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Convidada: TERESA LEANDRO

por Ana Vidal, em 06.04.11

 

O Gato de Janeiro


Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.

 

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.

 

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank.  O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

 

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

 

 

O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.

 

Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas "Auschwitz cat" trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.


Aqui a têm, em imagens colhidas na Internet:

 


 

 

 

 

 

 

 

 

  

Teresa Leandro

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33 comentários

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De João André a 06.04.2011 às 13:37

Não estive ainda em Auschwitz, mas estive em Dachau e Buchenwald. Aquilo que mais me impressionou, curiosamente, foi o sol. O sol brilhava abundantemente em ambas as visitas e chocava com a memória sombria. Esse contraste foi ainda mais violento em Buchenwald, ali ao lado da erudita Weimar, de Goethe e Schiller e tantos outros. Lembrando-me com imensa subtileza que o génio humano que é capaz de criar também destrói com a mesma intensidade.
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De Teresa a 06.04.2011 às 20:18

João André,
Tanto a ida a Dachau como a Auschwitz foram propositadamente no Inverno, queria visitar os campos na época mais dura, para melhor assimilar o terrífico sofrimento que ali teve lugar. Dachau, depois de uns quatro dias de nevões ininterruptos, estava coberto por um muito espesso manto de neve e a temperatura nesse dia, se não me falha a memória, era de 14 ou 15 graus negativos
Não conheço Buchenwald, mas sinto que a atmosfera em todos os campos será a mesma. Foi em Buchenwald que foi feita uma série fotografia em que aparece Elie Wiesel, Nobel da Paz, que também tinha passado por Auschwitz. Tenho a certeza de que a conhece, mas pode revê-la aqui: http://pt.wikipedia.org/wiki/Elie_Wiesel

E penso também muitas vezes no que refere sobre a coexistência de tamanha monstruosidade num país que deu ao mundo alguns dos seus vultos mais luminosos, praticada por um povo com um tão desmedido amor pela Música. Como foi possível que, no seio da Europa mais profundamente civilizada, acontecesse aquilo?

Um abraço.
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De Luísa Correia a 06.04.2011 às 14:43

Gostei muito de a ler, Teresa, como sempre.
E não creio que «aquilo» possa ser esquecido. Ignorado, talvez. Mas quem não ignorar, não esquece.
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De Teresa a 06.04.2011 às 20:33

Luísa,
Muito e muito obrigada. Acredito firmemente que todos nós devíamos visitar um campo de concentração, a memória das pessoas tende a ser curta. Já nem falo das esdrúxulas afirmaçãos de que o Holocausto nunca existiu.
Um beijinho.
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De José Moura pereira a 06.04.2011 às 14:46

Gostei muito do relato e especialmente do nome da gata. Anotei-o para futuro baptismo.
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De Teresa a 06.04.2011 às 20:49

José,
Obrigada, e disponha do nome para futuro baptismo. Messalina (Messalina Valéria de seu nome completo, Messy para os íntimos) inaugurou os nomes da família imperial cá em casa. Seguiu-se Agripina Germânica, Agri para os amigos (com direito a uma ópera de Händel e tudo, hem?), que insiste em não aceitar a mais novinha, com menos de um ano, inicialmente Júlia Drusila, agora Diva Drusilla (Drusi), o nome que o irmão Calígula, essa jóia de rapaz, lhe deu ao deificá-la.
Um abraço.
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De Paulo a 06.04.2011 às 14:50

Há uns dias dei de caras com um político da nossa praça, célebre, entre outras coisas, por ter dito que acredita que o trabalho liberta. O espaço era estreito e tive de me encolher para ele passar. A imagem ameaçadora que já tinha dele, ao vivo, confirmou-se. Foi precisamente dessa frase, "Arbeit macht frei", que me lembrei quando o vi.

Adiante: a Gata de Janeiro é encantadora.
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De Teresa a 06.04.2011 às 22:20

Paulo,
Sei a quem te referes, e a frase foi desastrosa, de tão colada a coisas que nunca poderiam ter existido. Se tivesse dito que o trabalho dignifica, ou que enobrece, a coisa teria provavelmente passado em branco.

E a Gata de Janeiro agora de todos nós, a minha Messalina de Auschwitz, é mesmo encantadora, não é? Uma esbanjadora de charme.
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De Vitor a 06.04.2011 às 18:53

Só mesmo um gato para nos animar num sítio tão desolado de sentimentos positivos. O Lucas e a Guida são sempre o meu porto de abrigo em dias como o de hoje, em que me apetece matar meio mundo.

Beijos
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De Teresa a 06.04.2011 às 22:25

Vítor,
A presença daquela gatinha ali, of all possible places, era desconcertante, e foi conforto, tamanha a opressão no peito, tamanha a meiguice dela. Deus a conserve por muitos e bons anos. Sim, eu sei o que eles fazem por nós, bem sabes.
Um beijo.
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De Helena a 06.04.2011 às 19:37

Magnifico texto. Comovi-me ao le-la como me comovo sempre que visito um campo de concentracao e penso nos fios de vida ali interrompidos.
Se pudesse alguma coisa faria da visita a um Lager etapa obrigatoria dos programas escolares europeus.

PS- A gata e linda.
O teclado do movel nao tem acentos...
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De Teresa a 06.04.2011 às 22:35

Helena,
Muito, muito obrigada pela adjectivação do texto, mesmo que imerecida. Emocional, isso sim, posso assegurar que foi. Este assunto nunca poderá deixar-me indiferente. É por isso que nunca consigo deixar de chorar quando me lrevejo os argumentistas de A Lista de Schindler, ao receberem o Oscar: punho da camisa puxado, a mostrarem o número tatuado no antebraço, a lembrarem que aquilo não eram um grande produto da indústria de Hollywood, que aquilo tinha acontecido, e que lhes tinha acontecido.

A Messalina de Auschwitz é linda, sim. :) Mas sabe, eu tenho esta teoria de que não há gatos feios.

Um beijinho.
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De João André a 07.04.2011 às 07:43

Helena, o meu teclado (onde escrevo este comentário) também não, mas isso é fácil de resolver nas definições do windows: basta ir às definições de língua e adicionar o português às línguas disponíveis. Os acentos não passam a estar visíveis no teclado, claro, mas desde que se saiba onde eles estão (por exemplo, o ~ no lugar do # ou a famosa troca entre Y e Z), é possível escrever dessa forma num teclado alemão/inglês/outra coisa qualquer.
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De Ana Vidal a 06.04.2011 às 20:00

Obrigada pela visita, Teresa. Gostei imenso do teu texto, sensível como tu. Tens razão: é preciso não esquecer.
Beijo
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De Teresa a 06.04.2011 às 22:40

Quem agradece sou eu, Ana. O vosso convite, que muito me sensibilizou, os comentários tão interessantes e fecundos dos vossos leitores, o género de comentários que acho que dão vida aos blogues, porque prolongam as conversas. Sempre achei que o melhor dos blogues podia acontecer nas caixas de comentários.

Um grande beijo.
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De Lalage a 06.04.2011 às 20:49

Nunca tive coragem de visitar qualquer um desses lugares de horror...
Adorei ler o texto :)
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De Teresa a 06.04.2011 às 23:52

Lalage,
Não são visitas fáceis, são visitas penosas, muito penosas. Mas são visitas importantes. Nunca deixar cair no esquecimento, no fundo tudo se resume a isso.
Um beijo.
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De Maria a 07.04.2011 às 00:48

Teresa,

Apesar de só ter saído do meu país uma única vez, consigo sempre viajar contigo. E essa viagem foi inesquecível.

Obrigada.
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De Teresa a 07.04.2011 às 20:08

Maria,
Eu vou visitar-te a Bruges. :))
Grande beijo.
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De José António Abreu a 07.04.2011 às 08:59

É difícil adjectivar este texto. Por um lado é excelente, por outro não é (nem devia ser). O gato funciona como óptimo contraponto ao horror. Uma lembrança de que, para os vivos, a vida continua. Nunca visitei qualquer campo de concentração. Mas estive na casa-museu de Anne Frank, em Amesterdão. Acho que não disse uma palavra durante toda a visita.
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De Teresa a 07.04.2011 às 20:21

jaa,
Pus o link para este post do DO na minha página do Facebook. Uma amiga comentou, entre outras coisas, o seguinte: «A gatinha "guardiã" improvável deste sinistro local aparece como uma luz, é a prova como a ternura e a delicadeza de um animal podem trazer a qualquer sítio, em qualquer momento mais triste da nossa vida, conforto e carinho.»
Lembrei-me também de uma coisa que Otto Frank, pai de Anne e único sobrevivente das oito pessoas escondidas no anexo, conta no documentário que referi: a necessidade de manter a sanidade. Ele e um rapaz de 20 anos a quem ficou muito ligado (e que também sobreviveu) tentavam escapar à obsessão por comida, que era o único assunto de conversa, no estado de subnutrição em que todos estavam. E evadiam-se tentando lembrar-se da abertura da 9.ª de Beethoven, ou do coro dos prisioneiros no Fidelio. Pequenos apontamentos que podem marcar a diferença entre a vida e a morte.

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