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A carta

por João Campos, em 29.10.11

Não tenho carta de condução. É algo que faz muita confusão a vários amigos. Dois ou três, quando me encontram, perguntam invariavelmente: então e a carta, já a tiraste? Há oito anos que a resposta é a mesma, tal como a justificação: carta de condução não é uma prioridade por 1) não ter dinheiro para comprar um carro, 2) não ter dinheiro para manter um carro, 3) estacionar na zona onde vivo é impossível e na zona onde trabalho é caríssimo e 4) não preciso, pois Lisboa tem um sistema de transportes - autocarros, eléctricos e metro - muito bom, que permite chegar a qualquer lado a qualquer hora. O que até aqui foi bem verdade, mas poderá deixar de ser em breve se a ideia peregrina de (mais) um grupo de paspalhos, perdão, de trabalho, conseguir levar a água ao seu moinho: A eliminação das carreiras de serviço nocturno da Carris e o encerramento do Metro de Lisboa às 23 horas ou mais cedo são algumas das medidas propostas no Plano Estratégico de Transportes (PET). No caso do metro, algumas linhas podem passar a fechar às 21h, como é o caso da linha amarela entre Campo Grande e Odivelas.

 

Isto é, a todos os níveis, um perfeito disparate. Lisboa ainda é uma capital europeia; retirem-lhe os transportes públicos nocturnos e mais vale mudarem a capital para Beja, que sempre tem melhor comida e gente mais simpática (não desfazendo). Em Barcelona, por exemplo, e pelo menos até 2008, o metro funcionava a noite toda às sextas e sábados (obviamente); por cá, nunca ninguém se lembrou disso, e depois propõem a "instituição de boleias" para a malta que quer sair à noite e beber uns copos. De estratégia, a mentalidade "estratégica" dos nossos governantes sabe muito pouco: qualquer plano resume-se a "cortar, cortar, cortar". Puta que os pariu.

 

Passe a demagogia do que se segue, gostaria de sugerir - devia antes dizer, de exigir - aos senhores que elaboraram o Plano Estratégico de Transportes que abdiquem dos carrinhos do Estado ou da empresa (com respectivos motoristas), dos carritos próprios, e que durante um mês se desloquem única e exclusivamente em transportes públicos na cidade de Lisboa. Talvez assim pudessem perceber que nem toda a gente tem um trabalho das nove às seis, que muita gente vive para lá da linha Colégio Militar - Campo Grande - Oriente e trabalha até mais tarde no centro da cidade, e que os transportes nocturnos, por todos os motivos e mais alguns, são essenciais à vida da cidade - são as suas artérias e veias. Cortar isso é tornar a cidade ainda mais triste, ainda mais decadente. 

 

De qualquer forma, se este plano avançar, lá terei de investir as minhas parcas poupanças na carta e num carro, se quiser a ter alguma liberdade de movimento dentro da cidade. Ou então mudo de cidade, para uma mais pequena onde qualquer distância se faça com comodidade e segurança a pé, ou para uma capital europeia decente, civilizada e com transportes. De uma coisa, porém, estou certo: se o Estado decidir avançar com esta medida, é bom que nunca mais se atreva sequer a ponderar quaisquer medidas ou "estratégias" para promover a utilização dos transportes públicos em detrimento do carro na cidade de Lisboa. A paciência para aturar falta de vergonha dos cabrões que nos desgovernam também aqui tem limites. 

 

(Entretanto, e por uma vez na vida, o meu aplauso para as declarações de António Costa)

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