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Atentado póstumo a Saramago

por Pedro Correia, em 04.11.11

 

Fui avisado a tempo, pelo Nuno Pacheco, nas páginas do Público. E digo que fui avisado a tempo porque andava a pensar comprar Claraboia, o romance "desaparecido" de José Saramago, agora lançado pela editorial Caminho. O escritor terminou-o no longínquo dia de 5 de Janeiro de 1953 e durante os 35 anos seguintes não conseguiu editá-lo. Quando lhe foi enfim proposto o lançamento de Claraboia em livro, na sequência de êxitos editoriais como Levantado do Chão, Memorial do Convento e o Ano da Morte de Ricardo Reis, o futuro Nobel da Literatura decidiu que o livro só ficaria acessível aos leitores após a sua morte.

Assim sucedeu. A Caminho lança-o agora, com este solene promessa contida na página 6: "A presente edição reproduz fielmente o original." Não acreditem: é mentira. Porque a obra que a editora acaba de pôr à venda nas livrarias, esclareceu-me o Nuno Pacheco, não surge escrita em português mas em acordês -- um chocante anacronismo, como se o Saramago de 1953 já adivinhasse que no início do século XXI a ortografia seria assassinada pelo professor Malaca Casteleiro e o seu reduzido núcleo de discípulos, com a proverbial bênção do poder político.

Lá surgem palavras malacastelenses como recetividade, perceção, aspeto, espetáculo, atividade, ativo. E nem o título do romance escapa: Claraboia surge sem acento.

"Como é possível assassinar 'fielmente' uma escrita sem que ninguém reaja ou, pelo menos, exija que seja retirada do livro a mentira óbvia (ou será 'óvia'?) resumida na tal frase da página 6?", interroga-se o director-adjunto do Público. Eu só tenho a agradecer-lhe. Se não fosse este alerta, estaria a premiar o crime de lesa-cultura cometido pela editora, pagando um exemplar do romance póstumo de José Saramago que de todo não me interessa ler em acordês.

Pergunta ainda o Nuno Pacheco se, neste afã de submeter a prosa do Nobel português a tais atentados póstumos, "em futura reedição um título de Saramago como Objecto Quase passará a Objeto Quase". E pergunta bem.

Simplesmente abjecto. Perdão: abjeto.

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51 comentários

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De Ivone Mendes da Silva a 04.11.2011 às 13:14

Não há paciência para estes paladinos do acordo.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 15:08

Qualquer dia temos o Camões em acordês. E as cantigas d' amigo também.
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De Anónimo a 04.11.2011 às 16:49

Camões já está! Não conhece a "coleção Klássicos"? Ora veja aqui http://ilcao.cedilha.net/?p=3358
O que é extraordinário é que, quando houve há uns 20 naos uma tentativa de "reforma" ortográfica em França (quese imeprceptivel, quando comparada com a que o Brasil quer impor aqui), a elite cultural, as instituições culturais ficaram em pé de guerra e houve mesmo a tomada de posição, creio que conjunta, dos ao tempo 5 franceses laureados com o Nobel, para além das grandes editoras, universidades, etc. E aqui é esta triste resignação perante uma campanha publicitária vergonhosa e a mais loropa «mentira de estado». Sei que estamos na cauda da Europa em termos culturais, mas precisávemos de ser tão retrógados e tacanhos? A ideia de «reforma ortográfica» é uma coisa de meados séc. XIX hoje totalmente ultrapassada!
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:16

Kamões na Koleção Klássikos? Ke bom.
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De Anónimo das 16:49 a 05.11.2011 às 00:50

Sou o a. do comentário acima. Peço desculpa pelos lapsos de escrita. Teclado virtual e letra pequena, pressa muita.
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De Pedro Correia a 05.11.2011 às 01:21

Está desculpado, naturalmente. Mas acautele-se com as gralhas: são bem capazes de ir parar de imediato (sem consoantes mudas) ao Dicionário da Academia.
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De Leonor Barros a 04.11.2011 às 13:16

Tens toda a razão, Pedro. Já discutimos essa questão cá por casa. Saramago ficaria furioso.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 15:08

É um atentado ao património, Leonor. Neste caso, ao nosso património linguístico.
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De Leonor Barros a 04.11.2011 às 22:34

Não dá para compreender uma coisa destas. Saramago não escreveu em 'acordês', como lhe chamas. E não está cá para dar o seu parecer. Não sei o que esta gente da Caminho tem na cabeça.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:20

Devia haver uma ASAE para os livros, Leonor.
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De VSC a 04.11.2011 às 16:52

Saramago, ao que creio, não permitia que os seus livros fossem adaptados para brasileiro. Tanto que é assim que a academia brasileira de letras regista no seu dicionário adoptar - que segundo eles, era do português do Brasil... Mas chegou lá pelos livros de Saramago
É assim que se fortalece a Língua e a Cultura , com bons conteúdos, não com a mutilação do idioma para servir devaneios políticos.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:21

É imperdoável iludir os leitores com esta contrafacção.
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De l.rodrigues a 04.11.2011 às 14:53

Quanto às polémicas suscitadas pelo acordo ortográfico, permaneço um espetador atento.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 15:09

Cuidado, não se espete.
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De l.rodrigues a 04.11.2011 às 16:33

Não é espetável que tal aconteça.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:21

Espeto que não.
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De Javali a 04.11.2011 às 15:01

Grrrr
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 15:11

Direi mesmo mais: Grrrr
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De VSC a 04.11.2011 às 17:02

Tristes oções!
E para quem se ria da perda do "p" em opções, lembre-se que a versão do português que nos querem impor, inventada nos decénio de 1920 no Brasil, foi a responsável por os brasileiros dizerem anistia e indenização, facto único no mundo inteiro!
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:23

Ainda bem que não cheguei a comprar um exemplar desta 'Clarabôia', senão quem pediria 'indemnização' à editora seria eu. Sem direito a 'anistia'.
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De jo a 04.11.2011 às 17:28

Não me diga que agora tenho de ler Eça, Camões, Fernão Mendes Pinto e Gil Vicente com a grafia que eles utilizaram, senão cometo uma traição.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:24

Não me diga que agora tenho de ler Eça, Camões, Fernão Mendes Pinto e Gil Vicente com a grafia que o prof Casteleiro conseguiu impor ao Estado português.
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De luis eme a 04.11.2011 às 17:33

não faz qualquer sentido editar esta obra com o novo acordo, por tudo o que já foi dito.

ainda ontem à noite estive a falar com um amigo sobre uma obra que está "engatada" há mais de dez anos porque quem a quer editar quer alterar o "português" do autor, falecido no principio dos anos oitenta.

felizmente os familiares preferem que não haja edição a adulterarem as palavras do avô.

nem toda agente pensa assim, até porque está a chegar o natal, Pedro.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:26

Choca-me este oportunismo comercialóide, Luís. Comigo não contam. Passo ao lado.
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De luís joyce chalupa a 04.11.2011 às 18:23

Saramago não escreve palavras...escreve ideias. Sem ser defensor do acordo ortopédico, sempre me questiono acerca de quantos portugueses leram "os Lusíadas", tal como Camões os escreveu. Ou Eça, que escrevia pharmácia em vez de farmácia. Cá por mim, logo que possa, vou comprar a "clarabóia" com ou sem acento...e vou lê-la.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:27

Faz jus ao apelido.
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De luís joyce chalupa a 06.11.2011 às 04:40

Provavelmente não procurou ser desagradável com este comentário...o que aliás demonstraria alguma ignorância quanto ao significado da palavra em questão. Se só conhecer o dicionário de calão, sugiro qualquer outro em língua portuguesa (com ou sem acordo).
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De Pedro Correia a 06.11.2011 às 18:12

Agradeço-lhe a sugestão, que rejeito por ser desnecessária. E discordo profundamente de si na tolerância que demonstra em relação a este atentado 'post mortem' à obra de Saramago, pouco mais de um ano após o falecimento do escritor. Recordo-lhe que as obras de Saramago sempre circularam no Brasil com a ortografia portuguesa: o nosso Nobel nunca autorizou 'abrasileirar' o estilo - e nem por isso deixou de ser várias vezes recordista de vendas naquele país. Lamentavelmente, a editora cede ao acordês, agora que o escritor já não se encontra entre nós, adulterando este romance de forma lamentável.
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De luís joyce chalupa a 07.11.2011 às 17:57

Pois, Pedro Correia. Admito também que não tenha lido com atenção o meu comentário inicial... De qualquer modo, terminarei desculpando-me por este "delito de opinião". Cumprimentos.
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De Pedro Correia a 07.11.2011 às 18:42

Não há que (se) desculpar: estamos cá todos para isso - para cometer delitos de opinião.
Agradeço e retribuo os cumprimentos.

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De BST a 05.11.2011 às 00:57

Já dizia o outro (e deixo-lhe o trabalho de descobrir quem, se por acaso não sabe) que o os poemas não se escrevem com boas ideias, mas com palavras.
Quanto ao Eça, escrevia pharmacia como hoje, se escreve pharmacy ou pharmacie nos países onde há uma poderosa «pharmaceutical science».
É interessante como a propaganda do «acordo» joga com o gosto saloio pela novidade, «esquecendo-se» que a ortografia do séc. XIX é a mesma do Inglês de hoje, ou do francês de hoje...
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De Pedro Correia a 05.11.2011 às 01:19

Subscrevo e aplaudo, BST.
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De luís joyce chalupa a 07.11.2011 às 18:09

Com o devido respeito, caso se trate de uma pessoa, tenho por norma só responder a mensagens assinadas, o que não é o caso.

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De Carlos Cunha a 04.11.2011 às 18:35

quando andei no liceu, as "lendas e narrativas" do herculano eram leitura obrigatória. a edição que li estava escrita na ortografia "antiga" e isso causou-me alguma estranheza.
mas o valor da obra literária não foi afectado por isso.
afinal não é a ortografia que faz a obra: o seu valor não resulta da impressão visual de cada uma das palavras impressas, no leitor.
se a obra for lida para um grupo, que diferença fará para quem a ouve, a ortografia utilizada?
há efectivamente quem leia obras literárias como um professor corrige um teste, e saramago foi um dos exemplos de um autor que foi lido assim.
por isso, para mim que não sou letrado mas gosto de ler, certamente vou sentir alguma estranheza com a aplicação da nova ortografia, como senti anteriormente com a leitura na então antiga ortografia, mas confesso que não vejo como a sua utilização seja um atentado às obras.
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:32

Um romance escrito em 1953 é editado em 2011, um ano após a morte do autor, e apresentado ao público com esta garantia expressa: "A presente edição reproduz fielmente o original."
Acontece que esta garantia é falsa: a "presente edição" não reproduz fielmente o original. Você não vê problema nenhum nisto, eu vejo. Para mim é pior do que comprar um iogurte fora de prazo.
Cada um fala por si: eu não gosto de me sentir intrujado.
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De AEfetivamente a 04.11.2011 às 18:47

Hehe, o título e o conteúdo já me fizeram rir, apesar dos pesares. :) Eu sei que é sério mas há aqui um humor (aliás, em muitos dos textos do Delito)... pessoalmente, não resisto:) Ou serei eu que acho graça onde não deveria achar?:)
(Acordês? Fantástico. Tá a ver? Ok, espero ser perdoada:))
De resto, claro que percebo.
Sou absoluta fã da sua escrita.
Claro. ;)
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De Pedro Correia a 04.11.2011 às 23:33

De acordo: eu também sou fã da escrita do Saramago. Da escrita genuína, não da escrita adulterada.

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