Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Os espanhóis e a língua inglesa

por Pedro Correia, em 23.10.11

 

Mariano Rajoy, o mais que provável futuro primeiro-ministro espanhol, anda a receber aulas intensivas de inglês. Para evitar a repetição das figuras lamentáveis da alguns chefes do Governo que se sucederam no palacete da Moncloa nos últimos 35 anos. Adolfo Suárez e o primeiro-ministro cessante, José Luis Rodríguez Zapatero, nunca falaram outro idioma além do castelhano. Felipe González e José María Aznar, fluentes em francês, desconheciam no entanto a língua inglesa enquanto exerceram as funções de primeiro-ministro (uma lacuna que Aznar já teve ocasião de corrigir). Ficaram célebres as fotografias de González com auscultadores nos ouvidos durante uma conferência de imprensa conjunta em Madrid com o presidente George Bush (pai) e de Aznar dialogando com Bill Clinton também na Moncloa com recurso a uma intérprete. Nos anos mais recentes, Zapatero notabilizou-se por ser o único líder europeu que recorria sistematicamente à tradução simultânea nas cimeiras europeias.

Houve mesmo alguns episódios caricatos, recentemente recordados nas páginas do jornal El Mundo. Um dia, ao visitar a Casa Branca, Aznar arriscou falar em inglês. Saiu-lhe, literalmente, este discurso: "Yesterday, I... went to... White House to talk, President Bush. Why reason? One reason. Because, he is my friend. I am... different friends in America; and one... this friends, is the President."

A ignorância da língua inglesa por parte de Zapatero ficou bem patente numa visita efectuada a Londres, onde foi recebido por Tony Blair. À saída do nº 10 de Downing Street, uma jornalista pediu-lhe que dissesse em inglês como lhe tinham corrido as férias. "Thank you", foi a lacónica resposta. Um pouco mais falador esteve na capital espanhola, ao receber o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder. Vendo vários bonsais no jardim da residência oficial do Chefe do Governo anfitrião, Schroeder não se conteve: "Only bonsais..." Réplica imediata de Zapatero: "In the last time of the government, every day bonsais."

Bem faz Rajoy em estudar inglês...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:


26 comentários

Imagem de perfil

De João Carvalho a 23.10.2011 às 16:34

Eheheh... In the last time of the government, every day bonsais para uns e maussais para outros.
Imagem de perfil

De João Carvalho a 23.10.2011 às 16:42

Parece sina dos socialistas ibéricos a queda para o inglês técnico.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:13

Eheheh. Quando li essa frase quase não conseguia parar de rir...
Imagem de perfil

De Leonor Barros a 23.10.2011 às 23:15

Quando transcreveste aqui a conversa do Aznar lembrei-me logo da figurinha do Sócrates na Casa Branca. O discurso também esteve lá transcrito para nossa grande humilhação.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.10.2011 às 13:05

É verdade, Leonor. O portal da Casa Branca assinalava com um 'sic' as passagens mais... sonantes.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.10.2011 às 16:55

É verdade que os espanhóis de diversos partidos políticos, e mesmo os ateus, sentem dificuldade no domínio da língua inglesa. Todavia, também é verdade que em Espanha há muitos milhões de cidadãos totalmente bilingues (catalães, galegos e vascos).
CF
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:14

Isso é verdade. No Reino Unido acontece o mesmo. Sucede até que David Lloyd-George, um dos mais prestigiados primeiros-ministros britânicos do último século, era bilingue perfeito (falava inglês e galês, sendo este o seu idioma materno).
Imagem de perfil

De Ivone Mendes da Silva a 23.10.2011 às 17:01

Pedro, que história fabulosa a dos bonsais! Mas o nosso João tem razão: este problema do inglês só pode mesmo ser ideológico.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:15

Eras bom mas sais, dizem muitos espanhóis ao Zapatero. E vai sair mesmo, a 20 de Novembro.
Sem imagem de perfil

De Teresa a 23.10.2011 às 18:09

Ah, Pedro! Este assunto é-me tão querido! :)))

Tão querido que tem direito a uma etiqueta no meu blogue, Os cromos dos espanhóis, com acrescentos deliciosos nos comentários.

http://gotaderantanplan.blogspot.com/search/label/Os%20cromos%20dos%20espanh%C3%B3is
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:16

Obrigado pela dica, Teresa. Este tema da diversidade linguística também me interessa. Para variar dos temas mais óbvios, ao menos ao fim de semana.
Sem imagem de perfil

De Cristina Torrão a 23.10.2011 às 19:39

Os espanhóis não têm apenas problemas com o inglês, é com línguas estrangeiras, em geral. E, mesmo quando falam alguma coisa, não se conseguem livrar da pronúncia castelhana. Havia o caso da tenista Arantxa Sanchez, rival de Steffi Graf e que sabia alguma coisa de alemão (não sei se viveu alguns tempos aqui na Alemanha, não me recordo). A verdade é que, quando ela falava alemão com os jornalistas daqui, ninguém entendia nada. Mas apreciava-se-lhe o esforço.

Receio que aconteça o mesmo com Rajoy ;)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:20

Os espanhóis têm um problema insanável com o português, por exemplo. Houve um treinador do Benfica que esteve vários anos por cá: no último dia falava um castelhano tão macarrónico como no primeiro. Era incapaz de dizer equipa em vez de "equipo" e coisas assim, do mais básico que há.
Nós somos ao contrário: passamos a fronteira, desatamos logo a falar ou a arranhar o idioma de acolhimento, não vão os espanhóis olhar-nos de soslaio. Tivemos até um primeiro-ministro que começava a pensar em "espanholês" mal chegava a Badajoz. Nem assim as palavras lhe saíam mais fluentes...
Imagem de perfil

De José Maria Gui Pimentel a 24.10.2011 às 12:07

No caso do futebol é bem verdade. O Rodrigo Tello, um jogador que esteve no Sporting 7 anos (7 anos!) deu uma entrevista antes de sair e falou o tempo todo em espanhol, sem sequer se dar ao trabalho de dizer equipa ou bola...o que é inacreditável.

Quanto ao inglês, longe de ser um acérrimo defensor da máxima "eles que falem a nossa língua", devo dizer que não acho a coisa assim tão simples. Nos países grandes (em termos europeus) e com uma cultura forte, como Espanha, França ou Itália, tende a haver uma certo autismo em relação ao exterior, o que tem o seu lado negativo mas também positivo. Nós safamo-nos no inglês muito por que somos muito (demasiadamente?) permeáveis à cultura anglo-saxónica, em tudo desde os filmes à música.

Dito isto, claro que é criticável que Zapatero e companhia não falem inglês. Mas acho que é apenas "moderadamente" criticável. Já agora, Pedro, vale a pena também ver a figura que o Berlusconi fez há uns anos num discurso perante o Congresso americano (honra que foi dada, salvo erro, apenas pela 2ª vez a um chefe de estado estrangeiro).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.10.2011 às 13:12

Certo, José Maria. Mas o Zapatero é de outra geração, muito mais jovem do que o Berlusconi. É menos compreensível que seja um zero à esquerda no domínio dos idiomas (inglês e qualquer outro, incluindo o português, o francês, o italiano e o catalão).
Imagem de perfil

De Alice Alfazema a 23.10.2011 às 20:21

Porque é que Tony Blair , Bush , Bill Clinton , entre outros, nunca fizeram figuras ignorantes ao falarem outra língua? Porque não sabem falar outra, nem lhes é exigida tal proeza. Gostava de vê-los a falar fluentemente português - deveria de ser encantador. :)
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 23.10.2011 às 23:20

No caso de Blair está a ser injusta, Alice: o senhor é fluentíssimo em francês.
Sem imagem de perfil

De Daniela Major a 23.10.2011 às 23:28

Para quem não sabe este problema é histórico. Na realidade, no começo do desenvolvimento da diplomacia, os reis espanhóis tinham grande dificuldade em conseguir arranjar embaixadores para ir para países estrangeiros porque eles não dominavam as línguas (a nobreza espanhola era especialmente ignorante). Recorriam a embaixadores de outras zonas, tipo Flandres ou Sabóia ou ou então a leigos não nobres. Claro que os ingleses e americanos sofrem do mesmo problema :D:D
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.10.2011 às 13:10

Uma incursão histórica ajuda sempre a enquadrar as questões, Daniela. Obrigado pela achega.
Imagem de perfil

De Ana Lima a 24.10.2011 às 01:04

Vá lá... Não podemos ser tão intolerantes com os nossos vizinhos de península. Para além da questão da dobragem que, durante décadas, impediu que tomassem contacto com os sons de outras línguas, a própria fonologia dificulta a aprendizagem. É que, apesar de termos algumas raízes comuns, a riqueza do português é imensa a esse nível ao passo que o espanhol (ou castelhano, se quiserem) é muito limitado. Sons que para nós são familiares não são sequer ouvidos por espanhóis. Daí que quando mudamos a nossa entoação para algo mais perto da sua língua eles já nos entendem.
E actualmente o panorama está a mudar e os jovens espanhóis já não fazem figuras tão tristes quanto as dos seus pais e avós.
Tudo isto pode servir para atenuar o comportamento dos políticos espanhóis em relação ao inglês. Mas não o dos portugueses.
Sem imagem de perfil

De João André a 24.10.2011 às 09:54

Aplauso meu cara Ana, por um comentário que vai de facto à raiz do problema. Os espanhóis têm problemas com outras línguas, assim como quase todas as pessoas oriundas de países que praticam a dobragem (italianos, alemães, franceses, por exemplo). A esse problema adiciona-se de facto a fonética intrínseca à língua (que provoca situações hilariantes, como a dos alemães pronunciarem o "v" como "u" mesmo tendo o som no arsenal fonético).
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.10.2011 às 13:09

O problema dos espanhóis/castelhanos situa-se precisamente ao nível da fonética, como a Ana muito bem observa. Há sons que são pura e simplesmente incapazes de pronunciar. O fonema V, por exemplo. Já para não falar do Z.
A questão vai muito além das dobragens: franceses, italianos e alemães também dobram filmes e séries e apesar disso têm muito mais facilidade para línguas. Nos espanhóis, ressalve-se uma excepção: o Rei Juan Carlos, fluente em vários idiomas - incluindo o português.
Sem imagem de perfil

De João André a 24.10.2011 às 09:57

Caro Pedro, em relação às dificuldades espanholas com aq língua inglesa (e outras), o comentário da Ana Lima acima já cobre o assunto.

Em relação a Rajoy, os seus estudos de inglês provavelmente não passarão de populismo. Até poderá aprender o suficiente para partilhar um lanche com o Obama ou o Cameron, mas a verdade é que para qualquer coisa que envolva negociações a sério nem um nem outro prescindirá de intérpretes para evitar confusões ou mal entendidos.

É dos livros: não se discute negócios na língua nativa do interlocutor se não se dominar a mesma a 100%. Para evitar fazer asneira.
Imagem de perfil

De Pedro Correia a 24.10.2011 às 13:06

«Não se discute negócios na língua nativa do interlocutor se não se dominar a mesma a 100%. Para evitar fazer asneira.» Isso mesmo, João.

Comentar post



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D