Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010
por Pedro Correia | 04.10.10

 

Os festejos

 

Uns quantos do costume mais alguns outros bem intencionados andam entretidos a engalanar o país para os grandiosos festejos do centenário da república. Não consigo perceber a alegria nem os festejos. Ao longo destes cem anos republicanos, bem mais de metade do tempo foi passado em regimes não democráticos. A 1ª república terminou com as finanças em fanicos, dando origem ao Estado Novo, que orientou a 2ª república. Nem uma nem outra foram exemplos de democracia ou de liberdade.

A 2ª república veio a dar origem ao comunismo do PREC. Falar-se em democracia ou em liberdade nessa altura é pura anedota, e só para os que não foram perseguidos à época.

E este simulacro de democracia e liberdade dos últimos trinta e poucos anos pôs novamente as finanças em fanicos, com o descalabro das contas públicas e a ameaça de intervenção exterior para organizar a desorganizada república. Festejar o quê, neste momento? Confesso não conseguir compreender, embora considere que as pessoas são livres de festejar e de se divertirem como entenderem.      

Quando era garoto, na quinta dos meus Avós havia um trabalhador engraçado, já entradote, que diariamente se embriagava e diariamente gritava a plenos pulmões “viva o pesterico!” Nunca soube o que seria o pesterico, mas que também ele se divertia muito, divertia.

 

Vasco Lobo Xavier

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16 comentários:
De Sérgio de Almeida Correia a 4 de Outubro de 2010 às 13:10
Caro Vasco Lobo Xavier,
Antes de mais, como co-autor do Delito, os meus agradecimentos pela colaboração.
Li o texto com toda a atenção, mas fiquei com algumas dúvidas, certamente em razão da minha ignorância republicana, dúvidas para as quais, se não for muito incómodo , pedia uma ajuda na respectiva aclaração.

Olhando para os últimos 100 anos da monarquia, aqueles que antecederam a República, havia razões para o país continuar monárquico? As finanças andavam equilibradas? E a Nação satisfeita com as guerras entre miguelistas e liberais? Havia liberdade e democracia? Estávamos ao nível das demais nações europeias? E a conferência de Berlim? E o mapa cor-de-rosa? O Ultimato terá sido coisa de republicanos infiltrados? Será impressão minha ou não foi na monarquia que houve aquela vergonhosa debandada geral para o Brasil? E não foi com a monarquia que os ingleses exportaram patins de gelo para o Brasil? Uma coisa dessas na República seria terrível, não?

Grato pelos esclarecimentos.

De Ana A. a 4 de Outubro de 2010 às 14:55
Embora eu não possua tantos dados como o caro Sérgio, mas daquilo que eu conheço, também gostaria de ser elucidada (se possível), sobre qual seria a (presumível) situação do País se em vez da República tivéssemos uma Monarquia, pois parece que é isso que o post está a pôr em discussão.

De Anónimo a 4 de Outubro de 2010 às 15:02
Olá Sérgio de Almeida Correia,
Antes de mais, como co-autor do Delito, os meus agradecimentos pelo honroso convite que me fizeram.

Em segundo lugar, a aclaração é figura utilizada para se esclarecer sobre o que se escreveu (e eu escrevi sobre os cem anos da República). Ora o Sérgio pretende uma aclaração sobre algo que eu não escrevi, que foi sobre os últimos cem anos da Monarquia. E pormenorizada, pois cada um dos temas relativos ao séc. XIX que escolheu para aflorar daria seguramente para, pelo menos, um pequeno ensaio. Não para escrever na caixa de comentários.

Como não o imagino portador dessa “ignorância republicana” que evoca, aceite de mim apenas que considero que qualquer período de cem anos da História de Portugal foi melhor para o país e para os portugueses do o período da república. Deverei ir preso?

Abraços

De Sérgio de Almeida Correia a 4 de Outubro de 2010 às 16:43
Aqui no Delito ninguém vai preso pelas opiniões que expressa, mesmo quando são monárquicos, maçons, admiradores da Carbonária ou adeptos do FCP (embora eu quanto a estes já tenha acordado sobressaltado a meio da noite por sonhar que estavam todos presos, com excepção do Francisco José Viegas que é dos poucos que gosta de futebol, de bons vinhos e de charutos).
Se assim não fosse eu próprio já teria sido "encarcerado", há muito tempo, pelos meus coelgas de blogue.

Saudações republicanas, também para esses lados.

De João Carvalho a 4 de Outubro de 2010 às 16:50
Alto e pára o baile! Adeptos do FCP presos???!!!

De Sérgio de Almeida Correia a 4 de Outubro de 2010 às 17:31
Estava a sonhar, João, não te apoquentes.

De João Carvalho a 4 de Outubro de 2010 às 17:38
Hum... Eheh...

De Renato a 4 de Outubro de 2010 às 20:36
VLX, a monarquia era tão boa, que quase ninguém mexeu um dedo para a defender. Os últimos cem anos da monarquia fizeram forte impressão no Povo, sim senhor. Nem a corte a queria, quanto mais o Povo, miserável e analfabeto, abandonado por Lisboa. Se quer comparar periodos da monarquia com periodos da República, poderiamos falar da sangrenta e fracturante guerra civil do séc. XIX, ao pé da qual a 1ª República é uma brincadeira de crianças, e o PREC nem se fala.
A minha república é a "terceira", aquela que deu liberdade e pão aos meus. Tenho registos de quão miserável era a minha familia nos tempos da monarquia, situação que não mudou com a 1ª república e que se manteve no salazarismo. Com todas as dificuldades que existem agora, não é comparável, e para isso tem os estudos da fundação dirigida pelo António Barreto e a obra do VPV. E nada me faz supôr, antes pelo contrário, que agora tivessemos uma monarquia à sueca, em vez de uma monarquia mais tradicional do sul da Europa.

De João Carvalho a 4 de Outubro de 2010 às 15:37
Frontal e directo. Parabéns.
(O Sérgio está com algumas dúvidas que posso ajudar a esclarecer, mas tenho a certeza de que o Vasco o fará melhor. Eheh...)

De António Carlos a 4 de Outubro de 2010 às 15:43
"Festejar o quê, neste momento? Confesso não conseguir compreender, embora considere que as pessoas são livres de festejar e de se divertirem como entenderem."

Caro Vasco Lobo Xavier,
Actualmente a Democracia é o sistema que nos habitámos a associar às sociedades ocidentais e tenho a certeza que o Vasco (permita-me a familiaridade) a defende, reconhecendo-lhe naturalmente limitações. Ou como disse Churchill, "democracy is the worst form of government except all the others that have been tried".
De certeza portanto não se oporia a que, por exemplo, lhe fosse dedicado um dia comemorativo: embora pareça estranho por nos termos habituado à existência da Democracia talvez não fosse mal pensado se considerarmos o tipo de regimes que ainda vigora noutras partes do mundo.
Neste contexto seria natural evocarmos as origens da Democracia, na Grécia no séc. V a.C. Mas será que o Vasco se sentiria incomodado com o facto de, na realidade, o sistema democrático grego "inicial" não contemplar o voto feminino, ou o voto secreto, ou permitir a escravatura, só para dar alguns exemplos?
O que se comemora no dia 5/10 não são os acontecimentos que estiveram na origem da implantação da República (assassinato do Rei). Hoje em dia, nenhum republicano espanhol advocaria o assassinato do Rei de Espanha (só para dar um exemplo). O que se comemora em 5/10 é a passagem para um regime republicano, o que se comemora é o próprio modelo republicano tal como o Vasco certamente comemoraria o surgimento ou implantação de um modelo democrático.
A escolha, em Portugal, do dia 5/10 deve-se apenas à questão simbólica da passagem de regime, sem que isso implique a concordância com os actos praticados nessa data, ou o não reconhecimento das limitações/falhas do regime republicano. Tal como acontece, aliás, com o modelo democrático.

De João Campos a 4 de Outubro de 2010 às 15:55
Bom texto, caro Vasco. Bastante pertinente, se considerarmos a data!

Mas a verdade é que, pelo menos para mim, a discussão Monarquia/República é uma discussão algo estéril. Basta olhar para a Europa para perceber que não é o facto de se ser uma monarquia ou uma república que determina o sucesso de um país (sim, Inglaterra, Suécia, Dinamarca são monarquias; França, Alemanha e Finlândia têm repúblicas; fora da UE podemos falar da Suíça - república - e da Noruega - monarquia -, ambos países bastante desenvolvidos). A verdade é que, com presidente ou com rei, provavelmente continuaríamos a ter muita "má moeda", na velha expressão de Cavaco, ou muito "mau vinho", na recente expressão de Soares, entre as nossas elites. E, feitas as contas, é isso que importa.

No resto, o cinco de Outubro devia ser sempre celebrado, mas por outra razão. Celebrar a implantação da República parece-me fraco motivo. No fundo, um país atrasado continuou atrasado. Tenho cá para mim que a seguir pode vir um imperador, que continuaremos atrasados.

De VLX a 4 de Outubro de 2010 às 17:01
Caro João,
Ainda virá o FMI, que continuaremos atrasados. ;))
Abraços
VLX

De João Campos a 4 de Outubro de 2010 às 19:44
Se calhar a solução é mesmo adiantarmos os relógios... :)

De VLX a 4 de Outubro de 2010 às 16:58
Olá Sérgio de Almeida Correia,
Por qualquer motivo, a resposta que anteriormente dei ao seu comentário fez-me a parecer como anónimo. Mas era eu, como se depreende do texto.

Olá António Carlos,
Parece-me que faz aí uma certa confusão entre república e democracia. Não têm nada a ver uma com a outra: o mundo está repleto de repúblicas tiranas. E não preciso seguramente de lhe recordar que o último período da monarquia era muito mais livre e democrático do que a maior parte do regime republicano. Se calhar dói, mas é verdade.

E volto à minha, descrita atrás no comentário em que apareço como anónimo: a meu ver, todos os períodos de cem anos da História de Portugal foram melhores do que este último. Se a república nada melhorou, festeja-se o quê?

Não seria preferível consciencializarmo-nos de que o país não nasceu em 1910 e celebrarmos antes o 5 de Outubro de 1143?
Abraços

Vasco Lobo Xavier

De Pedro Correia a 4 de Outubro de 2010 às 21:33
Viva, Vasco. Gosto de o ver por cá. Neste 4 de Outubro. Como gostaria de o ver a 5. E também a 6. Um grande abraço.

De Anónimo a 6 de Outubro de 2010 às 17:19
Pedro, para mim é que foi uma honra participar no delito de opinião. Espero não ter desarrumado muito.
Abraços,
VLX

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