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No lugar dos gregos

por Rui Rocha, em 08.11.11

A propósito deste post e deste, o Sérgio Lavos convida-me e ao Pedro Correia a lermos umas cartas trocadas entre um alemão e um grego em que estes discutem as dívidas e queixas mútuas dos respectivos países. É um exercício que faço com gosto. Mas, antes de mais, é importante esclarecer que a discussão só tem interesse se admitirmos que ela tem um fundo ético. Não me revejo naqueles que defendem que a política e a ética são como a água e o vinho: não se misturam. Aliás, a própria ideia de Estado Social tem um acentuada dimensão ética, estando fortemente ancorada em valores como a solidariedade e a coesão. Aqui chegados, importa realçar que o que está em causa nos referidos posts é um juízo sobre uma realidade que o Sérgio Lavos não questiona. Um comportamento abusivo, reiterado, maciço, profundamente lesivo de um vasto conjunto de cidadãos gregos relativamente a uma instituição fundamental como é a Segurança Social. Estamos a falar de factos. Como são factos a sucessão de desastres morais, éticos e de gestão da política grega. Aí temos, para quem quiser ver, o documentário Debtocracy que constitui uma interessante descrição do comportamento do poder político nos últimos 40 anos (deixando claro que o que ali está presente é uma visão de sentido único que não partilho integralmente nem no diagnóstico, nem nas soluções). O que nos leva ainda a uma conclusão: o Estado Social, na Grécia, não é mais do que um expediente utilizado pelos políticos para calar os cidadãos e utilizado por certos cidadãos como desculpa para absolver os políticos. O Estado promete o que não tem e dá a quem não deve dar, comprando o silêncio e o compromisso daqueles que furam o sistema como podem, recebendo, em prejuízo de outros, aquilo a que não têm direito. Não estamos a falar das ineficiências próprias e típicas de qualquer sistema. A dívida colossal da Grécia aí está.  A total falsificação das contas públicas gregas na adesão ao Euro, a mistificação levada a cabo pelo Partido da Nova Democracia (de direita) relativamente aos défices até 2009 aí estão. Os números da arrecadação fiscal são totalmente anormais, deixando claro que a evasão fiscal é uma prática instituída. Os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social aí estão também. Neste, bem recente, a Grécia aparece em último lugar entre 44 países, situação que compromete gravemente o futuro dos gregos. Acredito que há uma enorme maioria de gregos decente e honesta cujo esforço está a ser completamente minado pela matilha que saqueia o Estado grego e os seus recursos em proveito próprio. Ponho-me no lugar deles. Estaria, naturalmente, muito preocupado com a necessidade de equilíbrio e justiça nas relações políticas e económicas com a Alemanha e com a UE, exigindo a afirmação integral dos direitos gregos. Todavia, muito antes disso, exigiria ao meu país, às suas instituições, aos seus políticos e aos cidadãos no seu conjunto um comportamento decente e orientado pelo bem comum e pelo interesse da nação. Instituições fortes, políticos credíveis e cidadãos exigentes são condições indispensáveis à afirmação de um país na cena internacional. É isso que tem faltado à Grécia e, em certa medida e para o que nos interessa, a Portugal. E é essa a brecha por onde também se esvai a viabilidade do Estado Social.

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13 comentários

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De sampy a 08.11.2011 às 18:08

E para aqueles que se amofinam com o moralismo judaico-cristão e com o individualismo luterano-calvinista: valeria a pena reflectir um pouco sobre os malefícios de uma religião liturgicista (Grécia) ou devocionalista (Portugal), oportunisticamente colada ao poder político. Mesmo que, reconheça-se, tenha sido no passado a alma da nação...
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De Rui Rocha a 08.11.2011 às 23:49

É um excelente ângulo de análise, Sampy. Embora nos arrisquemos a abrir uma verdadeira guerra.
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De Monti a 08.11.2011 às 19:20

"o Estado Social, na Grécia*, não é mais do que um expediente utilizado pelos políticos para calar os cidadãos e utilizado por certos cidadãos como desculpa para absolver os políticos"
* Ou em Portugal,
quando revejo os Quinze magníficos de há dias no Expresso; os 400 maiores da lista de pensionistas vitalícios; os exemplares da cultura dos Varas & Cia.
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De Rui Rocha a 08.11.2011 às 23:50

Pois daí a necessidade de não deixar passar em claro a situação da Grécia, Monti. Pelos piores motivos, esta crise pode ser uma oportunidade única de limpar a casa.
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De João Carvalho a 08.11.2011 às 19:29

Há qualquer coisa no Sérgio Lavos que me faz lembrar a 'Visão'. Não sei se é aquilo do "tenha uma".
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De Rui Rocha a 08.11.2011 às 23:52

Se entretanto chegares a conclusões, por favor partilha, João.
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De Pedro Correia a 08.11.2011 às 19:42

Tocas no ponto exacto, Rui. Quando mencionas o «comportamento abusivo, reiterado, maciço, profundamente lesivo de um vasto conjunto de cidadãos gregos relativamente uma instituição fundamental como é a Segurança Social». Faz-me cada vez mais confusão ver pessoas inteligentes, como o Sérgio Lavos, ostentarem uma atitude de total complacência perante todos quantos se aproveitam do modelo social europeu para o perverter, levando-o à falência.
Não há modelo social europeu numa Europa falida. Quem defende um 'estado social' deve defender, no mesmo passo, finanças sólidas. Perante o actual "Inverno demográfico" e os anémicos índices de crescimento económico hoje existentes, deixou de ser possível encarar com aquela complacência a gigantesca rede de fraudes que desvia o 'estado social' dos seus fins legítimos.
Eu defendo o modelo social europeu. E, por isso mesmo, não consigo encarar essas fraudes com a benevolente tolerância adoptada pelo Sérgio. A questão de fundo é esta - e não qualquer outra.
Quanto à Grécia - país que ostenta o nada invejável título de recordista europeu da fraude fiscal - não esqueçamos outra relevante questão de fundo: como sublinhas, o governo grego mentiu às instituições europeias sobre o estado real das suas finanças públicas. Violando o direito comunitário. E violando, antes disso, todos os parâmetros éticos que devem reger as relações entre Estados num mundo civilizado.
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De Rui Rocha a 08.11.2011 às 23:52

Disseste tudo, Pedro.
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De João Pedro a 08.11.2011 às 23:11

O problema é que o que havia na Grécia (onde a corrupção é assustadora, com níveis que nós aqui, no país que abusa da cunha e do compadrio, não imaginamos) não era um estado social: era um estado-teta. E entre os dois há um mundo de diferenças.
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De Rui Rocha a 08.11.2011 às 23:53

Tal e qual, João Pedro. Com a particularidade de a teta ter secado.
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De José António Abreu a 09.11.2011 às 09:13

Bati palmas lá acima ao Pedro mas faço questão de o fazer de novo aqui: excelente, Rui. É isto mesmo.
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De Rui Rocha a 09.11.2011 às 18:26

Ah, obrigado, Jaa.
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De Maria Cavalcanti a 10.11.2011 às 05:35

Povo da Grécia! A conta do imposto genocida chegou! NÃO PAGUEM!

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