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Com cinco anos de atraso

por Pedro Correia, em 09.03.11

 

Cavaco Silva tomou posse, faz hoje cinco anos, com uma promessa muito concreta: estabelecer uma "cooperação estratégica" com o Governo, mantendo vigilância especial numa área para a qual tem formação específica - as finanças públicas. O primeiro desígnio tornou-o um dos protagonistas da profunda crise que o País vive, uma das mais graves de sempre - a tal ponto que o montante actual da nossa dívida externa ameaça efectivamente o que resta da nossa soberania, que o Presidente da República jurou salvaguardar. O segundo desígnio confere-lhe particulares responsabilidades: apesar da sua consabida experiência em finanças públicas, Cavaco foi incapaz de impedir o descalabro em que vivemos, transmitindo aos portugueses a sensação de que a Presidência da República é uma instituição decorativa, à revelia da letra e do espírito da Constituição.

Para o segundo mandato, que hoje inicia, Aníbal Cavaco Silva promete desta vez uma "magistratura activa". Deixou cair a "cooperação estratégica", lamentavelmente, com cinco anos de atraso. Há hoje muito menos pessoas a acreditar nele do que havia em 9 de Março de 2006, como ficou patente nos resultados eleitorais de Janeiro, apesar de ter sido beneficiado por uma das mais ineptas campanhas eleitorais de que há memória da parte da generalidade dos seus opositores. Os portugueses, de todas as tendências políticas, sabem e sentem que há cinco anos viviam melhor. Entre outros motivos, porque houve "cooperação estratégica" em vez de "magistratura activa" em Belém - quando as circunstâncias exigiam que fosse exactamente ao contrário. Cavaco está consciente disso, daí as promessas agora feitas e que no essencial contradizem as promessas anteriores.

Oxalá as novas promessas ultrapassem o domínio da pura semântica. A Presidência da República fica demasiado cara aos contribuintes portugueses para ser um simples verbo de encher.

 

ADENDA ÀS 23.38: como é óbvio, nada tenho a acrescentar às linhas que publiquei acima, às 13.57 de hoje, antes do discurso de posse do Presidente.

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14 comentários

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De Carlos Dias Nunes a 09.03.2011 às 15:02

Quem tivesse dúvidas sobre o nível de "isenção" da rádio pública perdeu-as hoje de vez: no dia em que o Presidente Cavaco Silva toma posse, a Antena 1 tem vindo a passar desde manhã cedo uma entrevista com um tal Jorge Reis Novais, em que este desfere um dos mais ferozes ataques ao PR que me foi dado ouvir até hoje.
O Novais, para denegrir Cavaco Silva, lança-se em rasgados elogios a Jorge Sampaio, que terá sido um estrénuo defensor da estabilidade política... Pelos vistos, não foi Sampaio quem dissolveu a Assembleia da República, numa altura que ali havia uma maioria absoluta de apoio ao Governo.
Mas tudo se explica facilmente se soubermos que o dito Novais foi assessor de Sampaio e perdeu o tacho com a eleição de Cavaco. Ora, aí está... A falta de vergonha na cara devia pagar imposto.

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De Javali a 09.03.2011 às 15:31

Entendo o "ódio" natural a uma figura como Cavaco. Mas não entendo como se pode acusar o homem de ser responsável pela crise, quando efectivamente não tem poderes para contrariar o despesismo tresloucado do Governo.
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De Pedro Correia a 09.03.2011 às 15:49

Você então é dos 2,1% que acham que vivemos hoje melhor do que há cinco anos? Ou entende que o PR não existe para nada? Ou considera pura e simplesmente que Cavaco foi incompetente?
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De Javali a 09.03.2011 às 16:37

Não. Eu acho que temos vindo a viver pior desde 2002. Quanto a Cavaco não sei se foi incompetente ou não. Eu acho que foi medroso e calculista - e inútil. Ainda para mais não vetou o Acordo Ortográfico. De facto, serve para pouco um presidente que não veta, mas escreve as suas reservas num rodapé. O sistema está blindado de tal modo que o papel do PR é irrelevante. Nem uma bandeira decente tem a ousadia de propôr.
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De Pedro Correia a 09.03.2011 às 17:22

Então estamos de acordo, Javali.
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De gritodosemvoz a 09.03.2011 às 17:49

Boa tarde. Se me permitem uma opinião.
Na realidade, creio que o Cavaco como todos os que nos governaram nos ultimos 20 anos são responsáveis pela crise em que estamos agora metidos. Foram medidas tomadas ao longo destes anos que nos levaram a cair no poço tanto de Cavaco inicialmente como de todos os outros que o sucederam. E com sito incluo não só os Primeiros Ministros mas tambem os Presidentes, porque apesar de não ter grandes poderes tem um trunfo muito mais demolidor do que se calhar o poder de veto, que é o poder da denuncia! Um presidente deve ser um supervisor e o problema é que o cargo está historicamente limitado a falar para dentro do sistema politico em vez de falar para fora para a sociedade.
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De Pedro Correia a 09.03.2011 às 23:44

O Presidente, no primeiro mandato, limitou-se a ser o supervisor da crise. Não foi para isso que os eleitores votaram nele.
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De gritodosemvoz a 10.03.2011 às 01:58

Supervisionou e mal. Ainda para mais afirmou que já tinha previsto esta situação há uns anos largos atrás e mesmo assim... nada...
Além de que meter a boca no trombone era trair muitos amigos por isso nem por aí se pôde esperar muitas mudanças.
E neste mandato vai ser o preparar do caminho para a maioria absoluta do PSD nas proximas eleições, porque como não a têm agora não querem arriscar-se a ir para o poder e terem de ser eles a tomar mais medidas impopulares. Naquelas cabecinhas é só calculismo, é deixar o Governo enterrar-se para surgirem como a unica lufada de ar fresco para sairmos desta crise e prácticamente nem precisarão de fazer campanha como o Cavaco em Janeiro.
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De Francisco Castelo Branco a 09.03.2011 às 18:41

apesar dos discursos Cavaco nada vai fazer.

De discursos está a democracia portuguesa cheia, e de pessoas para os comentar tambem.

Agora os actos são sempre diferentes. Por falta de coragem ou outra coisa.

Cavaco em nome da estabilidade nao vai fazer nada, mas sim deixar o governo cair por si
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De Pedro Correia a 09.03.2011 às 23:45

Concordo consigo: de discursos está a democracia portuguesa cheia.
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De Teresa Ribeiro a 09.03.2011 às 20:13

Acho justa esta avaliação que fazes de Cavaco Silva. Ele não merece outra. Quanto às suas actuais promessas, não acredito que "ultrapassem o domínio da pura semântica". Enfim, mas bem vistas as coisas, nesta fase do campeonato já não adianta. Para quê abanar a árvore se os frutos já estão prestes a cair de pôdres?
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De António Manuel Venda a 09.03.2011 às 21:36

É exactamente isso, Teresa.
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De Pedro Correia a 09.03.2011 às 23:46

Words, words, words. Como diria o bardo.
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De Fernanda Valente a 10.03.2011 às 01:15

Do discurso do PR ficou claro uma coisa: ele está muito zangado com JS, não sei se por causa das medidas que este tem tomado - ou pela falta delas -, se pela traição de que foi alvo aquando da campanha eleitoral. A cooperação estratégica já era! Vai ser substituída por uma magistratura actuante como indicia o uso da gravata laranja, colocada hoje muito a preceito, e bem assim o ligeiro tremor da sua mão direita no momento da leitura do seu discurso.

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