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Ainda a Igreja e o Estado

por João Carvalho, em 11.01.09

Inspirado pelo post mais abaixo «Há ditaduras boas?», em que Carlos Barbosa de Oliveira questiona o papel da Igreja católica perante as ditaduras, talvez fique bem recordar aqui um episódio do Estado Novo que fez correr muita tinta, passado há exactamente meio século.

Em 1958, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, depois de duas intervenções clarividentes e entendidas como críticas à situação, dirige uma carta a Oliveira Salazar em que reclama a liberdade de os católicos defenderem publicamente os princípios sociais da Igreja.

Considerado incómodo para o regime e aconselhado a afastar-se, o bispo ignora. Desloca-se a Roma no ano seguinte e, na volta, é impedido de entrar no País. Lisboa está informada da viagem e D. António é vigiado nos seus passos de regresso: a fronteira Minho-Galiza, no noroeste, é-lhe barrada. Fica em Tuy, primeiro, e os anos do exílio que se seguem vão ser passados entre Espanha, França (Lourdes) e o Vaticano.

Em rigor, D. António Ferreira Gomes não tem o estatuto de exilado político e, apesar dos esforços das autoridades portuguesas nesse sentido, nunca a Igreja chega a substitui-lo como bispo do Porto. Disponível para a Santa Sé, o Papa João XXIII até o nomeia para uma das comissões que prepara o Concílio Vaticano II.

D. António Ferreira Gomes só regressa a Portugal dez anos mais tarde, em 1969, graças aos esforços de um movimento em que sobressai um jovem advogado portuense: Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro. O envolvimento de Sá Carneiro no caso dá amplamente que falar e irá transportá-lo à política, onde se destaca algum tempo depois como deputado da «ala liberal», já na recta final do Estado Novo.

Seguramente, o episódio representa um dos momentos mais delicados das relações entre a Igreja e o «salazarismo». Bispo e Vaticano estiveram bem, do princípio ao fim.

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17 comentários

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De Cristina Ribeiro a 11.01.2009 às 20:26

Homem que soube enxergar o que lhe era devido, e não será exemplo único...
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 00:23

Fora de dúvida.
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De ente lectual a 11.01.2009 às 21:08

parabéns pelo blogue
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 00:23

Obrigado por todos, meu caro.
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De Teresa Ribeiro a 11.01.2009 às 23:30

Pena que casos como este sejam sempre excepções à regra. A Igreja Católica prefere ser poder a contrapoder, por isso escolhe quase sempre viver em paz com quem detém as rédeas do poder temporal.
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 00:22

Prefiro pensar que, como tudo o mais, os piores homens e os seus piores momentos constituem a parte menor. Porém, não é possível esconder que este princípio é genérico, mas não é absoluto: sofre variações com os ventos da História e as influências dos lugares, por exemplo.
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De Joana Lopes a 11.01.2009 às 23:47

Para quem estiver eventualmente interessado: o texto da carta do bispo do Porto está online aqui:

http://entreostextosdamemoria.blogspot.com/2007/07/carta-do-bispo-do-porto-salazar-1958.html


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De Pedro Correia a 12.01.2009 às 00:00

Autêntico serviço público, Joana.
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 00:11

Excelente sentido de oportunidade, cara Joana Lopes.
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De Carlos Barbosa de Oliveira a 12.01.2009 às 00:03

D. António Ferreira Gomes é um dos exemplos de membros da Igreja que revelaram uma enorme nobreza de carácter, afrontando o poder e a própria Igreja. Felizmente há mais, seja em Portugal, seja na própria América Latina a que me referia no meu post. Infelizmente, porém, também há casos que envergonham a Igreja. Lembro-me do Padre Max, mas um dia destes trarei aqui ao Delito alguns outros exemplos que conheço na Argentina e no Chile, de padrs que se rebelaram contra a Igreja e sofreram as consequências.
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 00:18

Boa ideia, Carlos. Mártires e Inquisição, por exemplo, fazem parte da mesma Igreja e tudo isso, por seu turno, faz parte da História comum. Toda ela de grandezas e fraquezas. Aposto que umas pitadas de História hão-de enriquecer o DO e interessar aos leitores.
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De João Távora a 12.01.2009 às 10:22

Parabéns ao João Carvalho pela abordagem ao tema, que reflecte coragem. As grandezas e misérias da humanidade reflectem-se na história da Igreja, e eu habituei-me a duvidar das intenções politicas das leituras simplistas.
Abraço
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 10:55

Obrigado, João. Sobre esta matéria e vindas de si, são palavras realmente animadoras.
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De Adolfo Mesquita Nunes a 12.01.2009 às 11:55

O episódio de D. António Ferreira Gomes foi isso mesmo: um episódio. Um episódio de glória numa longa novela em que a Igreja se confundiu deliberadamente com o regime. O que aliás explica, e muito bem, a razão do não surgimento de uma alternativa política moderada durante o Estado Novo.
O que não retira, evidentemente, glória a este e a outros episódios.
Um abraço
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 12:17

A primeira parte do comentário, caro Adolfo, parecia considerar que teria sido episódio isolado, mas o final deixa perceber que não. Está correcto.
Talvez menos preciso, porém, seja resumir as relações entre as duas partes desse modo. Foi mais o regime que quis confundir-se com a Igreja e não o inverso.
Lembro que (como hoje se sabe melhor através de cartas e outros documentos disponíveis na Torre do Tombo) o relacionamento entre Salazar e o cardeal Cerejeira foram muitas vezes frias e distantes, quase hostis. Sem podermos esconder que a Igreja também andou tantas vezes mal, há que fazer-lhe a justiça de reconhecer que esteve à altura dos acontecimentos em 1974 e no crispado período que se seguiu.
Abraços.
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De João Carvalho a 12.01.2009 às 12:19

ERRATA
as relações entre Salazar e o cardeal Cerejeira
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De Adolfo Mesquita Nunes a 12.01.2009 às 15:05

Penso que a Igreja e o Regime mantiveram uma relação de mutualismo. A Igreja fornecia ao regime uma extensa base social de apoio, e o Regime oferecia à Igreja uma ampla protecção e autonomia, assim como a difusão da sua doutrina.
O catolicismo foi, mesmo para o ambíguo Salazar, a argamassa do regime. E a Igreja não fugiu a tal facto, por mais tensas que pudessem ter sido as relações entre Cerejeira e Salazar.
Não pode de facto negar-se a existência de uma geração de católicos progressistas e de episódios como este (e muitos outros houve). Mas não se consegue encontrar nesses epísódios qualquer facto que marque, sequer, uma alternativa política dos católicos. Ou um distanciamento afirmativo da Igreja.
E se a Igreja esteve à altura, como esteve, em 74, parece-me que muito se deve ao excessivo comprometimento da Igreja com o Antigo Regime, que aconselhou a que esta reagisse como reagiu.
Um abraço

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