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ENTREVISTADOR

É dito com frequência que os seus livros recentes parecem mais romances do século dezanove do que do século vinte e um.

 

FRANZEN

As pessoas da Academia Sueca, que atribuem o Prémio Nobel, confessaram recentemente o seu total desinteresse na produção literária americana. Dizem que somos demasiado insulares, que não escrevemos sobre o mundo, escrevemos apenas sobre nós próprios. Considerando quão americanizado o mundo se tornou, eu penso que provavelmente eles estão errados – provavelmente nós dizemos mais acerca do mundo escrevendo acerca de nós próprios do que um autor sueco escrevendo acerca de uma viagem a África. Mas ainda que estejam certos, não penso que a nossa insularidade seja necessariamente uma coisa negativa.

A Rússia do século dezanove surge-me como uma boa analogia. A Rússia é o seu próprio pequeno mundo, famoso pela sua capacidade para repelir invasões por parte de potências estrangeiras, e tem mantido um estatuto de superpotência independente ao longo de séculos. Talvez essa insularidade, essa sensação de viver num mundo completo mas não exactamente universal, crie certos tipos de possibilidades literárias. Todos os velhos autores russos estavam dramaticamente envolvidos na questão do que aconteceria ao seu país e a questão não parecia inconsequente porque a Rússia era uma nação vasta. Enquanto que, quando um habitante do Liechenstein se debate com o futuro do Liechenstein, quem é que verdadeiramente se interessa? É possível que os Estados Unidos e a Rússia sejam exactamente do tamanho adequado para gerarem um certo tipo de projecto romanesco expansivo. A Inglaterra também o foi, durante um tempo, graças ao seus império, e a época de ouro do romance inglês coincidiu com o seu domínio imperial. Mais uma vez, não era o mundo todo, era apenas um microcosmos bastante grande. O verdadeiro cosmopolitismo é incompatível com o romance porque os romancistas precisam de particularidade. Mas nós também precisamos de espaço para nos movermos. E temos a sorte de ter ambos aqui. Dito isto, eu não me sinto particularmente como um autor do século dezanove. Todos as questões que o modernismo tornou problemáticas continuam a ter de ser negociadas em cada livro.

Jonatahn Franzen, em entrevista à The Paris Review (nº 195). A tradução é minha. A entrevista em inglês encontra-se disponível aqui.

  

Basta ver a lista de laureados nos últimos, vá, quinze anos, para perceber o que o Comité Nobel entende por escrever acerca do mundo. Se em algumas escolhas podem detectar-se motivações políticas extra-literárias (Fo, Saramago ou Pinter, por exemplo), se parece existir uma preocupação em abranger todos os continentes, etnias e sexos (e em ir corrigindo desequilíbrios que até podem ser literariamente justificáveis mas são mal vistos na época de sensibilidades exacerbadas em que vivemos), se é notória a selecção de autores com obras transmitindo mensagens «adequadas», percebe-se também uma linha geral de busca do exótico, do «diferente», do – exagerando apenas um pouco – étnico. De tal forma que quase todos os laureados provenientes de países «ocidentais» tiveram de fazer pelo menos uma de três coisas para ganhar o prémio (vários fizeram duas ou mesmo as três): apresentar uma forte mensagem politicamente correcta (Grass, Kértesz, Pinter, Jelinek, Lessing, Müller), que em vários casos encaixava perfeitamente no momento histórico que se vivia (notório no caso de Pinter como, apesar de não ser exactamente um escritor «ocidental», também no de Pamuk), sair da realidade «normal» para o mundo da alegoria ou de uma realidade hiperbólica (Saramago, Le Clézio, Jelinek), localizar também eles obras em geografias não-ocidentais (Le Clézio, Lessing). Os principais autores norte-americanos não se dispuseram a nada disto e o resultado, provando que a aversão da Academia Sueca é real, foi nenhum deles ter obtido o Nobel.

  

E o pior é que Franzen está certo. Passando sobre a discutível afirmação acerca da representatividade e interesse de uma obra sobre os problemas do Liechenstein (faltar-lhe-ia escala, sim, mas não é por faltar escala à República Dominicana que A Festa do Chibo, de Vargas Llosa, deixa de nos interessar), o mundo «americano» é, em grande medida, o mundo actual e os grandes autores americanos mostram-no-lo bastante mais (McCarthy de uma forma menos óbvia do que os restantes mas ainda assim muito americana – e, de qualquer modo, a sua escrita é demasiado apocalíptica para que ele seja alguma vez considerado pelas cabecinhas louras dos suecos) do que autores escrevendo sobre realidades mais específicas. Esses relembram-nos o que também existe. E é importante que o façam; obrigam-nos a sair do casulo. Mas a esmagadora maioria dos leitores de literatura vive os problemas das personagens de Roth ou de Franzen, não das de Saramago. Pensa o mundo a partir de posições parecidas com as de Nathan Zuckerman (o alter-ego de Roth) ou Gary Lambert (de As Correcções, de Franzen) e não a partir de posições similares às de David Lurie (de Desgraça, de Coetzee) ou de Mr. Biswas (de Uma Casa para Mr. Biswas, de Naipaul). Não pretendo dizer com isto que umas são melhores do que as outras. Mas a circunstância dos principais autores americanos se debruçarem sobre a América e não directamente sobre outras partes do mundo não retira um átomo de relevância ao que vêm produzindo. Pelo contrário: na extravagante demanda da Great American Novel, os americanos (os actuais e muitos dos falecidos nas últimas décadas: Bellow, Gaddis, Foster Wallace, Mailer, etc.) não estarão até longe de procurarem o grande romance do mundo actual – do mundo como ele cada vez mais o é. Recusar a relevância de gente como Roth, DeLillo, McCarthy, Oates, Pynchon ou (mas seria sempre demasiado cedo para ele) o próprio Franzen revela uma miopia atroz. Felizmente a lógica não terá sido sempre esta ou Bellow nunca teria conseguido o Nobel. A menos que os suecos o tenham premiado exclusivamente por causa de Henderson, O Rei da Chuva.

 

Adenda: o Prémio Nobel da Literatura de 2011 é anunciado amanhã ao meio-dia, hora portuguesa. Alguém aposta num americano?

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24 comentários

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De JSP a 05.10.2011 às 21:28

Certeiro!
E nunca, mas nunca mesmo, devemos esquecer a vergonhosa , omnipresente nódoa desta canalha : a omissão, aliás , a negação de Jorge luís Borges.
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De José António Abreu a 05.10.2011 às 21:41

Completamente de acordo quanto ao Borges, JSP.
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De Pedro Correia a 05.10.2011 às 21:34

Depois do prémio dado (finalmente) ao Vargas Llosa, gostaria que o Nobel fosse entregue a outro grande escritor contemporâneo: Amos Oz. Receio, no entanto, que o estigma de 'autor comercial', que tanto marcou VL, possa também aplicar-se ao israelita. Como se tivesse culpa de vender muitos e bons livros.
Dos norte-americanos, Mailer e Salinger morreram em anos recentes sem o prémio que ambos mereciam. Espero que o Gore Vidal tenha melhor sorte: para mim, é a grande omissão da tua lista.
Mas o meu eleito, nesta altura do campeonato, seria desta vez um brasileiro. É um escândalo o Comité Nobel nunca ter premiado a literatura brasileira. E, entre os autores brasileiros, elejo o grande Rubem Fonseca. Usando a tua lógica, a esmagadora maioria dos leitores de literatura vive os problemas das personagens de Fonseca - autênticas personagens universais, como são também (e aqui discordamos) as do Coetzee e do Naipaul. Mais até do que as do Roth, muito centrado no universo judaico nova-iorquino.
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De José António Abreu a 05.10.2011 às 22:15

O esquecimento do Vidal é imperdoável, de facto. Quanto às personagens do Coetzee ou do Naipaul (escritores que adoro), elas são universais no sentido em que são extremamente humanas e expandem horizontes. Mas, no mundo actual, a maioria dos leitores têm problemas mais parecidos com as personagens de Roth (apesar do universo judaico), de Franzen ou de Bellow. Se quiseres, escritores como Roth, DeLillo, Franzen, etc. questionam o que nos está próximo, mostram-nos o nosso mundo 'normal' (e por isso são pouco exóticos) enquanto Coetzee, Naipaul, Oz, Vargas Llosa, Garcia Márquez, o Kundera da primeira fase, etc., nos mostram que existem outras realidades (que, obviamente, são normais para eles - e daí, em alguns casos, sê-lo-ão?) em que o ser humano se debate mais ou menos com as mesmas questões (morte, sexo, poder, etc.) perante riscos e convenções distintas. A Academia Nobel entende que os primeiros escrevem essencialmente sobre o umbigo enquanto os segundos abordam os temas realmente importantes - é nesse ponto (e apenas nesse) que estou em desacordo. Ou talvez em mais um: é também mais ou menos óbvio que americanos, escrevendo de um ponto de vista americano, sobre a América, são uma opção pouco politicamente correcta para a Academia Nobel.

Não me importaria que Amos Oz ou Rubem Fonseca ganhassem o Nobel. (Mas não creio que o atribuam dois anos seguidos a autores sul-americanos.) Pessoalmente, gostaria que fosse Kundera. Mas desconfio que será um poeta (a poesia é preterida há muitos anos). E talvez uma mulher, já que no ano passado foi um homem. Se for mulher mas não poetisa, aposto na Margaret Atwood que, sendo canadiana, funcionava quase como uma bofetada de luva branca nos autores americanos.
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De Ivone Mendes da Silva a 05.10.2011 às 21:49

Amanhã se verá, jaa.
Eu acho que o Frazen deu esta entrevista porque ainda não é "nobelizável", mas não deixa de ter toda a razão.
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De José António Abreu a 05.10.2011 às 22:23

Exacto, Ivone, amanhã se verá. Quanto à entrevista, não sei... As entrevistas da The Paris Review são tão bem feitas, vão normalmente tão fundo, que talvez ele tivesse arranjado uma outra forma de responder, sem mencionar a Academia Nobel, mas não tenho a certeza.
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De Helena a 05.10.2011 às 23:25

Se eu tivesse voto o Nobel seria o Ferreira Gullar ou o Mia Couto. Dúvido que seja um americano.
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De José António Abreu a 05.10.2011 às 23:40

Fixe, escolhas um bocadinho iconoclastas! Não conheço a obra de Ferreira Gullar. Tem a vantagem de ser poeta (já não há um Nobel da área da poesia há uns anos) mas duvido que o prémio seja atribuído dois anos seguidos a autores da América Latina. Quanto a Mia Couto, confesso que, apreciando-o, está longe do topo da minha lista de preferências.
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De Luís M. Jorge a 06.10.2011 às 00:13

McCarthy e Roth mereciam o Nobel de caras. Já escrevi no Vida Breve que se não ganharem este ano não vou perder mais tempo a pensar na porcaria do prémio.

Mas nestas alturas recordo sempre com saudades os tempos em que o Eanes queria premiar o Torga, e havia políticos que urravam contra as injustiças cometida ao Virgílio Ferreira. Coisinhas boas da parvónia, que nunca mais voltam.
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 00:19

Se o McCarthy ganhasse eu andaria dois dias de boca aberta. Mas feliz - apesar de, como referi na resposta ao comentário do Pedro, gostar que fosse o Kundera, ele ou o Roth merecem-no bem.
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De Luís M. Jorge a 06.10.2011 às 00:24

Blood Meridian é coisa mais impressionante que li, talvez, desde que me tornei íntimo de Proust & Musil. E olha que eu adoro o Roth.
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 00:33

Mas estás a ver os suecos a darem o prémio a alguém que escreveu 'Blood Meridien'? A alguém que inventou o juiz Holden? E (spoiler para quem não leu o livro e planear fazê-lo) nem sequer teve a decência de o matar no final, deixando claro que o Mal nunca morre?
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De Luís M. Jorge a 06.10.2011 às 00:39

Provavelmente sai-nos mais um Islandês na rifa, ou uma feminista do Burkin Fasso.
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 00:23

sampy: tenho a impressão de ter aprovado um comentário seu a este post mas agora não o vejo aqui. Talvez por causa da hora, posso ter clicado no campo errado. Se realmente deixou um comentário, desculpe lá mas vai ter de o voltar a escrever. E eu só lho aprovo amanhã de manhã porque já estou a cometer demasiados erros e vou mas é dormir.

(Se não deixou o comentário, então a situação ainda é mais grave e preciso mesmo de dormir com urgência.)
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 00:26

Esqueçam tudo - foi noutro post. Por um lado, ainda bem (não estou totalmente louco). Por outro, preciso decididamente de dormir umas horas.
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De Isa a 06.10.2011 às 05:19


1930 - Sinclair Lewis (1885-1951)
American writer. Received the 1930 Nobel Prize for Literature "for his vigorous and graphic art of description and his ability to create, with wit and humor, new types of characters."

1936 - Eugene Gladstone O'Neill (1888-1953)
American writer. Eugene (Gladstone) O'Neill won the Nobel Prize for Literature in 1936, and Pulitzer Prizes for four of his plays: Beyond the Horizon (1920); Anna Christie (1922); Strange Interlude (1928); and Long Day's Journey Into Night (1957). He won the Nobel Prize in Literature "for the power, honesty and deep-felt emotions of his dramatic works, which embody an original concept of tragedy."

1938 - Pearl Buck (1892-1973)
Pseudonym for Pearl Walsh née Sydenstricker.
American writer. Received the 1938 Nobel Prize in Literature "for her rich and truly epic descriptions of peasant life in China and for her biographical masterpieces."

já vamos em 3 na mesma década...

1949 - William Faulkner (1897-1962)
American writer. Received the 1949 Nobel in Literature "for his powerful and artistically unique contribution to the modern American novel."

1954 - Ernest Miller Hemingway (1899-1961)
American writer. Brevity was his specialty. Received the 1954 Nobel in Literature "for his mastery of the art of narrative, most recently demonstrated in The Old Man and the Sea, and for the influence that he has exerted on contemporary style"

1962 - John Steinbeck (1902-1968)
American writer. Received the 1962 Nobel Prize in Literature "for his realistic and imaginative writings, combining as they do sympathetic humor and keen social perception."

1976 - Saul Bellow (1915-2005)
American writer. Received the 1976 Nobel Prize for Literature "for the human understanding and subtle analysis of contemporary culture that are combined in his work."

1978 - Isaac Bashevis Singer (1904-1991)
Polish/American writer. Received the 1978 Nobel Prize for Literature "for his impassioned narrative art which, with roots in a Polish-Jewish cultural tradition, brings universal human conditions to life."

1980 - Czeslaw Milosz (1911-2004)
Polish/American writer. Received the 1980 Nobel Prize for Literature for voicing "man's exposed condition in a world of severe conflicts."

1993 - Toni Morrison (1931- )
American writer. Received the 1993 Nobel Prize for Literature for "novels characterized by visionary force and poetic import," giving "life to an essential aspect of American reality."

não me parecem poucos...

abç

Fonte: http://classiclit.about.com/library/bl-bio/bl-nobel.htm
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 09:35

Isa: a percepção do mundo da América não é a mesma que era há umas décadas. E que eu saiba ninguém da Academia Nobel acusou nessas épocas os autores americanos do que quer que fosse - apesar de vários laureados se terem debruçado quase exclusivamente sobre a realidade americana (Faulkner, Steinbeck, Bellow e Morrison, por exemplo). Se reparar, eu limito a minha análise aos últimos quinze anos precisamente porque esta é uma questão recente.
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De Luís M. Jorge a 06.10.2011 às 11:01

E depois, deixemo-nos de merdas, a literatura americana é a única com alguma pujança nestes quinze anos.

Os tipos do Booker bem tentaram premiar uns indianos ou paquistaneses e foi a miséria que se viu.

Não vale a pena inventar.
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De Ana a 06.10.2011 às 12:03

E muito bons, eu sabia que havia americanos laureados, e à minha cabeça surgiram de imediato, os que em tempos li: Pearl Buck , Faulkner , Ernest Hemingway e John Steinbeck . e que confirmei depois de ler o comentário de Isa. Se há quem retrate bem a realidade americana esse escritor é, na minha modesta opinião, Steinbeck que releio presentemente com muito agrado, mas de facto a realidade americana, de há uns anos a esta parte, é bem outra. Obrigada pelo belíssimo post de jaa . Estamos sempre a relembrar e/ou a aprender.
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 13:57

Obrigado eu. O que acho mais ilógico na posição do Comité Nobel é que por um lado os EUA, goste-se ou não, são uma parte essencial do mundo actual; e por outro que, tal como vários laureados no passado (Steinbeck é um bom exemplo) mostravam facetas pouco simpáticas (ou pouco optimistas) da América, poucos, se alguns, dos grandes escritores americanos actuais (ou recentemente falecidos) apresentam uma visão optimista - muito menos glorificadora - da política e filosofia de vida americanas. Dar o Nobel a McCarthy, DeLillo ou Vidal (que me esqueci de mencionar no post mas que o Pedro Correia lembrou no segundo comentário) dificilmente poderia ser visto como premiar alguém que apoia a política americana (se é isso que o Comité deseja evitar) ou que não se preocupa com os problemas do mundo (que é o que o Comité afirma considerar criticável).
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De Miguel a 06.10.2011 às 19:14

Apenas para notar, em jeito de aparte, que um dos melhores romances
da última década “Les Bienveillantes“ foi escrito em francês por Jonathan Littel, norte-americano nascido em New York, naturalizado francês, sobre a vida de um oficial alemão das SS durante a invasão da URSS na segunda guerra mundial passando pela Ucrânia, pelo Cáucaso, França, .. e abordando a perseguição e extermínio dos judeus .... tudo temas bastante relevantes para a "cosmovisão" contemporânea dos americanos. .... Talvez o Franzen tenha algo a aprender com este exemplo -- sem desprimor para o Cormac McCarthy nem para o Pynchon.

(O paralelismo sugerido pelo Franzen entre os norte-americanos actuais e Tolstoi, Dostoievski, Turgenev, Herzen, etc etc é algo cómica, não é?)
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De José António Abreu a 06.10.2011 às 20:21

Mas porque deveria o Franzen "aprender" com o Littel (ou vice-versa)? Cada um escreve os livros que entende e justifica-os como entende. Qualquer prémio, incluindo o Nobel, é um detalhe quase irrelevante. Aliás, escrever para ganhar o Nobel é capaz de ser uma das melhores formas de não o ganhar. Da mesma forma, justificar tê-lo obtido dá normalmente azo a obras menores (ver o caso do Saramago e dos livros que escreveu logo depois de ser laureado).

Não me parece que Franzen faça o paralelismo entre os escritores mas entre o mundo que esses escritores usam como material (um país vasto, socialmente complexo, envolvido frequentemente em guerras, etc.). As obras resultantes são, evidentemente, diferentes em estilo (já os temas são os usados por todos os escritores em todo o lado desde sempre: amor, ódio, desejo de poder, medo da morte,...). Aliás, o próprio Franzem recusa a comparação ao referir a necessidade de lidar com os problemas surgidos com o modernismo.
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De Miguel a 06.10.2011 às 20:39

jaa,

Parece-me que o Franzen defende a literatura americana da acusação de insularidade e que, para isso, invoca os romancistas russos do sec XIX fazendo um paralelismo entre eles e os americanos actuais. Independentemente da validade da acusação, creio que esse paralelismo só seria válido se a literatura russa dessa época fosse também ela, nos seus temas e contexto intelectual, essencialmente limitada à vida na Rússia. Acontece que tanto a cultura política como literária dos escritores russos dessa época era fortemente marcada pelos desenvolvimentos políticos em toda a Europa – especialmente em França (1789, 1848) e na Alemanha –, pelos debates filosóficos correntes pela Europa fora, tendo sido mesmo “criticados“ (por críticos literários como o I. Berlin) por uma recepção por vezes acrítica e sobre-entusiasmada de muitas das doutrinas europeias que “importavam“ do resto da Europa, talvez em parte pela razão de muitos deles terem passado grande parte da época formativa das suas vidas viajando ou estudando pela França, Alemanha, Inglaterra. Não é, de facto, questão do Franzen ter algo a aprender com o Littel, mas em vez disso o facto de que a analogia que ele fez passar um bocado ao lado da questão, e talvez Littel estar mais próximo desse cosmopolitanismo literário e intelectual dos russos.

Quanto ao Nobel, de acordo, o que não falta são grandes escritores que nunca o receberam.
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De José António Abreu a 07.10.2011 às 09:39

Ok, é um bom ponto, mas ainda assim há autores americanos extremamente cosmopolitas. Vidal será o exemplo mais evidente. Sontag e Gaddis, falecidos há poucos anos, eram outros casos óbvios. DeLillo, sendo bastante americano, não me parece propriamente fechado ao resto do mundo. Mesmo um escritor como Pynchon (que conheço relativamente mal - só li o pequenino "The Crying of Lot 49"), sendo por um lado claramente americano, consegue misturar elementos de muitas proveniências nos seus livros. "Gravity's Rainbow", por exemplo (que ainda hei-de ganhar coragem para tirar da estante e ler finalmente) passa-se até, em boa parte, na Europa, e "V", para além de partes na Europa, tem um capítulo passado em África. As influências de Joyce Carol Oates são em grande medida europeias, embora não actuais (as irmãs Brontë, Dostoyevski, Kafka, Mann,...). E mesmo as sagas de McCarthy, aparentemente tão americanas, têm muitos elementos que as ligam aos clássicos.

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