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Enfim, uma boa notícia

por Pedro Correia, em 23.11.17

 

Chove.

 

("A partir de amanhã a situação vai melhorar", diz com alívio o jornalista da SIC, que parece preferir a seca extrema e prolongada)

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Acabaram as manhãs da comercial?!!!

 

Entro no carro e oiço o Pedro Ribeiro a dizer esta enormidade: “as manhãs da comercial acabam” e o meu telemóvel toca, a rádio desliga-se, é o sistema de alta voz a funcionar, e fico ali aflita, sem saber o que fazer. Atendo a chamada, passam-se 47 segundos a falar com uma senhora que me quer vender um pacote Nos que, em teoria, é do caraças e lá consigo voltar à rádio, mas só tenho os Gift a cantar que já não sabem se sabem sentir amor e coisas assim.

Vou no trânsito a pensar: não pode ser, se ficar sem as manhãs da comercial, fico sem o Nuno Markl que não come carne, a Vera Fernandes que desafina no New York, New York, o Vasco Palmeirim que já não sei se gosta ou não de pickles e sem o César Mourão que fez a árvore perto da máquina de lavar. Não irei sobreviver. E não conheço nenhum deles, não somos amigos, mas talvez sejamos, afinal, esta cena sentimental é... complicada.

A música acaba e o meu telemóvel toca outra vez, parece de propósito, é mesmo uma chatice quando nos ligam às nove e pouco da manhã, é pouco civilizado, caramba, deixem-me lá perceber o que aconteceu na comercial. E quando volto à rádio já está tudo na galhofa com alcunhas estranhas, Naftalina e Saliva e Proteínas, é o dia das alcunhas, percebo e, até entrar na garagem para onde tenho mesmo de entrar, piso menos três, logo sem rede, vou ainda em pulgas e ninguém me diz nada. Malta! Não pode ser.

Subo até ao nono andar e abro o Facebook da Comercial. Ó alívio profundo!, afinal ofereceram cinco milhões de euros ao Pedro, uma tal Rose cujo português é altamente duvidoso, mas é uma vendida, mandou o mesmo email, com oferta semelhante, para metade do país. Ah, ok, ok, às sete eles lá estarão, certo?

O meu alívio é significativo.

Não posso dizer - até hoje não podia dizer - que sou uma groupie, mas afinal sou. Eu quero encher o bandulho, quero rir com o homem que mordeu o cão (invejar a memória do Markl, por ser absolutamente invejável), perceber o trabalho insano que esta malta tem para ser líder nas manhãs, e sempre com um sorriso, mais brincadeira, menos brincadeira, cortando as regras (adoro quando o Pedro Ribeiro diz que, ups, lá vem o director comercial dizer que não podemos falar na marca A ou B). Há ali muito, muito trabalho, porque ser divertido e diferente todos os dias é dose e não é para todos.

Eu, fã assumida de rádio, ouvindo o dia inteiro várias estações, tenho esta perdição pelas manhãs e agradeço às Rose do mundo, com cinco ou mais milhões, que se abstenham de assediar a equipas das manhãs.

A bem da saúde mental de um país. Agradecida.

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Música recente (149)

por José António Abreu, em 23.11.17

Brand New, álbum Science Fiction.

Science Fiction teria constituído um excelente remate para a carreira - com fim já anunciado - dos Brand New. Infelizmente, a dissolução da banda poderá ficar marcada por outro acontecimento: na senda do que tem acontecido em Hollywood, o vocalista Jesse Lacey viu-se acusado por uma mulher de comportamento inadequado e tanto as bandas de apoio à digressão em curso como os próprios colegas começam a afastar-se dele. Um dos grandes álbuns de 2017 choca de frente com um dos grandes temas de 2017.

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A pergunta que se impõe

por Diogo Noivo, em 23.11.17

 

"Em finais de 2015 havia alternativa, íamos virar a página da austeridade, era todo um mundo novo que se prometia, feito de mais dinheiro no bolso de todos, porque o anterior Governo era um malvado que, vá-se lá saber porquê, queria tirar-nos o dinheiro todo e estava sempre a falar no défice das contas pública e na dívida. Havia dinheiro a rodos e ai de quem se atrevesse a alertar que não era possível. Seria devidamente insultado e perseguido pela turba anónima das redes sociais, classificado de “pafiano” ou educadamente insultado como “liberal”.

Em finais de 2017 estamos a ser acusados de viver na ilusão de que é possível dar tudo a todos, porque afinal não é. E não é por maldade, é porque afinal, pasme-se, não há dinheiro e não é possível apagar o passado, eliminar a crise e a troika. Mas isso não era exactamente o problema de 2015?"

 

Helena Garrido, "(Des)ilusões de ricos pobres", Observador (23.11.2017)

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Darkness at noon

por Pedro Correia, em 23.11.17

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«O Zimbábue é meu!»

Robert Mugabe, Dezembro de 2008

 

No dia 21 de Fevereiro de 2009, quando celebrou 85 anos, Robert Mugabe mandou organizar um faustoso repasto que incluiu tudo do bom e do melhor. Indiferente à chocante miséria que grassava no seu país, o Zimbábue, outrora conhecido por celeiro de África.

O festim incluiu nada menos de duas mil garrafas de champanhe (Möet & Chandon e Bollinger de 1961 no topo das preferências), oito mil lagostas, cem quilos de camarão, quatro mil doses de caviar, 16 mil ovos, 500 quilos de queijo e oito mil caixas de bombons Ferrero Rocher, entre outros acepipes.

Fora das paredes palacianas, milhares de zimbabuanos viam-se forçados a arrancar ervas daninhas do mato para matar a fome. A ex-Rodésia do Sul, como era conhecida durante o domínio colonial britânico, batera no fundo: 94% de desempregados, sete milhões de habitantes dependentes da caridade internacional, mais de 70 mil casos de cólera confirmados pela Organização Mundial de Saúde devido à falta de elementares condições de higiene, a maior inflação do planeta, o colapso generalizado da sociedade civil.

 

Aquela celebração digna da corte absolutista de Versalhes foi um dos inumeráveis actos obscenos praticados pelo poder político num país varrido por todo o género de indignidades. Perante o silêncio conivente de muitos, em África e na Europa, que ao longo destes anos foram aludindo a Mugabe como um "combatente da liberdade" sem corarem de vergonha por abastardarem uma das mais nobres palavras associadas à espécie humana.

Em Dezembro de 2007, Lisboa recebeu Mugabe com todas as honras, na inútil cimeira entre a União Europeia e África. Dar-lhe face nessa altura equivaleria a fazer correr sangue no Zimbábue, dissemos então vários de nós na blogosfera. Infelizmente, foi isso que sucedeu. Para vergonha nossa e dos nossos civilizadíssimos parceiros comunitários.

 

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Quem analisar com atenção o percurso político de Mugabe – um homem de formação católica que se tornou marxista quando estudava Direito numa universidade sul-africana – verifica que os primeiros sinais do déspota em que se tornou eram já detectáveis no início da década de 80, quando ainda merecia os mais rasgados elogios da imprensa internacional, pela forma brutal como esmagou aquele que era então o seu principal adversário político: Joshua Nkomo, líder da União Popular Africana do Zimbábue (Zapu).

Nkomo foi, a par de Mugabe, um dos principais opositores a Ian Smith, que durante década e meia tentara impor ali um regime dominado pela minoria branca, nunca reconhecido pela comunidade internacional. Após a independência, em 1980, integrou o Governo de unidade nacional como ministro do Interior. Menos de dois anos depois, Mugabe acusou-o de conspiração contra o Estado. Nkomo foi preso e pelo menos 20 mil dos seus apoiantes no Leste do país acabaram assassinados. A Zapu foi dissolvida e a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu), de Mugabe, tornou-se o partido único.

 

No ano 2000, a máscara caiu de vez. Mugabe lançou uma “reforma agrária – a ocupação pura e simples das propriedades agrícolas dos brancos. Suprimiu toda a oposição. Aboliu o poder judicial independente. Meteu na cadeia opositores, sindicalistas, estudantes e activistas de direitos humanos. Amordaçou a imprensa. E fez mergulhar o país no caos económico: em Outubro de 2008, segundo o Banco Central do Zimbábue, a inflação atingiu 231.000.000%. Cerca de um terço da população zimbabuana exilou-se em Moçambique ou na África do Sul para fugir à fome.

«Neste momento, as pessoas morrem de fome neste país que dava de comer a toda a região, onde havia cultivo de todo o género», alertava em 2007 uma ilustre ex-residente no Zimbábue: a escritora Doris Lessing, nesse ano galardoada com o Nobel da Literatura. Segundo a Unicef, um quarto das crianças do Zimbábue são órfãs: a esperança de vida é a menor à escala mundial - 37 anos para os homens, 34 anos para as mulheres.

 

O antigo estadista modelar, invocado outrora como exemplo no continente, tornou-se apenas mais um nome a juntar à longa lista de tiranos que vêm destruindo o sonho de uma África próspera, justa e livre. Nada diferente do que fizeram um Bokassa, um Mobutu ou um Idi Amin numa parcela do globo onde a esperança de progresso parece uma miragem cada vez mais longínqua.

Apesar da cruel evidência dos factos, o agora deposto Robert Mugabe ainda era visto em largos sectores como um “herói da libertação”. Este paternalismo benévolo de certas elites ocidentais, cheias de complexos de culpa pelo “colonialismo”, contribui para oprimir África, o único continente onde é generalizada a condescendência perante as violações mais generalizadas e grosseiras dos direitos humanos.

Se hoje assistimos com júbilo à queda do tirano que chegou a proclamar "o Zimbábue é meu", não podemos baixar a guarda perante quem lhe sucede. As últimas seis décadas de história ensinam-nos que um déspota africano, em regra, é substituído por outro déspota. Já sabemos o suficiente para deixarmos de confundir democratas com ditadores.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.11.17

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O Teu Rosto Amanhã (2) - Dança e Sonho, de Javier Marías

Tradução de J. Teixeira de Aguilar

Romance

(edição Alfaguara, 2017)

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Mas a candidatura de Lisboa era assim tão espectacular?

por João Pedro Pimenta, em 23.11.17

Com o risco de ser interpretado como "defensor dos valores tripeiros" ou coisa parecida, tenho de discordar dos meus confrades do Delito na matéria "se Lisboa fosse candidata a receber a EMA teria muito mais hipóteses de ganhar do que o Porto". 

 

Sim, o Porto perdeu, ficou em sétimo e em boa verdade só por muita fé é que se pensaria que podia ganhar. A candidatura tinha alguns aspectos vagos e dificilmente podia ombrear com outros concorrentes. Mas pensar que Lisboa tinha mais hipóteses é outra quimera. Até agora, vi escrito vezes sem conta que Lisboa era uma das preferidas, que tinha muito mais possibilidades de ganhar, etc. Pois bem, não vi um único argumento que me demonstrasse essas tais hipóteses. 

 

 

O Luís refere por exemplo que a Agência só podia ir para uma capital. Ora a cidade que chegou ao fim com mais pontuação foi Milão, só preterida em sorteio posterior a favor de Amsterdão. O Porto ficou a par de Atenas e à frente de capitais como Viena, Helsínquia, Sófia, Bucareste ou Varsóvia. Se ser capital nacional era mesmo um requisito (e isso não aparecia em parte nenhuma, senão não concorreriam cidades que não o são), ou houve distracção por parte das entidades responsáveis ou então era apenas uma condição simbólica. O que só mostra que a candidatura do Porto era melhor do que o que se pensava.

 

O Embaixador Seixas da Costa, também aludido pelo Luís, acha que "Lisboa era a única cidade portuguesa com condições potenciais para albergar" a agência. Mais uma vez não nos são apresentados critérios, excepto o da "visibilidade excepcional que a cidade está a ter por toda a Europa". Se a razão é essa, recordo que a também o Porto tem neste momento uma visibilidade internacional que provavelmente nunca antes tinha conhecido. Não por acaso, foi eleito, por três vezes em seis anos, "melhor destino europeu". Vale o que vale, mas a votação que lhe permitiu o tri-galardão teve sobretudo votos estrangeiros a favor. Não sendo um argumento de enorme peso, demonstra que também a visibilidade portuense está em alta. E não esquecer, evidentemente, a repercussão que a eleição de Rui Moreira teve, com honras de reportagem e entrevista por parte de jornais como o Le Monde e o New York Times.

 

O Diogo recorda-nos que os funcionários da EMA preferiam ir para Lisboa. Podia ser um argumento com algum peso. Simplesmente, diz-nos a notícia, tratou-se de um inquérito interno revelado apenas pelo presidente da Apifarma, e sem que os resultados fossem "publicados ou comunicados aos estados-membros". Ou seja, temos apenas a "revelação" do sr presidente da Apifarma, sem qualquer confirmação. Aliás, ouvimos muitos falsos alarmes ao longo deste processo. Ou não se lembram do favoritismo ser atribuído a Bratislava?

 

De resto, não ouvi quaisquer outros argumentos que atestassem as enormes hipóteses de a candidatura Lisboa ser tão melhor que a do Porto. Pelo contrário, ouvi os habituais desabafos de que "era a capital", a maior cidade", "essas coisas devem ficar onde têm mais representatividade (Sic)", etc. Excepto talvez um: o de que Lisboa teria mais linhas aéreas. É um facto. Mas para além do aeroporto de Pedras Rubras apresentar melhores condições, é bom lembrar que a supressão de várias e importantes linhas aéreas do Porto partiu daquela empresa que não sabemos se é pública ou privada chamada TAP, com explicações frouxas e atabalhoadas.

 

Por outro lado, há um argumento que se não é exclusivo, joga pelo menos com bastante força contra a candidatura de Lisboa: o facto de já lá haver duas agências europeias. Só uma cidade tem mais do que duas: Bruxelas. Tirando a "capital da UE", e na possibilidade remotíssima de ganhar, Lisboa tornar-se-ia a única cidade com três agências, o que seria uma caricatura chapada do centralismo à portuguesa.

 

Assim sendo, explica-se melhor a atitude do governo, que depois de escolher Lisboa, mudou subitamente para a candidatura do Porto: sabia-se que nem uma nem outra teriam quaisquer hipóteses. E tentou-se assim dar uma aura de descentralização de fachada. Mais penoso ainda: viram-se deputados, como Catarina Martins, a retorquir que o facto de outras cidades, como o Porto, Braga e Coimbra não serem também candidatas era um ultraje, depois de eles mesmo terem votado em Lisboa.

 

Mas talvez estas discussões e estas candidaturas tenham trazido algo de bom: tal como aconteceu com o Festival da Eurovisão (que ficou, e muito bem, no Parque das Nações), discutiu-se para que cidade portuguesa determinado organismo/evento internacional viria, embora só depois de se emendar a mão à simples escolha de Lisboa, apenas porque sim, sem mais. É uma atitude saudável que doravante terá de fazer parte das escolhas dos decisores políticos. O resultado final pode perfeitamente ser Lisboa, mas que haja uma avaliação e um debate prévio sobre a matéria em questão. Senão arriscamo-nos a ficar sempre tão centralizados como a Hungria ou a Grécia. Ou talvez nem isso: é que a Grécia conta com três agência europeias e nenhuma delas sequer fica em Atenas. Afinal é bem verdade que Portugal não é a Grécia.

 

Já agora, se me permitem, ficou-se a saber que a desconcentração de serviços é uma tarefa hercúlea. Não sei se a mudança da administração e de parte dos trabalhadores da Apifarma de Lisboa para o Porto se justifica e a que títulos. Também não acho, nem nunca achei, que desconcentrar fosse tirar de Lisboa e colocar no Porto, como se a grande falha não fosse litoral/interior. Mas ao ver os queixumes e as reclamações com o "triste destino" dos trabalhadores, que, horror, podem até ter que ir trabalhar para o Porto, não posso deixar de pensar nos milhares e milhares que ao longo de gerações tiveram que abandonar as suas raízes e as suas famílias e migrar para a capital e para os seus subúrbios crescentemente lotados, sem que nunca ninguém tivesse elevado a voz para os defender nem para contestar a sua migração quase forçada. Talvez agora se comece a pensar nisso.

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Canções do século XXI (237)

por Pedro Correia, em 23.11.17

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Ler

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

A agência europeia do medicamento. Do Bruno Santos, no Aventar.

Caixa de Pandora. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

'Perdoa-me': regressa que estás perdoado! De André Lamas Leite, n' A Destreza das Dúvidas.

Por detrás de uma foto famosa. De José Barreto, no Malomil.

Houriaa Bouteldja: Sionistas para o Gulag e outras curiosidades. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.

Um retrato sobre nós. Do Henrique Pereira dos Santos, no Corta-Fitas.

Do verbo cuidar. Da Eduarda, nos Dias (Im)Perfeitos.

Trivialidades. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Agradecer basta. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

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Já li o livro e vi o filme (208)

por Pedro Correia, em 22.11.17

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     VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS (1962)

Autor: Ken Kesey

Realizador: Milos Forman (1975)

Romance centrado num hospital psiquiátrico como metáfora de um mundo concentracionário. Tanto o livro como a película (que recebeu cinco Óscares) têm elementos hoje algo datados, ligados à contracultura dos anos 60. Jack Nicholson, com um magnífico desempenho, faz a diferença a favor do filme.

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Este Natal ofereça livros - 2

por Inês Pedrosa, em 22.11.17

Romances eternos de fácil leitura, capazes de seduzir jovens ou leitores não-iniciados. 

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O desafio da gestão da água em Portugal

por João André, em 22.11.17

Agora que a seguir aos incêndios começam a surgir os alertas para a falta de água, vale a pena reflectir sobre o desafio estrutural de abastecer água, potável e não potável, a uma população. Portugal é um caso onde este desafio já deveria ter sido assumido há muito de forma interpartidária: é um país pouco húmido, com zonas mais áridas, forte concentração populacional em centros urbanos no litoral e uma costa marítima muito extensa. É também um país com forte implantação de energias renováveis, o que é bastante útil no caso do abastecimento de água.

 

Uma primeira reflexão deve ser feita no que diz respeito à escassez da água. Tenho frequentemente que explicar a amigos que a água não é um bem escasso, ou pelo menos não o é da mesma forma que o petróleo o é. Toda e qualquer molécula de água que é consumida na esmagadora maioria dos processos de humanos (consumo humano, irrigação, lavagens, incorporação noutras bebidas, etc) continua a existir após o seu "consumo". Mesmo nos casos raros em que a molécula de água é decomposta nos seus átomos (como por exemplo em electrólise), estes acabam por se reconstituir na atmosfera (é o facto de a molécula de água ser um arranjo tão favorável para o hidrogénio e o oxigénio que a torna tão estável e útil). Isso significa que não há razão para se considerar a água um recurso finito, antes transformável.

 

Esta distinção importa porque significa que a água pode ser obtida a partir de múltiplas fontes ou - e é este o aspecto essencial - reutilizada. Aliás, observar um mapa mundial da acessibilidade de água para consumo ajuda a perceber a distinção. O gráfico abaixo mostra Portugal numa situação pouco melhor que Espanha e França, pior que vários países africanos e melhor que Bélgica, Holanda e Alemanha, países líderes no campo. Uma das razões para isso é a disparidade temporal do acesso à água. Nos países africanos a disponibilidade de água depende da época das chuvas - fora destas pode haver falta de água. O mesmo acontece historicamente com a Índia. No caso dos países do centro da Europa o problema prende-se mais com a qualidade da água disponível. Nestes países o nível de industrialização levou a que os cursos de água estejam frequentemente poluídos. No caso da Holanda acresce o problema de terem recuperado terra ao mar: os recursos hídricos estão frequentemente contaminados com sal.

 

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Fonte: National Geographic

 

Como resolvem estes países o seu problema? "Simples": tratam a água de forma proactiva e agressiva e consideram-na um recurso fundamental. A qualidade é monitorizada constantemente e ajustada conforme o necessário. Além disso os recursos hídricos estão incorporados no processo de gestão de água, não só no aspecto da captação de água mas também na descarga da mesma depois de tratada. Só que isto não deveria ser suficiente e é muitas vezes um desperdício. A gestão correcta deveria ser muito mais eficiente.

 

Um caso que conheci é o da cidade de Aachen. Nesta cidade alemã (muitos portugueses ainda a conhecem pelo nome francês de Aix-la-Chapelle) junto às fronteiras com a Holanda e  Bélgica o sistema de tratamento e captação de água é integrado. As águas residuais municipais são recebidas pelas estações, tratadas e descarregadas nos cursos de água naturais da região. As águas destas fontes são captadas, tratadas e enviadas para a cidade. Isto cria um ciclo mais ou menos fechado que parece ser eficiente (e de certa forma é-o).

 

Olhe-se no entanto para o mapa abaixo, onde coloquei os pontos de e para onde a água é bombeada, por onde flui e onde é tratada (atente-se a legenda). O mapa abaixo não referencia diferenças de altitude entre os diversos pontos (este artigo do Aachener Zeitung tem uma ilustração que o mostra).

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Legenda: 1 - Estação de tratamento de águas residuais. 2 - Albufeira que recebe (por bombagem) as água tratadas em 1. 3 - Estação de bombagem de água para 4. 4 - Albufeira. 5 - Barragem que liga com outra Albufeira. 6 - Estação de bombagem de água para outra albufeira. 7 - Estação de produção de água potável. 8 - Aachen.

Linhas vermelhas: água bombeada (as linhas não descrevem o percurso real). Linhas verdes: água em curso natural (rio, albufeira). Losangos: estações de tratamento e/ou bombagem. Círculo: barragem com passagem natural de água.

 

Aquilo que eu gostaria de salientar é a distância, mínima, entre a estação de tratamento de águas residuais e a estação de produção de água potável. Também seria bom indicar que a água que é descarregada nos cursos de água naturais não tem uma qualidade muito distinta da da água que é captada para produção de água potável. Isso significaria que seria tecnicamente simples tratar o efluente da estação de tratamento de águas residuais para produzir a água potável necessária para a cidade de Aachen. E isto seria possível muito mais próximo da cidade.

 

Há outras questões técnicas que teriam de ser resolvidas. Levar a água residual ao nível de potável é relativamente simples, mas não é possível com eficiência a 100% (a segunda lei da termodinâmica impede-o naturalmente, mas tecnicamente seria inviável). Haveria portanto que encontrar uma solução para a fracção do efluente. No entanto não é esse o maior impedimento para tal opção.

 

O maior impedimento é humano: as pessoas não querem beber água tratada, independentemente da qualidade que seja assegurada. Queremos beber água "natural", que imaginamos nunca contaminada em ponto nenhum ou, em alternativa, que tenha sido "purificada" pela Natureza. Claro que isto é uma fantasia. A maior parte da água que existe no mundo não é fresca (i.e., não é salina). Da água fresca, apenas cerca de 30% está disponível e não sequestrada como gelo. E da disponível, apenas uma parte está à superfície da Terra.

 

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Disponibilidade de água no mundo. Tirada daqui.

  

Ainda assim, sistemas como o que descrevi acima (reuso indirecto) ajudam à fantasia. Os humanos rejeitam de tal forma o reuso directo de água (tornar a água imediatamente potável, por oposição ao uso indirecto) que preferem sempre que possível dessalinizar água do mar. Isto faz sentido em certas situações, como no Médio Oriente, em zonas costeiras áridas (Califórnia) ou em ilhas-estado muito populosas como Singapura, mas é energeticamente menos eficiente (pressões equivalentes a 60 atmosferas são necessárias para produzir 60 L de água dessalinizada por cada 100 L de água bombeada, por exemplo).

 

O reuso directo de água, bem como o reuso de água não potável (como no caso de irrigação) poderia baixar drasticamente a necessidade de captar água a partir de fontes à superfície ou subterrâneas, além de baixar imenso o custo do tratamento da água. Igualmente importante seria potenciar a captação e gestão de água da chuva, criando bacias que recebessem o excesso de água. Esta prática milenar existiu por todo o mundo e terá sido aperfeiçoada na Índia, mas a expansão humana e industrialização destruíram muitas das opções que existiam ao cortar cursos naturais (ou de mão humana mas muito antigos) de água.

 

Portugal tem algumas condições excelentes para não ser um país com escassez de água. As zonas mais populosas são também as mais prósperas e onde a indústria está mais desenvolvida e também onde em teoria é mais fácil implementar sistemas integrados de gestão de água. Isso significa que seria simples implementar sistemas técnicos de reuso em cidades como Lisboa ou Porto (ou outras) e reduzir de imediato as necessidades de captação de água e, consequentemente, diminuir o risco causado por períodos de seca.

 

Nas zonas menos populosas, os sistemas de reuso de água não potável seriam perfeitos. Nestes casos parte do efluente que sai das ETARs poderia ser redireccionado para irrigação e outra parte poderia ser tratado para uso como água potável para as populações. outra vantagem que Portugal poderia ter relaciona-se com o uso de energias renováveis. O uso de água é mais intensivo durante o dia, altura em que a energia solar (especialmente a térmica, no caso de sistemas de evaporação/condensação) está disponível. Além disso as albufeiras são reservatórios perfeitos de água que podem ser integrados correctamente na gestão local e fornecem a energia a partir das barragens.

 

Por fim, para complementar e onde necessário, seria possível recorrer à água do mar para obter água em caso de necessidade. Com a maioria da população portuguesa a viver provavelmente não mais que 30-50 km do mar, a dessalinização, mesmo que menos eficiente energeticamente, poderia ser usada para complementar o abastecimento quando necessário.

 

Resolver o problema da disponibilidade de água, em Portugal ou noutros países, não se pode basear simplesmente numa ou noutra solução. Não existe uma solução mágica que resolva tudo. É necessário integrar a poupança de água, com a gestão dos recursos hídricos (inclusivamente do ponto de vista geológico) e harmonizar isso com os sistemas de tratamento e reuso de água, bem como criar opções d emitigação de casos extremos, como a dessalinização.

 

Se tal fosse feito, estou em crer que hoje não seria organizar comboios para andar a transportar água entre localidades. Todos os nossos municípios poderiam ser auto-suficientes.

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O 25 de Novembro nunca existiu

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

O PS de 2017, que parece ter vergonha da sua história, atraiçoa o PS de 1975 ao recusar celebrar oficialmente o 25 de Novembro - marco essencial na instituição do actual regime constitucional português. O PS de Mário Soares, Salgado Zenha, Maria Barroso, Manuel Alegre, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jaime Gama e tantos outros construtores da democracia contribuiu decisivamente para essa data, que vai sendo esquecida ano após ano.

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Um PSD que não voa

por Diogo Noivo, em 22.11.17

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Carlos Eduardo Reis é conselheiro nacional do PSD. Assinou ontem um artigo de opinião no Público em jeito de resposta a um texto de Marina Costa Lobo publicado no mesmo jornal. Nunca ouvi falar dele. Mas já ouvi falar (e falar de) Marina Costa Lobo, uma das mais notáveis cientistas políticas do país. E por aqui deve começar o comentário à prosa de Carlos Eduardo Reis.

 

Logo a abrir o segundo parágrafo, escreve este conselheiro nacional de um dos maiores partidos políticos portugueses que “não sabia quem era” Marina Costa Lobo. Perdoada a deselegância, a constatação diz mais sobre ele do que sobre a investigadora e docente universitária.

 

No início do parágrafo seguinte, escreve Carlos Eduardo Reis que, enquanto leitor, não entende como é possível “receber um artigo sobre "o PSD" em vésperas de disputa interna e a alegada analista só referir um candidato”. Olhando para esta frase, não será abusivo concluir que subjacente às dificuldades de entendimento está uma concepção enviesada e curta de liberdade de opinião. Já quando olhamos para o artigo de Marina Costa Lobo percebemos que o conselheiro foi incapaz de entender o que leu.

 

Ainda no terceiro parágrafo, Reis acrescenta que “[e]laborar um diagnóstico de uma força política quando a sua liderança está em vias de ser decidida já seria duvidoso”. Em democracia, aberta e plural, qualquer momento é adequado para diagnósticos partidários, principalmente quando quem os faz não tem vínculos políticos e aborda o tema de um ponto de vista científico. Admito que seja diferente quando um membro de um partido ataca explicitamente a candidatura que apoia em vésperas de um acto eleitoral. Como fez, por exemplo, a número cinco da lista do PSD a Lisboa uns dias antes das últimas autárquicas. Mas, dada a ausência de artigo de opinião sobre o assunto, imagino que tal acto seja para o conselheiro nacional do PSD menos gravoso do que um texto escrito por uma cientista social.

 

Chegados ao quarto parágrafo – não se perde um –, Carlos Eduardo Reis escreve, sem sombra de matizes, que “[e]m política, o contexto é tudo”. Portanto, ideias, valores e projectos políticos anulam-se perante os caprichos do contexto. Governa-se a pensar no momento porque a estratégia pertence ao domínio da ficção. Ficamos esclarecidos. Ainda em relação a esta preponderância absoluta do contexto em política, Reis acrescenta que “[n]ão é preciso ser político ou professora de política para sabê-lo”. Pois não. É sim preciso fazer umas leituras (Tocqueville, Weber e Orwell são prescrição indicada para este tipo de patologia) e dispor de um módico de senso-comum para não escrever inanidades.

 

No quinto parágrafo, o conselheiro nacional do PSD alerta para o facto de “não entender que o carácter excepcional do contexto que se seguiu ao governo de 2005 é irresponsável”. Voltei ao texto de Costa Lobo, que li. E reli. E tornei a ler. E em momento algum o artigo desvaloriza ou branqueia os resultados nefastos da governação socialista de José Sócrates. Delírio ou análise deficiente, este quinto parágrafo sobra.

 

No último parágrafo, Carlos Eduardo Reis agarra-se à primeira pessoa. “Eu”, escreve, “que não sou académico mas sou português” (duas informações que não surpreendem ninguém) “sei que de que lado da História fiquei e que História quero ainda ver mudar”. Muito bem. Mas nós, a generalidade do grande público, não sabemos de que lado da História ficou. Nem temos nisso grande interesse. Já eu, depois de ler o artigo deste conselheiro social-democrata, temo ao pensar sobre o que ele pretende da História ou, pior, sobre o papel que nela venha a desempenhar.

 

Declaração de interesses: antecipando-me a eventuais comentários, não sou nem nunca fui militante do PSD, embora veja nesse partido aquele que melhor traduz as minhas preocupações enquanto cidadão (tendo em conta os candidatos perfilados, a coisa poderá mudar). E porque estamos em Portugal, país onde as críticas reflectem quase sempre motivações ocultas, deixo claro que não conheço pessoalmente Marina Costa Lobo.

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Convidada: RITA PIRES

por Pedro Correia, em 22.11.17

 

Das músicas que enfeitiçam

 

 

«Índio do queixo torcido 

Que se amansou na experiência 

Eu vou voltar pra querência 

Lugar onde fui parido.» *

 

Música.

Um mundo muito relativo. Cheio de opções e de estilos. Pessoal e, quase, intransmissível. O que gostamos hoje pode não ser aquilo de que gostávamos há um, cinco ou dez anos. Ou então pode e mantemo-nos fidelíssimos a uma ou outra, em particular, durante anos a fio. 

 

Gostamos de uma porque a ouvimos no momento certo. Gostamos de outra porque a ouvimos no momento errado. Não nos esquecemos daquela porque era a que tocava na rádio quando nos levantávamos para ir para a escola e os nossos pais conversavam à janela, apanhando o primeiro ar da manhã, minutos antes de também saírem de casa para trabalhar.

Queremos voltar a ouvir a outra porque precisamos de chorar o mesmo choro de há uns anos, quando descíamos a rua e passávamos no lugar onde conhecemos um amor já perdido.

Gostamos de uma porque nos faz vibrar exactamente da mesma maneira que vibrávamos quando tínhamos 20 anos e o mundo era um lugar sem fim e até o impensável era possível.

Escutamos outra porque nos traz uma existência onde a tristeza não existe. E pomos outra a tocar justamente porque precisamos de sentir uma percentagem dessa tristeza. 

 

 

 

Qual é a probabilidade de encontrarmos a música certa para nós?

Aquela mais consistente, que nos encaixa no ser, ou a outra mais emotiva que fala de nós, em determinado momento, sem que quem a criou nos conheça ou venha a conhecer? 

O que faz uma pessoa ligar o rádio, em casa para cozinhar ou no carro antes de rumar ao trabalho, no exacto momento em que Aquele som está no ar?

O que faz outra pessoa vaguear na Internet e encontrar aquela outra música que nunca ouviu em lugar nenhum? 

 

Foi algo parecido que me sucedeu com a música que ilustra este post. Julgo, até, que pode muito bem ter sido neste mesmo blogue o local onde a achei. E depois o mundo virtual tem destas coisas. Pesquisam-se mais músicas, escutam-se entrevistas.

Não desfazendo o autor da letra, sublinho quem a interpreta. Vítor Ramil, uma tranquilidade capaz de fazer viajar para a mais doce nuvem de algodão. Há muitas outras músicas das quais gosto, sem dúvida. Mas gostar desta é pessoal e – definitivamente – intransmissível.

 

* Poema de João da Cunha Vargas, musicado por Vítor Ramil.

 

 

Rita Pires

(blogue CENAS TIPO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.11.17

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O Teu Rosto Amanhã (1) - Febre e Lança, de Javier Marías

Tradução de J. Teixeira de Aguilar

Romance

(edição Alfaguara, 2017)

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Este Natal ofereça livros - 1

por Inês Pedrosa, em 22.11.17

Uma selecção de presentes de Natal acessíveis e eficazes para machões & machonas recuperáveis. 

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.11.17

A dificuldade nem sempre está no problema.

Tirando os que não têm remédio, como a morte, que sabemos que há-de chegar embora não se saiba exactamente quando, nem como, o que de certa forma a retira do rol dos problemas que carecem de resolução, mesmo quando se é apanhado desprevenido, o ângulo de abordagem, o modo como o problema é analisado e as hipóteses de solução que se encaram são pontos de partida para a sua ultrapassagem. E mudam tudo.

A procura da solução pode ser desconfortável, sem com isso deixar de ser sempre bem mais estimulante do que o simples abandono. A solução de um problema é uma outra forma de concretizar um sonho. Não há sonhos cómodos (a não ser nos sonhos).

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (236)

por Pedro Correia, em 22.11.17

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DELITO de blogue a livro

por Pedro Correia, em 21.11.17

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Quase a entrar no décimo ano de publicação ininterrupta, o DELITO DE OPINIÃO passa enfim de blogue a livro. Está pronta a nossa primeira antologia de textos escolhidos pelos autores que entenderam participar nesta colectânea, com estilos e temas muito diferentes - afinal aquilo que fez e faz a identidade muito própria deste blogue, que resiste de boa saúde ao "fim da blogosfera" que alguns se apressaram a decretar urbi et orbi num anúncio que nós por cá desmentimos todos os dias.

Como a nossa série dos  blogonautas convidados bem demonstra: noventa já passaram por cá desde Março e vários outros estão a chegar.

Como as estatísticas deste blogue confirmam: ultrapassámos já um milhão de visualizações desde o início do ano ainda em curso.

 

O sistema que adoptámos para este livro, com 260 páginas e chancela editorial da Bookbuilders, é o da subscrição. Ou crowdfunding, como agora se diz em "português técnico". Isto implica a existência de um número prévio de leitores inscritos, fazendo reserva de exemplares, para que a obra entre no mercado.

Esperamos um número mínimo de 160 subscritores, que passam a figurar como "apoiantes do DELITO" nesta iniciativa que a partir de agora deixa de ser só nossa e se torna também vossa.

Contamos portanto com a vossa adesão para muito em breve passarem a ler-nos também em livro. O complemento natural ao blogue.

 

Prometo ir dando mais novidades sobre esta iniciativa. Entretanto podem desde já aderir, enquanto leitores "delituosos", na loja virtual da Bookbuilders. Para garantir o acesso a esta nossa primeira antologia. E abrir o caminho a que apareçam outras. Esperando que gostem tanto de nos ler em livro como já demonstraram gostar de nos ler em blogue.

 

 

ADENDA: neste momento há seis projectos em votação: qualquer deles pode ir por diante. O vosso apoio é fundamental para que o nosso avance. O mecanismo de apoio é simples: basta seguir o link e depois a página da Bookbuilders encarrega-se de explicar os passos necessários. Que tiver alguma dúvida, entre em contacto connosco.

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O prémio de consolação.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.17

Aqui está o prémio de consolação pela iniciativa falhada de Rui Moreira. Já que o Porto não consegue ganhar a candidatura à Agência Europeia do Medicamento, dá-se-lhe desde já a Agência Portuguesa do Medicamento, ou seja, o Infarmed. Quanto às centenas de funcionários que o Infarmed tem, eles que se preparem para se mudar de armas e bagagens para o Porto ou fazer diariamente 300 km para ir para o trabalho.

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Música recente (148)

por José António Abreu, em 21.11.17

The Horrors, álbum V.

A sonoridade punk ficou um bocadinho para trás, mas os benefícios superam os inconvenientes: V é excelente rock de garagem com matizes de psicadelismo e de shoegaze.  Provavelmente o melhor álbum dos The Horrors.

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Síntese de uma derrota anunciada

por Diogo Noivo, em 21.11.17

Sobre a candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento, Rui Moreira disse que o importante era “o Porto demonstrar que faz parte de um núcleo restrito de cidades capazes”. Vaidade, portanto.

O Governo, em vez de fazer o possível para garantir a vitória, cedeu ao umbiguismo de bairro. O percurso da coisa foi bem traçado pelo Pedro Correia através de títulos de notícias que, vistas como um todo, são uma espécie de anatomia de uma derrota auto-infligida.

O que era evidente para muitos foi sempre negado. Principalmente a partir do Porto. Na Invicta, Ricardo Valente, vereador no município, fez o papel de Muhammed Saeed al-Sahaf: “Porto tem melhores condições que a cidade de Lisboa”; o Porto tem “condições únicas”; “estamos muito bem posicionados”. Como escreveu o Luís Menezes Leitão, a Agência Europeia do Medicamento está numa capital europeia e o seu novo destino será também uma capital europeia. Vale o que vale, mas Lisboa era o destino preferido pelos funcionários desta agência.

Para que não se pense que isto são contas de política interna, de opositores do Governo, leia-se o artigo que o Politico dedica ao assunto.

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Frases de 2017 (47)

por Pedro Correia, em 21.11.17

 

«Independentemente do resultado, Portugal e o Porto ganharam com uma candidatura que prestigiou País. O Porto está claramente no conjunto das candidaturas mais fortes.»

 

Ministro da Saúde, aludindo à fracassada candidatura do Porto três dias antes de Amesterdão ter sido escolhida para nova sede da Agência Europeia do Medicamento

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O governo que temos.

por Luís Menezes Leitão, em 21.11.17

Uma boa demonstração de como funciona este governo é este processo da candidatura à Agência Europeia do Medicamento. Por pressão do autarca do Porto, retira-se a candidatura de Lisboa, que tinha todas as hipóteses de ganhar, para lançar a do Porto, e depois fica-se contente por este ter ficado em sétimo lugar. A Agência Europeia do Medicamento estava em Londres, a capital do Reino Unido, não estava em Manchester, nem em Southampton. Era evidente que, a ir para Portugal, só podia ir para a sua capital. Por isso mesmo acabou por ir para Amesterdão. É por isso que no governo alguém devia assumir responsabilidade pela condução deste processo, que prejudicou seriamente o país. Mas já se sabe que tal nunca acontecerá.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.11.17

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Manifesto Anti-Keynes, de Carlos Novais Gonçalves

Economia

(edição Chiado Editora, 2017)

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Canções do século XXI (235)

por Pedro Correia, em 21.11.17

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1234).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

Para além desse trabalho historiográfico, pioneiro, e de referência, Soares Martins foi um excelso diplomata, durante 19 anos adido cultural português em Maputo, com obra de monta. Para além das sábias articulações que induziu e reproduziu, em época de grandes cesuras entre ambas as sociedades, constituiu, em condições muito difíceis, políticas e económicas, os então ditos “serviços culturais da embaixada de Portugal”, funcionando desde 1983 e que vieram a dar origem ao centro cultural português, inaugurado em 1997 (e não em 1996, como incorrectamente anuncia a literatura oficial). Nessas décadas iniciais foi muito relevante a constituição da biblioteca desses “serviços culturais”, obra de Soares Martins. Num Maputo bem diferente do que é hoje, a ausência de material bibliográfico era enorme, e lendárias eram as filas na rua de jovens leitores aguardando a sua vez para estudarem. Em finais de 1990s pude constatar que havia mais de 1000 visitantes diários.  Antes, na Beira dos anos 1950 e 1960, Soares Martins, sobrinho do célebre bispo Sebastião Soares de Resende, tinha tido grande papel na dinamização de uma imprensa que, ainda que coarctada pela censura do Estado Novo e pela oposição da sociedade colonial, entreabria a denúncia das tétricas condições que esta reproduzia.  Claro que os seus contemporâneos na Beira e em Maputo muito mais poderão adiantar sobre essa personagem extraordinária que foi José Soares Martins. Como intelectual, como diplomata. Como democrata.

Em 1997 Jorge Sampaio visitou Moçambique. Soares Martins reformara-se no ano anterior, e regressara a Portugal. Mas ali se deslocou para essa ocasião. Foi condecorado, com a comenda do Infante D. Henrique. E Sampaio, conjuntamente com Joaquim Chissano, descerrou esta (aparentemente) modesta placa – em madeira, propositadamente, para evocar o tradicional trabalho artesão moçambicano; de autoria do célebre carpinteiro português Silva, para significar as possíveis simbioses – que serve para nomear, e de modo tão justificado, a sala de leitura do centro cultural português (o Camões) de Maputo. Sua, antes de todos os outros, obra.

Agora, após 3 anos de ausência do país, fui a Maputo. E fui ao centro, apenas para me curvar diante desta placa. É muito bonito que ela esteja ainda – sabemos da tradicional amnésia das instituições estatais, e da vertigem dos funcionários em remodelar e pensar que antes deles era o Caos, que “a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo” e que deles, só deles, brota o Verbo Iluminador. E é muito bonito constatar que há sítios, locais, e pessoas, que sabem que não é assim, e que os antepassados respeitáveis, e iluminadores, são homenageados, lembrados (e seguidos, nas diferenças de cada era) no quotidiano. Fico contente.

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... O que se passa naquele belíssimo monumento funerário à iniciativa portuguesa chamado Pavilhão de Portugal? Janta-se, dança-se, ou nem por isso? 

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Uma odisseia para lugar nenhum

por Pedro Correia, em 20.11.17

 

7 de Junho:

Agência do Medicamento: Governo defende candidatura de Lisboa. "É a cidade que oferece mais condições", garante Augusto Santos Silva.

 

8 de Junho:

Rui Moreira exige explicações do Governo sobre exclusão do Porto na candidatura a sede da Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Governo escolhe Lisboa para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

BE critica Governo por candidatar Lisboa para acolher Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Junho:

Petição pública sobre a Agência Europeia de Medicamentos: "Não ao Centralismo!"

 

15 de Junho:

Agência Europeia do Medicamento: Rui Moreira diz que nunca foi contactado.

 

15 de Junho:

"Fonte oficial" revela que Costa defendeu até ao limite candidatura do Porto à Agência Europeia do Medicamento.

 

16 de Junho:

Lisboa em 15.º lugar para acolher a Agência Europeia do Medicamento.

 

29 de Junho:

Governo aprova integração de representantes do Porto na comissão de candidatura para Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Governo escolhe Porto para candidatura a Agência Europeia do Medicamento.

 

13 de Julho:

Maioria dos quase 900 funcionários da Agência Europeia do Medicamento preferia Lisboa.

 

31 de Julho:

Agência do Medicamento: troca de Lisboa pelo Porto pode penalizar candidatura.

 

10 de Outubro:

Porto está nos cinco favoritos para acolher Agência Europeia do Medicamento, segundo estudo encomendado pela Associação Comercial do Porto.

 

17 de Novembro:

Porto em vantagem para acolher Agência Europeia do Medicamento, assegura ministro da Saúde.

 

20 de Novembro:

Porto não fica com a Agência Europeia do Medicamento.

 

20 de Novembro:

Agência Europeia do Medicamento fica em Amesterdão.

 

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Fumo nos olhos

por João André, em 20.11.17

Falar nos casos do cinema francês (ou mundial) onde as personagens surgem de cigarro na mão ou na boca duplicaria o número de palavras usadas historicamente neste blogue. Explicar que nalguns casos não faria sentido não mostrar o cigarro (como com biografias) seria extenuante. Apontar que em certas situações o cigarro faz parte da caracterização da personagem seria uma perda de tempo.

 

Note-se que não sou um fumador, nunca fui um fumador e nunca dei sequer uma passa que fosse em toda a minha vida. Obrigava os meus pais a abrir as janelas do carro ou da sala sempre que começavam a fumar, estivesse sol ou chuva, calor ou frio. Fui também um entusiástico apoiante das medidas que restringiam o uso do tabaco em espaços públicos. Sou da opinião que se o tabaco desaparecesse da face do planeta, só haveria benefícios e nenhum prejuízo (embora saiba que isso é impossível).

 

Banir o tabaco dos filmes no futuro faz pouco sentido. Limitar a exposição de filmes antigos que exibem tabaco é ridículo e colocar uma classificação etária superior num filme que mostre personagens a fumar é simplesmente idiótico. Alguns dos comentários  neste artigo do The Guardian explicam tudo, mas gosto particularmente da comparação com a violência. Se filmes com violência (mesmo que muito "leve") não levam com tais excomunhões, por que razão cair sobre o tabaco? Levar a campanhas para remoção do tabaco em filmes futuros onde tal não seja necessário (tratando-o como a nudez: se não oferece nada, não faz sentido) já faria algum sentido.

 

O fumo do tabaco é irritante e - para mim - detestável. Mas pertence à história da humanidade e é parte da cultura. Tentar bani-lo dos nossos filmes teria tanto sentido como lançar fumo para os olhos...

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Convidado: ANDRÉ ABRANTES AMARAL

por Pedro Correia, em 20.11.17

 

Das imagens que criei de certos escritores

 

 

“Gostava de livros mas não gostava de escritores

Rubem Fonseca, A Grande Arte

 

Foi em Junho no Chiado. Estava imensa gente em frente à Brasileira e eu tive de me pôr em bicos dos pés para ver Mário Soares, que nessa altura era Presidente da República e que estava no Chiado, em frente da Brasileira, no meio daquela gente imensa a inaugurar a estátua do Fernando Pessoa.

Eu olhava para a estátua do Fernando Pessoa sentado à mesa e de perna cruzada e achava que quem o tivesse visto ali verdadeiramente sentado a ler ou a escrever ou a beber café ou o que fosse, nem que fosse esperar, teria presenciado a história. Eu via uma estátua; alguém tinha visto a pessoa.

 

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Mais tarde, não muito mais tarde só que naquela altura pouco era muito tempo, estávamos na Place Saint-Michel e eu e os meus pais soubemos pela primeira página de um jornal pendurado num quiosque, já não me lembro muito bem mas penso que era o Libération, que Georges Simenon tinha morrido.

A fotografia a preto e branco dum homem com um cachimbo, na primeira página dum jornal naquela praça perto do Quai des Orfèvres, é a que me vem à memória quando pego num Maigret. Pessoa foi uma estátua numa esplanada, Simenon uma foto num jornal preso num grampo dum quiosque.

 

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Anos antes, em frente à Barata havia uma banca de jornais, daquelas que eram caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios onde estavam os jornais e as revistas para serem vendidos, e foi pelas primeiras páginas desses jornais pousados em cima dum desses caixotes de madeira encostados às paredes dos prédios, naquela altura como era de tarde os vespertinos desse dia, que soube da existência do José Gomes Ferreira. Soube da existência do José Gomes Ferreira quando ele tinha deixado de existir. Não tinha idade para mais e o homem tinha morrido naquele dia. Ainda nessa tarde cheguei a casa da minha avó que comentou com os meus pais então souberam do José Gomes Ferreira? Vivia perto de vocês. Ao que parece vivia perto de nós e eu não sabia. Ainda hoje lá está a placa. José Gomes Ferreira, além dos livros, mas todos os escritores são alguma coisa além dos livros, tornou-se na placa presa na parede do prédio dizendo a quem passa e não olha para ela que ele viveu ali até àquele dia em que eu soube da sua existência pelas capas dos vespertinos que eram vendidos em cima de caixotes de madeira, frente à Barata.

 

Vamos agora avançar um pouco mais no tempo até uma noite em que eu subia a Avenida da Igreja e me cruzei com José Cardoso Pires. Reconheci-o e, apesar de ter disfarçado, ele deve ter reparado porque quando me viu afastou logo o olhar. Continuei a subir e ele a descer até que ganhei coragem e olhei para trás e vi-o: um vulto que desaparecia na noite enquanto descia a avenida que eu subia. Quando mais tarde li O Delfim ou a Balada da Praia dos Cães, um vulto na noite a descer a avenida era a imagem que me vinha à mente.

 

Deparei-me com outros escritores, alguns nas apresentações dos seus livros outros que vou conhecendo, mas esses perdem o fascínio criado pelas palavras que escreveram. E não é só isso. A magia tem também que ver com a idade. A idade que temos e a idade que eles têm. Ou tiveram. A diferente geração a que nós e eles pertencemos. José Gomes Ferreira, nascido em 1900, ou Cardoso Pires em 25, não têm nada a ver com António Lobo Antunes, nascido em 42. Este estava na feira do livro numa tarde de chuva a conversar com Lídia Jorge, e está bem, era ele e era ela e estavam lá. Pelo menos para mim é assim que para quem tenha agora 10, ou 20 anos, talvez possa ser diferente. Mas quem tem hoje 10 ou 20 anos também não ficou a saber quem era José Gomes Ferreira quando estava em frente da Barata a ver as primeiras páginas dos vespertinos deixados em cima de caixotes de madeira à espera que lhes pegassem.

 

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E depois houve Agostinho da Silva. A minha mãe dava consultas ali muito perto do Príncipe Real e via-o quase todos os dias a tomar café, pois tomavam café no mesmo café no Príncipe Real. Ela via-o quase todos os dias e um dia disse-me que se eu quisesse ela um dia falava com ele e dizia-lhe que eu gostaria de conversar com ele um dia. Eu disse que sim, ela falou-lhe e ele disse que sim também. E encontrámo-nos. Foi numa manhã de Abril na Travessa do Abarracamento de Peniche que eu bati à porta e falámos. Uma manhã inteira nisso, numa conversa sobre Deus, sobre Portugal, sobre os Portugueses, sobre a liberdade, sobre como um político deveria ter a humildade por implorar para não ser candidato, sobre o coitado do Belmiro que só tinha responsabilidades e não era livre, sobre o número de contribuinte que ele recusava ter, sobre aquela frase do homem não ter nascido para trabalhar mas para criar que é uma frase mas também uma forma de estar na vida. Tudo aquilo que Agostinho da Silva dizia nessa altura ele conversou comigo nessa manhã.

Agostinho da Silva não era propriamente um escritor como os de cima, mas um filósofo, um filósofo que se calhar está para Portugal como Paul Ricoeur deve estar para a França. Foi alguém que conheci, a quem apertei a mão, com quem falei e que soube quem eu era. E se outros viram Pessoa sentado no Chiado, eu estive com um dos que melhor o estudaram entrando dessa forma nesta pequena história que escrevi sobre como, se estivermos atentos, acabamos por viver a história.

 

 

André Abrantes Amaral

(blogue O INSURGENTE)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.11.17

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Barbearia Tiqqun, de Rui Baião

Poesia

(edição Frenesi, 2017)

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House of cards.

por Luís Menezes Leitão, em 20.11.17

Depois de a Netflix ter aderido à turba contra Kevin Spacey e acabado liminarmente com a série House of Cards, a única coisa que resta aos apreciadores do género é acompanhar a situação no Zimbabwe. Devo dizer que não estou a achar o enredo muito diferente.

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Depois de arrumada a cozinha do Panteão

por Inês Pedrosa, em 20.11.17

Não alinho em morais públicas que não sirvam toda a gente de igual forma; acresce que, certamente para minorar outros défices, tenho uma memória maior do que a de uma dúzia de robots Sofia, até porque pude desenvolvê-la, já que, por sorte, não nasci na Arábia Saudita. Assim, estranhei os brados e a indignação geral (a que prestamente se juntou o senhor primeiro-Ministro) quanto ao fruste jantar no Panteão Nacional, porque ainda me recordava bem de ter visto em vários canais televisivos hordas de crianças aos pulos, à meia-noite, no referido Panteão, então transformado em laboratório de feitiçarias, por mor do lançamento de um qualquer volume da saga Harry Potter, nos idos de 2002. Soube, depois, que naquele sítio se realizaram entretanto diversos repastos, um dos quais com o patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa e da EGEAC, empresa municipal de cultura, num período em que o agora indignado primeiro-Ministro presidia aos destinos municipais e em que a EGEAC era presidida pelo actual secretário de Estado da Cultura. 

Em muitos países europeus (não sei mesmo se em todos), o aluguer de monumentos para banquetes, festas de empresas, filmagens, casamentos ou baptizados, é prática comum e devidamente regulamentada. Evidentemente que as regulamentações deixam sempre espaço à interpretação individual e à decisão dos responsáveis pelos edifícios patrimoniais. Por exemplo: o convento de Cristo, em Tomar, tem uma tabela de preços para filmagens (e a fita mediática que se fez, há meses, por causa dos danos, afinal inexistentes, que ali teria causado um filme de Terry Gilliam, foi também épica). Mas parece-me óbvio que a proposta de realização de um filme pornográfico naquele cenário seja rejeitada. Ou de um manifesto partidário. No Panteão, o problema prender-se-ia, segundo os indignados, com o facto de se tratar de um monumento funerário: jantar junto dos Grandes Mortos, ao que parece, é ofendê-los. Sucede que nos Jerónimos também estão sepultadas Grandes Figuras. E, a bem dizer, em toda a cidade, por toda a parte, caminhamos sobre túmulos - de mortos tão antigos e anónimos que, felizmente, já não contam para a Honra Nacional, senão morríamos todos à fome. 

Há quem condene, pura e simplesmente, toda e qualquer rentabilização do património. Pergunto: então, como fazemos? Aumentamos os impostos? Onde é que se vai buscar o dinheiro? A cultura portuguesa é muito resistente ao mecenato - precisamente porque temos uma cultura empresarial muito pouco culta, o que aliás se reflecte desde logo na baixa produtividade do país. Deveria, em meu entender, criar-se um sistema de apoio ao mecenato cultural que realmente funcionasse, isto é, que incentivasse as empresas a investir no apoio às artes e na preservação do património de uma forma eficaz e, sobretudo, desburocratizada. Porém, para animar os responsáveis de museus e monumentos a procurar mecenas, seria necessário que os patrocínios granjeados fossem aplicados no equipamento cultural que trabalhou para os alcançar. Não é isso o que acontece: os apoios são canalizados para a Direcção Geral do Património Cultural, que depois os reparte, segundo os seus critérios. Enquanto não houver reconhecimento pelo trabalho e pelo mérito individuais não haverá estímulo nem responsabilização dos dirigentes. Temos uma Função Pública recheada de chefes que não mandam nada - e, se forem espertos, procurarão mesmo nunca decidir coisíssima nenhuma, porque quem nada faz nunca tem problemas e, de diuturnidade em diuturnidade, chega à reforma remediada e tranquilamente. É nisto que ainda estamos.

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Canções do século XXI (234)

por Pedro Correia, em 20.11.17

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Fotografias tiradas por aí (385)

por José António Abreu, em 19.11.17

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Vila Nova de Gaia, 2005.

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O mundo está perigoso

por Rui Rocha, em 19.11.17

Um dos riscos de situações como a que está a acontecer em Angola é provocar fenómenos de imitação. A certa altura, Vieira da Silva pode cair na tentação de tentar substituir todos os parentes de Carlos César que trabalham na Administração Pública por familiares seus.

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Blogue da Semana

por Rui Rocha, em 19.11.17

Tenho ideia que este que vou indicar já foi blogue da semana aqui no DO alguma vez. Mas se foi (não fui confirmar), presumo que tenha sido pelas razões erradas. Pela política, pela religião, pela literatura, pela educação, enfim, coisas que não são propriamente entusiasmantes. O que distingue verdadeiramente o Destreza das Dúvidas é o conhecimento de roupa interior feminina e é por isso que devem ir lá ver. Para além disso, concedo, alguma daquela malta parece ter lido uma coisa ou outra do Kahneman, o que também lhes fica bem.

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As nossas irmãs árvores

por Pedro Correia, em 19.11.17

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Converso com um amigo sobre as vantagens de viver no campo, em comparação com o frenético quotidiano citadino. Há uma enorme árvore bem perto de nós. Pergunto-lhe: “Sabes que árvore é esta?”

Não faz a menor ideia. É um choupo negro, alto e esguio, de folha em forma do símbolo de espadas nas cartas de jogar – uma das espécies vegetais mais frequentes em Lisboa por se adaptar muito bem à atmosfera poluída

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Este episódio banal confirma-me a profunda iliteracia da esmagadora maioria dos habitantes das cidades em relação ao nosso vasto património botânico. A recente tragédia dos incêndios pareceu ter feito de cada compatriota um inesperado especialista em espécies vegetais – ao ponto de todos terem passado a emitir sentenças categóricas sobre o que deve ou não ser plantado nas quintas e aldeias do interior do País. Invocavam a necessidade imperiosa de acolhermos mais “espécies autóctones” e rejeitarmos “espécies invasoras”, sem fazerem a menor ideia do que significa uma coisa e outra.

Essa pretensa sabedoria teve um brevíssimo prazo de validade, próprio dos actuais surtos de indignação nas redes sociais. A verdade é que poucos conhecem as árvores, muito poucos as respeitam e quase todos são incapazes de nomeá-las.

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Tive a sorte de os meus pais me haverem ensinado desde menino a conhecer o mundo vegetal e a tratar as árvores pelos nomes próprios. Aprendi muito cedo que algumas estão mesmo associadas a características de certas regiões. Na região de onde sou originário, a Cova da Beira, a  cerejeira é uma árvore icónica e muito admirada tanto na magnífica fase da floração como na incomparável explosão dos frutos, que conferem tonalidades muito próprias aos extensos pomares das encostas serranas.

Outra árvore a que prestamos tributo por ser uma histórica aliada no combate à fome e pela sua relevância presente no tecido económico da região é o castanheiro, que aliás se destaca no brasão da Câmara Municipal do Fundão, com as castanhas a figurarem como pepitas de ouro.

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Estas e outras árvores acompanharam o meu percurso biográfico.

Os pinhais do Alto Minho e da Fonte da Telha, os coqueiros e tamarindeiros na casa de Timor. Os gondoeiros da praça Engenheiro Canto Resende, no Bairro do Farol. As Madres del Cacau na Ermera. As casuarinas na praia de Hac-Sá, na ilha de Coloane. A grevílea robusta da vivenda da Charneca. Encontrei uma há dias, no jardim do Campo Grande, e saudei-a como se revisse uma velha amiga.

Falta-nos este espírito de confraternização com as nossas irmãs árvores, como diria São Francisco de Assis. Nas reuniões de condóminos urbanos um dos temas recorrentes é o do abate de árvores – porque sujam, porque roubam a luz do sol, porque atraem pássaros e insectos, porque “desfiguram a paisagem”, porque sim. E as próprias autoridades municipais se apressam tantas vezes a retirá-las do espaço público. Ainda hoje não perdoo ao vereador Sá Fernandes ter ordenado a remoção das laranjeiras que ornavam a Praça de Alvalade, substituindo-as por placas de cimento.

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Há dias pus-me a pensar nas árvores que sou capaz de identificar – tanto árvores de floresta, de cultivo ou espontâneas, como de jardim. A lista foi-se tornando cada vez mais extensa. Da figueira ao pinheiro bravo, da tília ao carvalho, do eucalipto ao freixo, do lódão à olaia, do marmeleiro à oliveira, da acácia ao salgueiro, do choupo branco à macieira, do pessegueiro à romanzeira, da pereira ao cipreste, da palmeira-de-leque à alfarrobeira, do sobreiro ao jacarandá, da ginkgo à araucária, do zambujeiro à tipuana, do plátano ao limoeiro, da bananeira à nespereira, da laranjeira à magnólia, do pinheiro manso à palmeira das Canárias. Sem esquecer árvores-arbustos, como os dragoeiros ou os medronheiros.

Várias delas, felizmente, integram já a lista oficial do nosso património. Incluindo o inigualável cedro do Buçaco no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, ou a deslumbrante figueira da Austrália em destaque no Parque Marechal Carmona, em Cascais.

Sempre que posso, fotografo-as: são minhas todas as fotos que ilustram este texto, captadas ao longo deste terrível ano que parece de perpétua Primavera, em que as folhas caducas permanecem verdes e muitas espécies estão a florescer em Novembro como se fosse Abril ou Maio enquanto pelo menos 5% da superfície do País ficou reduzida a cinzas. Muitos dos nossos velhos não voltarão a ver paisagem verde em seu redor.

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Há três meses, a jornalista Maria Henrique Espada, editora da revista Sábado, reuniu António Bagão Félix e José Sá Fernandes numa interesssantíssima conversa sobre árvores em que os dois interlocutores exibiam extensos conhecimentos na matéria.

Gostei muito de ler o que diziam. Só lamento que Sá Fernandes, enquanto vereador responsável pelos espaços verdes da capital, teime em não partilhar essa sabedoria com os habitantes de Lisboa.

Bastaria colocar tabuletas nos jardins a indicar os nomes das espécies vegetais, como fazem várias câmaras por esse País fora, claramente amigas do ambiente.

Isso contribuiria para aproximar das árvores os lisboetas que hoje julgam que elas só servem para receber urina de cães e dar sombra aos carros nos meses de Verão.

 

 

Legendas (de cima para baixo):

1. Romanzeiras

2. Palmeira-de-leque

3. Folhas de olaia

4. Medronheiros

5. Choupos brancos

6. Limoeiros

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.11.17

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 Dano e Virtude, de Ivone Mendes da Silva

Diário

(edição Língua Morta, 2017)

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Canções do século XXI (233)

por Pedro Correia, em 19.11.17

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 18.11.17

«Aqui há ainda não muitos anos, os afectos ao PC faziam questão de repetidamente anunciar a soma global dos anos que os seus passaram nas prisões do anterior regime. O número, claro, impressionava e era imbatível como registo sacrificial.
Aqui há não muitos anos e, decerto, sempre que o vejam como apropriado.
Os mortos de uns valem mais do que os dos outros. Para alguns, talvez. Mas nada disso apaga o pacto celebrado com o Reich e o mais que por aqui já se denunciou. Nem menoriza os mortos dos outros e o esforço e dores dos outros. A simples lei dos números deve ser interpretada sempre com respeito e sem menosprezo pelos mais pequenos. Ou devia ser assim.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu texto.

 

 ................................................................................

 

«O camarada Estaline apenas se manteve em combate graças aos vastos fornecimentos de material de guerra americano que, ainda antes da entrada dos EUA na guerra, lhe foi fornecido: 14 mil aviões, 12 mil tanques, 44 mil jipes, 375 mil camiões, pólvora, explosivos, aço, rolamentos, botas, cobertores, petróleo, tudo a chegar, em contínuo, das fábricas "capitalistas". A vitória na frente Leste seria inconcebível sem o bombardeamento aliado da Europa ocupada, da França à Roménia, que degradou a capacidade industrial e de produção petrolífera dos nazis. E sem a segunda frente, aberta em Itália (sem sucesso) e na Normandia pelos aliados ocidentais, os milhões de mortos soviéticos não teriam valido qualquer vitória.

Quem esteve aliado a Hitler, entre Agosto de 1939 e a data em que este decidiu acabar com a aliança, foi Estaline, e com ele, as quintas colunas comunistas, que, obedecendo às ordens do Comintern, na França ou na Polónia, desertaram e sabotaram os seus próprios exércitos, e, nos EUA, militaram activamente contra a entrada do país na guerra. No Centenário da Gloriosa Revolução de Outubro (que, sintomaticamente, foi em Novembro), o que alimenta os comunistas é o mesmo de sempre: a mentira.»

 

Do nosso leitor JPT. A propósito deste meu texto.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.11.17

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Não se Pode Morar nos Olhos de um Gato, de Ana Margarida de Carvalho

Romance

(reedição Teorema, 2.ª ed, 2017)

"A autora escreve de acordo com a antiga ortografia"

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Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 18.11.17

A felicidade é frequentemente presunçosa. Presume demasiadas vezes que o bem que tem é uma questão de mérito, desvalorizando os factores aleatórios que o favoreceram. Ao mesmo tempo julga negativamente a infelicidade dos outros, procurando associá-la a questões de competência.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Canções do século XXI (232)

por Pedro Correia, em 18.11.17

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De blogue em blogue

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

A TVI votou nele como blogue do ano. É a Bumba na Fofinha, escrita e produzida por Mariana Cabral.

 

Há resistentes na blogosfera. Um deles é o Pedro Rolo Duarte: esta semana cumpriu-se uma década do blogue que tem o seu nome. Muitos parabéns.

 

Carmo e a Trindade também resiste. Há onze anos.

 

Chic' Ana, o blogue com mais comentários do universo Sapo, entrou de licença sabática. Ou licença materna, melhor dizendo. É um excelente motivo para justificar esta pausa.

 

Já vem tarde o agradecimento à Cristina Nobre Soares. Mas mais vale tarde que nunca. Estas palavras que ela nos dedicou no blogue A Equipa, do Sapo, tocaram-nos fundo.

 

A blogosfera ficou mais pobre e mais triste com o fim do Tempo Contado. Saborosos pedaços de literatura em forma de blogue, assinados por J. Rentes de Carvalho.

 

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Convidada: RAQUEL SANTOS SILVA

por Pedro Correia, em 17.11.17

 

Breakfast at Tiffany's Revisited

 

Na cena de abertura do filme Breakfast at Tiffany's, Holly Golightly observa apaixonadamente o interior da sua loja favorita, a tranquilidade e o esplendor do ambiente da joalharia, enquanto saboreia um croissant e um café como pequeno-almoço, como é seu ritual todas as manhãs.

 

 

notícia avançada há dias sobre a abertura de um café na Tiffany's & Co., tornando finalmente possível o sonho de muitos fãs de tomar o pequeno-almoço na joalharia, fez-me revisitar esta semana esta pequena mas intensa história que Truman Capote criou e Blake Edwards adaptou ao cinema.

O charme da Tiffany's acompanha toda a construção da personagem de Holly Golightly. Nada de mal pode acontecer na Tiffany's, um lugar onde os diamantes brilham, as pessoas são simpáticas e felizes e onde todos os sonhos se podem concretizar. Mesmo que Holly, no livro de Capote, seja radicalmente diferente da sua criação hollywoodesca com o charme e a simplicidade de Audrey Hepburn. Mesmo que, no livro, seja uma verdadeira Boneca de Luxo, com uma máscara ainda mais credível de deslumbre e sedução.

 

 

Há qualquer coisa em Holly que nos faz adorar a sua beleza, a sua ingenuidade, e ao mesmo tempo odiar a sua aparente altivez e poder sobre os homens. Quando a conhecemos melhor e nos apercebemos de que não passa de uma mulher insegura, só, à procura do seu lugar no mundo, sentimos que nos identificamos um pouco mais com esta sua fragilidade muito humana e deixamo-nos facilmente apaixonar por ela. Uma personagem anónima, sem passado e sem futuro, à espera de ser salva - tal como o gato alaranjado que acolhe em casa, sem um nome para o identificar para além da sua condição no mundo, como "gato".

Tanto Capote como Edwards nos deixam na dúvida sobre a verdadeira identidade desta mulher misteriosa com quem o narrador Paul (que ela chama de Fred por se assemelhar ao seu irmão), visivelmente homossexual no livro, se cruza, e por quem este se apaixona no filme - entre tantos homens ricos e poderosos, é um escritor pobretanas, tão humano quanto Holly, que ternamente se propõe a conhecê-la melhor e a retirar-lhe a máscara. Será Holly uma prostituta, uma socialite nova-iorquina, um membro da Máfia ou apenas uma rapariga em busca da sua identidade? Todas as hipóteses são válidas, e é nessa ambiguidade que reside a genialidade de Capote.

Se o livro nos deixa com este friozinho na barriga pela sensação estranha que Holly traz consigo só por passar em breves 100 páginas na nossa vida literária, mas de forma tão intensa... o filme deslumbra-nos de uma forma totalmente diferente, com um final romântico e arrebatador que cai tão bem na atmosfera psicologicamente densa da vida de Holly.

É sempre bom revisitar uma história que nos diz muito e que se mantém tão actual, nos anos 40 do livro, nos anos 60 do filme e nos dias de hoje. Uma sociedade que nos torna cada vez mais impessoais, desligados, anónimos no meio de tantos outros, e sobretudo perdidos num mundo em que nos identificamos cada vez mais com os gatos: independentes, falsamente altivos e cada vez mais inseguros na nossa fragilidade. Mas a Tiffany's agora tem um café onde todos podemos conhecer a sensação de Holly Golightlu ao entrar naquele espaço e comer o seu croissant com cafés matinais. E o mundo parece um bocadinho mais bonito só por causa disso. Na Tiffany's nada de mal nos pode acontecer e todos os sonhos do mundo se podem concretizar.

 

 

 

 

Raquel Santos Silva

(blogue LEITURAS MARGINAIS)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.11.17

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Quando Éramos Órfãos, de Kashuo Ishiguro

Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Romance

(reedição Gradiva, 2.ª ed, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 17.11.17

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Camila Vallejo

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