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Papadeu

por Rui Rocha, em 07.11.11

O até hoje Primeiro-Ministro grego e Antonio Samaras, líder do principal partido da oposição (Nova Democracia), chegaram finalmente a acordo para a formação de um novo governo na Grécia. Trata-se de um executivo de transição que tem como única missão assegurar a concretização do plano de resgate negociado com a UE na última semana de Outubro e a posterior realização de eleições. Trata-se de uma derrota em toda a linha de George Papandreou que se viu obrigado a aceitar a condição essencial para que o acordo se concretizasse: o seu próprio abandono das funções de Primeiro-Ministro. Para além disso, a sua decisão irreflectida e temerária de anunciar a convocação de um referendo, que alguns chegaram a considerar uma magistral jogada política, esgotou a paciência dos parceiros europeus. Agora, estes não se coíbem de se pronunciar publicamente sobre assuntos internos da política grega. A jogada de Papandreou, ao contrário de permitir à Grécia encontrar um caminho mais airoso para enfrentar a crise que atravessa, veio acentuar a profunda degradação do país, a sua absoluta dependência da boa vontade dos credores e a consequente perda de soberania com a correspondente humilhação. Mais, a solução política desesperada a que deu origem é, ela própria, muito periclitante. Por um lado, o entendimento obtido esgota-se na operacionalização do novo plano de resgate. O eventual objectivo de promover um governo de salvação que pudesse garantir coesão política perante a emergência nacional não foi alcançado. Uma solução mais estável, aliás bastante improvável, só será possível na sequência de novo e próximo acto eleitoral, com toda a turbulência política que essa situação provoca. Por outro lado, os partidos mais radicais recusaram-se a integrar o governo de transição e já deixaram bem claro que a sua acção política será desenvolvida com o povo o que significa, em grego escorreito, que se fará na rua. Por ultimo, o único e inconfessado objectivo de Papandreou quando anunciou a intenção de convocar o referendo, o alijamento da responsabilidade política e o prolongamento da sua própria permanência no poder, fracassou de forma estrepitosa. Uma coisa é fazer bluff quando o jogo não é grande coisa. Outra, bem diferente, é fazê-lo quando já não se tem cartas na mão.

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18 comentários

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De Pedro Correia a 07.11.2011 às 00:52

Foi buscar lã e saiu tosquiado. Um dos maiores problemas da Grécia é a péssima qualidade da sua classe política. E nenhum me parece tão mau como este primeiro-ministro que fez cair bolsas e activos bancários por toda a Europa em 48 horas com a ameaça pública de um referendo que no fundo nunca esteve nos seus planos. Sai de cena pela esquerda baixa escassos dias depois de ter sido posto nos píncaros por alguns analistas portugueses, designadamente da área do BE e da ala minoritária do PS. Não é coincidência: são precisamente as duas facções políticas que mais têm vindo a recuar eleitoralmente em Portugal.
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 14:02

Dizes bem, Pedro. A Grécia trocou uma ditadura militar por uma democracia conduzida por políticos miseráveis. Nada a elogiar, portanto.
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De Javali a 07.11.2011 às 02:16

Confesso que, nos moldes como nos chegou aqui pelos jornais, logo após a notícia da substituição das chefias militares, me pareceu na altura uma boa jogada. Deu a ideia de que algo estava para acontecer e que o PM grego procurava um consenso social alargado para evitar uma rebelião generalizada. O outro lado, o de procurar limpar as mãos pela legitimação popular, evidente desde o início, não me pareceu tão "fdp" como me parece agora - tendo em conta que Papandreu parecia estar honestamente a querer evitar um mal maior. Foi assim que eu li, na altura. Continuo na dúvida sobre as suas verdadeiras intenções. Mas faltou-me ponderar, de facto, que a Grécia neste momento já não é bem um país independente - ou seria se por acaso votasse "não".
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 14:00

Caso em que recuperaria a soberania embrulhada na bancarrota, Javali.
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De Javali a 07.11.2011 às 14:18

Pois, lá está. É difícil avaliar se vão estar melhor ou pior se ficarem no Euro. Sair do Euro em bancarrota seria terrível, mas ia obrigá-los a recuperar rapidamente o seu sector produtivo e ganhar sustentabilidade, sei lá, em 2 ou 3 anos. Assim, vão arrastar-se numa degradação permanente, com uma dívida que cresce diariamente e que nem daqui a 50 anos conseguem pagar - sobretudo se continuarem a ser um país de serviços. O mesmíssimo problema que nós temos e que ninguém parece querer resolver.
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 14:21

Exactamente, Javali. Temos uma pequeníssima vantagem. Eles vão à frente 6 meses e vão-nos mostrando as paredes onde é melhor não bater com a cabeça. Não sei, em todo o caso, se nos servirá de muito.
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De J.M. Coutinho Ribeiro a 07.11.2011 às 12:54

De há uns anos a esta parte, tenho falado muitas vezes numa crise da Democracia. Houve quem risse das minhas perspectivas catastrofistas. Mas sempre entendi que o caso não era para rir. Tudo a começar, desde logo, pela nivelação da classe dirigente por baixo. A Democracia, que em teoria é o governo dos melhores, começou a ser o governo dos medíocres, daqueles que, com escola nas jotas partidárias, não tinham jeito para outra coisa que não fosse chegar ao poder a qualquer custo, gerindo-o com o menor custo possivel ecom o máximo rendimento pessoal. E quando - como tantas vezes - disse que se enganavam os portugueses quando pensavam que a Democracia era um dado adquirido, havia logo um batalhão que argumentava que somos um país da UE e, logo por isso, a nossa Democracia estava assegurada. Veja-se, agora. Um pouco por todo o mundo - por cá, também, agora - já a questão começa a ser suscitada. E, hoje, não tenho qualquer tipo de dúvida de que as ditaduras espreitam. A minha única dúvida é saber quem dará o primeiro passo. Pode ser a Grécia. Pode não ser. A classe dirigente internacional - a portuguesa também - é demasiado má para ser verdadeira. O resultado está à vista.
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 14:01

Uma democracia verdadeira dá muito trabalho, Joaquim. Parece que nos esquecemos disso.
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De Luís Reis Figueira a 07.11.2011 às 13:24

O que é que o homem tem na cabeça, do lado direito?
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 14:03

A lâmpada das ideias?
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De Alexandre Carvalho da Silveira a 07.11.2011 às 15:07

Permito-me discordar dos que aqui consideram que Papandreou perdeu, ou como escreveu o Pedro Correia "foi à lã, e saiu tosquiado".
Na minha opinião o ainda 1º ministro da Grecia fez o que fez por duas razões: 1ª partilhar a responsabilidade dos cada vez mais violentos programas de austeridade que a Europa exigia a troco dos emprestimos que a Grecia precisa com o maior partido da oposição; 2ª por-se ao fresco, porque ele acha que ainda tem um futuro politico na Grecia, e mais uns meses, teria que sair pela porta dos fundos para nunca mais regressar.
Ora os ultimos acontecimentos deram-lhe razão: vai formar-se um governo de coligação Pasok/Nova Democracia, e até conseguiu que para isso exigissem que ele abandonasse o governo.
Papandreou pensa, e afirmou-o varias vezes, que não foi ele que trouxe a Grecia para a bancarrota, portanto não tem que ser ele a exigir os inerentes sacrificios aos gregos; portanto ganhou em toda a linha, e agora presumo que vá de ferias, e assista às cenas dos proximos capitulos na sua casa de ferias numa qualquer ilha grega.
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De IsabelPS a 07.11.2011 às 16:22

Nesta altura do ano eu diria que se vai antes passear pelo Faubourg St Honoré e talvez, quem sabe, encontrar-se com um ex-colega para um café crème no Deux Magots.
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 18:32

Não sei se a velha Paris aguenta tanto refugiado deste calibre, Isabel.
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De zedeportugal a 07.11.2011 às 16:30

Se fosse pessoa de apostas, apostaria que ele vai sair do país durante uns tempos.
Mas prefiro fazer como o meu paizinho sempre me disse: que teimasse mas não apostasse. ;)
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 18:33

E eu também era capaz de apostar no mesmo sentido, Ze. Se não considerasse o conselho do senhor seu paizinho muito acertado.
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 18:31

Se o guião for esse que o Alexandre aqui traz (dar à sola), reconheço o sucesso de Papandreou.
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De zedeportugal a 07.11.2011 às 16:21

o alijamento da responsabilidade política
Claro.
o prolongamento da sua própria permanência no poder
Ná... Acho que, muito pelo contrário, ele estava mortinho por sair dali... vivo. ;)
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De Rui Rocha a 07.11.2011 às 18:34

Pois nesse caso, como já disse ao Alexandre, reconheça-se a mestria, Ze.

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