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O dia amanheceu com um novo foco de intensidade dramática. Diz-se que a Troika quer impor a redução dos salários do sector privado. Por esta hora, os jornais, as rádios e as televisões já entrevistaram milhões de especialistas. O dono do café onde tomei um galão e meia torrada apresentou-se hoje aos clientes de barba feita e roupa lavada. Confidenciou-me que existem boas razões para acreditar que também ele será ouvido ainda hoje sobre este tema. Afinal de contas, já não falta ouvir mais ninguém. Todavia, convém reflectir um pouco antes de arrancarmos os poucos cabelos que nos restam. Desde logo, quem ler o relatório de acompanhamento publicado e ouvir as intervenções dos elementos da Troika com atenção, poderá chegar à conclusão de que não se trata de uma imposição, mas de uma previsão. Face à retracção do consumo e à redução dos salários da função pública, nada mais natural do que um reajustamento mecânico dos salários no sector privado, sobretudo nos sectores que dependem do mercado interno. A estrutura remuneratória da generalidade das empresas privadas já integra hoje uma parte variável indexada aos resultados. Se a empresa ganhar menos, os trabalhadores levam menos para casa. Se a empresa perder, os trabalhadores vão para casa. Depois, mesmo que se venha a concluir que a imposição virá, com a indispensável alteração legislativa, convém não esquecer alguns pontos. A essa redução nominal seguir-se-ão ajustamentos de diversa natureza. As empresas saudáveis não deixarão de compensar os seus trabalhadores (os que merecerem) com outras remunerações complementares. As que enfrentarem dificuldades verão na medida um balão de oxigénio. Se ficarem por aí e não se reinventarem, acabarão por fechar apenas um pouco mais tarde. Ou seja, no sector privado, a vida continuará como antes. Com sucessos, fracassos, injustiças, entradas, saídas, prémios, promoções, mais ou menos remuneração em função dos resultados individuais e das vitórias ou derrotas das empresas, despedimentos colectivos, falências, salários em atraso ou desemprego. Trata-se de ganhar, perder e voltar a tentar. Por isso, que não doa a cabeça a todos quantos estão muito preocupados com as possíveis dentadas da Troika na carne dos trabalhadores do sector privado. Estes já vivem há muito tempo no espaço e no tempo da realidade. Como diria o outro, é a vidinha.

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20 comentários

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De Tiro ao Alvo a 17.11.2011 às 12:07

Tem toda a razão. A nossa comunicação social não sabe ler bem, nem ouve bem.
E os funcionários públicos, na sua maioria, não imaginam que as coisas, no sector privado, se passam como escreveu. Eles vivem, por enquanto, noutro mundo...

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De National Geographic a 17.11.2011 às 12:30

É verdade. Já tivemos oportunidade de fazer uma expedição para observar os funcionários públicos no seu habitat e confirmámos isso mesmo. Acasalam entre si, gerem outros funcionários públicos e só saem das tocas de noite, evitando o contacto com as pessoas.
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De Tiro ao Alvo a 17.11.2011 às 17:10

Tem razão, todas as cautelas são poucas. Os funcionários públicos têm, sobretudo, que ter cuidado com os desempregados, porque, esses, não viram o seu salário diminuir, não. Esses viram foi o seu salário desaparecer, pura e simplesmente. E não sabem bem onde o ir encontrar... E são muitos. Ao que dizem, cerca de 700.000, um exército. E grande.
Estamos tramados.
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:45

Todas as queixas e indignações são legítimas, no público ou no privado. Mas, tem razão num ponto: não há situação que se compare à de estar desempregado. Estão 700.000 nessa situação. Nos próximos tempos esse número vai aumentar. Muito. É absolutamente dramático.
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:49

Aprecio a ironia, NG. Não partilho a divisão do mundo entre funcinários públicos e privados. Antes de tudo, estamos a falar de pessoas. Mas, é verdade que a maioria dos funcinários públicos tem vivido protegida de um drama que já flagelou muita gente: o desemprego.
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De National Geographic a 18.11.2011 às 15:39

Não é essa a verdade, Rui. A verdade é esta: a maioria dos funcionários públicos também são marido, mulher, irmão, irmã, e pai e mãe de desempregados, de precários e de pessoas sujeitas a despedimento a qualquer hora, de pessoas que ganham metade do salário mínimo com biscates. Muitos funcionários públicos destinam grande parte do seu salário a familiares nessas situações, pagando-lhes o que comem, a sua renda de casa, o que vestem, e por isso, muitos não passam férias, não comem fora, não vão ao cinema, etc, nem sequr se lembram da última vez. Muitos velhos pensionistas, funcionários públicos na vida activa, são o amparo de filhos nessa situação, vivendo mal por isso mesmo. E quando retirarem os subsídios aos funcionários, para o ano, muitos, funcionários públicos e trabalhadores privados, sem distinção vão sofrer. A crise bate todas as portas, não estamos a falar de mundos estanques. Portanto, não: não se corre o risco de uma legião de desempregados se revoltar contra os privilegiados dos funcionários públicos.
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De Tiro ao Alvo a 18.11.2011 às 17:15

Numa coisa dou-lhe razão: a crise bateu, ou pode bater, à porta de toda a gente. Directa ou indirectamente. Mas, quando apenas estão em causa pessoas sem vínculo à função pública, ou seja, no sector privado, a crise, nalguns casos, bateu e, noutros, pode vir a bater, à porta da frente e à porta das traseiras, ao mesmo tempo. E quando isso acontece, acredite, as pessoas nem sabem para onde se devem virar.
Em conclusão, a "troica" não quer, nem pode, impor reduções nos salários dos trabalhadores do sector privado, como foi noticiado. Mas que essas reduções estão todos os dias a acontecer, isso é um facto. Indesmentível.
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De National Geographic a 18.11.2011 às 17:42

Não sabem para onde se devem virar? Muitos viram-se para quem os pode ainda amparar um pouco: o velho pai que foi ou é motorista da carris, uma mãe que foi ou é enfermeira, um avô que foi funcionário das finanças, etc. usando a sua imagem das portas, a todos estes servidores e antigos servidores do estado, a crise chega-lhes pelas portas de trás e da frente, depende de onde batam para pedir ajuda, e entra-lhes ainda pela chaminé: Acredite no que lhe digo também, que sei alguma coisa: muitos funcionários públicos passam fome. Pobreza é pobreza: não se relativiza. O que me custa mais nisto tudo é os que dão pulinhos de alegria mal contida com o corte dos subsídios e descida de salários dos funcionários públicos, com argumentos de justiça, vingança, etc. Imbecis. Mas o que o tiro ao alvo não explicou ainda é porque é que os funcionários públicos têm de ter cuidado com os desempregados.
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De Tiro ao Alvo a 18.11.2011 às 18:59

Amigo, se calhar não fui feliz com aquela alegoria. O que eu queria dizer é que os funcionários públicos, que também tenho na família, e directa, não estão sujeitos a despedimento, diferente, como sabe, do que acontece com os trabalhadores do sector privado. Mais nada.
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De Tiro ao Alvo a 18.11.2011 às 19:03

Realmente é como você o diz, voltam-se para os parentes que tiveram a "felicidade" de terem na família alguém que foi funcionário público, ou semelhante.
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De National Geographic a 18.11.2011 às 22:05

É isso. O que eu digo é que temos que ser solidários, unidos, todos precisamos uns dos outros.
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:49

O mundo onde o desemprego não chegou de forma maciça é, sem dúvida, um mundo diferente.
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De mke a 17.11.2011 às 12:13

Bem dito e escrito! Concordo. E ele há coisas que nem deviam passar pela cabeça de gente do calibre da troika, quanto mais sugerir ou colocar à ponderação...
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:42

Não tenho a certeza de que tenha passado nos termos em que foi divulgado, Mke.
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De sampy a 17.11.2011 às 12:55

O Kröger foi clarinho como a água. Cristalino.

A economia portuguesa tem um problema de competitividade.
Há duas vias para a sua resolução:
- a descida de salários;
- a melhoria de produtividade.
O caminho certo é melhorar a produtividade; quando ou enquanto não é possível, resta descer os salários.

Porque é que as coisas não são noticiadas assim? Porque a ignorância reina. Porque o alarmismo vende. E porque há que tentar evitar o fracasso da greve geral.
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:41

Tudo explicações plausíveis, Sampy.
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De lucklucky a 17.11.2011 às 17:47

As empresas estão sempre a ajustar-se ao mercado.
Por isso comparar o Publico e o Privado não tem sentido.
O Estado Português aumentou salários e pensões durante 3 décadas e sempre com défice.
Logo nunca se ajustou.
Seria impossível uma empresa aumentar os seus trabalhadores e pensionistas durante 3 décadas e estar sempre com prejuízo ao mesmo tempo.
.
Só foi possível porque este regime nasceu com 15% de Dívida Publica. Se tivesse nascido com 100% de Dívida Publica seria tudo muito diferente.
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De Tiro ao Alvo a 17.11.2011 às 18:48

Mas o ajustamento tem que ser feito, meu amigo. De qualquer forma, ou das duas formas ao mesmo tempo: reduzir salários ou reduzir funcionários, visto que aumentar a receita ou a dívida, foi chão que já deu uvas...
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De Rui Rocha a 17.11.2011 às 22:41

Infelizmente para todos os afectados, é como diz.

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