Uns quantos do costume mais alguns outros bem intencionados andam entretidos a engalanar o país para os grandiosos festejos do centenário da república. Não consigo perceber a alegria nem os festejos. Ao longo destes cem anos republicanos, bem mais de metade do tempo foi passado em regimes não democráticos. A 1ª república terminou com as finanças em fanicos, dando origem ao Estado Novo, que orientou a 2ª república. Nem uma nem outra foram exemplos de democracia ou de liberdade.
A 2ª república veio a dar origem ao comunismo do PREC. Falar-se em democracia ou em liberdade nessa altura é pura anedota, e só para os que não foram perseguidos à época.
E este simulacro de democracia e liberdade dos últimos trinta e poucos anos pôs novamente as finanças em fanicos, com o descalabro das contas públicas e a ameaça de intervenção exterior para organizar a desorganizada república. Festejar o quê, neste momento? Confesso não conseguir compreender, embora considere que as pessoas são livres de festejar e de se divertirem como entenderem.
Quando era garoto, na quinta dos meus Avós havia um trabalhador engraçado, já entradote, que diariamente se embriagava e diariamente gritava a plenos pulmões “viva o pesterico!” Nunca soube o que seria o pesterico, mas que também ele se divertia muito, divertia.
Caro Vasco Lobo Xavier,
Antes de mais, como co-autor do Delito, os meus agradecimentos pela colaboração.
Li o texto com toda a atenção, mas fiquei com algumas dúvidas, certamente em razão da minha ignorância republicana, dúvidas para as quais, se não for muito incómodo , pedia uma ajuda na respectiva aclaração.
Olhando para os últimos 100 anos da monarquia, aqueles que antecederam a República, havia razões para o país continuar monárquico? As finanças andavam equilibradas? E a Nação satisfeita com as guerras entre miguelistas e liberais? Havia liberdade e democracia? Estávamos ao nível das demais nações europeias? E a conferência de Berlim? E o mapa cor-de-rosa? O Ultimato terá sido coisa de republicanos infiltrados? Será impressão minha ou não foi na monarquia que houve aquela vergonhosa debandada geral para o Brasil? E não foi com a monarquia que os ingleses exportaram patins de gelo para o Brasil? Uma coisa dessas na República seria terrível, não?
Grato pelos esclarecimentos.
De
Ana A. a 4 de Outubro de 2010 às 14:55
Embora eu não possua tantos dados como o caro Sérgio, mas daquilo que eu conheço, também gostaria de ser elucidada (se possível), sobre qual seria a (presumível) situação do País se em vez da República tivéssemos uma Monarquia, pois parece que é isso que o post está a pôr em discussão.
De Anónimo a 4 de Outubro de 2010 às 15:02
Olá Sérgio de Almeida Correia,
Antes de mais, como co-autor do Delito, os meus agradecimentos pelo honroso convite que me fizeram.
Em segundo lugar, a aclaração é figura utilizada para se esclarecer sobre o que se escreveu (e eu escrevi sobre os cem anos da República). Ora o Sérgio pretende uma aclaração sobre algo que eu não escrevi, que foi sobre os últimos cem anos da Monarquia. E pormenorizada, pois cada um dos temas relativos ao séc. XIX que escolheu para aflorar daria seguramente para, pelo menos, um pequeno ensaio. Não para escrever na caixa de comentários.
Como não o imagino portador dessa “ignorância republicana” que evoca, aceite de mim apenas que considero que qualquer período de cem anos da História de Portugal foi melhor para o país e para os portugueses do o período da república. Deverei ir preso?
Abraços
Aqui no Delito ninguém vai preso pelas opiniões que expressa, mesmo quando são monárquicos, maçons, admiradores da Carbonária ou adeptos do FCP (embora eu quanto a estes já tenha acordado sobressaltado a meio da noite por sonhar que estavam todos presos, com excepção do Francisco José Viegas que é dos poucos que gosta de futebol, de bons vinhos e de charutos).
Se assim não fosse eu próprio já teria sido "encarcerado", há muito tempo, pelos meus coelgas de blogue.
Saudações republicanas, também para esses lados.
Alto e pára o baile! Adeptos do FCP presos???!!!
Estava a sonhar, João, não te apoquentes.
De Renato a 4 de Outubro de 2010 às 20:36
VLX, a monarquia era tão boa, que quase ninguém mexeu um dedo para a defender. Os últimos cem anos da monarquia fizeram forte impressão no Povo, sim senhor. Nem a corte a queria, quanto mais o Povo, miserável e analfabeto, abandonado por Lisboa. Se quer comparar periodos da monarquia com periodos da República, poderiamos falar da sangrenta e fracturante guerra civil do séc. XIX, ao pé da qual a 1ª República é uma brincadeira de crianças, e o PREC nem se fala.
A minha república é a "terceira", aquela que deu liberdade e pão aos meus. Tenho registos de quão miserável era a minha familia nos tempos da monarquia, situação que não mudou com a 1ª república e que se manteve no salazarismo. Com todas as dificuldades que existem agora, não é comparável, e para isso tem os estudos da fundação dirigida pelo António Barreto e a obra do VPV. E nada me faz supôr, antes pelo contrário, que agora tivessemos uma monarquia à sueca, em vez de uma monarquia mais tradicional do sul da Europa.
Frontal e directo. Parabéns.
(O Sérgio está com algumas dúvidas que posso ajudar a esclarecer, mas tenho a certeza de que o Vasco o fará melhor. Eheh...)
De António Carlos a 4 de Outubro de 2010 às 15:43
"Festejar o quê, neste momento? Confesso não conseguir compreender, embora considere que as pessoas são livres de festejar e de se divertirem como entenderem."
Caro Vasco Lobo Xavier,
Actualmente a Democracia é o sistema que nos habitámos a associar às sociedades ocidentais e tenho a certeza que o Vasco (permita-me a familiaridade) a defende, reconhecendo-lhe naturalmente limitações. Ou como disse Churchill, "democracy is the worst form of government except all the others that have been tried".
De certeza portanto não se oporia a que, por exemplo, lhe fosse dedicado um dia comemorativo: embora pareça estranho por nos termos habituado à existência da Democracia talvez não fosse mal pensado se considerarmos o tipo de regimes que ainda vigora noutras partes do mundo.
Neste contexto seria natural evocarmos as origens da Democracia, na Grécia no séc. V a.C. Mas será que o Vasco se sentiria incomodado com o facto de, na realidade, o sistema democrático grego "inicial" não contemplar o voto feminino, ou o voto secreto, ou permitir a escravatura, só para dar alguns exemplos?
O que se comemora no dia 5/10 não são os acontecimentos que estiveram na origem da implantação da República (assassinato do Rei). Hoje em dia, nenhum republicano espanhol advocaria o assassinato do Rei de Espanha (só para dar um exemplo). O que se comemora em 5/10 é a passagem para um regime republicano, o que se comemora é o próprio modelo republicano tal como o Vasco certamente comemoraria o surgimento ou implantação de um modelo democrático.
A escolha, em Portugal, do dia 5/10 deve-se apenas à questão simbólica da passagem de regime, sem que isso implique a concordância com os actos praticados nessa data, ou o não reconhecimento das limitações/falhas do regime republicano. Tal como acontece, aliás, com o modelo democrático.
Bom texto, caro Vasco. Bastante pertinente, se considerarmos a data!
Mas a verdade é que, pelo menos para mim, a discussão Monarquia/República é uma discussão algo estéril. Basta olhar para a Europa para perceber que não é o facto de se ser uma monarquia ou uma república que determina o sucesso de um país (sim, Inglaterra, Suécia, Dinamarca são monarquias; França, Alemanha e Finlândia têm repúblicas; fora da UE podemos falar da Suíça - república - e da Noruega - monarquia -, ambos países bastante desenvolvidos). A verdade é que, com presidente ou com rei, provavelmente continuaríamos a ter muita "má moeda", na velha expressão de Cavaco, ou muito "mau vinho", na recente expressão de Soares, entre as nossas elites. E, feitas as contas, é isso que importa.
No resto, o cinco de Outubro devia ser sempre celebrado, mas por outra razão. Celebrar a implantação da República parece-me fraco motivo. No fundo, um país atrasado continuou atrasado. Tenho cá para mim que a seguir pode vir um imperador, que continuaremos atrasados.
De VLX a 4 de Outubro de 2010 às 17:01
Caro João,
Ainda virá o FMI, que continuaremos atrasados. ;))
Abraços
VLX
Se calhar a solução é mesmo adiantarmos os relógios... :)
De VLX a 4 de Outubro de 2010 às 16:58
Olá Sérgio de Almeida Correia,
Por qualquer motivo, a resposta que anteriormente dei ao seu comentário fez-me a parecer como anónimo. Mas era eu, como se depreende do texto.
Olá António Carlos,
Parece-me que faz aí uma certa confusão entre república e democracia. Não têm nada a ver uma com a outra: o mundo está repleto de repúblicas tiranas. E não preciso seguramente de lhe recordar que o último período da monarquia era muito mais livre e democrático do que a maior parte do regime republicano. Se calhar dói, mas é verdade.
E volto à minha, descrita atrás no comentário em que apareço como anónimo: a meu ver, todos os períodos de cem anos da História de Portugal foram melhores do que este último. Se a república nada melhorou, festeja-se o quê?
Não seria preferível consciencializarmo-nos de que o país não nasceu em 1910 e celebrarmos antes o 5 de Outubro de 1143?
Abraços
Vasco Lobo Xavier
Viva, Vasco. Gosto de o ver por cá. Neste 4 de Outubro. Como gostaria de o ver a 5. E também a 6. Um grande abraço.
De Anónimo a 6 de Outubro de 2010 às 17:19
Pedro, para mim é que foi uma honra participar no delito de opinião. Espero não ter desarrumado muito.
Abraços,
VLX
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