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Pandemia L

por Laura Ramos, em 05.07.11

Temo que os leitores do DO não reconheçam o seu blogue do costume e comecem a achar-nos acometidos de um estranho síndrome de Tourette. Mas o Sete Vidas como os Gatos passou-me a corrente e há pessoas a quem não podemos dizer não (eu sei que demorei, mas ai que prazer é ter um inquérito para responder, e não o fazer…)

 

1. Existe um livro que relerias várias vezes?

Muitos. Um deles seria seguramente 'Confesso que vivi', de Pablo Neruda. Uma grande lente macro sobre a humanidade, a existência, o panorama político do tempo deste poeta engagé da minha predilecção. Tiques compreensíveis da minha geração.

 

2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Quando não gosto, não tento mais.(E como não quero falar de Saramago e da ‘Jangada de Pedra’… porque do Memorial do Convento, Rui, gostei mesmo) lembro-me agora das 'Memórias do Marquês de Fronteira e Alorna'. Simplesmente porque é uma obra extensa, e nem sempre regular. Trata-se do relato  quotidiano da guerra civil portuguesa, vista por dentro.

 

3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

Custa-me imaginar tamanha condenação. Teria de fazer um exercício de gestão estratégica, não é? Por isso, escolheria uma escrita não finita: e então teria de ser poesia, claro, nunca prosa. Seguramente um livro de Sophia de Mello Breyner. Pensando melhor, abriria uma excepção à prosa, no caso dos ''Diários' (Vergílio Ferreira ou Torga, comecei agora a gostar dos monólogos deste último).

 

4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Por razões diferentes: 'Ulisses', de Joyce. 'As vozes do Rio Pamano', de Jaume Cabré.

 

5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?

Salvo um qualquer policial, não consigo lembrar-me de nenhum livro por causa desse aspecto específico. Mas, levando o assunto para o lado dos autores, e dos que são capazes de surpreender pela imprevisibilidade, então a escolha vai para David Lodge.

 

6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Cresci numa casa recheada de livros e o vício da leitura pega-se. Mas o espinho desta faceta familiar é que a certa altura os livros já não são organizáveis e não se lhes encontra o rasto. Pior do que isso, não são de ninguém... Conclusão: desenvolvi um terrível instinto de propriedade sobre eles.

Aqui vão os inevitáveis: Condessa de Ségur. Enid Blyton. Os contos de Andersen. As obras da Colecção Azul (que nostalgia repentina!). Odete de Saint Maurice. Júlio Dinis. E depois (sem nunca passar por Verne…) Louise M. Alcott, Florence Barclay, Alexandre Dumas - o que eu li e reli o Visconde de Bragelonne, que completava o 'Três Mosqueteiros' e o 'Vinte Anos Depois'! Perdia-me por sagas.

 

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

O Código da Estrada?! Não, claro que não era bem isto... Já sei: 'Direito das Coisas',  de Orlando de Carvalho. Que massacre.

 

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

'Quarteto de Alexandria', Lawrence Durrell. 'Diários' de Anaïs Nin. 'Mulheres Apaixonadas', DH Lawrence.' A ponte', Manfred Gregor. 'O fio da Navalha', Somerset Maugham. 'À procura do tempo perdido', Marcel Proust. 'O Estrangeiro', Camus.  'Thérèse Desqueyeroux', F. Mauriac. ''Praça da Canção', Manuel Alegre. Vários de Natália Correia. 'Minha Senhora de Mim', Maria Teresa Horta. 'Iluminações - Uma Cerveja no Inferno', Rimbaud. 'Memórias de Adriano', M. Yourcenar. 'Os Maias', Eça de Queirós. 'Dinossauro Excelentíssimo', José Cardoso Pires. 'Os cus de Judas', António Lobo Antunes. 'Pequena Crónica de Ana Madalena Bach', E. Meynell. 'O homem do fato castanho', Agatha Christie. 'O Rosto de um Estranho', Anne Perry. 'Nome de Guerra', Almada Negreiros. 'O Homem Sentimental', Javier Marías. 'Tocata para Dois Clarins', Mário Cláudio.

 

9. Que livro estás a ler?  

Estava a ler a 'Anatomia de um Instante' (J. Cercas) até quinta-feira passada, quando assisti a uma conferência memorável sobre “Méritos da Constituição vigente: o sistema das eleições parlamentares nacionais”. Pela terceira ou quarta vez na vida, ouvi falar de António Cândido, abundantemente citado durante o debate. E no dia seguinte, farta da minha ignorância, fiz o download do livro Principios e questões de philosophia politica (condições scientificas do direito de suffragio). Um prodígio de actualidade. Estou mergulhada (e por aqui foi fds prolongado).

 

10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.

É terrível quebrar esta regra, de que afinal beneficiei. Mas vou fazer uma  GPO e passar  a corrente apenas a dois, porque sei que não coincidirão comigo na sua selecção e irei, por isso, aprender imenso com as suas respostas. Assim, o meu desafio vai para Júlio Machado Vaz António Pedro Neto.
Sobram oito lugares a concurso: gostaria mesmo, como a Ana Margarida, que alguns comentadores do DO se dessem ao trabalho de responder aqui mesmo, em sua casa. E assim sempre tínhamos uma propagação do vírus controlada...

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17 comentários

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De Laura Ramos a 06.07.2011 às 00:21

1- Ao menos uma, vá lá, vá lá! Sempre gostei de biografias e autobiografias, desde que o biografado mereça. Pois eu tive algumas coincidências, em especial o "Não Matem a Cotovia", que costumo citar muitas vezes como o meu livro-chave, em dada altura muito recuada.
2- eheh:) O meu sublinhado resultou... Não li Verne, mas fui eu quem perdi com isso.
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De Pedro Correia a 06.07.2011 às 00:44

E eu na minha lista esqueci-me de alguns outros: 'Coração, Solitário Caçador', da Carson McCullers, e 'O Homem que Via Passar os Comboios', do Simenon.
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De Ana Vidal a 06.07.2011 às 12:56

E eu esqueci-me do Oscar Wilde! Como, se é um dos meus autores favoritos de sempre?? Deve ser o senhor alemão, a boicotar os ingleses... :-)
E o Neruda? Maravilhosa auto-biografia que vai muito para além do Homem, como diz a Laura.
A propósito de biografias, também me lembrei agora de duas muito curiosas que li, de mulheres de ídolos da literatura (que os viam com outro olhar): Lou Andreas Salomé (Rilke, Freud, Niztche e mais alguns) e Consuelo de Saint-Exupéry, neste caso uma auto-biografia curiosíssima chamada "Memórias da Rosa" (não tenho a certeza do título mas é qualquer coisa assim) que desconstrói a imagem imaculada do "principezinho aviador".

É giro continuarmos o assunto nas caixas de comentários.
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De Laura Ramos a 07.07.2011 às 01:17

Esse não conheço. Mas tenho a correspondência entre ela (Consuelo) e o Saint-Exupéry.
Lou Salomé... que fascínio (embora não fosse boa pessoa;))
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De Ana Vidal a 07.07.2011 às 11:17

Raramente as boas pessoas são tão fascinantes, não é? E com os homens que lhe passaram pela vida, se ela fosse boa pessoa não tinha sobrevivido... :-)
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De Laura Ramos a 07.07.2011 às 12:58

Olha, outra: esqueci-me da George Sand! Essa não se contentou com menos do que o Frederico... (Chopin), um homem sentimental ;)
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De Ana Vidal a 07.07.2011 às 13:18

Mais uma, sim. E será que ele era tão sentimental e tão nostálgico como a música que compôs? Não faço ideia, nunca li a biografia dele. :-)

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