Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Estou a ler Uma Mentira Mil Vezes Repetida (2)

por José António Abreu, em 07.11.11
A Ivone passou-me a bola mas, na altura, eu nem me dei conta, o que suponho constituir prova suficiente de que o mecanismo de defesa que me permite não ver indicações cujo objectivo seja fazer-me trabalhar mais está a funcionar correctamente. (Nota: trata-se mesmo de não ver e não de fingir não ver, que isso seria batota.) Ainda assim, não escapei ao repto e, porque no 'Delito' o alfabeto começa onde um homem (ou, neste caso, uma mulher) quiser (para grande alívio do Adolfo, que já admitiu ter ficado farto de ser o primeiro a ser chamado na escola), cabe-me continuar a série de textos sobre os livros que cada um de nós anda a ler.

 

Ora bem, estou a ler pelo menos três mas dois de forma irregular: Os Crimes dos Viúvos Negros, de Isaac Asimov, livro que há uma semana e tal me fez passar uma vergonha na Fnac, e Mortes Imaginárias, de Michel Schneider. Sendo formados por textos curtos e independentes (contos no primeiro caso, ensaios no segundo), vou-lhes pegando quando acabo outras obras. Quanto ao terceiro livro, aquele que estou verdadeiramente a ler no momento, é Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo. Peguei-lhe na Sexta-Feira, cumprindo uma promessa feita dias antes a mim mesmo de que, acabado o livro que então estava a ler, a minha próxima leitura sairia de um montinho na minha mesa da sala com quatro obras recentes de autores portugueses contemporâneos: Uma Mentira Mil Vezes Repetida; O Retorno, de Dulce Maria Cardoso; Quando o Diabo Reza, de Mário de Carvalho; e Por Este Mundo Acima, da minha colega delituosa Patrícia Reis (já agora, façam-me o favor de manter em segredo o facto de eu ainda não ter lido o livro dela, ok?). Por que escolhi a do Marmelo? Hmmm, querem mesmo saber? Os que responderam «não» façam o favor de se mudar imediatamente para o Arrastão ou para o Blasfémias. Os restantes merecem a verdade: tenho um fetiche por chapéus de coco desde os tempos em que Mr. Steed era tão cool usando um que conseguia ter Mrs. Peel como parceira (estranhamente, a minha relação com os guarda-chuvas é cem por cento impessoal ou até um pouco antagónica).

 

Mas basta de falar de mim. Do que trata Uma Mentira Mil Vezes Repetida, se é que a ficção trata alguma vez de alguma coisa? Tão simples que se conta numa frase: trata das histórias escritas por Marcos Sacatepequez, um autor do Belize que levou à falência todas as editoras que o publicaram e cujo corpo sem vida andou a passear pelo mundo em resultado de um conflito legal entre a viúva e o governo da Guatemala antes de desaparecer em parte incerta, e também de acontecimentos da vida de Albrecht, um marinheiro flamengo que se julga amaldiçoado depois de partilhar um navio com o cadáver de Sacatepequez, e ainda do facto de um e outro serem personagens de Cidade Conquistada, a monumental obra de Oscar Schidinski, um desconhecido escritor húngaro que em fuga ao nazismo terá passado por Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial antes de também ele desaparecer num navio efectuando a travessia do Atlântico (a menos que, como alvitra Afonso Cão, um mendigo de Gondomar que o conheceu em Lisboa, tenha ido para a Argentina e ficado famoso com o nome de Jorge Luis Borges), e ainda da circunstância de Cidade Conquistada e o seu autor serem afinal obra de um portuense que aproveita o tempo de que dispõe na sequência da generosa reforma por invalidez que, aos trinta e seis anos de idade, lhe foi atribuída em resultado de uma grave doença de pele causada pelo «implacável stresse do funcionalismo público» para se sentar nos transportes públicos agarrando um volumoso calhamaço de mil e duzentas páginas com o título Cidade Conquistada, que ele próprio encheu de textos avulsos retirados da internet (entre os quais um de Borges) e mandou depois encadernar, o qual lhe serve de pretexto para meter conversa com os outros passageiros, a quem conta episódios da vida de Schidinski e histórias de Sacatepequez (como a excelente O homem-zebra, pretensamente incluída em Cidade Conquistada e que abre Uma Mentira Mil Vezes Repetida), salientando quão injusto é um escritor de tal calibre permanecer desconhecido da maioria do público, tudo na esperança de, incapaz de escrever um livro de sucesso ele mesmo (apesar de algumas brilhantes ideias tidas no passado mas antecipadas por escritores como José Saramago e Almudena Grandes), acabar por se tornar num intelectual famoso, convidado para colóquios e programas televisivos como especialista maior num autor monumental e enigmático. (Ponto1: Eu não garanti que se explicava numa frase? Ponto 2: Não é curioso como essa frase, oficialmente a mais longa que alguma vez escrevi, parece acabar cedo demais? Uma pessoa começa a ler, activa o regulador de velocidade e depois está distraída quando é preciso travar...) Ah, só mais um pormenor: tudo isto (o portuense nos transportes públicos, o livro do autor húngaro e as personagens desse mesmo livro) é afinal obra de um portuense, Manuel Jorge Marmelo, que anda há meses a colocar no seu blogue crónicas de viagens de autocarro pela cidade do Porto.

 

Confusos? You won't be, after this week's episode of... Soap. (Credo, duas referências a séries televisivas de culto no mesmo post. Ainda bem que miúdos com menos de trinta anos não lêem textos deste tamanho ou entrariam em parafuso.) A verdade é que, lendo o livro, torna-se fácil distinguir os vários planos e isto constitui um elogio tanto à forma como ele se encontra estruturado como escrito. Uma Mentira Mil Vezes Repetida encaixa-se naquela corrente literária em que, por inserção de vários níveis de ficção, e pelo modo como esta se intercala com e sobrepõe à realidade (também ela parcial ou totalmente ficcionada), se questiona o papel da literatura na vida comum, e cujos expoentes máximos são gente como Jorge Luis Borges (obviamente, mencionado no livro de forma nada acidental), Italo Calvino, Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño. Terceiro livro de Manuel Jorge Marmelo que leio (após Os Fantasmas de Pessoa e As Sereias do Mindelo), Uma Mentira Mil Vezes Repetida ameaça ser o melhor. Porém, encontrando-me apenas a meio, não posso emitir um juízo concludente nem contar-vos como acaba. Posso apenas desejar que o narrador não se veja afectado pelo anunciado corte de linhas nos transportes públicos.

 

E agora cabe-me passar a vez. O que é que andas ler, José Gomes André

  

Marmelo, Manuel Jorge Uma Mentira Mil Vezes Repetida

Quetzal Editores (2011)

Col. Língua Comum

ISBN 9789725649725

(Nota: Apesar de ser uma edição da Quetzal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida encontra-se em português.)

Autoria e outros dados (tags, etc)


15 comentários

Imagem de perfil

De Patrícia Reis a 07.11.2011 às 19:52

Jaa: ando a ler O amor é para os parvos do teu autor de eleição (já li a Dulce Maria e o Mário de Carvalho. A tal de Patrícia não sei quem seja:)) Não li do Manuel Jorge Marmelo este que recomendas e procurar. No entanto, fiquei com a questão pendurada (eu que sou louca por ficção científica e que tive uma adolescência de Asimov - ah, a Fundação - e afins) qual foi o embaraço na livraria à conta de tão distinto senhor? Beijo P (se for passível de ser partilhado, claro está!)
Imagem de perfil

De José António Abreu a 07.11.2011 às 20:19

Autor de eleição é um bocadinho exagero mas está bem.

Ainda bem que não sabes quem é a Patrícia porque ela é uma rapariga com uma faceta muito negra - a ponto de inventar personagens mergulhadas numa tal solidão que conseguem ouvir o corpo a envelhecer. (A frase é magnífica, by the way.)

Este livro do Asimov não é ficção científica - são doze contos policiais mais ou menos à moda antiga: há um clube de cavalheiros que se reúne para jantar uma vez por mês, sendo que um dos membros tem de levar um convidado que acaba por dar origem a um mistério, o qual é resolvido através da inteligência e bom-senso... do empregado do clube. Quanto ao embaraço, é só seguires o link em "uma vergonha na Fnac"; além de Asimov, mete Philip Roth e pistolas Glock. (Não andas a ler o 'Delito' com regularidade, hein?)

Beijinho.
Imagem de perfil

De João Campos a 07.11.2011 às 22:43

Sobre o Asimov e a Fundação já escrevi aqui há tempos. É bom saber que não estou sozinho nas minhas leituras :)
Imagem de perfil

De Adolfo Mesquita Nunes a 07.11.2011 às 20:34

Comecei ontem o Asimov, por acaso!
Imagem de perfil

De José António Abreu a 07.11.2011 às 20:44

Hmmmm, verificaste bem se não tens qualquer incompatibilidade em relação à editora? Ou ao próprio Asimov? ;-)
Imagem de perfil

De Adolfo Mesquita Nunes a 07.11.2011 às 21:54

Claro.
Um bom leitor é aquele que nunca leu nada, nunca foi influenciado por nada e não conhece ninguém: só isso garante que ele conseguirá ler devidamente o livro.

E depois de o ler, pode continuar o encargo, com outros livros? Claro que não. Uma vez lido um livro, qualquer outro livro seria lido à luz do primeiro livro, usado para comparar com o primeiro livro, sujeito aos interesses do primeiro livro.

;)
Imagem de perfil

De João Campos a 07.11.2011 às 22:39

Já agora, Adolfo, que livro do Asimov estás a ler?

(pergunta do geek de serviço)
Imagem de perfil

De Adolfo Mesquita Nunes a 07.11.2011 às 22:46

Os Crimes dos Viúvos Negros, precisamente. Nada de sci-fi :)
Gosto muito de whodunnits, embora quase nunca os consiga encontrar fora dos clássicos. E disseram-me, assim a modos que a jurar, que eu ia gostar deste.
Imagem de perfil

De João Campos a 07.11.2011 às 22:51

Por acaso esse ainda não li - do Asimov, tenho ainda uma longa lista de sci-fi que, haja tempo, há-de vir cá parar. Mas se os policiais forem tão bons como a ficção científica, então temos obra.
Imagem de perfil

De Ivone Mendes da Silva a 07.11.2011 às 20:41

Não deste conta porque não lês os meus posts, essa é que é a verdade!
Imagem de perfil

De José António Abreu a 07.11.2011 às 20:51

Não é. A verdade (juro pela alminha do narrador do livro do Marmelo) é que eu li Mecânica da Ficção há cerca de ano e meio, em inglês (como poderás comprovar pelos excertos que à época coloquei no meu blogue - links abaixo). E, por isso, quando cheguei ao excerto, li-o na diagonal e (pronto, isto confesso) falhei as últimas linhas que escreveste. Se bem que quase pudesse jurar que foi só mesmo a última...

http://escafandro.blogs.sapo.pt/183251.html
http://escafandro.blogs.sapo.pt/154275.html
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 07.11.2011 às 22:53

Já namorei este livro duas vezes na livraria. Quando li a sinopse fez-me lembrarO Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 08.11.2011 às 08:26

Não tinha pensado nisso mas tens alguma razão. Embora Joe Gould preenchesse muitos cadernos com as mesmas histórias (ou história? Já não me lembro) e o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida assumiu que não está para ter o trabalho de sequer tentar escrever. Só fez o esforço de composição do livro a partir dos textos da net e agora inventa tudo. Digamos que é voluntarista na sua inércia - no fim de contas, é português. Mas, como o livro é narrado na primeira pessoa (ao contrário de O Segredo de Joe Gould), a ironia está em que vai compondo um belo livro.
Imagem de perfil

De Patrícia Reis a 08.11.2011 às 19:46

Jaa, pronto, pronto. Já percebi tudo. Eu leio o Delito, leio todos os dias, tive uma temporada de ausência mas que, felizmente, já terminou. Já entendi:) E vou ler esse policial! Beijos
Sem imagem de perfil

De João Pedro a 09.11.2011 às 01:07

Vi o Jorge Marmelo sair do café ao lado de minha casa, na semana passada. Como sou assíduo dos STCP, temo já ter servido de objecto (ou de ideia para isso) às suas crónicas dos autocarros. Ainda me hei de reconhecer numa delas. queria Deus que não! Quanto ao livro, já o folheei é realmente é Borgeano até à medula.

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D