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Confissões de uma mulher perdida

por Leonor Barros, em 14.11.11

Descobrimos que só pensamos no mesmo quando até nos momentos tranquilos do quotidiano encontramos marcas, indícios, evidências da nossa nova condição de depauperados e humilhados. E não, não se pense que foi quando passei por uma montra decorada de Natal cheia de bolas reluzentes e pais natais pachorrentos e me impus o treino forçado para combater o próximo Natal e o outro, talvez ainda o outro e quem sabe todos os Natais doravante. A recusa determinada em não ver, não entrar sequer, ignorar por completo e não ter a mínima das tentações. Assim como quando acabamos uma relação e cortamos com tudo o que faça lembrar o dito cujo, um vai morrer longe enérgico um chega pra lá catártico, quero mas é esquecer que existes, ó Natal. Nada disso. Foi quando num fim de tarde batido pela chuva e numa conversa em alemão sobre o Outono comecei a achar que o Rilke era um visionário e que aquele poema que se me entrava pela alma estava prenhe de referências a esta triste sina lusa. Enquanto a discussão decorria dei por mim a fazer associações ao encontro deste fado lusitano de desgraçados e enjeitados. Podem chamar-lhe intemporalidade, que sim, que quando um poema é lido vive outra vez, muito bem, apelar à estética da recepção e nomear-me como co-autora do texto, perfeito. Nada me convencerá. Quando num insuspeito poema de Rainer Maria Rilke sobre o Outono, o défice, a ajuda externa e a Troika  estão presentes já não me resta mais nada. Estou perdida.

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19 comentários

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De Ivone Mendes da Silva a 14.11.2011 às 21:34

Rilke, dizes tu, Leonor? Talvez mais para o lado dos Holzwege de Heidegger ...
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 21:40

Credo, Ivone, não fazes por menos :)
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De Fernando Carvalho a 14.11.2011 às 22:48

Tradução... Será pedir muito?
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 22:55

Dia de Outono

Senhor, foi um verão imenso: é hora.
Estende as tuas sombras nos relógios
de sol e solta os ventos prado afora.

Instiga a sazonarem, com dois dias
a mais de sul, as frutas que, tardias,
conduzes rumo à plenitude, e apura,
no vinho denso, a última doçura.

Quem não tem lar já não terá; quem mora
sozinho há de velar e ler sozinho,
escrever longas cartas e, a caminho
de nada, há de trilhar ruas agora,
enquanto as folhas caem em torvelinho.

(Tradução: Nelson Ascher)
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De Fernando Carvalho a 14.11.2011 às 23:07

Não tenho palavras para classificar a atenção e a rapidez com que satisfez o meu pedido. Não estou nada habituado a isto. Muito agradecido (agora vou dar atenção ao poema). Bem haja.
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 23:12

De nada, Fernando. Nós aqui gostamos de ver os comentadores satisfeitos :)
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 22:58

Uma outra tradução:

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado.

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.


- Rainer Maria Rilke
(tradução de Maria João Costa Pereira)
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De Carlos Cunha a 14.11.2011 às 23:21

outono, folhas caídas, e logo nos assalta à memória a canção:
feuilles mortes / autumn leaves

http://www.youtube.com/watch?v=JWfsp8kwJto

http://www.youtube.com/watch?v=io1o1Hwpo8Y

não existisse o outono, não caíssem as folhas, e o rilke não teria escrito este poema e esta canção não seria bem assim.
é a vida, afinal,como diz o outro.
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 23:28

Obrigada, Carlos.
Prefiro a sua segunda proposta. Apesar de tudo e de ser essencialmente um bicho de sol e de calor gosto de Outono.
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De Ana Vidal a 15.11.2011 às 01:58

É fascinante o pode mudar de um tradutor para outro, sem que nenhum deles tenha atraiçoado o espírito do poema. A segunda versão é menos negra, mas, por outro lado, presta-se menos a segundas leituras. Na segunda leio o Outono, na primeira leio a Vida.

Seja como for, enquanto tiveres o Rilke não estás perdida, Leonor.
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De Leonor Barros a 15.11.2011 às 14:10

Por isso é que pus aqui as duas traduções, Ana. Nenhuma retira nada à outra e ambas são fieis ao original.
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De mike a 14.11.2011 às 23:17

Humm... com o devido respeito, Leonor, continue perdida e não se encontre, enquanto escrever assim. :-)
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 23:21

Que saudades, Mike!!! Que bom vê-lo por aqui :) Gentil, como sempre. Beijinho.
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De Laura Ramos a 14.11.2011 às 23:22

Outstanding, Leonor. Este homem dá-nos assim um arrepio na espinha... Como não perdoar tudo a Lou Salomé? ;-) Que dupla.
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De Leonor Barros a 14.11.2011 às 23:26

Gosto muito do poema, Laura.
Uma doidivanas, a Lou Salomé :)
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De Ana Vidal a 15.11.2011 às 01:56

Não sei se doidivanas se masoquista, a avaliar pelas doses de leão que lhe calharam na vida... ;-)
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De Laura Ramos a 15.11.2011 às 03:27

Safa, Ana... tens toda a razão. Nem em sonhos, já viste? Não sei se diga 'grandes homens' se diga 'grande mulher'...Mesmo assim, grande Lou :-)
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De Ana Vidal a 15.11.2011 às 11:44

Grande Lou, de facto. Coragem, pelo menos, nunca lhe faltou. :-)
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De Leonor Barros a 15.11.2011 às 14:11

Masoquismo tem limites, doidivanice não :)
Por outro lado, à primeira caem todos, à segunda só cai quem quer e à terceira só quem gosta.

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