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Da inutilidade como arma de luta

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.11.10

Amanhã o País vai parar. Dizem os sindicatos. Digo eu também.

Com ou sem serviços mínimos, vai haver uma greve geral. A greve é uma arma ao serviço dos trabalhadores. Foi como tal que ela se impôs na cartilha do marxismo. Em todo o mundo onde há sindicatos livres. Às vezes onde também não os há, como outrora na Polónia. Mas nunca na China, na Birmânia ou na Coreia do Norte.

Entre nós a greve é mais um direito do que uma arma. É como tal que está consagrada na Constituição. Além de que a greve enquanto arma só faz sentido se for usada contra governos fortes. Contra um Estado forte.

Nós temos um Estado fortemente centralizado, tentacular em muitos sectores de actividade, mas fraco na sua essência. E um Governo débil. Débil e fragilizado pelas condicionantes conjunturais internas e externas.

Em contrapartida, temos um sindicalismo forte, enraizado e que faz escola até nas magistraturas.

Dir-se-ia, pois, que a greve vai ser um êxito. De um ponto de vista sindical seguramente. Na perspectiva dos cidadãos que vão ser afectados pela greve também. Sem transportes, sem escolas, sem tribunais, com toda a administração pública parada, a greve vai ser mesmo geral.

O Governo poderá vir com os números habituais, mais percentagem aqui, menos serviços mínimos ali, que tudo ficará na mesma. Continuará a não haver vida que se veja para lá do défice. Da greve.

Uma greve serve para marcar uma posição. A greve geral de amanhã vai demonstrar que as duas maiores centrais sindicais, e únicas que riscam, vão repetir um número que raramente acontece. O sindicalismo vai sair fortalecido. 

Mas na situação que atravessamos, para lá do êxito mediático que a greve representará, que mais poderão ganhar os sindicatos? Que outros objectivos serão conseguidos?

A dois meses de uma eleição presidencial, com uma gravíssima crise social, económica e financeira a condicionar todas as opções políticas, que resultados práticos trará a greve geral de amanhã?

Como acima afirmei, temos um Governo débil e fragilizado. Um Governo de maioria relativa, sem apoio parlamentar que lhe garanta estabilidade, e dependente dos juros impostos pelos mercados para se manter à tona da água, não tem condições para fazer cedências aos sindicatos, sob pena de à primeira cedência ter o FMI cá dentro e então afundar-se de vez. E nós com ele.

Um dos paradoxos das greves gerais é que só são grandiosas com governos débeis, mas em contrapartida só apresentam resultados contra governos fortes. Uma greve geral como a de amanhã numa situação de maioria absoluta teria seguramente outro efeito. E seria possível esperar dela outros resultados que a de 24 de Novembro jamais alcançará.

O País e o Governo não estão em condições de dar aos sindicatos e aos portugueses aquilo que estes gostariam de obter com a greve de amanhã. Será possível marcar uma posição, mostrar a dimensão da contestação, mas também a inexistência de alternativas com força suficiente para se imporem sem uma alteração do quadro parlamentar. Da greve de amanhã até poderia sair a queda do Governo, que nada mais mudará. Não mudarão as condições de vida dos trabalhadores, não diminuirá a taxa de desemprego, não haverá uma descida dos juros com que nos financiamos no exterior, como também os tribunais e a justiça que temos continuarão a ser os mesmos. O investimento público ou um governo mais forte também não surgirão da greve. Os únicos que vão retirar dividendos com a greve serão os dirigentes sindicais. Os trabalhadores e o País continuarão ambos na penúria.

Por isso é que a greve de amanhã e o seu afastamento do interesse nacional explicam muita coisa. Até a sua inutilidade. A greve mostra os pontos de convergência, por exemplo, entre os Sindicatos dos Magistrados do Ministério Público, o dos Funcionários Parlamentares e os mais de 600.000 desempregados que lutam pela sobrevivência em condições mínimas de dignidade.  

Uma manifestação das antigas teria um impacto maior. E com consequências menos gravosas e mais proveitosas do que aquelas que os sindicatos irão obter com a greve de amanhã. A esta conclusão soma-se uma outra, bem mais prosaica: a perpetuação no poder das elites dirigentes do sindicalismo português aproximou-as dos políticos que contestam.

Amanhã vamos ter mais do mesmo.      

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