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Convidado: JOÃO FERREIRA DIAS

por Pedro Correia, em 05.10.10

 

A verdadeira liberdade não existe

 

OBVIAMENTE QUE O TECIDO SOCIAL se apresenta regulamentado pelos chamados «universais culturais», que mais não são que estruturas simples ou de base que - encontráveis em todas as sociedades humanas - tendem a fazer funcionar o mecanismo do todo social, dando-lhe coerência. No fundo, são normativas. Esses universais culturais (como a hierarquização social, os ritos iniciáticos ou os papéis sociais) são forças inconscientes que modelam as experiências humanas, desde as mais elementares às mais complexas. Estes universais - porque são isso mesmo - não pressupõe teses contrárias. Eles são anteriores às próprias teses, porque são a base onde as teses se vão desenvolver, como uma folha onde vão estar escritas palavras. As palavras variam mas as folhas brancas são universais.

 

OS DIREITOS HUMANOS são precisamente parte da construção derivada dos universais culturais, porque assentam numa dada experiência social que se uniformizou e se entendeu num vasto território geográfico e humano, e adquiriu uma musculatura universal, sem contudo que seja necessariamente universalmente aceite. Há, portanto, teses contrárias, derivadas de outras experiências humanas que derivam de outros contextos sociais, económicos, religiosos e políticos. E a religião foi (e quiçá será) a principal energia motora social, porque dá coerência ao todo e cria distâncias face ao outro. Esta é a ideia que origina o choque civilizacional. Ainda em estado embrionário.

 

ERIC HOBSBAWN afirmou que "toda a tradição é uma invenção". O que quer isto dizer? De um modo geral que tudo o que é tido como tradicional foi considerado novo num determinado momento. Porque era necessário conferir ordem e direcção às sociedades humanas, foram criadas normas e foram estabelecidos comportamentos aceitáveis e necessários para a estabilidade do grupo e para a obtenção de prosperidade comum. Portanto, se a tradição pressupõe a continuidade de certos atavismos culturais, por outro a tradição significa também dinâmica. Parece-me residir aí o problemas das direitas conservadoras: saberem lidar com uma tradição dinâmica, que mantém estruturas essenciais mas acrescenta algo de novo, próprio da geração que vive e faz a história no dia-a-dia.

 

A ESQUERDA (pelo menos eu acredito assim) deve ser uma herdeira do iluminismo francês, sem que signifique seguir à risca tudo o que era defendido na época. Isto é, deve ser herdeira de uma linha de pensamento feito de rupturas, de individualidades, de vontades transformadoras e de ideias renovadas. As novas ideias e não as velhas ideias de esquerda. Porque uma esquerda que vive do seu passado é uma esquerda que se perdeu no tempo. Quem olha para trás não vê o caminho que lhe surge à frente.

 

A VERDADEIRA LIBERDADE não existe. O Homem vive inserido num mundo anterior e posterior a ele, cujas estruturas já estavam definidas e para as quais ele - individualmente - não foi nem é chamado a intervir. Dele espera-se que pelo menos seja capaz de viver com as normas sociais, que respeite o instituído, que assimile fervorosamente a maquinação social. O Homem constrói-se no caminho para si mesmo.

 

João Ferreira Dias

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4 comentários

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De João Carvalho a 05.10.2010 às 14:02

Cheirou-me que ia gostar - e gostei. Não é inteiramente pacífico, nem era suposto que fosse, mas gostei. Parabéns.
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De Joana de Freitas Melo a 05.10.2010 às 15:09

Não sou uma leitora fiel do oitavo dia, mas confesso já ter lido alguns posts escritos pelo convidado de hoje, apesar de contorverso , tem boa escrita, vejo-o um sonhador. Gosto !
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De Pedro Correia a 05.10.2010 às 22:22

É um gosto vê-lo por cá, João.
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De JFD a 06.10.2010 às 09:40

O gosto foi todo meu. É sempre um prazer participar em blogues com a qualidade do Delito de Opinião. Da minha parte sempre ao dispor.

"aquele abraço".

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