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No metro

por Teresa Ribeiro, em 12.11.11

 

Entram de braço dado. A mais nova a tolher os passos para acertar com o ritmo da outra, mas de olho nos bancos, à procura de lugares vagos. Têm traços iguais, embora uma das cópias seja a sépia. São mãe e filha. Sentam-se em silêncio lado a lado, mas com o corredor a separá-las. Passaram a ser três.

Protector para a mais nova, inflexível para a mais velha, o corredor obrigou a mãe a manter-se sentada no meio de estranhos com aprumo, de mãos pousadas na sua elegante carteira de crocodilo, e deixou a filha escapar por momentos daquele enredo. De rosto fechado e olhos espetados num ponto longínquo, esta deixa-se escorregar devagarinho, como quem solta um suspiro.

Os olhos da mãe divagam distraídos pelos rostos estranhos que a rodeiam, enquanto a filha, de braços cruzados e pernas traçadas, não está. Por duas ou três vezes procuram-na, hesitantes, mas depois desistem e perdem-se num fio de pensamento qualquer. Então, à falta de interlocutor, a mãe, uma senhora que em nova devia ter sido muito bela, começa a falar sozinha. A filha fecha os olhos para não ouvir.

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6 comentários

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De CNS a 12.11.2011 às 15:39

Olhos surdos. Muito bom.
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De Ivone Mendes da Silva a 12.11.2011 às 15:56

Os enredos do tempo a sépia. Bem bonito, Teresa.
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De Pedro Correia a 12.11.2011 às 17:34

Excelente crónica, Teresa.
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De João Severino a 12.11.2011 às 18:08

Diariamente... o pensamento que traduz a inexistência de relação entre pais e filhos. Bonito, Teresa. Bj
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De Leonor Barros a 12.11.2011 às 22:45

'Fechar os olhos para não ouvir'. Gostei muito
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De Teresa Ribeiro a 13.11.2011 às 00:09

Obrigada, meninos. Podia ter imaginado a cena, mas não foi o caso. Limitei-me a descrever o que vi, o melhor que pude. Aquele par, absolutamente disfuncional, não me saiu da cabeça.

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