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Papandreou, quixote ou pixote?

por Rui Rocha, em 02.11.11

O leitor interessa-se pela crise da Zona Euro. Apesar de as televisões lhe pregarem com sete horas diárias de caso Duarte Lima, em directo, lá no fundo parece-lhe que uma partezinha do seu futuro poderá depender do desfecho da coisa. Neste momento, depois de ler atentamente as análises e os comentários que incendeiam os meios de comunicação social e a blogosfera, o seu coração balança. O sacana do grego, o Papanicolau ou lá o que é, será um fraco, um louco ou um político brilhante? Pois tenho algo de muito importante a comunicar-lhe. Cabe-lhe a si decidir. Se o leitor se entusiasma com histórias de cavalaria, se é sensível à imagem de um político montado num Rocinante ou ao holograma de um povo nobre que se revolta galhardamente contra o jugo insuportável do invasor, a sua escolha está feita. Falta-lhe apenas substituir o poster do Che Guevara, amarelecido pelo tempo, que tem na sua sala logo por cima do aparador, pela fotografia actual e reluzente de George Papandreou. É certo que este último não tem barba, mas em contrapartida não lhe falta bigode. Todavia, caro leitor, há por aí muito maluquinho ocioso que gosta de medir o valor dos actos pelos resultados que estes podem provocar. Coisas. Existe no mundo de tudo e até há espaço, imagine-se, para os publicitários que fazem os anúncios da Depuralina. Ora, resultados, dizíamos. Pois muito bem. Imaginemos então que o referendo se realiza e que o povo grego diz que sim: "eh pá, de facto pensámos bem e queremos continuar a ser esmagados pelas forças opressoras da alta finança e dos burocratas de Bruxelas". O que é que mudou? Exacto, o cavaleiro Papandreou terá lavado as mãozinhas na imaculada pia da democracia directa. A nobre Grécia, essa continuará a ser um país ocupado em permanência pela Troika, perdendo o seu estatuto de Estado soberano. Mas, coloquemos agora o cenário oposto. Os gregos espetam os seus narizes aduncos em direcção ao Monte Olimpo e respondem: "na, na, na, estamos fartinhos de ser humilhados pelos esbirros desta parceria europeia!". A consequência evidente de tal decisão será o fim do plano de assistência. A saída da Zona Euro. A falta de financiamento total da economia grega. E todos os efeitos de uma bancarrota redentora: uma velha moeda novinha em folha (ah, que saudades do dracma), um ajustamento brutal, uma desvalorização vertiginosa e os salários e as poupanças a perderem metade do seu valor, tudo isto perante o olhar sereno de Papandreou, o oficial cavalheiro. Isto é, medindo a decisão do Primeiro-Ministro grego pelos resultados a que pode conduzir, a fotografia que o leitor colocará na sala será a de um político que se apresentará de bigode e capote. Este último estará, todavia, completamente seco. Papandreou ter-lhe-á sacudido a água até à última gota. No final, como lhe dizia, o leitor é que sabe. E eu nada tenho, nada mesmo, contra aqueles que se entusiasmam com histórias de cavalaria. Ponto é que estejam dispostos a pagar o preço do livro.

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13 comentários

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De sampy a 02.11.2011 às 12:32

Entretanto, o Charlie Hebdo foi pelo ar. Entre acção e reacção não mediou um dia (pelo que captei das notícias). Que é que os gregos diriam sobre isto?...
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 12:37

Convocariam um referendo para decidir o que dizer.
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De sampy a 02.11.2011 às 14:05

Então é de esperar um referendo para decidir se vão referendar. Seja lá o que for que queiram referendar...
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 15:07

Pois, parece-me que sim.
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De sampy a 02.11.2011 às 14:22

Em todo este burburinho, parece passar ao lado um simples ponto: é que não vai haver referendo.
O último referendo que os gregos fizeram foi há 37 anos, para pôr um ponto final no regime militar. Ora se, desta feita, a liderança militar foi decapitada antes mesmo de marchar na rua, para quê o referendo?
Para além do que o exercício da democracia directa é incompatível com a ausência de autonomia financeira. É como querer perguntar a um doente em coma se aceita tratamento clínico...
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 15:07

Sim, ou como perguntar a um vegetariano se prefere frango ou vitela.
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De Luís Reis Figueira a 02.11.2011 às 14:32

Parece-me que para já, pelo menos, é difícil decidirmo-nos pelo quixote ou pelo pixote. Por via das dúvidas, o melhor será conservarmos, por enquanto, o quadro do Che.
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 15:06

Boa decisão, Luís.
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De Ricardo Vicente a 02.11.2011 às 16:47

EXCELENTE POST!!!
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 19:16

Obrigado, Ricardo. Também já vi que lá no Forte Apache continuas a colocar o Papandreou no seu lugar.
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De Rómulo da Silva a 02.11.2011 às 17:35

Qual será a pergunta no referendo? Não conheço o verdadeiro "busilis" da questão mas, se eu fosse grego, também não aceitava o perdão de metade da dívida mas sem saber bem porquê. Puro instinto!
Mas se a proposta fosse reduzir os juros para 2% a 20 anos, então aceitava.
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De Rui Rocha a 02.11.2011 às 19:17

Aí está uma boa sugestão. Uma pergunta aberta e cada um dos gregos apresentava soluções para a questão.

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