Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Cria corvos e ficarás sem olhos

por Pedro Correia, em 12.11.11

 

Milhares de pessoas festejam esta noite em Roma a queda de Silvio Berlusconi. O homem que mais marcou a política italiana nos últimos 20 anos viu-se forçado a abandonar o poder na sequência das pressões conjugadas de Bruxelas e dos 'mercados'.

Sou insuspeito de simpatias por Berlusconi: várias vezes escrevi contra a sua falta de sentido de Estado, a sua duvidosa moralidade na gestão dos assuntos políticos e a ténue fronteira que separava a sua condição de empresário com a de responsável governativo. Mas esta saída do poder, nos termos em que ocorre, preocupa-me muito mais do que me alegra. E devia preocupar também aqueles que se manifestam a favor desta mudança política em Roma. Porque o designado sucessor de Berlusconi, Mario Monti, é um homem da confiança da superestrutura de Bruxelas, um tecnocrata puro e duro que ascende à liderança do Governo italiano não pelo voto popular mas por pressões da oligarquia financeira. A mesma que na Grécia já foi decisiva na substituição do socialista Georgios Papandreou por outro tecnocrata, Lucas Papademos.

Um velho provérbio espanhol que cito com frequência vem a propósito de tudo isto: "Cria cuervos y te comerán los ojos." Seria bom que não aplaudíssemos a chegada dos corvos. Eles andam aí.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


44 comentários

Imagem de perfil

De João Severino a 12.11.2011 às 23:27

O Silvio já se está a rir... e com duas moçoilas, uma de cada lado.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:42

Talvez, João. Mas o caso não é para rir.
Imagem de perfil

De João Severino a 14.11.2011 às 15:06

Claro, Pedro. Muito sério e a Itália com esta opção de fazer política sem eleições pode arranjar forma da Europa dita democrática ir pelo abismo. Abraço
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 15.11.2011 às 00:28

Custa-me ver governos substituídos por jogadas palacianas: mudam-se os ciclos políticos sem que o povo se pronuncie. Isto é a negação da democracia, de facto.
Abraço, João.
Sem imagem de perfil

De José Freitas a 12.11.2011 às 23:53

Estou começando a andar pelos blogs. Achei este com interesse, bastante interessante.
Também tem interesse o blog
http://anticolonial21.blogspot.com/
É um blog não-alinhado, de Livre-Pensamento.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:42

Obrigado por ter gostado do Delito.
Sem imagem de perfil

De PALAVROSSAVRVS REX a 12.11.2011 às 23:54

Não, meu caro, nada pode ser pior que um Berlusconi ou que um Sócrates. Nada. E quando grafo nada é mesmo nada.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.11.2011 às 00:14

Meu caro, a questão não é essa. Sócrates foi afastado do poder pelo voto popular. Ao contrário do que sucedeu com Berlusconi e Papandreou. Isso é que é preocupante.
Sem imagem de perfil

De PALAVROSSAVRVS REX a 13.11.2011 às 10:26

Compreendi muito bem, Pedro, mas mesmo assim mantenho que há bens maiores que o pronunciamento moroso e toldado dos povos, sobretudo em situações de iminente desastre, especialmente quanto ao afastamento de líderes-óbices, esgotados e sem credibilidade: bens como não recair no caos, não ficar à mercê da instantaneidade dos mercados em condenar nações.

Penso que em terra de cegos, mesmo os corvos passam fome.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:43

Pois, meu caro. Mas se os governos começam a cair porque as taxas de juros sobem acima dos 7% e os políticos dão lugar aos economistas cinzentos que mais agradam à Comissão Europeia, sem sufrágio universal, isso já começa a ser preocupante.
Sem imagem de perfil

De Carlos Faria a 13.11.2011 às 00:00

Magnífico artigo, não só pelo significado profundo do provérbio, como também pelo facto de evidenciar que, para alguns, o ódio a determinados políticos (não nutro qualquer simpatia por Berlusconi) ou campos ideológicos é maior que o respeito pelos resultados eleitorais...
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.11.2011 às 00:15

A democracia política vai-se diluindo diariamente, Carlos. Estamos a assistir a isso. Convém não assistirmos calados.
Sem imagem de perfil

De jpt a 13.11.2011 às 21:29

Ainda que não tão escatológico como V. concordo com este seu texto
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:44

Nada que me admire, meu caro. E alguma escatologia acaba sempre por ter utilidade.
Sem imagem de perfil

De Joao Ventura a 15.11.2011 às 16:56

A democracia política actual está falida e agradeço a sua diluição. Quando se elegem políticos profissionais, amorfos, e sem ideias e que mal chegam ao poder esquecem o parco programa eleitoral que os sustentou, algo não está bem e merece -e deve- ser mudado

O facto de a liderança europeia actual estar ausente de Líderes (com L) que possam colocar os mercados no seu devido lugar é um derivado das (más) escolhas que todos os europeus têm feito nas últimas décadas. Quando se usam eleições europeias (e referendos sobre a constituição) como sondagens à política actual do Governo em funções, não podemos (nós os europeus) queixar-nos que existe défice de democracia na UE.

Naturalmente, espero que no seu lugar surja uma verdadeira democracia orientada por ideias e estratégias e em que o voto sirva para verdadeiramente expressar o pensamento político de cada um substituindo a actual clubite partidária.

Como se diz, a esperança é a última a morrer...
Imagem de perfil

De Luís Naves a 13.11.2011 às 00:08

É um governo de transição, com mandato muito preciso de aplicar um plano de austeridade que Berlusconi foi incapaz de aplicar. Monti foi escolhido pelos partidos e será nomeado pelo presidente, tendo obviamente de passar no parlamento.
Não vejo os corvos. Berlusconi perdeu a maioria e não há aqui nenhuma alteração da ordem constitucional, nem a democracia italiana se encontra diminuída. Apenas não houve moção de censura ou moção de confiança perdida, pois não havia tempo: os mercados abrem na segunda-feira.
Há muitos exemplos de governos nomeados sem irem a eleições; em Portugal, houve vários.
O problema que se deve levantar é outro: até que ponto pode um país com situação política disfuncional e apodrecida dar-se ao luxo de levar os seus aliados à bancarrota ou, no mínimo, a graves problemas financeiros, sem que as vítimas possam interferir.
Os tratados europeus não permitem a um país meter-se na política interna de outro e as formas de pressão são mínimas.
O que se poderá discutir no futuro, no âmbito da federalização europeia que vai acelerar, é se faz sentido criar mecanismos institucionais nos tratados para se impedir um estado membro de produzir instabilidade política que afecte os outros estados da UE.
Sublinho que esta situação é inédita: a continuação de Berlusconi ameaçava conduzir a uma crise financeira internacional que afectava muitos países, portanto, a substituição do primeiro-ministro não passa de uma rara manifestação de bom senso por parte dos políticos italianos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.11.2011 às 00:49

Havia mil razões para derrubar Berlusconi, Luís. Por incuprimento de sucessivas promessas eleitorais. Pelos processos judiciais em que era suspeito de corrupção e tráfico de influências. Pelos infindáveis escândalos em que se envolveu. Cai afinal devido à pressão dos mercados através do seu eficaz mecanismo instrumental, a subida das taxas de juro. O homem que se segue, na sequência de rápidas manobras palacianas, é a figura preferida dos burocratas da Comissão Europeia. Não tenhamos ilusões: há mudanças políticas estruturais em marcha na Europa. E nenhuma delas aponta no sentido do aprofundamento da democracia, muito pelo contrário.
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 13.11.2011 às 21:25

Para mim, a grande interrogação é: se havia mil razões para derrubar Berlusconi (em o Pedro passa a enumerar várias, e excelentes), porque é que ele nunca caiu até agora?

A mim esta cena diz mais sobre os limites da democracia representativa do que sobre o poder dos burocratas de Bruxelas.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:45

É isso mesmo que nos deve inquietar, Isabel: os limites da democracia representativa, que começam a estar demasiado evidentes.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 13.11.2011 às 00:12

Uma coisa é certa, compadre: em Itália, como na Grécia, os novos senhores designados e não votados estão nomeados a prazo. No caso grego é até ridículo, porque o que consta que ele vai fazer no curto tempo disponível não dá nem para ficar muito tempo na fila do supermercado. Segue-se a Espanha, mas a mudança virá aí pelo processo democrático clássico.

No fundo, a meu ver, tivéssemos nós a certeza de que os tecnocratas de Bruxelas também têm os dias contados e o futuro poderia então oferecer-se um nadinha mais risonho. E que os alemães e os franceses percebessem onde estão os corvos e onde deviam ser postos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.11.2011 às 00:17

Em Portugal a mudança ocorreu graças ao voto dos cidadãos, compadre. O mesmo sucederá dentro de dias em Espanha. O problema é que ninguém elegeu os burocratas de Bruxelas que agora tomam decisões políticas ao mais alto nível. Cada vez mais.
Sem imagem de perfil

De jj.amarante a 13.11.2011 às 01:11

Não tendo nenhuma simpatia por Berlusconi também acho esta substituição preocupante.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 13.11.2011 às 01:17

Partilho naturalmente da sua preocupação. Pelos motivos que enunciei.
Sem imagem de perfil

De Carlos Cunha a 13.11.2011 às 11:56

voltamos a outras eras, que julgavamos perdidas na história, em que os povos faziam oferendas e sacrificam animais e até outros seres humanos, para "acalmar" a ira dos deuses de então.
agora, neste tempo, são-nos perdidos sacríficios para "acalmar" os mercados, esses novos deuses.
e até o berlusconi foi sacrificado pelos actuais sacerdotes deste culto: merkel e sarkozy.
com berlusconi a dívida pública italiana cresceu de 103%, em 2007, para 118,4 % do pib, em 2010.
nesse período, a dívida pública da alemanha cresceu de 65,2% para 83,2% do pib, a francesa cresceu de 64,2% para 82, 3% do pib, e a do reino unido cresceu de 44,4% para 79,9% do pib.
para já foi berlusconi o sacrificado, porque quando foi para o governo recebeu, em 2000, uma dívida de 108% do pib, que então em nada inquietava os tais mercados.
mudam-se os tempos mudam-se as crenças, mas a história parece um carrossel, e isso pode trazer esperança ou pode ser aterrador, depende da fase da "corrida" onde nos encontramos.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:47

Preocupante, sem dúvida. Uma coisa é os governos mudarem por terem perdido eleições. Outra, muito diferente, é mudarem porque os 'mercados' perderam confiança neles.
Sem imagem de perfil

De André Miguel a 13.11.2011 às 12:11

Logo que soube da demissão partilhei de imediato da sua preocupação.
Não que a sua saída não seja benéfica ou até mesmo necessária, o próprio povo italiano há muito que dava sinais de saturação da figura em causa; o que impressiona é a facilidade com que a economia manda um politico, eleito pelo povo, às urtigas.
Em Portugal (como em acontecerá em Espanha) a mudança fez-se pelo voto popular, mas o que aconteceu em Itália e na Grécia é algo assustador. A economia sobrepôs-se definitivamente à democracia. E isto é para nos deixar a todos, no mínimo, preocupados.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:47

«O que impressiona é a facilidade com que a economia manda um politico, eleito pelo povo, às urtigas.»
Nem mais, André.
Sem imagem de perfil

De GONIO a 13.11.2011 às 12:16

No mesmo sentido que ontem escrevi no meu blogue: http://gonio.blogspot.com/2011/11/democracia-dos-mercados.html

Estas soluções podem parecer as necessárias e óbvias neste momento, mas são a forma mais perigosa de enfraquecer a democracia (que na Europa da União tem uma perspectiva muito própria...).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 14.11.2011 às 14:48

Registo a sintonia, Gonio. Com natural agrado.

Comentar post


Pág. 1/2



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D