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Gira

por José António Abreu, em 20.10.11
Tirei a foto há uns meses por causa do elogio. As frases pintadas em cartazes costumam ser mais grosseiras. «És gira» tem uma delicadeza singela. Uma ausência de agressividade que nos faz pensar que o rapaz hesitou, lata na mão, e, talvez com um suspiro e um trejeito melancólico, acabou por decidir deixar apenas um piropo admirativo e aquela coisa no braço que não consigo decidir o que parece. Tem razão. A miúda é gira. E, apesar de estar praticamente nua, quase não há agressividade sexual na fotografia. Trata-se, evidentemente, de uma rapariga muito nova (ou passando por tal), num anúncio destinado a adolescentes. Pertence àquela categoria a que também pertencia Monique, a jovem que o professor Humbert Humbert, de Lolita, conhecia em Paris, logo no início do livro, a categoria das raparigas que, não sendo já as ninfitas que faziam Humbert agonizar de desejo, mantêm ainda bastantes características da ninfita que foram. Monique era «uma ninfita delinquente a brilhar através de uma prosaica jovem prostituta». Já a rapariga do cartaz será provavelmente «uma ‘universitária’, esse horror dos horrores» mas mantém «os ombros frágeis cor de mel», os «seios moços», o «abdómen retraído», as «ancas infantis», «a graça desvairada e o encanto esquivo, astuto, abalador da alma e insidioso» das ninfitas.

 

Mas isto não é sobre Nabokov nem sobre ninfitas, tema, aliás, que só poderia meter-me em sarilhos. Talvez ainda valha a pena, antes de o deixar sossegado no cantinho relativamente confortável do Inferno onde estará (haverá ninfitas no Inferno?), referir que Humbert distribuía as raparigas pelas categorias de ninfitas – até aos quinze anos de idade –, jovens e universitárias porque isso ajuda a constatar como todos passamos a vida a arranjar categorias para tudo. Menos elaboradas, ou talvez menos perversas, que o sistema de classificação de Humbert Humbert mas não substancialmente diferentes no seu propósito e alcance. Por exemplo: no instante em que vemos alguém pela primeira vez encaixamo-lo numa prateleira estética (bonito / feio) e, minutos depois, em mais umas quantas (interessante / desinteressante / irritante; simpático / antipático / indiferente). Confesse-o ou não, um homem heterossexual avaliará sempre uma mulher em termos de potencial sexual. Colocará sempre a questão: iria para a cama com ela? (Estando a analisar o interior do cérebro masculino, que ela pudesse desejar tudo menos ir para a cama com ele é nesta fase tão relevante como a marca de pasta dentífrica do Steven Spielberg.) Mas a miúda do cartaz fez-me pensar numa outra classificação, com três categorias: há mulheres que fazem um homem pensar imediatamente em sexo; há as que geram primeiro instintos de protecção e só depois vontade de sexo – eventualmente misturada com uma pitada de vergonha; e há aquelas que não suscitam um segundo olhar. A beleza física das mulheres e as preferências individuais dos homens desempenham um papel crucial na distribuição pelas categorias mas a idade, de umas e de outros, terá igualmente alguma coisa a ver com o assunto. (Nota: não vale a pena chatearem-se, meninas; vocês fazem o mesmo em relação aos homens.) É difícil imaginar uma mulher de trinta anos mantendo o ar inocente da miúda do cartaz. De resto, andava para aí outra publicidade a roupa interior feminina, da Triumph, com três actrizes portuguesas na casa dos vinte e muito ou trinta e poucos e a sensação obtida era totalmente diferente. Puro sexo, digamos, apesar da expressão «puro sexo» ser provavelmente um – quiçá deliberado – oxímoro. As mulheres da Triumph colocavam um desafio aos homens que olhavam o cartaz. Como se dissessem: «Não és homem suficiente para nós» (o que, talvez valha a pena referi-lo, é problemático para muitos homens embora poucos estejam disponíveis para admiti-lo). Nenhum adolescente escreveria «são giras» nesse cartaz. É possível que um adolescente nem sequer escrevesse nesse cartaz. Mulheres de trinta anos são velhas para a maioria dos adolescentes. Mas alguém que escrevesse nesse cartaz seria muito mais explícito. Mais brutal, também, porque a idade e a pose das raparigas da Triumph já não permitiam inocência. E talvez seja este o ponto onde eu queria chegar. Os anúncios para adultos dispensam a inocência. Mesmo anúncios que, chamando embora a atenção dos homens, se destinam acima de tudo ao público feminino. Talvez as marcas, ou os criativos por trás delas, acreditem que as mulheres gostam de ver alguma inocência nas adolescentes mas já pouca ou nenhuma nas mulheres adultas. Encontra-se muito isto, na publicidade actual, e suponho que tenha uma certa lógica. As mulheres querem mostrar-se seguras, auto-suficientes, dominadoras mesmo, e dispensarão ver retratadas algumas características que podem ser confundidas com fragilidades e remetem para outros tempos. Mas também é perturbador. Afinal, por que não podem hoje as mulheres de trinta – ou de quarenta ou de cinquenta – revelar alguma inocência? Porque têm – para além de manter os corpos jovens e atraentes – de parecer sempre confiantes e quase sempre sexualmente seguras de si? A pressão que isto representa. A pressão que a publicidade lhes coloca em cima.

 

Seja como for, que a miúda é gira, lá isso é. Até se perdoa ao rapaz ter sujado o vidro da paragem de autocarros para escrever o elogio.

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5 comentários

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De Teresa Ribeiro a 20.10.2011 às 13:31

Porque não podem as mulheres de 30, 40 ou 50 revelar alguma inocência? Porque a vulnerabilidade da inocência pode ser muito sexy, mas apouca qualquer criatura que se pretenda afirmar em sociedade. Além de atrapalhar, confunde-se perigosamente com estupidez.
Já lá vai o tempo em que as dolls se reviam na Betty Boop, Jaa. Sorry...
Quanto à pressão, se existe, neste caso é boa :)
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De José António Abreu a 20.10.2011 às 14:45

Ok, deixa-me responder em dois planos.

Na publicidade, e ao contrário do que se passa com a utilização da imagem feminina, parece não haver problema em passar uma imagem de fragilidade masculina. Os homens são frequentemente apresentados como inseguros perante as mulheres ou, ainda mais, como parvalhões, apenas interessados em futebol, cerveja, carros... e mulheres. São inúmeras as publicidades em que estas utilizam a idiotice masculina a seu favor (o post que o Rui aqui colocou sobre a campanha brasileira com a Gisele Bündchen é um de muitos exemplos possíveis). Já o contrário é raríssimo. Eu aceito que, de facto, os homens são inseguros e fazem imensas vezes figuras de parvo perante as mulheres mas há um prurido, uma barreira politicamente correcta, que trava o surgimento de anúncios em que aconteça o inverso.

E mais importante do que a publicidade, que não passa de um indício, é o mundo real. A necessidade que toda a gente (homens e mulheres) sente de esconder fragilidades pode bem estar a potenciar alguns defeitos típicos da nossa sociedade, nomeadamente a dificuldade para reconhecer erros, pedir desculpa, corrigir o trajecto previsto, aceitar os erros alheios, etc. Os homens, com a sua mentalidade competitiva (guerreira, mesmo) sempre tiveram este tipo de mentalidade mas as mulheres têm-na vindo a adquirir. Por vezes discute-se porque seriam as mulheres melhores líderes políticos. Avançam-se características como bom-senso, sensibilidade, capacidade de diálogo, etc., mas a verdade é que pouquíssimas mulheres que atingem cargos de liderança usam esses traços presumivelmente femininos. Acabam tendo um comportamento igual ao dos homens. Dir-me-ás talvez que estamos numa fase em que não existe alternativa e que mais tarde, quando já não lhes (vos) for tão difícil subir nas hierarquias, poderão agir de maneira diferente. Talvez. Mas isso não invalida que agora seja assim e que eu tenha pena de que tenha de ser. E que duvide que depois mude.
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De Teresa Ribeiro a 21.10.2011 às 00:02

Essa reacção que descreves nas chefias, tanto por parte de homens como de mulheres, é velha como o mundo. Para desempenhar funções de autoridade é preciso arraganhar o dente e mostrar as unhas. É atávico, Jaa. As mulheres têm o problema adicional de ter de provar que são tão ou mais capazes que os homens de exercer o poder... Quando estavam em casinha era diferente, pois era.
A publicidade explora a parvoíce dos homens? Pois claro. Às vezes a publicidade consegue aproximar-se da realidade de uma forma surpreendente (eheheeh)
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De Alice Alfazema a 20.10.2011 às 20:35

E em que teoria se baseia quando afirma: "até se perdoa ao rapaz" - porquê rapaz? Qualquer um vê que a miúda é gira :)
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De José António Abreu a 20.10.2011 às 22:08

Na mesma de sempre, composta por um terço de intuição, um terço de bom-senso e um terço de indiferença pela verdade desde que esta possa prejudicar-me os posts. :)

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