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A Grécia está a fazer tudo mal. Os gregos estão a fazer chantagem com os alemães e far-nos-ão o mesmo. Estamos numa fase de atribuição de culpas e não de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de uma austeridade violenta (por terem recebido dinheiro de bancos que não sabiam emprestá-lo), um contribuinte grego pode ter interesse em receber dinheiro da Alemanha – mas não tem obrigação de o fazer. Não foi ele que atribuiu créditos irresponsáveis.

 

2. O governo grego responde aos gregos. Se estes não quiserem receber financiamentos, ele não pode obrigá-los. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Papandreu nos obriga a interferir nos seus assuntos internos? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ressarcir os seus créditos, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber o que lhe é devido. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita o pagamendo devido, não geram impulsos de bom cumprimento. O cumprimento não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

Etc, etc, etc. É isto que acontece quando se faz política à moda judaico-cristã. Podemos passar para a fase seguinte, ou ainda é cedo?

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12 comentários

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De José António Abreu a 04.11.2011 às 11:49

1. Ah, a culpa é essencialmente (o advérbio é propositado) de quem empresta... Malandros. Os mesmos, aliás, que ainda seriam bem vistos se tivessem continuado a emprestar.

2. Totalmente de acordo. É possível que mais valha acabar com a palhaçada e começar a apanhar os cacos.

3. Ver 1.

E, apesar dos pontos acima, não sei bem porquê mas parece-me o melhor texto que já escreveste...
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De Luís M. Jorge a 04.11.2011 às 11:54

jaa, não esqueças isto: a "culpa" (para usar a tua virtuosa palavra) da crise financeira de 2008 foi MESMO de quem emprestou dinheiro. Agora estamos a viver as suas consequências.

E sim, modéstia à parte, está magnífico.
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De José António Abreu a 04.11.2011 às 12:13

Luís: o advérbio estava lá por uma razão - é óbvio que os bancos alemães ou de outros países, os fundos de investimento e os investidores particulares deviam ter parado de comprar dívida grega (e portuguesa) há muito tempo. Ainda assim, lembras-te do ultraje dos governos quando as agências de rating, tarde e a más horas, começaram a baixar os níveis dos países demasiado endividados? A ganância e a miopia dos banqueiros são iguais às dos políticos. Mas então deixemos os bancos falir. E a Grécia. E Portugal. E quem mais tiver de ser. Os que pediram a mais e os que emprestaram a mais. Depois cada governo actuará da forma que entender. Os alemães talvez os recapitalizem. Mas isso já será problema exclusivamente deles. Agora, enquanto quisermos receber dinheiro, devendo procurar negociar as melhores condições possíveis, não podemos agir como se as dívidas não fossem nossas só porque alguém nos emprestou o dinheiro para as contraírmos.
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De Luís M. Jorge a 04.11.2011 às 12:26

jaa, noto com satisfação que abandonaste a linguagem clerical. Agora sim, podemos conversar: o que eu proponho não são falências em série, são negociações equilibradas em que se definam prazos e formas de pagamento que permitam salvar e não afundar as economias envolvidas.

A Grécia, concordes ou não, serviu de "exemplo" nestes dois anos. Era preciso aplicar-lhe um "castigo" porque tinha "culpa". Tarde demais se verificou que a expiação grega também atingia a Alemanha.

Uma história triste de vistas curtas e mentalidade calvinista.
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De José António Abreu a 04.11.2011 às 12:50

Luís: só usei o termo "culpa" uma vez no post (no ponto 5) e nem sequer foi aplicado aos gregos. Quanto ao uso no primeiro comentário neste post, ok, aceito que "responsabilidade" seria preferível. Mas, já agora, um bocadinho de mentalidade calvinista talvez não nos fizesse mal para temperar a forma despreocupada como exoneramos responsabilidades. Mas essa é outra questão...

Creio que a Alemanha sempre percebeu que seria atingida. O que tem estado é a tentar ganhar tempo para os seus bancos suportarem as perdas. De tal forma que já aceitaram encaixar 50%.

Eu também preferia condições um pouco mais suaves - mas há uma coisa que, com elas ou sem elas, convinha percebermos: temos que reduzir as necessidades de financiamento e chegámos a um ponto em que o corte nos gastos (i.e., o empobrecimento) é inevitável. Mesmo que nos emprestassem o triplo do pacote actual, a metade dos juros actuais, não poderíamos manter o nível de vida que temos hoje. Não haveria crescimento económico suficiente (aliás, se fizéssemos como de costume, quase todo resultaria de investimento improdutivo). E isto não é - desculpa lá, vou tentar que seja a última vez - culpa dos alemães.
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De Luís M. Jorge a 04.11.2011 às 16:24

Lá vamos nós outra vez:

"(...) não poderíamos manter o nível de vida que temos hoje. Não haveria crescimento económico suficiente (aliás, se fizéssemos como de costume, quase todo resultaria de investimento improdutivo)."

Mas alguém disse que podíamos? Ando a chatear toda a gente com a despesa pública desde 2004, altura em que (e já o disse aqui) andava metade do país a pôr bandeirinhas à janela.

jaa, essa coisa de partires do princípio que alguém defende uma coisa absurda que não defendeu para depois atacar a posição absurda que imaginas é um bocado chata.

O que eu disse, e repito, é isto: 1. o pagamento de uma dívida não pode ser encarado como um castigo.
2. Se o fardo é excessivo tem de se aliviar o fardo e dar ao devedor condições de efectuar o pagamento.

Não é por razões éticas (que raio de mistura, essa da "responsabilização"), é por razões práticas e de sobrevivência.

Os gregos "portaram-se mal"? So what?
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De José António Abreu a 04.11.2011 às 16:57

So what os alemães têm de garantir que não o voltam a fazer. That's all.
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De zelisonda a 04.11.2011 às 13:45

“Uma história triste de vistas curtas e mentalidade calvinista.” A frase mais acertada que já ouvi acerca deste degradante espectáculo em que se tornou a dívida soberana.
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De lucklucky a 04.11.2011 às 16:50

"“Uma história triste de vistas curtas e mentalidade calvinista.” A frase mais acertada que já ouvi acerca deste degradante espectáculo em que se tornou a dívida soberana."

É na verdade a frase mais degradante e imoral de todas. É a que nos diz e garante e dá caução ao que aconteceu e vai voltar a acontecer que vai voltar a acontecer.
É a reacção tribal em vez da reacção civilizada: os erros corrigem-se não os repetindo.
E para isso é preciso um sentimento de vergonha.

Por exemplo se a reacção Portuguesa à nossa bancarrota dos anos 80 tivesse sido "vistas curtas e mentalidade calvinista" não estaríamos agora onde estamos.

O que a defesa da não moralidade e da não culpa dos que pedem emprestado - e são eles que conhecem melhor a sua situação -assegura é a repetição do erro.

É preciso culpa, vergonha e trauma.

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De Zelisonda a 04.11.2011 às 20:02

1.- Claro, Lucky. O importante é a moralização, o rebaixamento dos madraços do Sul, que por acaso integram o espaço que absorve 60% das exportações Alemãs. Importa apontar o dedo aos incorrigíveis, se possível com um pequeno entremez para gáudio do eleitor Alemão. Não resolveu nada, apenas agravou o problema, quiçá, de modo irreversível.
2.- A responsabilidade da questão pertence ao Norte e ao Sul ( sim para os adeptos do discurso moralista a Irlanda é do Sul…), atendendo a que quer uns quer outros cometeram erros crassos de avaliação. Dou de barato os erros colossais com a realização dos “eventos” a Sul e as vigarices feitas na “desorçamentação”. Mas não esqueço o apetite cego da Banca do Norte pela “generosa” remuneração das dívidas soberanas dos PIGS. Porcos, não é?
3.- “ É preciso culpa, vergonha e trauma.” É membro da Opus Dei?

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De Luís M. Jorge a 04.11.2011 às 16:50

Adoro gente que concorda comigo.

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