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Sabe o que vai acontecer no dia 23 de Janeiro? Nós sim.

 

Em Julho de 2008, escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas usando os mesmos dados e publicado em Junho de 2009 na revista Electoral Studies, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%.

Como já explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos, porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões – e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época – não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30. A nossa questão tornou-se outra: por que razão a previsão baseada em "previsões" (e não na "realidade") esteve tão próxima dos resultados finais? Pode ter sido mero acaso. Mas pode ser que isto nos diga algo sobre como a realidade económica é percebida pelos eleitores (abrindo parêntesis, é curioso verificar, no recente inquérito dos Transatlantic Trends, como os portugueses foram, de todos os países inquiridos, aqueles onde a percepção de consequências concretas da crise era mais baixa em 2009 e onde mais subiu de 2009 para 2010). Vamos trabalhar nisto. Entretanto, obedecendo a um poderoso impulso suicidário, tivemos outra ideia: e que tal uma previsão dos resultados das presidenciais? Péssima ideia. Vamos a isso.

Péssima ideia porquê? Várias razões:

  • Na democracia portuguesa, tivemos 7 (sete) eleições presidenciais. Se quisermos prever resultados eleitorais futuros na base do passado, podemos usar não mais de 7 (sete) observações. É muito, muito pouco.
  • A maior parte dos modelos deste género procura prever a percentagem de votos do partido ou partidos no governo, ou seja, o desempenho do incumbente, no pressuposto de que a função de voto do governo é explicada por aspectos do seu desempenho (popularidade, crescimento económico, etc.). Mas o que fazer ao conceito de incumbente no caso do Presidente? É difícil saber:
    • Primeiro, o Presidente não governa (há certamente quem gostasse, mas lamentamos informar que não).
    • Segundo, quem é o incumbente em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbente estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha (e, quem sabe, Pintasilgo) no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora. Por outras palavras, como não há uma relação de identidade estável entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbente, no sentido estrito em que é usado habitualmente nos modelos de previsão - um partido, ou um candidato -, não faz sentido.

Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Em breve explicaremos o quê e como. O que daí resulta, podemos desde já, em parte, adiantar: Cavaco Silva deverá ganhar à primeira volta (um momento para que o caro leitor se possa tentar refazer do enorme choque que a frase anterior lhe causou). Mas com que percentagem de votos? Daqui a dias ficarão a saber.

 

Pedro Magalhães e Luís Aguiar-Conraria

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29 comentários

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De Filipe Nicolau de Almeida a 11.11.2010 às 14:49

Estranha ciência esta, a política, que nos transforma em meros autómatos pré-formatados, com a ilusão de que tudo está em aberto e de que da nossa consciência dependem os eleitos.
Um grande abraço ao Pedro, de quem já fui aluno na faculdade.
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De LA-C a 11.11.2010 às 18:16

Caro Filipe,
É interessante que diga isso. É uma questão muito interessante. Será que uma maior capacidade preditiva destes modelos implica que o espaço para o livre arbítrio é menor?
De certa forma sim. Por isso ainda bem que os cientistas sociais estão sempre a errar quando se metem nestas aventuras.
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De PR a 11.11.2010 às 19:21

"Será que uma maior capacidade preditiva destes modelos implica que o espaço para o livre arbítrio é menor? De certa forma sim."

Não vejo porquê. Certamente que o livre arbítrio consiste na possibilidade de cada um escolher as suas acções com base nas suas próprias preferências, desejos e cogitações.

O livre arbítrio não sai minimamente beliscado pelo facto de os cientistas sociais identificarem correctamente estas "preferências, desejos e cogitações". Da mesma forma que a minha enchaqueca não se torna menos real pelo facto de descobrir a sua origem ou explicação.

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De PR a 11.11.2010 às 20:33

Aliás, enxaqueca... :)
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De Filipe Nicolau de Almeida a 11.11.2010 às 22:12

Essa é a magia das Democracias Ocidentais... É fazer-nos acreditar exactamente naquilo que escreveu... Agora só tem é que reflectir muito bem sobre isto:
quais os motivos que me levam a votar neste em detrimento daquele? por que razão dou mais importância a este ou aquele factor na minha decisão de voto? e, finalmente, de que forma é que alcanço o conhecimento que tenho das alternativas?
Claro que todos nós temos preferências, a questão é saber porque é que são umas e não outras.
Um exemplo: todos nós dizemos apreciar a honestidade e a frontalidade como valores humanos essenciaias e desejáveis num político. Como se explica que o actual PM tenha sido eleito e, mais curioso ainda, continuar com intenções de voto perto dos 30%?
O eleitor é essencialmente um ser hipócrita. Diz defender certos valores, ideologias, filosofias, perfis, políticas, etc., etc., mas, no momento do voto, o factor mais importante será sempre a percepção de quem o afectará menos negativamente do ponto de vista financeiro, ou seja, a escolha é feita em função de quem lhe parecer que lhe "vai menos ao bolso"... That simple.
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De PR a 12.11.2010 às 01:58

Penso que estamos em sintonias diferentes. O meu modesto comentário revelava uma perspectiva acerca da legitimidade epistemológica das ciências que, creio, ajuda a clarificar algumas das interpretações abusivas que se fazem deste género de estudos. Mas, pelo tom do seu comentário, parece-me que está mais interessado em falar de educação cívica.

Acho muito bem que o faça. Só duvido que colocar o comentário como "resposta" ao meu tenha sido a opção mais sensata :)
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De Filipe Nicolau de Almeida a 12.11.2010 às 12:15

É verdade, sim senhora, que "misturei" um pouco as questões. Mas, para mim, e estando longe de ser um cientista social (trabalho apenas com alguns), tenho muita dificuldade, sempre tive, em compreender o sentido do conceito de "livre arbítrio". Claro que isto levar-nos-ia por inúmeras linhas, mas deixo-lhe apenas um pequeno chavão político, a chamada "dinâmica de vitória", que muitos politólogos utilizam: não acha que quando um determinado analista/cientista social/politólogo diz, numa análise a uma sondagem, que certo candidato ou partido "entrou numa dinâmica de vitória", acaba por influir, voluntaria ou involuntariamente, no "livre arbítrio" de quem o ouve? Não lhe parece que este tipo de "sugestões" subjectivas nas análises colaboram no desenrolar das intenções de voto?
São apenas dúvidas de um leigo nestas coisas das ciências sociais, sou apenas um entusiasta pela política e pela extra-política.
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De João Carvalho a 12.11.2010 às 12:29

Achei curioso o que o Filipe questiona: «quando um determinado analista/cientista social/politólogo diz, numa análise a uma sondagem, que certo candidato ou partido "entrou numa dinâmica de vitória", acaba por influir, voluntaria ou involuntariamente, no "livre arbítrio" de quem o ouve».

Essa possibilidade, por alguma razão, lembrou-me uns casos que têm andado nas bocas do mundo. Quando um magistrado recebe umas "orientações" sobre um determinado processo que tem em mãos, também se levanta uma dúvida (que não me surge, porque tenho opinião formada sobre o assunto): para uns, o magistrado foi pressionado; para outros (porventura o próprio), o magistrado não se deixa pressionar.

São várias versões que nos levam à história da galinha e do ovo. Sem qualquer proveito. No fundo, pressionar ou influenciar é uma posição de ataque e ser (ou não) pressionado ou influenciado é um problema de defesa. Confundir as duas coisas vulgarizou-se (vá lá saber-se porquê), mas continua a ser um erro.
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De Filipe Nicolau de Almeida a 12.11.2010 às 12:56

Como diriam no "Dia Seguinte" ou no " Trio de Ataque", é tudo uma questão de intensidade:)
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De Pedro Magalhães a 12.11.2010 às 23:31

Acho que o PR explicou tudo muito bem. Eu não saberia como dizer melhor.
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De Filipe Nicolau de Almeida a 11.11.2010 às 21:59

Posso dizer-lhe, por exemplo, que saía das aulas de Sociologia Política com o Pedro Magalhães com a nítida sensação de que muito antes de eu ter definido o meu voto, alguem já o tinha feito por mim ou, pelo menos, já sabia qual o quadradinho onde colocaria a cruz.
A crescente exatidão das "fotografias" à realidade dão-nos, pelo menos a mim, a percepção de que o George Orwell se encontra sempre algures a puxar uns cordelinhos...
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De João Carvalho a 11.11.2010 às 14:59

Um exercício interessante e difícil que me deixa curioso. Dou desde já os parabéns ao Luís e ao Pedro, pelo risco que enfrentam sem medo.
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De LA-C a 11.11.2010 às 18:18

Vai ver que não é difícil. Até porque quando se tem tão poucos dados há muito pouca margem para usar métodos complexos. É sem medo porque não há motivos para ter medo. Qual é o problema se a previsão estiver errada?
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De João Carvalho a 11.11.2010 às 20:30

O problema é (é?) o prestígio. Nunca houve tanto medo de sentir o prestígio beliscado como hoje. E, no entanto, ele anda cada vez mais arredado e mais atropelado do que nunca.
Mais uma vez, parabéns aos dois.
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De LA-C a 11.11.2010 às 23:24

Quanto a isso do prestigio..., confesso que quando há 2 anos o semanário Sol fez capa com as nossas previsões para as legislativas com mais de um ano de antecedência senti alguns suores. Mas depois passou-me.
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De João Carvalho a 12.11.2010 às 04:22

Eis um bom sinal. Gostei de saber.
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De Pedro Correia a 11.11.2010 às 15:55

Foi com todo o gosto que recebemos aqui a vossa visita, Luís e Pedro. E logo com um tema tão estimulante.
Irei acompanhar com todo o interesse as cenas dos próximos capítulos...
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De Pedro Ulrich a 11.11.2010 às 15:59

Temo que não vai gostar do desenrolar do enredo...
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De LA-C a 11.11.2010 às 18:20

Nós é que agradecemos a cedência do espaço.
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De Luís Lavoura a 11.11.2010 às 16:51

"Cavaco deverá ganhar à primeira volta"

Grande novidade!!!

A percentagem de votos com que ganhar é completamente irrelevante, não tem quaisquer consequências práticas.

O Luís e o Pedro poderiam dedicar-se a algo mais importante do que descobrir tais irrelevâncias...
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De Pedro Correia a 11.11.2010 às 18:14

Quem leve à letra o Luís Lavoura, pessoa incapaz de 'irrelevâncias', quase se sente inclinado a suspender a democracia por seis meses (ou seis anos). Votar para quê?
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De LA-C a 11.11.2010 às 18:21

Luís Lavoura, foi suficientemente relevante para merecer o seu comentário. Agradeço-lhe, naturalmente, o conselho.
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De Ana Margarida Craveiro a 11.11.2010 às 17:38

:) excelente!
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De LA-C a 11.11.2010 às 18:23

Não é excelente. É só uma brincadeira. Mas agradeço-lhe o simpático comentário.
Para a semana anunciaremos o resultado das eleições.
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De Ana Margarida Craveiro a 11.11.2010 às 21:37

Ui, mal posso esperar. Brincadeira, mas pouco? :)
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De Sérgio de Almeida Correia a 11.11.2010 às 18:36

Subscrevo as palavras da Ana Margarida. Ciência Política é isso mesmo.
Fico ansioso à espera das previsões.

Pedro (Correia), deixo-te aqui uma sugestão: Podias pedir ao Pedro Magalhães para te dar o contacto/blog do Sérgio Faria, para ver se também a este consegues "cravar" um dos belos textos dele para "nós". Até pode ser do tipo daqueles que ele publicava num jornal regional, ali para os lados de Fátima.
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De Pedro Correia a 11.11.2010 às 18:59

Caro Sérgio, o convite está feito a partir de agora.

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