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É um truque característico de uma certa retórica política, recorrente no debate público português: desvaloriza-se quem pensa de forma diferente e atribui-se-lhe uma intenção que está longe de corresponder ao seu pensamento. Habituei-me há vários anos a ler com proveito as reflexões do Sérgio Lavos, mesmo quando discordava dele, e é por isso com alguma surpresa que o vejo recorrer também àquele truque a propósito do que o Rui Rocha e eu escrevemos sobre a gravíssima crise grega. Garante que pretendemos "apontar o dedo a quem mais sofre com o austeritarismo imposto por Merkozy" e recomenda-nos "bom senso". Nem mais.

Mas vamos ao que interessa. Na sua réplica, o Rui Rocha acerta em cheio ao escrever isto: "O Estado Social, na Grécia, não é mais do que um expediente utilizado pelos políticos para calar os cidadãos e utilizado por certos cidadãos como desculpa para absolver os políticos. O Estado promete o que não tem e dá a quem não deve dar, comprando o silêncio e o compromisso daqueles que furam o sistema como podem, recebendo, em prejuízo de outros, aquilo a que não têm direito." Faz-me aliás cada vez mais confusão ver pessoas inteligentes, como o Sérgio Lavos, ostentarem uma atitude de total complacência perante todos quantos se aproveitam do modelo social europeu para o perverter, levando-o à falência.
Não há modelo social europeu numa Europa falida. Quem defende um 'estado social' deve defender, no mesmo passo, finanças sólidas. Perante o actual "Inverno demográfico" e os anémicos índices de crescimento económico hoje existentes, deixou de ser possível encarar com aquela complacência a gigantesca rede de fraudes que desvia sem remissão o 'estado social' dos seus fins legítimos.
Eu defendo o modelo social europeu. E, por isso mesmo, não consigo encarar essas fraudes com a benevolente tolerância adoptada pelo Sérgio. A questão de fundo é esta -- e não qualquer outra.
Quanto à Grécia -- país que ostenta o nada invejável título de recordista europeu da fraude fiscal -- não esqueçamos outro facto relevante: o Governo de Atenas mentiu às instituições europeias sobre o estado real das suas finanças públicas. Violando o direito comunitário. E violando, antes disso, todos os parâmetros éticos que devem reger as relações entre Estados num mundo civilizado. Sem reconhecermos isto, parece-me, todo o debate em torno da crise grega está inquinado logo à partida.

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18 comentários

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De Carlos Faria a 09.11.2011 às 00:13

Vi o desafio lançado e andei atento às respostas, faz-me impressão quando alguma esquerda não reconhece erros que lhes convém e é muito cáustica para aqueles que lhes dão jeito.
Mas o fundamental está escrito no título deste artigo e é preciso que todos aqueles que vociferam contra reformas para manter a situação atual comecem a interiorizar isso, para ver se no reconhecimento do problema se encontra de facto a melhor solução para o estado social que desejamos.
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De Pedro Correia a 09.11.2011 às 18:23

Terão de ser encontradas soluções novas para um novo quadro político global, Carlos. Na última década alterou-se a lógica das relações internacionais, com uma clara perda de peso da Europa. O modelo social europeu ressente-se disso. Temos, portanto, de ser mais rigorosos que nunca na aplicação de verbas públicas.
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De Teresa Ribeiro a 09.11.2011 às 00:39

Pois, não há argumentos que possam alguma coisa contra isto. O que não quer dizer que se deva desistir da ideia. Sair da crise passa por recuperar o Estado social, talvez a maior conquista da nossa civilização.
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De Pedro Correia a 09.11.2011 às 18:26

O chamado 'estado social' só subsistirá se for devidamente financiado para o efeito, Teresa. Os gigantescos níveis de evasão fiscal que se registam na Grécia tornam inviável a aplicação desse modelo. Não é uma questão de opinião - é uma questão de facto.
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De João André a 09.11.2011 às 08:29

As fraudes são chatas, muito chatas. Mais ainda são quando não são propriedade exclusiva de gregos que mesmo com a teta do estado mal ganham para viver. Os alemães, por exemplo, têm aquele hábito engraçado de, após se reformarem (habitualmente mais cedo que os sul-europeus, ao contrário do que pensam), venderem a casita lá de Paderborn e comprarem um apartamentozinho de um quarto perto de Frankfurt-Hahn ou Hannover para usarem como morada oficial ao se mudarem de armas e bagagens para Maiorca. A morada oficial mantém-se para poderem receber a pensãozinha enquanto mudam de país. No país da reforma, abrem um negóciozito (se lhes apetecer) com o qual se entretêm umas horas por dia e gozam os últimos anos no recato do sol.

Não conheço ninguém nesta situação, mas tive colegas a garantirem-me que os pais fizeram isso. Esta seria mais uma situação de integração europeia, mas não necessariamente subordinada à Alemanha. Que não é a vestal da história.
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De Pedro Correia a 09.11.2011 às 18:28

Se a Grécia não receber já oito mil milhões de euros de assistência financeira de emergência não haverá dinheiro para salários em Dezembro. É uma dura verdade, eu sei. Mas não deixa de ser verdade por ser tão dura.
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De José António Abreu a 09.11.2011 às 09:09

Clap, clap.
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De Helena a 09.11.2011 às 09:40

Assino por baixo. Excelente post.

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De Pedro Correia a 09.11.2011 às 18:28

Obrigado, Helena (e JAA).
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De singularis alentejanus a 09.11.2011 às 09:53

E o nosso querido e amado rectângulo? Os mafiosos italianos já estão a anos-luz atrás de nós.
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De lucklucky a 09.11.2011 às 15:00

O Estado Social não está na bancarrota por causa de falcatruas. Isso são peanuts.
O Estado Social está na bancarrota porque corrompe pela sua natureza.
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De Pedro Correia a 09.11.2011 às 18:30

O "estado social" cai na bancarrota quando é mal gerido. Isso sucede na Grécia. Mas não sucede em países como a Holanda, a Finlândia, a Suécia, a Noruega ou a Dinamarca.
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De Maria Cavalcanti a 10.11.2011 às 07:16

Estado social, na Grécia? Na Grécia, o Povo da Grécia já não tem mais sequer direito à vida, muito menos ao chamado 'estado social'. O Povo da Grécia, estando agora abaixo dos direitos dos animais, tem apenas três saídas: a) - sair da Grécia, como já estão fazendo milhares de gregos, todos os meses e emigrar para países humanos; b) - pedir socorro às Forças Armadas da Grécia e, caso essa ajuda lhe seja negada...; c) - governar a sí mesmo, diretamente.
Criar as Assembléias dos Direitos Humanos e Legais do Povo de Hellas. Cada Assembléia constituída por no máximo 500 helenos, no mínimo por 3, abrangidos todos os habitantes maiores, capazes, homens e mulheres, jovens e idosos, ninguém excluído, em cada vila, aldeia, cidade e ilha de Hellas. Cada Assembléia agindo na qualidade de Tribunal de Direitos Humanos e Legais do Povo de Hellas, quando necessário for. Cabe assim, a cada Assembléia e, portanto, a cada cidadão de Hellas em pessoa, determinar os atos legais do soberano Povo de Hellas [Grécia].
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De Pedro Correia a 11.11.2011 às 00:40

E tudo isso será pago com quê, Maria? Com dracmas? A chatice é que o Povo de Hellas prefere o euro. Hélas.
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De l.rodrigues a 10.11.2011 às 12:49

Como acho que fui também erradamente interpretado como tendo especial tolerância para com a fraude no estado social, cá estou a enfiar a carapuça.

E a recomendar-lhe um breve post onde se desmonta um pouco a aritmética das reformas e do "Inverno Demográfico" de que fala. Ou pelo menos se acrescenta o que falta a uma discussão séria.

http://www.cepr.net/index.php/blogs/beat-the-press/planet-money-is-off-the-planet-on-demographics-and-retirement

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De Pedro Correia a 11.11.2011 às 00:43

Admiro a persistência que revela na defesa das suas teses. Lamento, mas mantenho-me também na minha: não há segurança social pública sustentável com taxas demográficas reiteradamente negativas (sinal de alarme: Portugal tem o segundo mais baixo índice demográfico europeu, logo a seguir à Bósnia).

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De l.rodrigues a 11.11.2011 às 12:44

Eu admiro-me com a sua persistência em ignorar os factos... Deu-se sequer ao trabalho de ler o texto? Pode indicar-me quais os erros que contém? Obrigado.

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De Pedro Correia a 12.11.2011 às 15:03

Fica a expressão da admiração mútua. Lamento, mas o meu ponto não é esse em que você insiste e eu gosto de me concentrar no essencial.

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