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Um democrata não é um dissidente

por Pedro Correia, em 10.12.10

Na oposição à ditadura de Salazar, distinguiram-se o comunista Álvaro Cunhal, o socialista Mário Soares, o monárquico Paiva Couceiro e o católico Pereira de Moura, entre muitos outros. Luis Corvalán era um opositor comunista à ditadura de Pinochet, José María Gil-Robles era um opositor democrata-cristão à ditadura de Franco.
Nenhum deles foi classificado de "dissidente". Chamar-lhes dessa forma teria algo de pejorativo, quase insultuoso. Mas na China todos os opositores são "dissidentes". Como hoje sucede também em Cuba ou antes sucedia na União Soviética. Ao opositor, nos países submetidos a ditaduras comunistas, os responsáveis por esses regimes não concedem sequer o direito a ter uma ideologia própria, diferente da ideologia oficial. Espantosamente, os órgãos de informação dos chamados países livres fazem coro com esses responsáveis, chamando "dissidentes" a quem ousa divergir da corrente dominante.
Um democrata é um democrata. Não é um dissidente.

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20 comentários

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De João Carvalho a 10.12.2010 às 12:04

É realmente impressionante, mas todos em geral fazem coro, adoptando a designação conveniente aos países comunistas. Se tivessem vergonha e conseguissem pensar mais um bocado faziam melhor figura.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 12:08

Combato há anos esta tendência e, na parte que está ao meu alcance, surge sempre um opositor ou um democrata onde antes havia um "dissidente".
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De Ana Vidal a 10.12.2010 às 13:11

A velha questão, sempre oportuna, da imposição de ideias. Nos países que citas o rótulo não é inocente, por isso é incompreensível que se faça eco dele nos países onde há liberdade de expressão. Só pode ser por ignorância.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 14:45

Ignorância. Comodismo. Falta de cultura política. E sobretudo, o que é vulgar no jornalismo, aquela mentalidade do género «se aquele fala e escreve assim eu faço como ele porque deve estar certo». Devemos ter muito cuidado com a linguagem que utilizamos. Contra nossa vontade, ela ganha autonomia e pode colocar-se ao serviço de um sistema despótico.
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De AA a 10.12.2010 às 14:30

Não caia no erro de monopolizar a palavra "democrata". Os anarquistas lutam pela "democracia libertária", alguns comunistas pela "república de conselhos", outros pela "democracia socialista", outros pela "democracia soviética": é uma questão de ponto de vista.

Deixe-me recordar-lhe que antes do 25 de Abril, o "comunismo" não fazia parte do vocabulário do regime, que apelidava essa ideologia, bem como o material que censurava como sendo "subversivo".
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 14:48

Democrata. Liberal. Socialista. Comunista. Anarquista. Libertário. Conservador. Monárquico. Republicano. Cristão. Budista. Muçulmano. Judeu. Ateu. Seja o que for, menos «dissidente», que nada qualifica e nada explica em termos de ideologia ou crença. Aliás só «disside» quem antes pertenceu à causa. Absurdo alguém qualificar Cunhal ou Soares de «dissidentes» do salazarismo.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 14:51

Bem sei que os comunistas, aos olhos do regime pré-25 de Abril, eram "subversivos". Mas Cunhal não seria menos digno que o considerássemos comunista por causa disso. Há aliás uma semelhança óbvia com o regime chinês, que classifica os seus opositores de "subversivos".
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De Anónimo a 10.12.2010 às 15:19

É essa semelhança óbvia que estou a assinalar.

O seu post é interessante e nunca é de mais relembrar que a temática foi muito bem explorada no conceito da novilíngua de Orwell.

De resto, é para mim mais que óbvio que você está preso a uma outra novilíngua, e porquê? Porque quando diz "democrata" se refere a alguém que cabe nos seus parâmetros de "democracia"; já um "comunista" é um "comunista", e para si um comunista é mutuamente exclusivo de um democrata. Essa é a novilíngua da ordem democrática ocidental.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 16:06

Um comunista não será democrata se defender a ditadura do proletariado, a censura à imprensa e uma polícia política destinada a perseguir cidadãos por delito de opinião, por exemplo. Lenine não era um democrata, obviamente. Mas houve comunistas que aceitaram o jogo democrático, como Berlinguer e Carrillo. Outros procuraram conciliar o comunismo com a democracia e pagaram um preço elevado por isso, como Dubcek, uma personalidade que sempre admirei. Também ele era um democrata sem deixar de ser comunista. Aliás algumas das maiores vítimas do comunismo, como deve saber, foram... comunistas.
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De Anónimo a 10.12.2010 às 17:44

Houve países capitalistas com polícia política, imprensa censurada e com cidadãos perseguidos por delito de opinião. Não obstante, é bom senso achar que o capitalismo não implica essas premissas; por que há-de o comunismo implicá-las?

Uma coisa que os democratas parecem não entender é que, na idade média, de nada serviria o direito ao voto (ou nos seus termos de novilíngua, a "democracia") se 99% da população trabalhasse para manter os restantes 1%. Nesse caso, a democratização da terra e a apropriação da riqueza por parte de quem trabalha - em suma, a democratização da esfera económica ou a ditadura do proletariado - faria necessariamente parte de um programa verdadeiramente democrático, para além do vazio que é o voto.
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De Anónimo a 10.12.2010 às 17:50

(Isto para nem ter de lhe relembrar que Allende, socialista democrático, teve de enfrentar os donos da economia chilena, que durante algum tempo sabotaram toda a economia: fecharam as fábricas e impediram o transporte, para que a comida escasseasse e o caos se instalasse. Tudo isto dentro da perfeita legalidade... imposta por quem detém o poder económico. Certo? Cada vez há mais ricos e cada vez há mais pobres. Certo? Esta crise está a resumir-se a uma acumulação de riqueza brutal de quem já muito tem. Certo?)
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De Pedro Correia a 11.12.2010 às 00:48

Errado. A ditadura do proletariado nunca teve nem jamais teria nada a ver com democracia. Pelo próprio conceito e pelo que nos ensina a experiência histórica. De tal maneira que até os partidos comunistas (o PCP fê-lo em 1974) abandonaram essa expressão. Não vale a pena tentar camuflar com palavras essa realidade nua e crua que é uma ditadura, tenha ela o adjectivo que tiver.
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De Anónimo a 10.12.2010 às 14:57

Eu não disse que Cunhal ou Soares foram apelidados de "dissidentes", mas de "subversivos". Isto é, os opositores também no Estado Novo eram definidos pela negativa.
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De Pedro Correia a 10.12.2010 às 16:07

Mais me ajuda com essa achega. Se era assim em Portugal nesse tempo, se é assim hoje na China, por que motivo havemos de aceitar a linguagem das ditaduras?
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De Pedro Coimbra a 10.12.2010 às 16:02

Uma maneira de menosprezar quem diverge da corrente de pensamento oficial, Pedro.
Um abraço
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De Pedro Correia a 11.12.2010 às 00:49

Abraço, Pedro.
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De Carlos Faria a 10.12.2010 às 22:52

Um post que é uma excelente lição de cultura política, não fiquei a saber o nome por que o devo tratar: democrata parece-me demasiado vago, filósofo, analista político ou simplesmente professor de letras, mas não mais o chamarei de dissidente...
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De Pedro Correia a 11.12.2010 às 00:49

Só posso congratular-me com essa sua decisão, Carlos. Abraço.
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De c a 11.12.2010 às 09:51

Boa sugestão. Obrigado

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