Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




 

Ultrapassei os 40 anos de idade sem grandes danos visíveis. Um poucochinho menos de olhos. Um nadinha mais de barriga. As orelhas são o que sempre foram. O nariz tem a amolgadela que ficou daquela épica final do basquete escolar em que fiz 3 pontos com o septo nasal. A somar a isso, uma cicatriz muito disfarçada (embora o ortopedista sul-americano que fez a sutura tenha realizado um esforço sério no sentido de deixar  uma marca para toda a vida) e que foi provocada pelo embate de uma tábua na cabeça, em pleno AKI, num raríssimo episódio em que me preparava para cometer bricolage. É certo que análises realizadas após 15 anos de irresponsabilidade indicam um problemazinho nos triglicerídeos. Mas, não é um desvio colossal! Os sacanas ainda não foram promovidos a tetraglicerídeos ou reclassificados em colesterol. No ácido úrico é que já não há folga nem almofada. Não posso continuar a acumular picanha, mexilhões, alheira de caça (não, Armando, ninguém te chamou) e espinafres. Nesse caso, tanto pior para a sopa de espinafres. É uma decisão dura, mas não há alternativa. Daqui a 15 anos, quando fizer análises outra vez, os benefícios desta medida brutal serão evidentes. Assim sendo, com o cabelo rigorosamente da cor que o ADN lhe deu, e embora a estatística não apoiasse essa tese, nada impedia que este cidadão continuasse a aspirar à imortalidade. Desde que, naturalmente, fosse possível resistir à tentação da bricolage. E à sopa de espinafres. Dah, imortalidade..., atira-me o leitor. Pois digo-lhe que já me aconteceram coisas que, vistas daqui, parecem bem mais improváveis. Ou existirão muitos que, na mesma vida, tenham levado com uma tábua na cabeça em pleno AKI e marcado 3 pontos com o septo nasal? Ah pois é! Subitamente, todavia, a harmonia foi definitivamente abalada quando, numa operação rotineira de lavagem de mãos, encarei o espelho e, oh tragédia!, oh desgraça!, oh memorando da troika na parte que diz respeito à Banca!, o vi ali, mesmo por cima da orelha esquerda. O primeiro cabelo branco! O impulso foi, naturalmente, para o arrancar sem piedade. Mas, já na iminência do gesto irreflectido, a vastíssima experiência de vida  aconselhou um período de reflexão: "calma, não viste já tantos ministros da economia declararem, num momento de vertigem, o fim da crise, comprometendo assim toda a escassíssima credibilidade que lhes restava? Sim! E não ouviste já dizer, num cabeleireiro, que quando se arranca um cabelo branco nascem logo milhares? Pois ouvi". Foi deste diálogo interior que nasceu o pensamento estratégico e o plano de acção com base científica. Se Portugal ganhar à Bósnia, arranco o sacana. Caso contrário, ele fica. É bem sabido que um mal nunca vem só e não posso correr o risco de acordar amanhã com a selecção fora do Euro de dois mil e coiso e com a cabeça tão branca como a do Avô Cantigas. É certo que, se a coisa correr mal, será necessário tomar medidas adicionais. Sobre este ponto, mantenho uma certa reserva. Levantarei apenas a ponta do véu (sim, entretanto comprei um véu, não vá o diabo tecê-las) para dizer que ali o Hulk foi a fonte de inspiração da solução que congeminei e que espero, a bem do futebol nacional, não ter de pôr em prática. E é assim que me encontra, leitor. Angustiado, é certo, mas também muito determinado. Entretanto, não há texto profundo, como é o caso deste, que não deva concluir-se com uma citação de Ortega Y Cassette. Pois aqui estou, homem, com a minha circunstância. No caso concreto, esta tem todo o insustentável peso de um cabelo branco.

Autoria e outros dados (tags, etc)


29 comentários

Sem imagem de perfil

De Luís Reis Figueira a 15.11.2011 às 13:43

Tem de falar com o Vítor Constâncio, para saber qual é o segredo para uma cabeleira «imaculadamente preta» aos sessenta e muitos...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 13:45

Desta vez, não vou aceitar a sua sugestão, Luís. Um tipo que não vê certos problemas macro-ciclópicos a dois metros do nariz não vai conseguir ajudar-me perante tão grave problema.
Sem imagem de perfil

De anónimo a 15.11.2011 às 19:50

Bem observado!
Parece uma "mexicana engraxada", no caso mexicano. Deve ter sido essa graxa que lhe garantiu um passaporte que o levou ao "eldorado".
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 17.11.2011 às 11:51

É, Anónimo. Ele tem deslizado bem.
Sem imagem de perfil

De José Prata a 15.11.2011 às 13:55

Eh, pá, Rui. Deixe lá. Também já passei por isso. Piores dias virão.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 13:57

Há momentos, José, em que me pergunto o que seria do género se não existisse a proverbial solidariedade masculina.
Sem imagem de perfil

De Fernando Lopes a 15.11.2011 às 13:58

Rui,

Já que partilhamos intimidades, uma confissão. Senti-me velho quando, aos 30 e muitos foi olhado no elevador, com ar guloso, por uma senhora de 50 e tal. Se não lhe aconteceu, ainda não envelheceu verdadeiramente, independentemente dos cabelos brancos.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:15

Já não vai acontecer, Fernando. Decidi deixar de andar de elevador. Não tanto por causa dos triglicerídeos mas, sobretudo, para evitar o espelho.
Sem imagem de perfil

De Fernando Lopes a 15.11.2011 às 14:21

Fui e não foi, obviamente. Quem nos tenta seduzir é um bom indicador do nosso índice de "velhice". Ou como dizia o outro "Quanto mais velho menos desejável e mais exigente." Paradoxos!
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:41

Pois é exactamente esse o tipo de questões que me ocupa, Fernando. Não é bem um paradoxo. É uma dúvida soberana: arrancar ou não arrancar.
Sem imagem de perfil

De lucklucky a 15.11.2011 às 14:23

Hmm que eu tivesse notado a senhoras de 50 olham gulosas desde adolescentes até 60's...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:44

Isso não é a definição de mercados?
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2011 às 14:23

Hulk contrariou todos os ditames científicos: o cabelo dele reverteu à tonalidade original. O mesmo já não pode dizer-se do Abel Xavier (por onde é que este anda?) nem, naturalmente, do Jorge Jasus.
(prepara-te para arrancar o cabelo, Rui)
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:40

Oh diabo.
Imagem de perfil

De João Campos a 15.11.2011 às 21:00

Pedro, já não é Abel Xavier. É Faisal :)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.11.2011 às 00:12

Faisal? Parece-me mal. Tarique seria mais chique.
(Eu não disse que ias arrancar o cabelo, Rui?)
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 17.11.2011 às 11:52

Disseste, Pedro. E eu já arranquei.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 15.11.2011 às 14:36

Estás a queixar-te dos cabelos brancos que as mulheres até fazem o favor de apreciar achando que vos dão charme? Hum...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:40

Ah, mas não é esse o ponto, Teresa. O que está aqui em causa é a questão da imortalidade.
Imagem de perfil

De Teresa Ribeiro a 15.11.2011 às 14:47

Disfarça, disfarça...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 14:48

Portanto, achas que pinte.
Sem imagem de perfil

De JMG a 15.11.2011 às 15:33

Uma alma benfazeja já resolveu aí acima o problema das brancas, com a solução Constâncio. E é perfeitamente seguro, a tintura Constâncio melhora o cabelo sem danificar o cérebro, a despeito das aparências.
Agora para o ácido úrico ninguém lhe disse nada, cambada de ignorantes. Mas, sorte sua, ando por aqui: o Amigo não toque em salada de alface, evite o verde (em particular o tinto). E não precisará de Zyloric.
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 15.11.2011 às 15:44

Bem, os meus amigos insistem na solução Constâncio e eu replico que farão o favor de a experimentar no vosso próprio escalpe que eu, por mim, não vou nisso. Pois se a tal tintura tudo o que fez foi deixar peladas na supervisão... Quanto ao verde, agradeço e penso que por aí não virá problema. Vejo agora o Sporting muito mais maduro.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 16.11.2011 às 00:14

Claro. É ver a academia Sporting como esteve hoje na origem dos seis golos contra a Bósnia.
Imagem de perfil

De Laura Ramos a 16.11.2011 às 00:32

Rui, se queres uma opinião sincera: não há pior do que um homem de cabelo pintado! Vai por mim, nan pintes. (mas é certo que não ando de elevador...)
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 17.11.2011 às 11:55

Este já não me incomoda mais, Laura. Com a ponderação que me caracteriza, arranquei-o, pisei-o até ter a certeza de que dali não vinha resistência, amortalhei-o convenientemente em papel de secar as mãos e sepultei-o no caixote do lixo.
Imagem de perfil

De Ana Vidal a 16.11.2011 às 01:44

Por muito estranho que te (e me) pareça o que vou dizer, somos quase gémeos nessa coisa da... circunstância. Ou das várias circunstâncias. Não acreditas? Eu explico, olha aqui:
1. Levei literalmente com uma tábua na cabeça (pior, no ouvido) num maldito corso de carnaval em Alhandra que tive de atravessar um dia. O meu ódio a carnavais de rua, já então bem instalado, cresceu de tal maneira que virou uma espécie de fúria assassina contra folgazões idiotas que se divertem a enfarinhar, empurrar e quase matar os incautos transeuntes que não têm nada que ver com aquela anormalidade infantilóide.
2. O único osso que parti em toda a minha vida foi o do nariz, numa queda estúpida à porta de casa num dia de chuva. Cheia de sacos e outras tralhas nas mãos, fui de nariz ao chão sem apelo nem agravo. Ou melhor, com o agravo de ter acabado nas urgências da Cuf à hora de jantar, onde tive de responder estoicamente - e sem me rir muito - a meia dúzia de perguntas camufladas sobre violência doméstica. O meu septo nasal já era meio torto, ficou pior.
3. Tenho poucos cabelos brancos, graças a um bom ADN materno. Mas tive o mesmíssimo choque que descreves quando descobri o primeiro, ao espelho, (agora já me passaram os chiliques, felizmente).

Como vês, não te menti. Distingue-nos a questão da insustentabilidade: quem me dera que as minhas angústias estivessem no peso do cabelo...
Imagem de perfil

De Rui Rocha a 17.11.2011 às 11:55

Como eu te compreendo, Ana.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D