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Pouca-terra

por João Campos, em 17.10.11

Não ia à terra desde Agosto. Andava desde meados de Setembro a planear por lá um fim-de-semana, que foi sistematicamente adiado - numa ocasião para assistir a uma apresentação, noutras por motivos de trabalho. Consegui, finalmente, marcar viagem para este fim-de-semana, mas acabei por, na sexta-feira, ter de pedir para sair uma hora mais cedo para poder apanhar o Intercidades que sai de Lisboa Às 17h20 com destino a Faro, que (ainda) pára na estação da Funcheira, no Alentejo. Isto porque a CP decidiu, uma vez mais, eliminar o último Intercidades do dia com destino a Sul, que partia da capital às 19h20.

 

Não percebo muito de gestão, mas não é preciso um mestrado para perceber o esforço enorme que a CP faz para prestar um mau serviço aos seus clientes - e para não ganhar dinheiro. Com destino ao Algarve, a CP tinha, diariamente, quatro comboios Intercidades - 10h20, 13h20, 17h20 e 19h20 - e dois comboios Alfa-Pendular - 08h42 e 18h42. Note-se que o serviço Alfa-Pendular não tem qualquer paragem no Alentejo (ao sair do Pinhal Novo, só volta a parar em Tunes), pelo que qualquer passageiro que tencione viajar para o Alentejo terá necessariamente de o fazer no Intercidades. A CP decide eliminar um comboio - e elimina justamente o último comboio diário com paragens verdadeiramente abrangentes. Podemos justificar a coisa com a necessidade de cortar custos, mas sendo este o objectivo, pelo menos à sexta-feira este seria sempre um serviço a manter, quanto mais não fosse pela enorme afluência de estudantes oriundos do Alentejo e do Algarve que estudam em Lisboa e vão frequentemente à terra no fim-de-semana, e também de pessoas como eu, que já não sendo estudantes, continuam a utilizar o serviço com alguma regularidade. A verdade é que o Intercidades das 17h20 na sexta-feira seguiu esgotado, e na estação da Funcheira - a única que serve a zona mais a Sul do Alentejo - saíram pelo menos 40 pessoas (que tinham boleia à espera, naturalmente - a Funcheira fica no meio de nenhures, e transportes públicos naquela zona são uma miragem).

 

Quando vim viver para Lisboa há oito anos, ia para o Alentejo às sextas-feiras no antigo Inter-regional Barreiro - Vila Real de Santo António das 19h30. Nunca vi esse comboio vazio - entre estudantes, tropas, pessoas que precisavam de vir a Lisboa e de regressar no mesmo dia, e pessoas que pretendiam apenas passar o fim-de-semana na terra, era até frequente ter alguma dificuldade em arranjar lugar sentado. Esse serviço acabou há muito - e a CP dedicou-se com afinco a destruir o serviço Regional do Sul até ao ponto em que estamos, com uma ligação Faro-Setúbal em horários ridículos que não servem para estudantes, trabalhadores ou militares. Parece ser a estratégia da CP para encerrar serviços - mudam os horários até à inutilidade, para justificar o encerramento com a "fraca procura". O Regional do Sul, palpite meu, deve estar entre os próximos. 

 

Entretanto, quem deve ganhar com isto é a Rede Expressos, cujos autocarros até já têm Internet gratuita por Wi-Fi. E, claro, os directores da CP e empresas derivadas, que continuam a ganhar as benesses do costume à custa de todos nós, como mencionou a Leonor neste post

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12 comentários

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De luis eme a 17.10.2011 às 11:01

essa realidade que o João fala pode facilmente ser transportada para outras linhas.

na Linha do Oeste, passa-se exactamente a mesma coisa.

nunca irei perceber esta destruição do melhor transporte do mundo (ou aliás percebe-se, pelo retrato do país, uma boa parte dos nossos governantes têm andado entretidos nos últimos trinta anos a destruir o país, para satisfazer interesses particulares).
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De João Campos a 17.10.2011 às 20:15

Acredito que a situação seja igualmente desoladora noutras linhas do país. Falo (quase) sempre da linha do Sul por ser aquela que utilizo habitualmente.

E, como o luís, também nunca vou compreender os disparates ferroviários do país - e também considero o comboio o melhor transporte do mundo. Nenhuma viagem é tão agradável como uma viagem de comboio.
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De Ricardo Sardo a 17.10.2011 às 13:13

Este post é apenas mais um mero exemplo do que mal se tem feito neste país e de como chegámos a este ponto. Mas numa altura em que tanta gente se revolta contra os anteriores governantes, seria bom perguntar-lhes se também defendem a criminalizaçáo e a prisão destes péssimos gestores. É que se vamos prender quem gere mal os dinheiros públicos, podemos começar pelos governantes de Sócrates, mas terminaríamos a prender gente ligada aos partidos de quem defende a prisão daqueles, nomeadamente os jotas do PSD. Por uma questão de coerência e seriedade, digo eu...
Cumprimentos.
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De Leonor Barros a 17.10.2011 às 14:36

Não há inocentes, Ricardo. Quem nos governou desde 1974 foi o PS e o PSD, são eles que são responsáveis por este estado calamitoso a que chegámos.
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De Ricardo Sardo a 17.10.2011 às 15:01

Nem mais. Mas os restantes partidos também são responsáveis, nem que seja por omissão (nomeadamente não apresentarem alternativas credíveis). Mas o CDS é e já foi governo. As principais culpas não podem ser repartidas apenas entre PS e PSD.
Cumprimentos.
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De Leonor Barros a 17.10.2011 às 16:09

Já não para falar do Presidente da República que devia ter dissolvido o Parlamento no ano passado quando ficou claro que o Sócrates só estava a fazer porcaria.
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De João Campos a 17.10.2011 às 20:20

Como a Leonor já disse, a questão aqui é transversal. Aliás, se não me engano foi num dos governos de Cavaco Silva que se fechou a linha do Dão, tornando Viseu numa das maiores cidades da Europa a não dispor de ligação ferroviária. Se quisermos apurar culpados pela destruição da nossa ferrovia, já de si débil, podemos começar no nosso actual Presidente e ex-primeiro-ministro.
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De João André a 17.10.2011 às 13:36

Fora as questões dos transportes, ressalvo um aspecto: ter de se pedir para sair mais cedo numa sexta-feira.

Não sei se são os holandeses e alemães que são preguiçosos, mas não costumam pedir para sair mais cedo, ir a uma consulta ou tirar férias. Avisam, simplesmente, sabendo-se que não o farão sem garantir que o trabalho não paralisa sem eles. À sexta-feira é ver as estradas e comboios completamente cheios cerca de uma hora antes da saída habitual do trabalho com pessoas que vão de fim de semana a algum lado. Nas alturas de sol essa hora passa a duas. Não me parece que se peça licença. Até porque se os patrões e chefes também saem mais cedo, não há a quem o fazer.
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De João Campos a 17.10.2011 às 20:18

Não vejo como discordar do seu ponto de vista, João.
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De Pedro Correia a 18.10.2011 às 01:22

Desloco-me com frequência ao Algarve. Deixei de o fazer por comboio há dois meses, quando apanhei na Gare do Oriente o Intercidades das 13.20 que só chegou a Faro quatro horas e vinte minutos depois. Fim da picada para mim: concluí de vez que a CP, empresa pública, não presta serviço público. O verdadeiro serviço público - tal como sucede na televisão - é prestado pelos operadores privados, no caso a rede Expresso ou os autocarros algarvios da empresa Eva. Quando vou ou venho de lá em transportes público, a minha opção passou a ser esta. Mais barata, mais confortável e sobretudo mais rápida.
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De João Campos a 18.10.2011 às 10:52

... e agora com wireless gratuito (na RE).

Considerando que toda a linha do Sul é linha única (não existe linha dupla), as quase quatro horas para chegar a Faro não surpreendem. Daí o Alfa Pendular também não compensar.

No entanto, para mim o expresso só será alternativa para o comboio quando este deixar de circular. No expresso nunca tenho espaço para o portátil, e não consigo ler muito tempo sem enjoar (o que é estranho, pois leio na Carris todos os dias).
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De Luís Bonifácio a 19.10.2011 às 00:20

Os horários dos comboios, sobretudo os de longo curso são decididos pela administração da CP e os maquinistas.

O que regula a saída de uma composição para Faro ou vice-versa não são os fluxos de passageiros, mas sim o facto de os maquinistas quererem acabar o serviço a uma hora simpática para eles

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