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Burlesconis e Patusconis

por Rui Rocha, em 09.11.11

Silvio Berlusconi terá direito à sua página na história da Itália. Se o relato for justo, dirá dele que foi o empresário que arruinou o país enquanto aumentou sem cessar a sua fortuna e o seu poder pessoal. Esse que foi construído a partir do domínio dos meios de comunicação social, do magnetismo populista, da telegenia (dizem, vá lá saber-se...) e da informação privilegiada que detinha sobre os seus aliados e opositores que são, no fundo, tão corruptos e devassos como ele.

 

Em termos pessoais, atrás de Berlusconi é ainda possível ver um rasto de centenas de delitos que prescreveram ou passaram em claro, de julgamentos que nunca se realizaram ou que terminaram no meio de suspeitas mais do que fundadas de corrupção de testemunhas e juízes ou de leis alteradas no momento certo e à medida. Em termos globais, o seu contributo para o país que dirigiu foi uma política económica desastrada, uma dívida astronómica e, como não podia deixar de ser, um clima propício ao enraizamento da corrupção, da evasão fiscal, do clientelismo e das fidelidades ditadas pelas piores razões.

 

Apesar de cair nos paralelismos com personalidades históricas ser tentador (César, Nero, Mussolini ou padrinhos mafiosos), deve reconhecer-se que Berlusconi é um exemplar único e incomparável. Bobo, louco, exibicionista, sórdido, manipulador, incompetente, intriguista, ávido de poder, tudo isto são qualificativos que lhe assentam bem, mas que não descrevem integralmente a sua característica essencial de homem sem qualidades.

 

É este homem e a sua circunstância (permanência no poder, ou na sua órbita, ao longo de 20 anos) que deveriam merecer a nossa profunda reflexão. Outros preferirão salientar o funcionamento anti-democrático dos mercados ou do directório franco-alemão que sobrepõem a sua agenda ao resultado dos actos eleitorais de países soberanos e ao funcionamento das suas instituições. É uma questão pertinente. Mas, antes dessa, parece-me fundamental perceber como foi possível que democracias ditas avançadas tenham dado origem a lideranças como as de Sócrates, Jardim, Zapatero, Karamanlis, Papandreou e Berlusconi que levaram os seus povos a situações ruinosas e a uma degradação da vida pública e dos fundamentos do estado social. Não adianta reclamar das disfunções na vertente externa quando a nossa própria casa está a afundar-se às mãos de Burlesconis e Patusconis.

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12 comentários

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De Anónimo Desconhecido a 09.11.2011 às 16:25

Quer dizer, pelo perfil apresentado, se fosse português, seria por certo um destacado dirigente do PSD.
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De Rui Rocha a 09.11.2011 às 17:53

Se o único reduto dos políticos pouco recomendáveis fosse o PSD, tínhamos fácil solução. Votava-se apenas nos outros e estava resolvido. Todavia, o estado do país impõe outro tipo de conclusões. Até porque o poder, nos últimos 15 anos, foi detido durante a maior parte do tempo pelo partido da porta ao lado.
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De Anónimo Desconhecido a 09.11.2011 às 18:51

Aí tem toda a razão, são gémeos tipo Dupond e Dupont, os do PSD são só um pouco mais polidos, no PS é mais sucata.
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De Rui Rocha a 09.11.2011 às 21:54

Sendo certo, em todo o caso, que a degradação ética na política não chegou (ainda?) em Portugal, nem de perto nem de longe, aos níveis atingidos em Itália.
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De Anónimo Desconhecido a 10.11.2011 às 10:08

Gentileza sua....
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De lucklucky a 09.11.2011 às 19:39

Não foi Berlusconi que arruinou* o país. Enquanto Sócrates duplicou a Dívida Publica da Democracia Berlusconi só aumentou umas décimas.
Mas já há muito que a Italia anda a fazer trapézio na corda com dívida mais de 100%.
Tal como em Portugal,Espanha, Grécia...foram os eleitores e a ideologia que eles têm.
E como se verá segue-se França, UK, USA... Todos eles com dívida perto dos 100%. O UK e USA principalmente o primeiro já está a inflacionar tirando riqueza aos cidadãos.
.
*Nenhum país está arruinado para a maioria basta regressar aos gastos dos anos 90. Não consta que fosse uma década desgraçada.
O que acontece é que ninguém quer perder a riqueza proporcionada pela bolha do crédito.
Aqueles que falam contra a suposta especulação são aqueles que mais querem manter os resultados dessa suposta especulação.
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De Rui Rocha a 09.11.2011 às 21:51

Lucky, concordo que a performance de Sócrates, em termos de escalada da dívida é praticamente imbatível. Os dados apontam para uma dívida em Itália de 118,4% do PIB em 2010 (103,9% em 2004). A falta de credibilidade de Berlusconi é uma evidência. Nem em Itália, nem na Europa alguém acreditava que ele fosse capaz de controlar as contas públicas. Quanto à ruína ética da "democracia Berlusconi" não há grande coisa a acrescentar.
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De Carlos Cunha a 09.11.2011 às 20:45

procurei ver no seu post algo que mostrasse a diferença entre berlusconi e os seus antecessores no cargo, em itália, para além da "permanência consecutiva", bem mais longa. não encontrei.
sobre a dívida pública italiana, a tal que provoca toda esta crise que derrubou berlusconi, o RR não diz uma palavra, porque não tem nada para dizer: em 2000 era de 109% do pib italiano, agora é de 118%, mesmo com a crise de 2008 pelo meio.
concordo que a vida dele vai dar um grande filme, bem apimentado e bem mais interessante para o grande público que aqueles que foram feitos sobre aldo moro e giulio andreotti, como o RR se esforçou por mostrar.
em suma, um post que em nada desmerece de uma crónica de um repórter da "caras". só faltou uma foto à medida.

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De Rui Rocha a 09.11.2011 às 21:42

Carlos,

1 - Os seus números são correctos. Nada contra, nesse aspecto.
2 - O facto de o que está antes ser péssimo não desculpa que o que vem depois seja igual. O longo período de permanência (intermitente, é certo) aumenta-lhe a responsabilidade.
3 - Ao longo desse tempo, as contas públicas mantiveram-se sempre no limiar da insustentabilidade, ou seja, da irresponsabilidade. Qualquer abanão é mortal.
4 - Azar. Como terá percebido, o meu guião era outro.
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De André Miguel a 09.11.2011 às 22:08

Misture umas pitadas de desregulação financeira, junte-se-lhe umas gramas de socialismo, adicione demagogia a rodos, polvilhe promessas a troco de nada sobre um povo estupidificado et voilá! Eis as lideranças políticas que refere.
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De jj.amarante a 10.11.2011 às 01:36

Em vez de "democracias ditas avançadas" eu diria "democracias recentes", qualquer uma delas tem pouco mais de 30 anos e a da Madeira é um bocado limitada.
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De lucklucky a 10.11.2011 às 03:06

Nada diferente do passado. A qualidade da liderança não é especialmente pior.
As lideranças de "Sócrates, Jardim, Zapatero, Karamanlis, Papandreou e Berlusconi" e incluíndo Blair-Brown, Bush-Obama(a duplicar) não são diferentes das anteriores.
Neste caso pode-se dizer que interligação económica e comunicacional-cultural fazem os políticos adoptarem as mesmas modas políticas e as a crises tenderem a aparecer ao mesmo tempo.O que as torna piores.*
.
Vamos por exemplo lembrar o "Grande Líder" Mitterrand que levou a França á quase bancarrota nos anos 80 - mesmo 3 desvalorizações do franco para o impedir- após o programa esquerdista falhado não chegou.
http://fr.wikipedia.org/wiki/Programme_commun

Em 83 chegou a viragem de 180º pelo mesmo PSF...:
Política de rigor ou por outras palavras "austeridade"
http://fr.wikipedia.org/wiki/Tournant_de_la_rigueur
.
Veja-se aqui o nosso conhecido elogiado por qualquer jornalista acrítico da nossa praça Delors :
http://www.ina.fr/fresques/jalons/fiche-media/InaEdu00151/le-tournant-de-la-rigueur-sous-le-gouvernement-mauroy.html
O "Grande Líder " Delors então Ministro das Finanças a dizer isto:
"Nous ne pouvons pas continuer à consommer plus que nous produisons, à acheter plus que nous ne vendons à l'étranger. Depuis trois, quatre ans, la France est dans cette situation. Il faut que cela change, et vite."
.
Lembra alguma coisa dos dias de hoje?
.
E o "Grande Líder Delors também disse isto:
"le plus important, c'est d'acheter français, d'acheter des produits français, d'acheter des services français."
.
Belo Europeísmo...
.
* Por exemplo bastava a crise Sueca, Finlandesa dos anos 90 ter-se juntado a esta e estaria tudo ainda em pior estado.

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