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Pedir contas

por Laura Ramos, em 25.10.11

 

Devemos pedir contas, sim. Se a lei deixou de nos garantir a palavra dada, se os contratos de trabalho contêm cláusulas que de nada servem, se o imperativo nacional nos coloca numa situação de suspensão de direitos de estatuto, então é lícito trepar à nossa árvore podada e olhar a floresta.
Já não gozamos de uma copa frondosa, já não estamos felizes com os nossos frutos e o horizonte está ali, repentinamente muito mais visível.
Identificamos, gritantes, as torres de marfim. E queremos que o Estado, que deixou de ter condições para pagar as suas 'despesas de manutenção', actue com equidade, dividindo proporcionalmente os sacrifícios.

Mas o cimo da árvore é um observatório perigoso, porque também podemos perder a perspectiva. Pedir cabeças a eito não é solução. E entrar numa lógica compulsiva de comparação leva-nos inexoravelmente a querer tratar de igual maneira aquilo que não é igual.
Infelizmente, somos uma sociedade civil imatura e desorganizada, sem hábitos de democracia vigilante, e por isso atiramo-nos agora sem critério a tudo o que mexe, desde que suspeitemos que alguém leva um euro a mais dos bolsos do Estado que somos e que sustentamos.

Pegando num exemplo: - Um representante do povo eleitor que passa a exercer um cargo governamental tem legitimidade para esperar receber um subsídio de alojamento, quando vive a mais de 100 kms da sede do poder? Terá direito a ser ressarcido das despesas efectivas  e imprescindíveis em que incorre por causa desse mandato? Claro que sim. Não se trata de um privilégio, trata-se de uma neutralização de prejuízos. É o preço da representatividade democrática. E ai de nós se  não distingumos estas diferenças, porque amanhã estaremos a exigir a folha de proventos e encargos pessoais do nosso vizinho, exercendo uma espécie de julgamento popular sobre a sua vida financeira. E então, a prazo, morreremos todos com as mesmas armas.

Precisamos de não perder tudo: e para isso, é fundamental manter o distanciamento crítico.


Agora temos na agenda as subvenções vitalícias dos políticos.

- É legítimo exigir a sua revogação? Claro que sim.

- Os constitucionalistas bradam?

Não me lembro de os ouvir rugir quando, inconstitucionalmente, me foi retirado o direito aos subsídios de férias e de Natal, complementos remuneratórios históricos, inalienáveis e impenhoráveis.

 - O que eu espero de Pedro Passos Coelho?

É que veja a floresta. Que a veja acima da sua árvore (o PSD). E, se preciso for, acima da nossa própria árvore de horizonte limitado.

É para isso que ele lá está e foi mandatado.

Além disso, nesta matéria, o primeiro-ministro goza de um atributo que nenhum constitucionalista me pode garantir: a autoridade moral.

A soberana isenção de quem prescindiu, a seu tempo, de uma subvenção do Estado. Quando poucos se importavam com isso e ninguém aplaudia.

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27 comentários

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De cenas underground a 25.10.2011 às 15:36

O facto de o primeiro-ministro ter abdicado da sua pensão, noutra altura, deveria ter merecido mais destaque, concordo.

No entanto, nos tempos que correm, talvez influenciado pelos ares de cinismo, sempre que me falam disso recordo que existe a possibilidade de isso ter sido calculismo político. Ele era jovem, em início de carreira, ao contrário da maioria dos dinossauros que aparecem nas capas dos jornais, sem "nada a perder".

E se foi calculismo, foi uma excelente ideia porque, como se vê, boa imprensa lhe tem valido.

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De Laura Ramos a 25.10.2011 às 18:51

Temos de nos decidir, cenas. Ou julgamos os factos, ou as intenções. Se o nosso olhar for sempre insolente, então temos de absolver os que aproveitaram o regabofe dos proventos do Estado, porque afinal se limitaram a aceitar passivamente um privilégio legal sem qualquer má intenção. Não acha?
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De io a 25.10.2011 às 16:20

Muito bom senso. Parabéns
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De Laura Ramos a 25.10.2011 às 18:53

Grazie, io.
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De Luís Reis Figueira a 25.10.2011 às 16:23

O seu excelente post toca efectivamente em muitos pontos da actual crise de valores em que se encontram mergulhados, quer o Estado, quer o actual Governo, -este último muito por sua culpa exclusiva, diga-se - dado que em nenhum momento da sua ainda curtíssima existência, se coibiu de lançar achas para a fogueira, criar divisões e lançar na sociedade portuguesa disputas estéreis que a nada conduzirão, a não ser a este mal-estar geral, que já todos começamos a sentir um pouco ao fim de apenas 4 meses. Este governo entrou mal, desde logo ao querer ser mais troikista " do que a própria "troika", fazendo-me lembrar a figura daqueles alunos pouco aplicados e inseguros chamávamos-lhes os "manteigueiros", nos meus tempos de liceu) que, à falta de outros recursos, não param de cirandar à volta do professor lambendo-lhe as botas, querendo desta forma criar a ilusão de que são mais empenhados, interessados e melhores alunos do que aquilo que na verdade são. Portugal está neste caminho e quer mostrar a todo custo à Srª Professora Merkel , ao seu assistente Sr. Sarkozy e, sobretudo, aos omnipresentes e endeusados "Mercados", que é um menino bem comportado e que, de agora em diante, vai andar muito direitinho. A partir de agora é que vai ser. Não tenhamos ilusões... Não é da noite para o dia que se transfigura o carácter de um povo, não é assim de repente, do nada, que surgem as situações milagrosas que nos vão tirar do buraco em que estamos e que, anos a fio, andamos a escavar.
O «cimo da árvore», como diz, «é um observatório perigoso, dado que nos faz perder alguma noção de perspectiva.» Isto é verdade. «Pedir cabeças a eito, também não é a solução». Isto também é verdade. Repare, porém, que têm sido exactamente estas as soluções adoptadas por quase todos os governos dos últimos anos, sem excepção. É exactamente este tipo de posturas que têm tido consistentemente, esta falta de perspectiva, esta análise pouco reflectida e minuciosa dos problemas a resolver que nos trouxeram até aqui.
O pânico gerado pela contínua falta de regras a que nos últimos anos temos vindo a ser sujeitos, leva-nos a estarmos continuamente enervados e, como refere, a atirarmos a «tudo o que mexe», por vezes de uma forma pouco criteriosa, é certo. Contudo, nada pode subsistir sem regras e sem alguma previsibilidade, ainda que de curto alcance. Funcionam assim as famílias, as comunidades, as associações, enfim, a sociedade de um modo geral. Porém, neste nosso "admirável mundo novo", têm vindo a querer vender-nos a ideia de que não há regras, tudo muda a todo o instante e o que ainda ontem eram uma verdade e um valor absoluto, hoje já são as maiores falsidades de todos os tempos. Bem sei que "todo o mundo é composto de mudança", mas a mudança tem de ter regras e alguma previsibilidade, sem o que deixa de ser uma mudança para passar a ser um cataclismo. E estes, como sabemos, causam inúmeras vítimas inocentes, espalham a miséria, o caos, a indignação e a revolta. E o pior é que não nos trazem nada, absolutamente nada de positivo, ao contrário das mudanças que podem permitir a nossa adaptação a uma situação nova. Ora, o que este governo nos quer trazer é precisamente um cataclismo e não uma mudança que - é consenso geral - terá de ser forçosamente levada a cabo. Fazer isto de uma forma caótica e atabalhoada, sem regras e atropelando os mais elementares direitos e expectativas dos cidadãos, não me parece um bom caminho. Estar constantemente a tirar dos bolsos dos mesmos de sempre, dos que estão mais à mão de semear, o dinheiro para tudo e mais alguma coisa, não é decerto uma boa solução. Ilustrando esta cena, isto parece-me comparável à atitude de um mau filho que para sustentar os seus intoleráveis vícios de custos exorbitantes, não pára de extorquir dinheiro aos pais e, quando estes acham que já está na conta, dizem-lhe "basta!" De nada adianta, pois segue-se o roubo de algum que ainda resta e a seguir vão as pratas, as jóias, os quadros e tudo o que havia na casa da família. É a desgraça completa. Enveredar pelo caminho do facilitismo na redução do défice, seguir pelo caminho do mais óbvio e do mais fácil é seguir um mau caminho. O Estado não pode ter um moral para si e uma outra moral para os contribuintes. A continuar assim, vamos acabar mal, vamos.
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De Laura Ramos a 25.10.2011 às 19:06

Luís, eu é que gostei de o ler. Os tempos que atravessamos põem-nos à prova e só há um 'bem' que jamais devíamos deixar que nos tirassem: a liberdade de pensar e a capacidade de ver para além do umbigo. Para mim, a democracia também é isso. O que exige alguma paciência (admito que muito desgastada).
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De Luís Reis Figueira a 25.10.2011 às 20:41

Obrigado pelas suas palavras simpáticas, Laura. E teria muito mais para dizer, sabe, mas os 4300 caracteres esgotam-se num ápice quando começamos a estender o rol da nossa indignação. Mas deixe lá, não perdem pela demora, porque eu também não sou de quebrar facilmente. Acabei de ouvir há pouco uma declaração do nosso PM, com uma nova versão sobre as razões de ser dos cortes apenas quanto aos FP's (queria mesmo dizer "funcionários públicos", não me interprete mal, vá...). Alega então agora o nosso PM que o que justifica essa tomada de posição do governo é de que «um corte generalizado a todos os trabalhadores, caíra mal no exterior e geraria desconfiança...». Assim é mais fácil e ficamos todos muito mais contentes por saber que os nossos parceiros e os intocáveis "mercados" ficam muito mais tranquilos e sossegados por o dinheiro para pagar a crise ser apenas dos FP's.
Diga-me lá com franqueza, Laura: acha que este tipo (que há apenas 4 meses dizia exactamente o contrário de tudo aquilo que agora está a fazer) tem alguma maturidade e uma espinha dorsal aprumada para ocupar o cargo que ocupa? Eu, francamente, acho que não. Se ainda não viu, veja apenas isto e depois tire as suas conclusões.
http://youtu.be/gNu5BBAdQec
Um abraço.
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 01:11

Concordo inteiramente consigo, Luís. Se me perguntar se não me dói, dói. E dói muito. Na pele, na bolsa, nas expectativas de cidadã. E de cidadã eleitora.
Infelizmente, tenho dificuldade em condenar sumariamente as medidas de quem herdou um país gerido por irresponsáveis durante quase 15 anos e que, concretamente no que toca à administração pública, só fizeram asneira. E da grossa. Eu vi o retrocesso completamente irresponsável que se operou no sistema já lançado, com visão, para uma gestão racional de efectivos. Vivi-o por dentro. Não posso ignorar. Agora... e agora? Primeiro, o estado providência enfraqueceu (já o sabíamos, há décadas que era uma morte anunciada). Agora, colapsou a economia. Neste quadro, qual é o fantasma, o alvo a abater? A despesa pública. E o rosto desta? Os FP. O rosto: sim, eu disse o rosto, não disse "a causa". Mas os FP são os identificáveis. Os que estão no posto. Os que cumprem a sua função.
Enquanto os mandarins desapareceram. Desaparecem, sempre.
Mas sabe? Nesta matéria, e no que à AP respeita, não são, não foram todos iguais.
Voltei a gostar de o ler.
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De Luís Reis Figueira a 26.10.2011 às 11:45

Obrigado mais uma vez, Laura. É para mim também sempre um gosto vir aqui falar e debater algumas ideias consigo.
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De raioverde a 25.10.2011 às 16:28

porquê inconstitucionalmente?
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De Laura Ramos a 25.10.2011 às 19:11

Porque viola o princípio da igualdade, meu caro. Laboral e fiscal. São direitos fundamentais, ring a bell? Mas, claro... também são direitos fundamentais de tipo social: logo sob reserva do possível. Ficávamos aqui uma noite a discutir o assunto...
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De raioverde a 25.10.2011 às 20:02

os subsídios estão na CRP?
com tantos artigos esqueceram-se?

Melhores cumprimentos.
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 01:15

Estão. Mas o fundamental nem é isso. É que estão os subsídios - remunerações certas, regulares, integradoras da retribuição - de todos os trabalhadores. E não só de uma parte.
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De raioverde a 26.10.2011 às 12:11

não vislumbro o artigo. mas se calhar é meu defeito.
mas tb só insisto nisto por dois pontos:
primeiro, por que me parece que além da CRP ser usada para tudo e mais alguma coisa, as interpretações da mesma também o são. um abuso, na minha opinião.
Segundo porque o patrão que está falido é o Estado, e o problema está no Estado, portanto este, pelos vistos, tinha que despedir ou retirar subsídios.
já no privado, uns vão ser despedidos(coisa que não acontecerá na função pública), outros ficarão com salário reduzido, etc.
o horário da função pública é 35 horas.
no privado, vai passar a ser 42h30m.(mais um dia e 30m).
os salários, em média, são mais altos na função pública. (embora haja muita falibilidade nesta afirmação, no geral, está correcta.)
não é por acaso que o sonho de muita gente em Portugal é ser funcionário público. e continua a ser.

declaração: o meu pai é funcionário público e e minha mãe é aposentada da função pública.
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 13:33

Salvo erro, 59º. Não há despedimentos na função pública? Pasmarei sempre com a persistência dessas afirmações, acredito que proferidas de boa fé. O termo não é esse? Não: chamam-lhe dispensa, mobilidade, quadro de excedentes, etc, etc. Ao fim de 1 ano, de degrau em degrau, até já só terem 1/6 do vencimento =despedimento puro e duro.
- Os salários da AP são em média mais elevados? Como assim? Só se não estiver a comparar o que é comparável, considerando que na AP há um vencimento e ponto final, não há qualquer acréscimo, como acontece na privada.
Além disso, esquece com certeza que os vencimentos na AP sofreram um corte substancial desde Janeiro de 2011. É a tal igualdade, raio verde.

declaração: também tenho família e muitos amigos na privada, conheço o meio.
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De Doe, J a 26.10.2011 às 07:48

No sector privado há falências e despedimentos colectivos. No sector publico não. Por qual igualdade clama afinal?
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 14:07

Doe, J, é como eu disse no comentário acima: pasmarei sempre com essa idílica convicção. Através do PRACE (2006), que extinguiu 187 das 518 entidades estatais existentes, 90.000 funcionários públicos ficaram em situação de mobilidade. Parte aceitou a reintegração (sem direitos adquiridos) em novas estruturas. Outra parte foi mandada para casa, onde, ao fim de 1 ano, ficaram sem vínculo. A medida atingiu, a eito, gente de todo o género (casais, inclusivé): desde a que não interessava grandemente à estrutura, à que era tecnicamente boa, dedicada e ainda tinha muito para dar. Pode aprofundar, p.ex, o caso do MAP, creio que o sector mais atingido. Um verdadeiro despedimento colectivo.
- Se a AP deve ser intocável? Claro que não. Mas, para além de ninguém ganhar com a insistência numa série de ideias feitas, há muito obsoletas, sabe o que me choca? E que passa ao lado dos cidadãos, ainda embalados ao som da velha 'lenda-lengalenga' dos mangas de alpaca com emprego para a vida? Ouça muito bem por favor: o ano de 2005 (em que decorriam afanosamente os trabalhos preparatórios do PRACE, ou seja, em que na prática ele foi concebido, com base em indicadores de anos anteriores) foi o ano em que o governo da nação admitiu mais novos FP em Portugal. Mais do que alguma vez, anteriormente, em qualquer mandato, por qualquer partido. Todos os FP se aperceberam disto. Imagina o clima? A credibilidade e a exemplaridade dos reformistas?
Portanto, a coisa funcionou assim: com uma pá tiravam, com a outra enchiam. E se ainda fosse para adubar a terra com algum fertilizante... Mas não foi, pode crer.
- Será que isto lhe diz alguma coisa acerca das intenções reformistas desses 'Pombais' que nos governaram nos últimos anos? Agravando um tremendo problema de sustentabilidade dos RH na Administração Pública?
A minha sorte é que agora já posso falar, porque nesse tempo andava tudo com uma rolha na boca e imperava o lambe-botismo e a delação. Em boa verdade, eu sempre fui um bocadinho gralha. portanto, falei quanto me apeteceu, com uma consequência ou outra de que não cabe aqui falar.
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De Jaiçurikaba a 25.10.2011 às 17:44

Oi, tudo legal?
Li seu texto e depois de trepar na sua árvore bem podada (que maravilha nossa!) gozei a floresta no seu conjunto.Pô, que prazenteiro.
Gostei à bessa, viu!?
Vou continuar seguindo ocê.
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De Carlos Cunha a 25.10.2011 às 22:33

exemplos de uma sociedade imatura sem hábitos de democracia vigilante:

Estatuto Remuneratório dos Titulares de Cargos Políticos

Artigo 17.º
Ajudas de custo

1 ‐ Os deputados que residam fora dos concelhos de Lisboa, Oeiras, Cascais, Loures, Sintra, Vila Franca de Xira, Almada, Seixal, Barreiro, Amadora e Odivelas têm direito à ajuda de custo fixada para os membros do Governo, abonada por cada dia de presença em reunião plenária,de comissões ou em outras reuniões convocadas pelo Presidente da Assembleia da República e mais dois dias por semana.
2 ‐ Os deputados que residam nos concelhos de Lisboa, Oeiras, Cascais, Loures, Sintra, Vila Franca de Xira, Almada, Seixal, Barreiro, Amadora e Odivelas têm direito a um terço da ajuda de custo fixada no número anterior.
3 ‐ Os deputados residentes em círculo diferente daquele por que foram eleitos têm direito, durante o funcionamento efectivo da Assembleia da República, a ajudas de custo, até dois dias por semana, nas deslocações que, para o exercício das suas funções, efectuem ao círculo por onde foram eleitos.

ajudem-me por favor, que sou deputado residente num círculo diferente daquele por que fui eleito.

ajudem-me por favor, porque sou deputado e tenho uma reunião plenária.

ajudem-me, que sou deputado...

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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 01:51

Carlos Cunha, poderíamos voltar à democracia de grau zero, não é impossível. É disso que fala? Com heróis abnegados, daqueles que nos fazem erigir estátuas como exemplo. Modelos de vida. De sacrifícios. De dádiva desinteressada à sociedade. Numa palavra: os nossos pioneiros.
Mas se quer que lhe diga, espero sinceramente que isso não tenha de acontecer, porque um tamanho retrocesso civilizacional ainda não cabe nos meus planos, por muito negros que sejam.
A norma que transcreve não me choca de maneira nenhuma. Por que bulas haveria um cidadão eleito de ter de pagar do seu bolso os encargos acrescidos que tem de suportar por causa do mandato político? Despesas acrescidas, sim: pense bem. Então ele e a sua família (qualquer um de nós nessa qualidade de procuradores do colectivo) é que deverão sofrer o ónus nacional da representação política? Não estamos a falar de privilégios, estamos a falar de custos de funcionamento da democracia.
E não: não sou eleita, não quero vir a sê-lo, nem dependo de eleitos. A minha opinião é por isso totalmente isenta.
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De contribuinte a 26.10.2011 às 12:57

Gostei de vos ler!
Ainda bem que ainda há quem tem capacidade de fazer análises transversais.

Eu, só sei que nada sei e cada vez menos sei, sinto-me ignorante perante tantos iluminados, tanto treinador de bancada, tantas razões, tantas certezas, tanta irresponsabilidade, tanta impunidade, tanto privilégio legal...será a nossa cultura, o nosso carácter como povo???
Qual a solução???
Por onde começar???

Quanto aos subsídios de alojamento.
E se, o Governo, criasse residências, dignas, simples cómodas e funcionais, para esses “deslocados”? Cada um com o sua suite, cozinha lavandaria e sala comum, como é (diz-se) nos Países Nórdicos? Mudam os governantes, mudam os ocupantes ...ficaria sem duvida mais barato ao contribuinte.
É, é realmente, também, uma questão de carácter e cultural ou cultural e de carácter...eu sei lá!!!!
..."voltar à Democracia de grau zero"... não tinha pensado nisso...mas, não me parece possível...terá de haver uma outra via, não sei qual!

Continuem, o debate de ideias com elevação, já tão raro, é sempre uma mais valia pelo menos para mim que, sou ignorante.
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De Laura Ramos a 26.10.2011 às 14:29

Contribuinte: visitei a Polónia em trabalho nos idos de 1994, salvo erro, em 'missão' patrocinada pela FLAD, quando os polacos preparavam a entrada na UE. O programa incluiu uma visita ao Parlamento (junto a Varsóvia), onde o pequeno colectivo português foi recebido pelo Vice Presidente. Edifício imponente, enorme, à boa moda da gramática da arquitectura soviética. Visitámos tudo (eles insistiram). - Sabe que mais? Tinha, na realidade, um pequeno hotel agregado, sem qualquer descontinuidade na estrutura. Bons quartos com qb e televisão, zona de trabalho, etc. A televisão? Ligada em directo e em permanência ao "hemiciclo", para que os deputados pudessem ausentar-se mas nunca tivessem desculpa para não comparecer quando eram necessários, em matérias que os convocassem em particular. Ou quando havia votações. Nada de desculpas, portanto... Ali ficavam todos os deputados da nação polaca que não vivessem na capital, pois claro. Nem imagina as piadas do grupo, imaginando o sistema aplicado em Portugal... ;)
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De contribuinte a 27.10.2011 às 18:00

Mais uma vez gostei de a ler!

Sendo a Senhora conhecedora dos “circuitos estatais” pensa que será assim tão “impossível” alterar certos privilégios legais???... sabendo nós que, as leis neste país são sempre de tal ambiguidade, que todos as interpretações são possíveis e plausíveis...

Quanto às residências/hotéis:
Não seria uma forma de ajudar a promover a economia, recuperando edifícios, provavelmente alguns deles devolutos, nas imediações da Assembleia da República, dos Ministérios e, ajustar à realidade os privilégios legais, criando condições (mesmo que sujeitas a chacota), para que esta Democracia, sem a levar ao grau zero, comece a direccionar-se mais para o interesse público, a bem da Nação?
Reforço a ideia de, evitando levar a democracia a grau zero, pois seria reconhecer que falhamos como Nação!

Bem Haja
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De Laura Ramos a 27.10.2011 às 20:29

Caro Contribuinte:
Fica V. Exa notificado de que deverá proceder ao pagamento do recém criado imposto sobre o direito à respiração, à taxa de 10% sobre cada unidade de movimento inspiratório-expiratório, agravada em 25% caso a sua duração seja superior a 03 segundos por ciclo de unidade tributável, mesmo se interrompido de tosse, soluços, risos, impropérios ou asfixia total.

....
Não resisti a brincar com o seu nick, contribuinte :)
Agora a sério:
Não, não acho impossível alterar privilégios legais. E queria mesmo muito que fossem alterados, quando não têm fundamento legítimo.
Quanto aos hotéis tipo residência de Estado, não discordaria nada. Podiam ser perfeitamente viáveis e, desde que não fossem tugúrios, porque não?




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De Contribuinte nadiá a 28.10.2011 às 12:49

Eh eh eh...já me fez rir…obrigada!
Magnífico sentido de humor!!!... muito bom, alto nível!

Depois da privatização das “Águas de Portugal”, será certamente o próximo imposto...taxa sobre o Ar que respiramos!

Quanto às residências do estado, não digo que fossem austeras “albergarias” para caminhantes, nem hotéis de Charme, mas, hotel standard confortável, seria ajustado à realidade do País!

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