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I say potato, you say potatoe...

por Paulo Gorjão, em 11.01.09

"As dificuldades que o País enfrenta exigem que os agentes políticos deixem de lado as querelas que em nada contribuem para melhorar a vida dos que perderam o emprego, dos que não conseguem suportar os encargos da prestação das suas casas ou da educação dos seus filhos, daqueles que são obrigados a pedir ajuda para as necessidades básicas da família. Não é com conflitos desnecessários que se resolvem os problemas das pessoas. Nesta fase da vida do País, devemos evitar divisões inúteis. Vamos precisar muito uns dos outros."

Estas palavras foram proferidas por Aníbal Cavaco Silva na mensagem de Ano Novo. É claro que está implícito nestas palavras um apelo ao sentido de responsabilidade dos agentes políticos. Mas não será um pouco paternalista?

Como ciclicamente acontece, as suas palavras revelam uma visão tecnocrática e apolítica. Trata-se de uma leitura da política enquanto realidade objectiva que não tem qualquer sustentação nos factos. Na prática, Cavaco Silva pede aos agentes políticos que neguem a sua própria natureza, por um lado, e, por outro, olha para a política como se esta existisse num ambiente esterilizado e asséptico, controlado por computador, de acordo com os parâmetros técnicos estabelecidos pelo conselho de senadores. A realidade, felizmente, é muito mais interessante e criativa, para o bem e para o mal. A democracia não é um regime perfeito, mas ainda assim é aquele que mais me agrada. Apesar das querelas, dos conflitos desnecessários e das divisões inúteis.

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12 comentários

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De André Couto a 11.01.2009 às 04:50

Por outro lado a questão do Estatuto pode perfeitamente ser vista como estando inserida no conceito de "querelas que em nada contribuem para melhorar a vida dos que perderam o emprego, dos que não conseguem suportar os encargos da prestação das suas casas ou da educação dos seus filhos, daqueles que são obrigados a pedir ajuda para as necessidades básicas da família".
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De João Carvalho a 11.01.2009 às 05:33

Esse problema não me parece uma mera querela, André. Pode não contribuir concretamente para melhorar a vida das pessoas, mas visou (visa) contribuir, na sua substância, para cuidar da qualidade da intervenção dos órgãos de soberania e do respectivo equilíbrio institucional. Da qualidade do regime, enfim. Acho que podemos concordar com isto: nem tudo o que não mata a fome é desperdiçável.
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De Paulo Gorjão a 11.01.2009 às 12:56

Caro André, evidentemente. A definição de querela é altamente subjectiva. Acresce que quando se coloca no espaço público um tema em discussão não se sabe necessariamente como terminará. Ainda sobre a questão da necessidade e da utilidade: quem define? Adiante. É claro que num sentido mais global há nas palavras de Cavaco Silva um apelo ao sentido de responsabilidade. Mas há igualmente e em paralelo uma certa demagogia.
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De João Costa a 11.01.2009 às 12:49

"A democracia não é um regime perfeito, mas ainda assim é aquele que mais me agrada."
Sei que é fácil cair em frases repetidas contudo gostaria de alertar para a falsidade que muitas vezes essa frase contém. Considero que a frase em si tem pouco de valor porque pois democracia em si, hoje em dia, não significa mais do que a população poder exercer o voto. Penso até que a democracia não tem valor em proporção ao que foi pensado pois hoje os supostos representantes do povo não representam senão o seu partido e a eles. As pessoas que trabalham nas instituições esqueceram que estas servem os cidadãos. Não é compreendido pela generalidade o porquê da separação e equilíbrio de poderes.
Para tornar isto mais evidente não há muito tempo foram divulgadas algumas conclusões sobre um estudo sobre a opinião dos portugueses acerca do estado/democracia e esta foi negativa e pedindo mudanças. A opinião dos "representantes" era mais favorável e que não era preciso mudar. Ninguém pareceu compreender a necessidade da mudança.

Por tudo isto a democracia é uma palavra um bocado vá pois a democracia tanto pode ser um sistema que serve os seus cidadãos e a humanidade como o contrário.
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De Paulo Gorjão a 11.01.2009 às 13:00

Caro João Costa, de acordo consigo quando acentua as imperfeições do regime democrático. A minha questão é que não há uma alternativa melhor e que, apesar das imperfeições é o melhor. Mais importante. A eficácia não é o critério máximo que deve reger a acção num regime democrático. Isto, naturalmente, em nada quer dizer que não tenha razão nas críticas que aponta e que subscrevo.
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De João Carvalho a 11.01.2009 às 13:40

O Paulo Gorjão já disse o essencial no comentário acima, caro João Costa. Atrevo-me a secundá-lo apenas para acrescentar que é muito redutor achar que a «democracia em si, hoje em dia, não significa mais do que a população poder exercer o voto». Veja bem como ela um pouco mais do que isso: a liberdade de pensamento e de expressão, por exemplo, vertente que permite apontar-he os defeitos e manifestar a vontade e o modo de aperfeiçoar o regime. É o debate de ideias, enfim. Se mais não fosse, já isto seria importante.
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De João Costa a 11.01.2009 às 15:26

Eu, nascido nesta liberdade e habituado a ela, é-me fácil esquecer que ela pode não existir. Constato também que essa liberdade não é suficiente, é necessário que se sinta a responsabilidade sobre essa liberdade para que possa ser utilizada correctamente e para que seja realmente utilizada. Refiro isto porque conheço, através dos meios de comunicação, de algo que se passa no E.U.A. em que a liberdade embora exista o sistema propendia que as opiniões ouvidas são as controladas. Neste caso o controlo é feito pelos meios de comunicação pertencentes a organizações com interesse em que certas mensagens sejam passadas. Os ouvintes sem grande consciência disso vão sendo embalados num conto que foge cada vez mais à realidade. Lembro também que neste caso a democracia permite também que os seus cidadãos sejam vigiados e em certa medida a sua liberdade de expressão limitada.

O que no final pretendo realçar é que, e não estando em desacordo, que sempre que nós (nós os de bem por assim dizer) referimos que a democracia é o melhor sistema devemos fazer uma melhor delineação da democracia, ou seja, falar da correcta democracia onde existe espaço para a liberdade, responsabilidade e, desejo eu, de valor pelo os nossos concidadãos. Isto porque talvez se perca na comunicação a ideia da democracia que fala e da que vivemos. (Espero que não haja muita utopia no meu discurso :) )

Cumprimentos
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De Cristina Ferreira de Almeida a 11.01.2009 às 17:25

Também não fiquei encantada com este discurso de Cavaco Silva. Além de ter agravado o bruá da crise, acho que basicamente não serviu para nada - alguém reparou se o consumo de produtos estrangeiros se refreou, por exemplo, em resposta ao apelo de redução da dívida externa? - a não ser para completar a imagem que Cavaco Silva pretende deixar de si mesmo na História. Além do mais, aquele cenário de cortinas abertas sobre cortinas deu-lhe um ar irreal...
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De Paulo Gorjão a 11.01.2009 às 17:36

Cristina, o discurso foi fraco, de facto. Inconsequente, a meu ver, para não variar.
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De Pedro Correia a 11.01.2009 às 18:18

Concordo convosco, Cristina e Paulo. Cavaco Silva tem sido melhor a gerir expectativas do que a concretizá-las. (olha, isto dá um 'post'... Com licença, vou tratar disso)
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De Paulo Gorjão a 11.01.2009 às 18:29

Pedro, essa incapacidade de conjugar acção e expectativas decorre do pecado/equívoco original. Cavaco Silva foi eleito com expectativas 'executivas' que nunca procurou desvalorizar, mas que eram um equívoco tendo em conta os poderes presidenciais. Cavaco depois de tomar posse foi prolongando o equívoco e os seus discursos são disso a maior prova. A coisa foi correndo com maior ou menor visibilidade até ao dia em que Sócrates decidiu quebrar a corda.
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De Pedro Correia a 11.01.2009 às 18:42

Sintonia, outra vez. Daqui a umas horas publico lá mais cima o que entretanto escrevi sobre Cavaco, e que vai ao encontro da sua tese, Paulo. Só não entra já porque a produção do blogue a esta hora já está muito intensa (o que é um óptimo sinal).
Abraço

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