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Estou a ler "China: its History and Culture" (3)

por José Maria Gui Pimentel, em 14.11.11

 

Qualquer jogador de futebol sabe que não se deve desaproveitar uma bola passada sem querer, e por isso aproveito o esférico que o jaa me enviou, tabelando no José Gomes André.

 

Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental. Por um lado – decerto – por culpa própria, por outro também devido a um sistema de ensino enviesado, o meu olhar perante a História foi sempre eurocêntrico (bem sei que este termo já é usado para outro fim). O Livro “China: its History and Culture”, de W. Scott Morton e Charlton M. Lewis (este último creditado apenas na 4ª edição, visto que escreveu essencialmente a parte de História contemporânea) é uma concisa e eficaz introdução à enorme História da China. Uma História que, embora não deixe de ser fragmentada, é bastante mais unida do que a nossa, em virtude de factores muito específicos: China throughout its history has been comparatively isolated owing to geographical barriers. The vast Pacific Ocean on the east, the impassable gorges of the Burma border and the inhospitable plateau of Tibet to the south and west, and the arid and sparsely populated lands of Central Asia and Mongolia to the northwest and north have caused China to have less than average contact with other major civilizations and to develop its own way of life in relative isolation (pp.5).


O livro tenta, até ver com algum sucesso, contar de um modo simultaneamente apelativo e organizado as várias componentes da História – política, religiosa, económica, social, cultural, artística, etc – realçando o facto de os períodos bons num determinado aspecto não o serem necessariamente noutras vertentes. As diferenças nos campos da Religião e da Arte são as mais evidentes, até porque, designadamente no primeiro caso, continuam a manifestar-se hoje em dia, quando a China é considerada por alguns inquéritos o país mais ateu do mundo, uma categorização que, aplicada àquela cultura, é claramente desadequada. In China there was no creation myth, no source of divine law outside nature. Nature thus partook of the divine, and moral law was securely fixed in human authority, as represented by the sage kings, the Zhou founders, and Confucius. Religion for the Chinese has a practical rather than a highly mystical concern; likewise, Chinese philosophy has to do primarily with ethics and conduct in actual life, and not to any great degree with abstract questions such as are dealt with in Western metaphysics. There are notable exceptions: Buddhism, coming from India, is both mystical and intellectually complex, while Daoism does deal with Being and Nonbeing. But the practical, this-worldly tendency is inherent in Chinese religion and philosophy and finds its fullest expression in the dominant school of Confucius (pp.32). Mais à frente, Morton destaca outro factor importante: the Chinese have never felt that to hold one belief it is necessary to exclude others (pp.65)


No campo da Arte, embora a pintura tenha, tal como no Ocidente, lugar de destaque, é na paisagem e não no retrato que esta atinge o seu expoente máximo, uma realidade a que não é estranha a referida ligação do Divino à natureza. Deste modo, while the eye of the Western artist takes in the scene from the level of the average man five or six feet above the ground, the Chinese artist works from a raised viewpoint, on a hillside opposite the scene, as it were, so that he is delivered from too much teasing detail in the foreground and can obtain an overview of the whole.


Ao nível da História política, mais do que as diferenças, são as semelhanças que impressionam face à Civilização ocidental, uma vez que até aos Descobrimentos (e, mesmo depois destes, até ao século XIX) não houve praticamente contacto entre os dois mundos. É especialmente curioso e, em certo sentido, desconcertante, o modo como duas grandes civilizações como a chinesa e a romana coexistiram sem praticamente qualquer contacto, porém, em ambos os casos, atingindo um desenvolvimento civilizacional espantoso. It is evident that the Chinese knew more about Rome than the Romans knew about China. The dynastic histories of the Later Han and subsequent shorter dynasties contain these statements in their summary accounts: The people of Ta Ts’in (Rome) have historians and interpreters for foreign languages as the Han have. The walls of their cities are built of stone. They cut their hair short, wear embroidered garments, and ride in very small chariots. Their rulers only govern for a short time and are chosen from among the most worthy men. When things go badly they are changed. [An anachronism at this point, referring to the consuls under the Republic—C.P.F.] The people of Ta Ts’in are big men. . . . They dress differently from the Chinese. Their country produces gold and silver, all kinds of precious goods, amber, glass and giant eggs (ostrich eggs). From China by way of An Hsi (Parthia) they obtain silk which they re-spin into fine gauze. (…) The Ta Ts’in are honest. Prices are fixed and grain is always cheap. The granaries and public treasury are always full. (…) The Ta Ts’in first sent envoys to us (in 166 a.d.).

 

Termino com uma pequena história, que nunca destacaria não fosse a sua inegável graça: A famous scholar at court, Dong Fangsuo, was more fortunate. He was discovered to have drunk a potion of an elixir of immortality prepared for the emperor. Wu Di (importante Imperador da dinastia Han: 156 AC-87 AC) was furious and ordered him to be killed, to which Dong Fangsuo, with admirable presence of mind, saved himself by replying, “If the elixir was genuine, your Majesty can do me no harm; if it was not, what harm have I done?


Morton, W. Scott and Lewis, Charlton M. – China: Its History and Culture, 4th ed (2004)

McGraw-Hill

 

E agora chuto a bola ao João Campos.

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5 comentários

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De João Campos a 15.11.2011 às 00:21

A história do final é excelente!
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De lucklucky a 15.11.2011 às 14:46

Uma civilização muito frágil. Há 50 anos atrás matavam-se aos milhões por causa de uma ideologia importada da Europa.
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De José Maria Gui Pimentel a 15.11.2011 às 16:25

Acha que nós, europeus, podemos "cuspir para o ar"?
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De lucklucky a 16.11.2011 às 08:00

Não percebo essa maneira de pensar. Se todos criticarem todos melhoram todos.
Mais, eu ao referir de uma ideologia que nasceu na Europa e que matou milhões não estou a fazer um elogio à Europa...

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