Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Da diferença entre interesse e obrigação

por José António Abreu, em 04.11.11

A Alemanha está a fazer tudo mal. Os alemães estão a humilhar os gregos e far-nos-ão o mesmo. Não estamos numa fase de atribuição de culpas mas de encontrar soluções em comum. Etc., etc., etc. Ora bem:

 

1. De modo a proteger a sua economia de solavancos violentos (por os seus bancos terem andado a emprestar dinheiro a quem não sabia usá-lo), um contribuinte alemão pode ter interesse em enviar dinheiro para a Grécia – mas não tem obrigação de o fazer. Não contraiu as dívidas dos gregos (nem as nossas).

 

2. O governo alemão responde aos alemães. Se estes não quiserem ajudar, ele não pode ajudar. Também a isto se chama democracia. De resto, não nos fartamos de resmungar sempre que Merkel se mete nos assuntos «internos» de países «soberanos»? A solução é simples: deixar de o fazer. Querem?

 

3. A questão da responsabilidade é importante. Não para apontar o dedo ou para humilhar. Quando alguém comete um erro e precisa de ajuda, o primeiro passo é reconhecer que errou. O segundo, mostrar que aprendeu a lição. Só assim terá hipótese de receber solidariedade. Fuga à implementação de mudanças, torpedeamento de acordos estabelecidos, acusações raivosas a quem se solicita ajuda, não geram impulsos de solidariedade. A solidariedade não se impõe pela força, conquista-se através de actos geradores de confiança.

 

4. Forçar a Alemanha (e os outros países do Norte) a pagar as dívidas dos países do Sul por causa do risco para os seus bancos (e para o Euro) parece-se mais com chantagem do que com solidariedade. Ninguém pode surpreender-se com as resistências. Nem que, mais cedo ou mais tarde, o chantageado compreenda que não vale a pena continuar a pagar porque terá de o fazer mais uma e outra e ainda outra vez; que perceba que mais vale aceitar as consequências de assumir o problema (o artigo do Bild, mencionado pelo Rui Rocha, é claramente um indício de que podemos estar perto de isso acontecer). E mesmo que vá pagando, se um dia o motivo que permite a chantagem deixar de existir (por exemplo, se a dívida grega detida pelos bancos alemães já não os colocar em risco), a vítima de chantagem sentirá um enorme prazer em vingar-se. União Europeia? Pois sim.

 

5. Comparar a situação actual com os desejos revanchistas e expansionistas de Hitler é absurdo. Hoje, o desejo dos alemães é serem deixados em paz. Eles que, por enquanto, através de inovação e contenção salarial, conseguiram manter-se competitivos no mundo globalizado. Que culpa têm das incompetências alheias?

Autoria e outros dados (tags, etc)


5 comentários

Imagem de perfil

De Rui Rocha a 04.11.2011 às 09:37

Um esclarecimento necessário, Jaa. Mantenha-se o bom senso.
Imagem de perfil

De José António Abreu a 04.11.2011 às 10:07

Não está fácil, Rui.
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 04.11.2011 às 09:54

Há uns pequenos pormenores a acrescentar:

1) Os alemães mantêm-se competitivos no mundo globalizado se o mundo globalizado se mantiver funcional. Ou seja, se a sua economia, baseada em exportação, tiver clientes para os seus produtos. Em economia, como em outras coisas, it takes two to tango. Insistir em que o modelo alemão é virtuoso em si e por si e que toda a gente o devia imitar, nomeadamente os países perfiféricos, é tão absurdo e contraproducente como se o Belmiro começasse a pregar que bom, bom é vender, ser comprador é sinal de uma qualquer fraqueza moral. Obviamente que o Belmiro sabe que a saúde dos seus supermercados depende directamente da saúde financeira dos seus clientes e que convém não esticar demasiado a corda. Ele sabe que há algures um equilíbrio a ter em mente, coisa que os alemães parecem ter esquecido.

2) Eu não acredito nem por um momento que os políticos alemães não saibam perfeitamente, desde o princípio desta história, que se trata de ganhar tempo para que os seus bancos (e os dos franceses) limpem os seus livros de contabilidade. Rezando, naturalmente, para que entretanto a Grécia faça a sua parte, que obviamente não fez. Mas explicaram isso ao seu eleitorado? Nanja eles. Por isso é escusado dizerem "Nós respondemos perante os nossos eleitores e eles não querem etc", porque foram eles que formaram (ou desinformaram) a sua opinião pública até chegarmos onde estamos.

Toda a gente faz chantagem com toda a gente. Infelizmente, cada um dos lados parece convencido da bondade da sua posição e tem a capacidade de deitar fogo ao rastilho. Num mundo global, a saúde dos parceiros é tão importante como a nossa. Mas isso parece ser uma ideia demasiado complexa para as cabecinhas que governam (os eleitos e os eleitors).
Imagem de perfil

De José António Abreu a 04.11.2011 às 10:35

Isabel:

1) Certo, nem todos os países conseguirão ser exportadores líquidos (num mundo ideal, os fluxos equilibrar-se-iam mas não vale a pena ser utópico). Mas cada um tem de tratar de si. Nós - como a Grécia - não tratámos. Não é sequer impossível que todos os países da UE conseguissem ter um modelo assente nas exportações, uma vez que há muito planeta fora da UE. E mesmo dentro da UE, países como Portugal e a Grécia têm vantagens competitivas em relação ao Norte da Europa: desde logo, salários mais baixos (e a Grécia até tem uma localização razoavelmente central). Com uma alocação de recursos eficaz, devíamos ter conseguido colocar pressão sobre eles e não o contrário. Os alemães deviam estar a comer esparguete e bolachas feitas em Portugal. Quanto à questão do equilíbrio, creio que é isso que os alemães andam a tentar conseguir. O problema é que nós vemo-lo no ponto em que mantemos todo o poder de compra, eles não.

2) De acordo quanto à primeira parte (claro que estão a ganhar tempo). Nem tanto quanto à segunda. Numa democracia, é muito difícil saber quem molda quem. Sócrates ganhou as eleições em 2009 impondo uma mentira aos eleitores ou seguindo as preferências destes? E, afinal, Merkel tem vindo a perder eleições. Deve estar a fazer alguma coisa contra a vontade dos seus próprios eleitores.

Ok, toda a gente faz chantagem - mas então comecemos a usar o termo, em vez de nos referirmos a uma parte como os coitadinhos indefesos e a outra como os ogres malvados. Quanto à saúde dos parceiros, de acordo - mas numa relação de parceria, é fundamental poder confiar que o parceiro faz o que ficou acordado. E os alemães não têm razões para pensar que a Grécia o fará.
Sem imagem de perfil

De IsabelPS a 04.11.2011 às 11:32

De acordo com várias coisas, nomeadamente que não há um lado de vítimas e outro de carrascos. Em geopolítica, como noutras coisas, eu parto do princípio de que cada um defende os seus interesses e, para tal, joga com as cartas que tem. Para mim, nestas coisas a moral não entra, tal como na biologia. Aliás, acho que os economistas e os políticos deviam estudar biologia e a noção de feedback negativo, que é a melhor defesa do ecossistema, aquilo que o faz tender para o equilíbrio. O que se viu com esta crise financeira foi o reino do feedback positivo ;-)

Só um pequeno conmentário sobre a situação política da Grécia: é central AGORA, que o centro da Europa se deslocou para leste...

Comentar post





Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D