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A semente totalitária

por Pedro Correia, em 26.10.11

 

Várias vezes, nos mais diversos locais, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite escrutinar onde levantamos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando o próprio Procurador-Geral da República admite estar a ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de exprimir preocupação. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar assim.

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21 comentários

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De Fernando Sousa a 26.10.2011 às 15:45

Já germinou, Pedro. A questão agora é como cortá-la.
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De Pudget a 26.10.2011 às 15:55

Simples. Deixemos de ser os consumistas que somos, porque falamos de mais e fazemos de menos. Somos uma sociedade de fala-baratos, todos, sem excepcao. E adoramos dar licoes de moral mas apresentar boas propostas simplesmente nao se ve. O que se ve e a critica vaga, impertinente, tenue. Eu acho que a inteligencia nao e medida por descobrir o erro, mas por ajudar a corrigi-lo. Assim sendo, somos uns burros entediados.
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De Pedro Correia a 26.10.2011 às 23:55

É isso, Fernando. Não percebi o seu ponto, Pudget.
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De Pudget a 27.10.2011 às 12:07

Nao ha aqui uma critica directa a ninguem e muito menos a pessoa que escreveu o post. Isto e uma autocritica direccionada a todos nos que continuamos a julgar que a culpa e do sistema quando nos somos o sistema. Esse e o ponto, nao ha aqui dedos apontados a ninguem em especial, mas sim uma brevissima radiografia do que somos como povo.
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De Pedro Correia a 27.10.2011 às 18:04

Diz bem: antes de apontarmos o dedo ao "sistema", devemos apontá-lo a nós próprios.
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De CNS a 26.10.2011 às 15:48

O medo tolhe-nos a liberdade. Moeda de troca perigosa que nos coloca à beira de uma distopia.
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De Pedro Correia a 26.10.2011 às 23:55

Sem dúvida, Cristina. Receio que despertemos tarde de mais para isto.
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De Looking for Paris a 26.10.2011 às 16:19

Troco, de barato, a minha segurança por um gomo de liberdade cerceada.
Acrescento que até me dá mais "pica", nalgumas ocasiões, ser observado. Como, por exemplo, ser escabroso com a Miquelina no vão de escada ou na paragem do Metro.
Ah não, não faço manguitos às Câmaras ocultas algures nem deixo de utilizar o MB ou o cartão de crédito para comprar fantasias sexuais naquela loja daquela esconsa rua; nas portagens da auto-estrada é-me indiferente que alguém saiba aonde vou e se fui dar uma queca ou comprar milho para os pardais.
Não confundir à vontade com exibicionismo.
Portanto, nada a declarar declarando tudo.
Bem vindos ao "novo" mundo electrónico. Habituem-se!
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De zedeportugal a 26.10.2011 às 16:54

Um entusiasta, pois, do admirável mundo novo (electrónico?). Até ao dia em que alguém mal-intencionado usar contra si a informação que dá com tanto à vontade. Nesse dia aprenderá da maneira mais difícil que a informação (sobre si) é poder (contra si). O problema, contudo, não é a sua ignorância desta simples verdade, é o à vontade" com que nos inclui a todos no "seu" "novo" mundo electrónico.
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De Looking for Paris a 26.10.2011 às 17:32

Caro zedeportugal : glosei o tema em tom suave e pictórico, o inverso do alcance e conteúdo da notícia (séria!) que desconstruí.
Não sou fan de gadgets " nem acho muita piada a este "admirável mundo novo", antes pelo contrário. Todavia, assevero-lhe que de ignorante nem o poro mais pequeno do meu corpo o é.
Quanto ao resto das suas observações, estou plenamente de acordo com elas!
Mas, e essa é a realidade hodierna. Ou aprendemos a viver com ela ou somos escravos dela. Tenho dito.
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De zedeportugal a 26.10.2011 às 17:13

Bem vindos ao "novo" mundo electrónico. Habituem-se!

Felizmente, ainda há por aí uma gente que dá uso ao que está no interior da caixa craniana e não faz intenção nenhuma de se habituar:

http://www.mail.com/int/scitech/news/793886-austrian-student-takes-facebook-privacy.html#.1258-stage-hero1-10
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De zedeportugal a 26.10.2011 às 16:29

O problema não está (não deveria estar) nas tecnologias, mas no uso (deveria dizer abuso) que se faz delas. Ainda me lembro de uma notícia, relativamente recente e não desmentida, sobre multas da GNR por excesso de velocidade a condutores em auto-estrada, fundamentadas nos tempos de passagem em portagens sequentes. Há um enorme vazio legislativo sobre a reserva de privacidade individual, e os abusos começam exactamente vindos do Estado. Vivi e trabalhei num país onde se começaram a usar câmaras de video vigilância ainda antes dos portugueses começarem a usar a palavra "videovilgilância". Esse país é, ainda hoje, um dos lugares do mundo onde os poderes públicos mais respeitam a privacidade e a liberdade individual. E, simultaneamente, um dos países com a mais baixa taxa de criminalidade. Porquê? Porque se toma todo o cidadão como pessoa de bem até que a justiça faça prova de que não o é - ao contrário deste luso lugar, onde o Estado considera e trata todos os cidadãos como potenciais criminosos e onde, por isso, os verdaeiros criminosos passam facilmente por cidadãos.
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De Pedro Correia a 26.10.2011 às 23:57

Subscrevo sem hesitar esta sua frase: «Há um enorme vazio legislativo sobre a reserva de privacidade individual, e os abusos começam exactamente vindos do Estado.»
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De João Lisboa a 26.10.2011 às 18:25

Pedro, conhece isto?

http://lishbuna.blogspot.com/2011/10/big-brother-is-definitely-watching-you.html
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De Pedro Correia a 27.10.2011 às 00:04

Ele está mesmo de olho em nós todos, João.
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 18:49

Exacto. Eis uma das coisas que me incomoda. Não exageradamente, mas incomoda: o lado negro dos nossos novos brinquedos. É bom ter a pestana aberta.
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De Pedro Correia a 27.10.2011 às 00:05

Bom mesmo, Laura. Eu não consigo olhar para eles sem ver o lado negro, cada vez mais evidente.
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De Carlos cunha a 26.10.2011 às 21:10

tantos regimes totalitários já existiram, noutras eras, com outras tecnologias, portanto é evidente que o nosso imaginário adivinha que com o desenvolvimento tecnológico actual a implementação desse tipo de regimes é mais fácil, e para além da vigilância, pode possibilitar o condicionamento, mas isso apenas se esses meios estiverem concentrados em mãos totalitárias.
mas o mais curioso de tudo isto, é que ainda é possível existirem e persistirem sociedades secretas, autorizadas por lei, cujos membros podem manter legalmente o anonimato (ou seja, esconder a sua filiação) mesmo quando ocupam os mais altos cargos públicos.
é possível, por exemplo, que tenhamos um presidente da república, ou da assembleia da república, ou primeiro-ministro, maçon, sem que aqueles que os elegeram saibam e sem que esses representantes do povo, eleitos pelo povo, tenham interesse em saber que o povo saiba.
e no entanto vivemos, todos, felizes e contentes com isso.
há aqui coisas que não batem certo.

nota: o PGC admitiu que pode estar sujeito a escutas, não que está sujeito a escutas.
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De Pedro Correia a 26.10.2011 às 23:53

Obrigado pelo preciosismo da nota final. O próprio Fernando Pinto Monteiro não faria melhor.
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De Rui Rocha a 27.10.2011 às 00:45

Excelente post, Pedro. Convido-te a leres esta entrevista do Agamben em que este coloca, a partir duma perspectiva de esquerda, a questão do Estado securitário:

http://www.egs.edu/faculty/giorgio-agamben/articles/siamo-tutti-sospettati-i-governi-ci-considerano-terroristi-in-potenza/
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De Pedro Correia a 27.10.2011 às 18:00

Obrigado pela dica, Rui. Ele tem razão: adesso 'siamo tutti sospettati'.

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