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A recuperação e as provas

por Leonor Barros, em 09.01.09

As carteiras de senhora são um labirinto insondável, albergam mistérios e tralhas em número excessivo. Descobrir o que se procura pode ser uma tarefa hercúlea levada a cabo com tacto e persistência. O telemóvel tocava, insistente, num final de tarde em que acabava de deixar a escola. Para trás o dia que se aconchegava no crepúsculo gélido mas luminoso, o chilreio de adolescentes em delírio e a sala de professores pontilhada de rostos pessimistas. Para trás, tudo, então, o tempo que se afirmava peremptoriamente de tranquilidade e aconchego entre os livros e a lareira, a preguiça das gatas na arte de nada fazer, só os felinos o conseguem com mestria. Encontro finalmente o telemóvel, após tentativas infrutíferas. A um número desconhecido correspondeu uma voz igualmente desconhecida. Quem seria? Do lado de lá soava alguma inquietação e ansiedade. Reconhecida então a voz, a conversa foi correndo com sucessivas tentativas de acalmar a mãe da minha aluna: a burocracia não deve sobrepôr-se às partidas que a saúde ou falta dela pregam, tento convencer-me, tudo se resolverá, pois, tento acalmá-la, tudo tem solução. Depois de ter sido submetida a uma intervenção cirúrgica delicada e de recuperação lenta, a minha aluna ficará retida em casa por um tempo que se adivinha longo. Desencadeados mecanismos para colmatar a ausência forçada das aulas, acresce a inquietação de fazer provas de recuperação a todas as disciplinas assim que regressar à escola e que constituem apenas aquilo que tão bem se faz neste país: burocratizar o sistema. Nada me oporia às provas caso ela, e outros como ela, se tivessem entretido no café em frente à escola em vez de ir às aulas. O absentismo não deve ser premiado em circunstância alguma. Em caso de doença comprovada não são senão uma enorme injustiça.

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2 comentários

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De Luís Lavoura a 09.01.2009 às 12:07

Qual injustiça? As provas não têm por objetivo punir ninguém, mas tão-somente aferir se @ alun@ em causa está capaz de se re-integrar no plano normal de estudo.

Eu quando andava na primária passei diretamente do 2º para o 4º ano. Tive que fazer umas provas para avaliar se sabia adequadamente a matéria do 3º ano. As provas não constituíram uma injustiça nem uma punição, mas apenas uma aferição. Elas destinavam-se, em ultima ratio, a assegurar e beneficiar o meu sucesso escolar.
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De Leonor Barros a 09.01.2009 às 12:17

Não me parece que a aferição esteja em causa. É profundamente injusto exigir que a aluna faça provas sobre a matéria a que faltou, estamos a falar de dois meses. Parece-me óbvio que a aluna seja acompanhada na medida do possível para que os danos sejam mínimos. Não tem lógica que se façam Provas. Para quê, concretamente? Se aluna faltou a x matéria é lógico que a matéria em falta será essa e não outra.
O exemplo que menciona não é comparável com o que ilustra o meu texto. Há uma diferença substancial entre querer passar do segundo para o quarto ano e estar doente em casa depois de uma intervenção cirúrgica.

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