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fim de semana

por Patrícia Reis, em 05.11.11

A aldeia está vazia, a chuva vai e vem, os carros não passam, há cães que andam por aí e gatos que sabem onde encontrar comida. No café os homens lêem os jornais desportivos de há uns dias. Há bolo de bolacha. A lenha pesa horrores. Gosto do cheiro das pinhas. Pela milésima vez o miúdo vê os extra dos filmes do Senhor dos Anéis e eu já nem me importo. Gosto de ouvir o sotaque irlandês que o miúdo imita na perfeição. O cão não está ralado com o facto de Peter Jackson ter perdido muitos quilos (já o viram ultimamente?). Pouco importa. A dona Idalina explica-me que a operação às mãos não lhe serviu de muito, dói-lhe a perna esquerda, mas mesmo assim gere o pátio com papéis de letra desenhada, casa a, casa b, quem deve o quê. Havia uma aranha no quarto, mas o miúdo não a viu. Tem uma namorada mas não diz nada. Passeia o cão para falar com ela e isso comove-me. A discrição. Depois discute comigo sobre a vida em geral como se tivesse trinta anos e acaba numa risada qualquer, porque há sempre uma coisa que nos faz rir. Os telemóveis estão desligados. Ele não quer comer peixe. O irmão está com os amigos e não dá notícias. Não é a adolescência, é a aburrescência. Um dia passa. Até lá, teremos de ver como as coisas correm. O meu marido não está cá e eu tento não pensar nisso. Entro da papelaria e desisto de comprar jornais, não há uma notícia boa, uma única. Não me rala a bola de ouro do Cristiano Ronaldo, por isso nem os desportivos me animam. Leio nas gordas que a Câmara de Lisboa pensa em ter 4 dias de trabalho, para ver se poupa. Dei uma gargalhada interior (!) e não comprei nada. A senhora da papelaria não deve ter achado graça, mas é a vida. No Facebook bloqueei mais dois tipos, um por não entender metáforas, o outro por alinhar e eu pensei: olha que merda, mas eu conheço estes tipos? Fui ver. Um de Boston. Outro do Porto. Dizem eles que não se pode ler sem pensar, apenas porque disse que me ia desligar, não pensar, ler, ter um fim de semana descansado. E eles, muito espertos: é possível ler sem pensar? Se fossem à merda... foi o que pensei e estava já a escrever aqueles testemunhos a que chamo "educação social versão inútil para o século XXI" quando desisti. Ainda bem. Dar importância ao que tem importância. Liga uma amiga com um desgosto, a relação não está bem, ele amua, prega uma coisa, faz outra. Diz-me que é puto, que é da idade. Garanto-lhe que não, conheço muitos adultos que fazem o mesmo e que ainda por cima pregam alto e bom som que são tolerantes e cheios de amor para dar a terceiros. Cada vez tenho menos paciência para a sapiência dos iluminados teóricos. Gosto dos práticos. Comovo-me com o livro de José Luís Peixoto, um diário de dez anos de vida, textos soltos, textos da infância no Alentejo, sobre os filhos. Sim, é preciso pensar para ler, já sei. E vou pensando como ele dava a volta maior para não ser roubado e conseguir ir ao cinema ambulante, como tomava banho numa tina no pátio, como tinha medo da freira da catequese mas mentia pelos amigos. Adoro os nomes que enumera, os nomes do Alentejo. É preciso conhecer o Alentejo. Uma parte da minha família é alentejana, logo há ali, naquelas páginas, coisas que reconheço com enorme facilidade. Isso é bom.

Há bolos na caixa ali em cima. O Sol entra pelas janelas pequenas, janelas com cortinas de renda que a minha mãe fez. Podia ser outra coisa? Não. Assim é muito bom.

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