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Algo de muito novo está a acontecer na esfera do debate político em Portugal. Não é ainda possível descrever a dimensão e as consequências do fenómeno. Mas, não tenho dúvidas de que é muito poderoso. Para ilustrar o que digo, recorro a um exemplo. Ontem, acordámos com a notícia de que as subvenções dos políticos não seriam abrangidas pelo corte das remunerações da função pública. A notícia propagou-se nas edições online dos jornais. As caixas de comentários rebentaram de indignação. Esta multiplicou-se na rede (blogues, ttter, fbook) dando origem a novas ondas de choque. A rede da informalidade política fervilhava. Enquanto isso, no espaço político formal, o que faziam os partidos da oposição? Seguro estremeceu ligeiramente, entreabriu a pestana e retomou de seguida o sono reparador que iniciou logo que foi eleito Secretário-Geral. Jerónimo estava algures na baixa de Lisboa numa iniciativa de protesto e indignação. Ou não sei quê. Louçã dividia-se entre a procura das caixas negras dos desastres eleitorais recentes e a escolha da melhor piada para ilustrar os cartazes que um dia destes serão colocados num outdoor perto de si. A meio da tarde, o Ministro das Finanças esclareceu que seria encontrada uma solução para incluir as subvenções no sacrifício. A quem respondeu? Exactamente. Respondeu a quem fez barulho. Isto é, à rede informal de intervenção política que se criou online e em real time. Isto enquanto os actores políticos encartados continuavam no seu espaço tradicional (Jerónimo na rua, Seguro no sofá e Louçã nos panfletos e cartazes) e no seu ritmo pachorrento. Isto é, completamente fora do tempo e do espaço reais de debate. Tiro daqui duas conclusões. A intensidade do tráfego de comunicação política está a aumentar na via que liga os que ocupam o poder e os que têm intervenção política informal (os cidadãos com acesso à rede, se quisermos). Em contrapartida, a oposição organizada está a ser ultrapassada e a tornar-se irrelevante. O mesmo se diga para as instituições em que está representada, com especial destaque, no nosso sistema político, para o parlamento. Por outro lado, constata-se a existência de uma assimetria nos meios de comunicação utilizados. O poder comunica ainda, e sobretudo, através dos canais tradicionais, com prevalência para a televisão. O feedback recebe-o cada vez mais através da rede.

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18 comentários

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De Javali a 19.10.2011 às 15:08

Também reparei nisso. Ontem, exactamente. Espero que hoje façam o mesmo e leiam as caixas de comentários nos jornais online - onde o PR e a sua teoria da equidade está a ser desancada pela grande maioria das pessoas.
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 16:22

Informam de Belém que S/ Excelência está neste momento a dormir a sesta.
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De José António Salcedo a 19.10.2011 às 16:10

Concordo. Já basta de tanta irresponsabilidade, incompetência e até corrupção por parte do poder político e das pessoas nomeadas para a gestão do dinheiro que confiamos ao Estado. Já basta mesmo. Exigimos responsabilidade na sua gestão, exigimos competência e eficácia na legislação, na fiscalização e na punição de crimes, e exigimos um combate frontal à corrupção que se tem vindo a instalar dentro e ao lado do Estado, com apoio dos principais partidos políticos.
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 16:23

Ora aqui está algo que posso subscrever sem reservas.
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De lucklucky a 19.10.2011 às 16:28

As revoluções tecnológicas mudam sempre a política.

É preciso salientar que a isto é um caso que opõe toda a classe política aos clientes dessa classe política logo a oposição não teria interesse em fazer barulho.

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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 17:57

Sim, o espaço político formal estava todo muito ocupado a assobiar para o lado. Basicamente, é o que tem feito nos últimos anos.
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De singularis alentejanus a 19.10.2011 às 17:22

Tudo isto é o resultado de, nós povo, não termos uma verdadeira representação na Assembleia da República. Essa representação têm-a os partidos políticos, daí estarmos numa partidocracia, que defende as idéias dos partidos e não os nossos interesses.
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 17:58

É um ponto, Singularis.
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De José Moura Pereira a 19.10.2011 às 17:31

Aqui há uns anos tive uma sensação muito parecida, mas na altura era a rádio, a TSF e não outra qualquer, que fazia esse papel. estava a ler o seu post e a lembrar-me de quando Jorge Sampaio se atirou para a presidência apanhando parte do partido (dele) a dormir. Com o vazio criado na Câmara de Lisboa era preciso fazer voltar a toda a brida o João Soares que estava em Bruxelas. Era preciso que alguém fosse para o lugar dele e tinha de ser tudo muito rápido e à maneira deles (Soares). O deputado de Aveiro, Candal, tinha escrito umas coisas muito enviesadas sobre Paulo Portas e António Guterres andava eufórico de helicóptero a ver as obras da expo. Conseguiram contactar o primeiro ministro que nessas condições muito particulares, e perante o conteúdo do manifesto de Candal, logo dali o repudiou. Num instantinho lá foi o Candal para Bruxelas e lá veio o João Soares para Lisboa; tudo muito a tempo e a gosto.
Sempre acho melhor que seja a rede a assumir essa força interventiva, que uma outra parte qualquer, que sendo comunicação é poder, mas não devia.
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 18:01

Há sempre nestas coisas vantagens e desvantagens, José. A começar no facto de alguns não terem acesso ao canal e não poderem ver os seus interesses representados. E a acabar no de o tempo de resposta ser muito curto e não permitir qualquer reflexão, correndo-se o risco de iniciar campanhas precipitadas e acabar com soluções erradas (não digo que fosse esse o caso no exemplo que utilizei).

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De Joana Candeias a 19.10.2011 às 18:23

Excelente! Há que acabar com esses morcões; que fazem eles a cada dia que passa? Passa um dia, dia ganho! É vergonhoso!
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 18:58

Obrigado, Joana.

(vê-se que é uma mulher do norte, carago!).
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De André Miguel a 19.10.2011 às 22:10

Mas foi preciso um rombo nos bolsos das pessoas para acordarem! Mais vale tarde que nunca. Acho eu...
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De Rui Rocha a 19.10.2011 às 22:15

Também acho, André Miguel.
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De BST a 20.10.2011 às 00:06

Isso chama-se opinião pública e existe há muito. O que se passa entre nós é que, sendo a opinião pública ignorada pelo poder (e pelo governo) governo, ele responde-lhe ou não consoante lhe interessa.
Que agora «os cafés» sejam o FB é irrelevante.
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De Rui Rocha a 20.10.2011 às 00:11

Conheço poucos cafés com capacidade para uns milhares de pessoas ao mesmo tempo, BST. E também ainda não tinha visto nenhum que obrigasse a uma intervenção pronta do Ministro das Finanças.
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 20.10.2011 às 12:46

Rui
Uma interessante análise.
Acrescentar apenas que a reacção da gestão política à "informação informal" continua a reflectir tiques de uma cultura política obsoleta: ajustar a narrativa às críticas, em vez de avaliar a sua prestação e mudar de rumo. O que nos revela que se trata apenas de uma estratégia de marketing e não de uma receptividade efectiva. O que nos revela ainda que o guião seguido não é o que nos é revelado. Pelo menos, é o que posso concluir dos factos observados.
Ana
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De Rui Rocha a 20.10.2011 às 13:56

E é uma conclusão perfeitamente legítima, Ana Gabriela.

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