henrique e D. Teresa, a Dinastia de Avis, que arranca com um bastardo feito rei, a Dinastia Filipina, em que só o do meio é fiel à sua rainha, e a Dinastia de Bragança, o longo período de um regime que caminha para uma agonia cheia de pecados que ainda hoje desafiam os nossos sentidos.

 

Narrativas que devassam a vida na Corte em séculos de Monarquia, através de passos disfarçados e de olhares fugidios, carregados de culpa? Intromissão concupiscente e lânguida em camarins e docéis, antecâmaras e quartos, corredores escuros e lugares esconsos da Casa Real? Nada disso: «este não é um livro de história frívola, anedótica e muito menos voluptuosa que pretenda estudar um tema tão apelativo, mas nem por isso menos complexo», conforme garantem as autoras.

Nos matrimónios de Estado e na sucessão dinástica, não raro «os afectos secundarizavam-se face às estratégias políticas régias». Procriar, assegurar o nascimento de um varão e ultrapassar as eventuais frustrações dos soberanos (das rainhas, em especial) nesse capítulo essencial justificavam um padrão comportamental que colocava a política em primeiro lugar (ou nela se escudava para cobrir ilicitudes), em amplos períodos da História de antanho. Já noutros períodos mais chegados, com princípios morais menos elásticos e políticas mais adaptadas à realidade para que a continuidade da nação não fosse posta em perigo, passaram a considerar-se bem menos recomendáveis os devaneios incontidos do poder.

 

«Por detrás da história oficial dos reis portugueses e dos seus casamentos de Estado com princesas de toda a Europa, esconde-se uma história de paixões arrebatadoras, filhos ilegítimos e amores ilícitos que nunca foi contada.

Damas da rainha, prostitutas, barregãs, negras, escravas, cantoras líricas, atrizes, mulheres do povo ou senhoras da alta burguesia, todas competiam pela atenção e pelos favores do rei.»

Escrito por historiadoras, tem o mérito de integrar a historiografia portuguesa sem discussões, numa abordagem inesperada e inédita. E nem sequer perde tempo a decidir se voluptuosidade se escreve com p ou sem p, ou se capela-mor é com hífen ou sem hífen, porque a escrita, essa, passa ao lado do "novo acordo ortográfico" sem pestanejar.

 

É a tua vez, Laura. Conta-nos lá o que andas a ler.

 

Amantes dos Reis de Portugal

Paula Lourenço (coord.), Ana Cristina Pereira e Joana Troni

Edição: A Esfera dos Livros

1.ª ed.: Novembro/2008

2.ª ed.: Dezembro/2008

3.ª ed.: Dezembro/2008

Imagem da capa: Geoffrey Clements – Corbis

ISBN 978-989-626-136-8

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29 comentários

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De Laura Ramos a 18.11.2011 às 13:45

Uma delícia a tua crónica, João. É difícil resistir à espreitadela pela fechadura sobre o quotidiano destes tempos quando é feita, assim, com seriedade. Também conheço o livro. O Miguel Sousa Tavares (com quem concordo sempre... quando não fala de política) dizia uma vez que o rumo tomado pela verdadeira História se fazia muito mais pelos enredos, relações e laços de casamentos e/ou alcovas, do que propriamente pelos actos de aparente peso institucional e decisório. Ou seja: a trama dos factos devia ser procurada nestas histórias de amores e confusões. Lembro-me muitas vezes disto e acho que ele estava cheio de razão. Por isso, este livro não é alcoviteirice: é História pura e dura :)
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De João Carvalho a 18.11.2011 às 15:13

Obrigado, Laura. Não há dúvida de que estamos ambos de acordo. E acho que o Miguel Sousa Tavares também concorda contigo e comigo!
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De teresinha a 19.11.2011 às 00:00

João,
Ler o manual do centro hospitalar não deve ser nada agradável, mesmo. No outro dia, a propósito da satisfação, brincava consigo. Desconhecia em absoluto o motivo da sua permanência no Porto. Desculpe a brincadeira.

Sobre o comentário em cima, "estamos ambos de acordo" é o mais correcto?
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De João Carvalho a 19.11.2011 às 05:12

Nada agradável, mas não tem do que se desculpar. Claro que não podia adivinhar.

"Estamos ambos de acordo" parece-me correcto. Havia três pessoas em causa (a Laura, o Miguel e eu) e eu pretendi salientar apenas duas (a Laura e eu) através da palavra "ambos" (para que não se entendesse que me referia aos três), para depois me referir ao Miguel separada e intencionalmente. Certo?

Bom fim-de-semana.
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De macarvalho a 20.11.2011 às 18:37

Laura, excelente este seu comentário, absolutamente real.
Em todos os sentidos
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De João Carvalho a 20.11.2011 às 19:44

Também achei.
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De Laura Ramos a 20.11.2011 às 19:59

Olá, bem aparecida seja! Obrigada. bj ;)
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De João Carvalho a 20.11.2011 às 20:05

Isso, trata-a bem, sim?...
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De Laura Ramos a 21.11.2011 às 00:23

Trato pois, esta leitora não precisa de tutela porque é um encanto, mas já sabia que, caso contrário, estaria frita contigo
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De macarvalho a 20.11.2011 às 20:51

Obrigada aos dois, sim? É sempre um prazer
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De Ivone Mendes da Silva a 18.11.2011 às 14:35

Ah, pois! De lençóis e outros linhos também se faz, e muito, a História.
Eu tinha passado ao lado deste livro, João, mas agora deixaste-me curiosa. Hei-de lê-lo brevemente, isto se a minha garganta não me obrigar a ler o manual de um centro hospitalar.
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De João Carvalho a 18.11.2011 às 15:20

De acordo. A História verdadeira faz-se muito (quase sobretudo) disto mesmo, para quem quiser entender a razão de muitos acontecimentos.

Vou permitir-me duas recomendaçõezitas: vai ao livro, porque cada rei é um capítulo e isso deixa-nos escolher os retalhos que mais nos interessarem; se precisares de ler um manual, começa por seleccionar o hospital certo, pelo que te recomendo (mas desejo vivamente que nunca precises) o de Gaia.
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De Laura Ramos a 19.11.2011 às 03:04

Mau, mau, mau! Apesar do falso engenheiro e das suas investidas criminosas no terrritório local - Freud explicaria isso, frustração & inferioridade -a saúde joga-se nos 'centrais'. E mai-nada! Que é lá isso?! ;)))
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De Luís Reis Figueira a 18.11.2011 às 16:34

«Amantes dos Reis de Portugal»,... só?
E então onde pára a «Amante do tenente francês»??...
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De João Carvalho a 18.11.2011 às 21:22

Foi p'ra Bruxelas.
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De Bic Laranja a 19.11.2011 às 09:55

Três impressões em 2008 e tão pressurosas do brasileiro. Passo.
Cumpts.
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De João Carvalho a 19.11.2011 às 12:33

Os reis mais abrasileirados foram o D. João VI e o D. Pedro IV.
Abraço.
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De Bic Laranja a 19.11.2011 às 19:00

Tem graça. Os seguintes deixaram-se disso por completo disso.
Cumpts.
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De João Carvalho a 19.11.2011 às 19:34

É que aqueles dois viveram tempo a mais em terras do Brasil. Em compensação, os republicanos tardios dedicaram-se a inventar um acordo brasileiro-brasileiro...
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De João Severino a 19.11.2011 às 18:33

O que mais surpreende no livro é tomarmos conhecimento que no tempo dos reis já existiam prostitutas... Trabalhavam à porta dos castelos?...
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De João Carvalho a 19.11.2011 às 19:03

Claro. Eram metidas em quartos esconsos através de portas disfarçadas que os senhores dos castelos mandavam abrir por trás das postas das casas-de-banho...
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De macarvalho a 20.11.2011 às 23:13

Entendido....
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De macarvalho a 20.11.2011 às 18:56

Li e reli com muito gosto este post.
Acho-o delicioso e fiquei com imensa vontade de ler a obra em causa.
Sendo séria, é também histórica e História é uma das coisas que faz parte dos meus prazeres de leitura.
Acabada de sair de uma biografia sobre a última Rainha de Portugal, aquela que sendo da casa de Orleães amou Portugal como poucas, foi um exemplo de carácter, de dignidade e de bondade, extremamente culta e dotada de um bom senso inquestionável, que infelizmente não conseguiu transmitir ao marido, mais interessado em prazeres de alcova, irei certamente iniciar esta leitura, como seu complemento.
Excelente, mesmo!

Tens contigo? Traz....
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De macarvalho a 20.11.2011 às 20:55

Lembrei-me de melhor. Já tens prenda de Natal para moi?
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De macarvalho a 20.11.2011 às 23:12

Oh, que encanto.....
Tenho uma para ti

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