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O sumo da austeridade

por Leonor Barros, em 27.12.10

Numa altura em que nada se faz e se diz sem zurzir nas medidas de austeridade e antecipar de forma dramática o difícil ano da graça de 2011 há que ir para a rua e ouvir esse povo em permanente alerta meteorológico e económico ou financeiro, o mesmo que vivendo à espera de um Sebastião qualquer que o salve da miséria, tem elegido desde há três décadas a esta parte uma outra estirpe de portugueses incapazes de governar este rectângulo luso. A panóplia de estratégias de poupança não é muito grande e oscila sempre entre arremessar as crianças para o antro da escola pública, deixar de comprar tanta roupa e começar a comprar produtos de marca branca, o que, há que admiti-lo, é apenas uma questão do mais elementar bom senso. É espantoso o conceito de apertar o cinto de alguns dos portugueses. Agorinha mesmo, num dos canais de notícias que desfila à minha frente e num suposto programa de economia ou algo que o valha, uma mulher de meia-idade, alourada como convém, e com o que parecia ser o neto, afastado dela uns passos, afirmou que para poupar ia deixar de comprar sumos e arremessou à criança estacionada no passeio Olha, vais deixar de beber sumo. O que é uma pena. Tendo em conta que refrigerantes não fazem falta a ninguém e que não os beber só pode contribuir para a não ingestão de uma quantidade considerável de açúcar e corantes, a criança só pode beneficiar deste arremesso impiedoso e desta medida extrema de austeridade. Estranho conceito de poupança.

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