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Depois da remodelação

por Pedro Correia, em 22.10.17

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O que ficou este ministro ainda a fazer no Governo?

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A intervenção na Catalunha.

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.17

Há dias numa reunião internacional em que participei, o delegado de Espanha, por acaso catalão, comunicou a sua apreensão sobre o que poderia resultar do agravar do conflito na Catalunha, uma vez que não há qualquer diálogo entre as partes e a escalada do conflito parece cada vez maior. O delegado checo perguntou candidadamente porque é que Espanha não deixava pura e simplesmente a Catalunha sair. E disse: "Nós deixámos sair a Eslováquia e agora damo-nos muito melhor com ela do que quando fazíamos parte do mesmo país".

 

Em Espanha, porém, os divórcios não são de veludo, são à força bruta. É assim que Rajoy agora diz que vai aplicar o artigo 155 da Constituição que diz apenas isto: "1. Si una Comunidad Autónoma no cumpliere las obligaciones que la Constitución u otras leyes le impongan, o actuare de forma que atente gravemente al interés general de España, el Gobierno, previo requerimiento al Presidente de la Comunidad Autónoma y, en el caso de no ser atendido, con la aprobación por mayoría absoluta del Senado, podrá adoptar las medidas necesarias para obligar a aquélla al cumplimiento forzoso de dichas obligaciones o para la protección del mencionado interés general. 2. Para la ejecución de las medidas previstas en el apartado anterior, el Gobierno podrá dar instrucciones a todas las autoridades de las Comunidades Autónomas". Este artigo é de uma vaguidade impressionante, mas duvido muito que o mesmo permita destituir o governo da Comunidade Autónoma, limitar os poderes do seu parlamento, intervir na televisão catalã, e prometer eleições apenas para daqui a seis meses, que aliás nem sequer são marcadas.

 

Tem havido muito gente a defender que a actuação do governo de Madrid é apenas a defesa do Estado de Direito Democrático. Pois isto parece-me a velha proposta daquela que queria suspender a democracia por seis meses para ela então retornar florescente. Que não haja ilusões: com um parlamento sem poderes, um governo destituído, e sem liberdade de imprensa, de democracia não se pode seguramente falar.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.10.17

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A Morte da Avó, de Roby Amorim

Prefácio de António Lobo Antunes

Narrativa romanceada

(edição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico"

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Blogue da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 22.10.17

Há bastante tempo que costumo seguir um blogue, cujo autor não apenas faz correctas análise políticas, como também possui um impressionante acervo de documentação que muitas vezes publica em apoio dessas análises. É assim que frequentemente um artigo de jornal recente aparece contraposto com notícias de há vários anos, que nos fazem compreender como poucas coisas têm mudado no nosso país. Em virtude desse verdadeiro serviço público, escolho o Porta da Loja como blogue da semana.

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Canções do século XXI (205)

por Pedro Correia, em 22.10.17

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Leituras

por Pedro Correia, em 21.10.17

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«Quem suporta as mentiras de um homem é tão mau quanto ele. É tão mentiroso como o próprio.»

John Fante1933 Foi um Mau Ano, p. 61

Ed. Alfaguara, Lisboa, 2017. Tradução de José Remelhe

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Setembro de 2017: os meus votos

por Pedro Correia, em 21.10.17

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Figura nacional do mês

Um dos cantores mais populares do chamado "país profundo", que também se assume como autor das canções que interpreta, viu-se em xeque quando a 13 de Setembro se soube que era de alvo de queixas judiciais por plágio de diversos temas estrangeiros, nomeadamente em língua francesa e língua espanhola. Tony Carreira, que enfrenta já uma acusação formal do Ministério Público, admite ter "errado", embora se diga vítima de uma vingança.

 

 

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Figura internacional do mês

Angela Merkel conduziu a sua União Democrata Cristã ao quarto triunfo eleitoral consecutivo a nível nacional, vencendo as legislativas de 23 de Setembro, com 33%. Embora esta tenha sido a percentagem mais baixa da CDU desde 1949, o Partido Social Democrata - principal rival da CDU - ficou bastante atrás, com apenas 20,5%. A maior progressão coube à Alternativa para a Alemanha, da direita nacionalista, em terceiro nas urnas, com 12,6%. A chanceler alemã, em funções desde 2005, prepara-se para formar nova coligação, desta vez com liberais e verdes.

 

 

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Facto nacional do mês

A 15 de Setembro, a agência de notação de risco de crédito Standard & Poor's elevou a classificação da dívida pública portuguesa de especulativa para investimento, retirando Portugal de qualquer referência associada a "lixo" financeiro. Boa notícia para o País, que estava desde Janeiro de 2012 sob avaliação negativa desta influente agência internacional. E também para o Governo, a duas semanas das autárquicas, já com as caravanas eleitorais embaladas na campanha.

 

 

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Facto internacional do mês

Catalunha viveu um mês de enorme turbulência, num processo destinado a culminar a 1 de Outubro num referendo convocado pelo Governo de Barcelona para validar a independência do território - desígnio conjunto da direita nacionalista e da extrema-esquerda anticapitalista. A "lei da desconexão", aprovada após dois dias de efervescente sessão parlamentar na madrugada de 8 de Setembro na capital catalã, é contestada pelas forças políticas constitucionalistas (PP, PSOE e Cidadãos) e não tardou a ser travada pelo Tribunal Constitucional.

 

 

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Frase nacional do mês 

«No limite, pode não ter havido furto nenhum [em Tancos]. Porquê? Como não temos prova visual, como não temos prova testemunhal, como não temos confissão, por absurdo, podemos admitir que o material já não existisse.» A declaração, sem dúvida bizarra, não partiu de nenhum comediante. Foi proferida pelo ministro da Defesa Nacional, em entrevista difundida a 10 de Setembro pelo Diário de Notícias e pela TSF. Deixando o País ainda mais perplexo do que já estava. E outro mês chegou ao fim sem se saber nada sobre Tancos.

  

 

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Frase internacional do mês 

«A igreja não é uma alfândega. Não podemos ser cristãos sempre prontos a levantar o estandarte da proibição. A Igreja não é nossa, é de Deus e nela todos cabem.» Palavras do Papa Francisco, proferidas a 9 de Setembro, na homilia da missa campal que celebrou em Medellín - momento culminante da visita do líder da Igreja Católica à Colômbia. A chuva, copiosa, não afugentou os fiéis: Francisco contou com um milhão de pessoas em seu redor.

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Frases de 2017 (45)

por Pedro Correia, em 21.10.17

 

«Temos um país devastado. O Estado falhou e temos um Governo fragilizado. Só aceitaria este cargo estando motivado. Por isso claro que estou motivado.»

 

Pedro Siza Vieira, novo ministro Adjunto, em declarações ao jornal digital Eco

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.10.17

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Os Nove Magníficos, de Helena Sacadura Cabral

Biografias

(reedição Clube do Autor, 2017)

"Por vontade expressa da autora, a presente edição não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Pensamento da Semana

por Isabel Mouzinho, em 21.10.17

Há os que "subscrevem por baixo", os que "encaram de frente" e os que gostam de ler "Elsa"de Queiroz. Há as facas de "dois legumes" e os bodes "respiratórios". Há estas e muitas outras enormidades de uma lista interminável, que vamos ouvindo e lendo todos os dias. 

A língua portuguesa, nem sempre muito bem tratada num país que se envergonha de si e tende a valorizar o que vem de fora - línguas incluídas -, assumiu contornos de total despropósito com a chegada do "Novo Acordo Ortográfico", que veio permitir que hoje valha quase tudo. Como se a correcção linguística não fosse muito relevante. Na verdade, estas ou quaisquer outras incorrecções já não espantam ninguém. Pior: vão-se transformando em "normalidade", perante a indiferença generalizada dos que consideram que dizer "assim" ou "assado" não tem a menor importância, esquecendo, ou ignorando, que o domínio da língua e o uso que se faz dela também diz muito da cultura de um povo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Ler

por Pedro Correia, em 21.10.17

O que fazer quando tudo arde? Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

Sobre mim, a propósito de outros. Do Henrique Pereira dos Santos, no Corta-Fitas.

Quem foi, quem foi... De Ricardo Campelo de Magalhães, n' O Insurgente.

Temos noção de que vai voltar a acontecer. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

Incompetência política e incompetência técnica. De José Guinote, no Vias de Facto.

Magistratura presidencial. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

A ministra que saiu depois das primeiras chuvas. De J. Manuel Cordeiro, no Aventar.

O governo inútil. Do Alexandre Borges, no 31 da Armada.

Uma questão de prioridades. De Graça Canto Moniz, n' O Insurgente.

Incêndios: Espanha nas ruas, Portugal no sofá. Do Robinson Keane, no Não é Que Não Houvesse...

À sua procura. De Carla Romualdo, no Aventar.

Sodona Madonna. Do João Lisboa, no Provas de Contacto.

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Canções do século XXI (204)

por Pedro Correia, em 21.10.17

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Manchetes de antologia (1)

por Pedro Correia, em 20.10.17

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Salvo melhor opinião, a manchete de hoje do Correio dos Açores, que aqui reproduzo com a devida vénia, desrespeita alguns princípios básicos da técnica jornalística:

1. Evitar sobrecarregar um título com dados estatísticos;

2. O mais importante deve ser mencionado logo de início, não no fim;

3. Inútil usar 12 palavras quando bastariam cinco: "Perde testículo em Ponta Delgada".

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Música recente (140)

por José António Abreu, em 20.10.17

St. Vincent, álbum Masseduction

A sonoridade de Anne Erin Clark vem-se normalizando. Neste álbum, produzido por Jack Antonoff (colaborador de Lorde e Tayler Swift), estará até demasiado parecida com inúmeros trabalhos lançados nos últimos tempos. Felizmente, o álbum possui outros trunfos, à cabeça dos quais se encontra uma dissecação irónica mas feroz das pressões geradas pela fama (Oh, what a bore to be so adored, canta-se no tema Masseduction), pelo dinheiro e pelo desejo de eterna juventude.

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"Están pasando más cosas increíbles de las que un cerebro normal puede procesar. Lo asombroso del procés no es que los ricos hayan organizado tomas de palacios para ampliar salones solo por sentirse bolcheviques durante un mes -octubre, naturalmente- sino la inmensa cantidad de gente que cree que no tendrá factura cruzar el río subida al escorpión. (...)

Nadie ha definido mejor el papel que la burguesía catalana se ha reservado en el procés: darse un capricho. Para poco menos que hacer caer el capitalismo. Una caída que, si alguna vez se llegase a producir, pagarían los mismos que llevan pagando las fiestas toda la vida, como se ha comprobado recientemente en España. Porque solo hay una cosa clara. Cuando esto termine -sea con victoria o derrota, signifique eso ya lo que quiera que signifique-, y lleguen las consecuencias del destrozo, unos se quedarán pagando la factura y otros se irán corriendo a refugiarse en su desconsideración y su fortuna."

 

Manuel Jabois, "Regálate un capricho", El País (20.10.2017)

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Convidado: MANUEL S. FONSECA

por Pedro Correia, em 20.10.17

 

O chumbo e o livro

 

A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.

 

E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.

 

Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos melhor do que eu que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?

 

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O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, página a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.

 

Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.

 

 

Manuel S. Fonseca

(blogue ESCREVER É TRISTE)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.10.17

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Os Cavalos de Abdera, de Leopoldo Lugones

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Contos

(edição Sistema Solar, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 20.10.17

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Rosalia Salas

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Canções do século XXI (203)

por Pedro Correia, em 20.10.17

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 19.10.17

«Ninguém pode assistir sem dor e sem revolta ao colapso do sistema nacional de protecção civil. Quando as pessoas desamparadas, um pouco por todo o Norte e Centro do País, tentavam apagar as chamas com baldes e enxadas e acabavam a chorar os seus mortos, não se pode dizer-lhes que sejam resilientes. Nem falar em férias sacrificadas. Nem voltar a remeter para relatórios. Não se pode. O Estado falhou e o Governo não foi capaz de perceber a dimensão da tragédia.»

Helena Roseta, no Público

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Só por isto?

por Helena Sacadura Cabral, em 19.10.17

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O país anda tão triste, que já nem reage às noticias que vem recebendo. Agora foi o armamento roubado de Tancos que apareceu, vejam lá, ali ao lado, ao que julgo na Chamusca, todo bem embaladinho. Todo, todo não, porque parece que ainda faltavam umas "balitas", daquelas que nas Glock parece que matam bastante rápido.
Enfim, como não sou especialista e tudo isto tem avariado  o meu coração, entre incêndios, Catalunha e armamento, até corro o risco de trocar o nome das regiões e o dos responsáveis. Se assim for, desculpem, porque é do stress em que tenho vivido desde sábado.
O que não consigo é deixar de perguntar a mim própria - já que os "outros" não me respondem - como é que tudo isto aconteceu. Lembram-se que o ministro da pasta, há uns dias, até admitia que não tivesse havido roubo? 
Não tivesse havido roubo? Mas se o governante se atreveu a dizer isto, teve uma enorme premonição. É que o material estava tão pertinho de Tancos e tão bem acondicionado, que é bem capaz de Azeredo Lopes ter razão. Aquilo não foi roubado, foi apenas deslocado  E é por isso, por ter sido apenas deslocado, por esse pequeno movimento aleatório, que estão a pedir a cabeça do ministro? Francamente, com exigências destas daqui a pouco ninguém quer ser ministro!

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Cinco perguntas

por Teresa Ribeiro, em 19.10.17

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Sei, à força de assistir a tantas entrevistas e debates pós-incêndios, em linhas gerais, quais são as medidas estruturais que os especialistas da área florestal aconselham. Se eu sei, quem ao longo das últimas décadas ocupou os cargos que têm sob a sua alçada as florestas, por força há-de saber, e com detalhe, tudo o que é preciso para avançar com reformas.

Por isso o ponto não é "o que se deve fazer", mas por que nunca ninguém fez? Nem governos PS, nem governos PSD. No vício de tratar da coisa pública sempre sob a lógica partidária, já houve quem fizesse as contas aos anos que cada um destes partidos foi poder, para diluir culpas ao locatário com menos tempo de permanência, no caso o PSD. 

Sobre a indignação da ex-ministra da Agricultura e Ordenamento, também conhecida como "ministra do eucalipto", também se fez fogo cruzado, pois as pessoas que vêem os incêndios pela televisão têm facilidade em relativizar tudo e enviesar a óptica para o lado que lhes convém. Pessoalmente confesso que incomoda-me ver quem não tem nada para contar sobre o que fez pelo país em matéria de prevenção e combate a fogos rasgar as vestes em público.

Mas perante esta tragédia o que menos me interessa é o espectáculo da digladiação partidária. O que eu queria saber era quem ganha com os incêndios? Quem são? Quantos são? E já agora, por que a criminalidade associada aos fogos é tema que fenece tão facilmente no discurso dos políticos, sejam oposição ou governo?

Subscrevo TODAS as críticas que se fizeram ao governo e senti-me bem representada pelo discurso do PR. Mas parece-me óbvio que mais de 500 incêndios num dia não se explicam com as alterações climáticas e muito menos com a incúria da população rural. No tempo da outra senhora, quando o país não ardia assim, porque as florestas eram bem administradas, já o povo fazia queimadas e havia fogos de artifício.

Os espanhóis falaram de terrorismo a propósito dos fogos. Eles de facto são lestos a chamar os bois pelos nomes. Nós por cá é mais foguetório parlamentar. E a eterna teia de interesses e cumplicidades que submete o país a uma gestão incompetente. Por estes dias, Helena Freitas ex-deputada, bióloga e professora da Universidade de Coimbra, disse à Lusa que "o território foi abandonado por todos os governos", e que além do mais "os ministérios têm dificuldade em interagir", algo que compromete qualquer reforma. Li-a e pensei: "É isto!" Qualquer alma que tenha passado por um governo e pela máquina do Estado sabe que é isto que nos tolhe.

Há dias o Miguel Sousa Tavares dizia na SICN que se calhar somos um Estado falhado. A frase não me saiu da cabeça.

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É isto

por José António Abreu, em 19.10.17

[...]

O que se está a passar na nossa vida enquanto comunidade é assustadoramente preocupante. A grande massa de eleitorado urbano satisfaz-se com um bodo aos pobres, na dimensão suficiente para ir fazendo uns fins-de-semana prolongados e uns jantares fora. Dentro desse grupo merecem um tratamento especial os funcionários públicos, pela sua dimensão, e os pensionistas, com especial relevo para os que ganham mais e têm acesso ao espaço público. A estratégia é tão simples e fria quanto a de uma empresa que define um objectivo de mercado. Tudo o resto, como não faz mexer o ponteiro das vitórias eleitorais, não existe.

Os últimos orçamentos do Estado foram pensados nessa lógica. Se o país fosse uma empresa podia dizer-se que na era da troika fomos geridos pelo administrador financeiro e nestes últimos dois anos pelos responsáveis da área comercial e do marketing. Tudo o que não se vê ou que esteja protegido dos olhares externos pode ficar com menos dinheiro. E assim se faz dinheiro para acabar com os cortes dos salários da função pública rapidamente, ao mesmo tempo que se reduz o défice público.

São escolhas políticas apresentadas como uma opção pelas pessoas, pela coesão social, pelo combate à  pobreza e pela promoção da igualdade. Quem o diz assume-se até como tendo o monopólio destes objectivos, como se todos os outros fossem contra valores que são (ou deviam ser) os alicerces da nossa sociedade.

O problema vem ao de cima quando tentamos ver os actos dessas palavras. É enorme a distância entre aquilo que se diz que se faz e aquilo que realmente é concretizado. A coesão social, o combate à pobreza e a promoção da igualdade limitam-se ao segmento do mercado eleitoral urbano que faz mexer o ponteiro dos votos. Os outros ficam ao abandono, como dolorosamente vimos na morte e na vida de quem esteve dentro dos incêndios do fim-de-semana.

[...]

Um texto dolorosamente certeiro de Helena Garrido, no Observador. Convém lê-lo na íntegra

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Já li o livro e vi o filme (203)

por Pedro Correia, em 19.10.17

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  THE SHINING (1977)

Autor: Stephen King

Realizador: Stanley Kubrick (1980)

Confesso-me pouco ou nada apreciador do género, o que me torna suspeito para avaliar tanto o livro como o filme, com títulos sem tradução portuguesa. Apesar de tudo, senti menos desconforto com a leitura do extenso romance (619 páginas) de King. De Kubrick prefiro outras obras, passando ao lado do terror.

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É tempo de esclarecer tudo

por Pedro Correia, em 19.10.17

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Procurar camuflar as falhas concretas, registadas neste trágico ano de 2017, com as "deficiências estruturais" na floresta não é sério. Há 110 mortos - os  44 já oficialmente contabilizados da tragédia de domingo, somados aos 65 de Pedrógão Grande e ao piloto que morreu no combate às chamas em Castro Daire - cuja memória exige e reclama justiça. Reconhecer os erros e pedir desculpa é cumprir os mínimos por parte do Governo enquanto servidor público.

O relatório oficial encomendado pelo Executivo reconhece: houve falhas clamorosas ao nível da protecção civil na resposta aos fogos florestais. Sem elas, "podiam ter sido evitadas algumas mortes e muito sofrimento".

Este é o cerne da questão. E pouco tem a ver com causas estruturais. Tem a ver essencialmente com a péssima coordenação de serviços públicos que deviam garantir a segurança de pessoas e bens mas falharam em toda a linha. Primeiro em Junho, agora em Outubro.

 

Dizem-me que, por estes dias, o primeiro-ministro anda sem a habitual energia anímica de que costuma fazer gala. É caso para isso.

Acontece que António Costa foi responsável na década passada, enquanto titular da pasta da Administração Interna, por algumas medidas extremamente controversas: pôs fim à carreira de guarda-florestal,  adjudicou a título definitivo o contrato com o sistema de telecomunicações SIRESP e montou o actual dispositivo da protecção civil. Com os resultados que sabemos.

Foi também ele que, já enquanto chefe do Governo, insistiu em nomear um coronel da sua confiança para o comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil.

 

Em 2017 tivemos um Estado que falhou em toda a linha na defesa da vida, da integridade física e da segurança de milhares de portugueses. Incapaz de zelar pela população mais pobre, mais envelhecida, mais indefesa e mais desprotegida - a que morreu e foi gravemente afectada para sempre nestas tragédias.

Como questionava há dois dias o nosso Adolfo Mesquita Nunes no Jornal Económico, "se o Estado, que consome metade da riqueza produzida, não serve para isto, serve para quê?"

Se tudo isto não merece ser avaliado seriamente, no quadro de um debate parlamentar de uma moção de censura ao Governo, poucos temas haverá que o justifiquem. Será bem mais útil os senhores deputados gastarem tempo com esta discussão do que a recomendarem que tipo de  arroz devemos comer ou que espécie de clientes devem frequentar os  restaurantes pátrios - tarefas a que suas excelências costumam dedicar-se à falta de qualquer outra actividade que lhes preencha a agenda.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.10.17

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Pão com Fiambre, de Charles Bukowski

Tradução de Manuel A. Domingos

Romance

(reedição Alfaguara, 2017)

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Cinco mil visualizações por dia

por Pedro Correia, em 19.10.17

 

Nos últimos dez dias, aqui no DELITO recebemos 23.907 visitas e registámos 49.832 visualizações.

Em termos médios, quase cinco mil visualizações diárias.

Números que confirmam a vitalidade deste blogue, quase a entrar no décimo ano de existência.

Um blogue que não é só nosso: também é vosso.

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Canções do século XXI (202)

por Pedro Correia, em 19.10.17

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O «fim» da austeridade, o início das mentiras

por José António Abreu, em 18.10.17

Governo falseou dados das listas de espera para consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde. Entre 2014 e 2016, o tempo de espera subiu, o número de cirurgias desceu. Em 2016, 2605 pessoas morreram à espera de cirurgia.

Bem-vindos ao maravilhoso mundo da Geringonça, recuperado dos tempos de Sócrates, no qual tudo é perfeito, ainda que tenha ser à força. Muitos parecem acreditar que António Costa é, no que respeita ao estilo de governação, diferente do homem que teimou numa ilusão até ao instante em que o dinheiro acabou. Infelizmente, é igual. O roubo de Tancos e os incêndios mostraram amplamente a sua incapacidade para assumir erros, a sua indiferença pelos portugueses (que não pela opinião que os portugueses têm dele) e o despudor com que transforma os próprios correligionários em escudo pessoal (por muitos erros que tenha cometido, a Ministra da Administração Interna poderia ter sido poupada à humilhação de, na prática, se ver demitida pelo Presidente da República). Esta notícia - que certamente não irá incomodar os parceiros da Geringonça, outrora tão vocais acerca de situações menos graves - revela a sua disponibilidade para usar absolutamente todos os truques, de forma a manter as ilusões e se agarrar ao poder. E que possa não ter partido dele a indicação concreta para maquilhar os números pouco importa: em ambientes malsãos, pejados de yes men, nos quais as aparências são tudo, as estruturas fazem o que sentem ser necessário fazer.

Enfim, talvez nada disto interesse no país em que Isaltino é eleito e Sócrates ainda recebe aplausos. Talvez até constitua motivo para felicitações. Num país decente, porém, depois da forma vergonhosa como geriu o caso dos incêndios, seria razão bastante para conceder a António Costa o mesmo género de férias forçadas com que ele presenteou Constança Urbano de Sousa. Em Palma de Maiorca, como quando pretendeu escapar à polémica de Tancos, ou noutro lado qualquer.

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A responsabilidade do governo

por Rui Rocha, em 18.10.17

Não, fofinhos. O problema do governo não foi apenas o da gestão catastrófica da comunicação enquanto a tragédia estava a decorrer. A questão não é só a do "safem-se" do secretário de estado, do "habituem-se" do Costa ou das "férias" da ministra. Está é uma parte que impressiona pela frieza, pela boçalidade e pela estupidez. Mas o ponto da responsabilidade política do governo é muito mais vasto. Foi este governo que decidiu substituir a estrutura de comando da Protecção Civil com base em critérios estritamente partidários e oportunistas. Foi este governo que geriu com evidente reserva mental todo o processo de apoio às vítimas de Pedrógão. Foi este governo que decidiu, já com mais de 60 mortos no cadastro e por motivos puramente economicistas, reduzir significativamente o dispositivo de combate a incêndios quando as condições meteorológicas aconselhavam extrema prudência. Estas foram opções políticas concretas e tragicamente erradas que não podem ser escondidas atrás das alterações climáticas ou de décadas de política da floresta e de ordenamento do território. Não reconhecer isto é reconhecer que não se tem vergonha.

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Manobras comunistas

por Pedro Correia, em 18.10.17

O PCP nem quer ouvir falar em qualquer moção de censura ao Governo socialista, apoiado desde o primeiro instante pelo partido da foice e do martelo na Assembleia da República. Com profundo desdém, até com um certo ar de repulsa, os comunistas consideram que iniciativas como a que o CDS já anunciou não passam de "manobras parlamentares".

Jerónimo de Sousa tem particular autoridade para se pronunciar nesta matéria. Acontece que o PCP é, de longe, o campeão das moções de censura em Portugal. Nos últimos dez anos, houve nada menos de 12 - metade das quais promovidas pelo PCP, tendo uma sétima ficado a cargo do PEV, partido satélite dos comunistas.

Concretamente, nos seis anos de mandato de José Sócrates a bancada parlamentar vermelha apresentou três moções de censura. E patrocinou outras tantas durante os quatro anos do Executivo Passos Coelho.

Campeões das "manobras parlamentares", portanto. E da duplicidade de critérios. Nada de novo na frente parlamentar. 

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A Gente Daninha

por jpt, em 18.10.17

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A (in)ministra demite-se, com ela presume-se que cairá o abstruso homem-de-mão do PS que foi a secretário de estado. O CDS apresentou uma moção de censura que obrigou a uma movimentação do quadro político, em particular do PR. Mas convém lembrar três coisas:

1) A ministra foi-o porque assessorou Costa quando ele foi ministro desta tutela, e acompanhou as medidas estruturantes que ele tomou nesta matéria, e que tanto influenciam a actualidade. A sua nomeação foi uma declaração de continuidade. Tudo isso foi esmiuçado aquando da primeira mortandade, em Agosto. A cabeça da ministra (e a do amanuense que lhe foi "adjunto") não pode satisfazer. Costa tem, como ex-ministro e como actual PM uma enorme responsabilidade nisto. Há que lhe cobrar isso (a minha factura seria o despedimento mas cada um que ponha a sua sentença).

2) Em Pedrógão Grande o PR sufragou, de imediato, a política governamental (em particular a partidarização da protecção civil, que levou a este total desconchavo). Agora teve que arrepiar caminho, até para sua salvaguarda. Chega de aplausos conjunturais, aponte-se-lhe directa responsabilidade nestes 40 mortos, pelo tempo de inércia e gestão tresloucada, que uma sua intervenção política poderia ter evitado.

3) Assunção Cristas, à frente do CDS, apresentou uma moção de censura, algo correcto, que o governo não pode passar incólume na AR diante de tanta aleivosia na relação com os cidadãos e sob um PM com tanta responsabilidade política nisto tudo. Mas cessem os aplausos a Cristas - há que lembrar que ela foi Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território de 2011 a 2015. E era muito louvada, lembram-se? Alguém pode fazer um relatório, mero sumário executivo que seja, sobre as boas medidas neste assunto que ela avançou? Duvido muito.

 

Urgem novas políticas, um gigantesco inflectir de visões e concepções. E, nisto como em tantas outras coisas, uma enorme varridela. Estas pessoas não servem. E deste molde de gente - o aparelhismo - nada sairá de bom. A terra está queimada, e não pode ser semeada com gente daninha.

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Música recente (139)

por José António Abreu, em 18.10.17

Nadine Shah, álbum Holiday Destination.

Shah é filha de uma inglesa descendente de noruegueses e de um paquistanês. Centrado nas questões da imigração, o seu novo álbum foca as dificuldades de constituir o elemento estranho numa comunidade, os enviesamentos daí decorrentes, e as por vezes inacreditáveis prioridades de quem tenta proteger o seu casulo. Shah não assume um tom de confronto, excepto quando perante este último ponto: o tema Holiday Destination (no vídeo acima) foi inspirado numa reportagem onde se relatavam as queixas de turistas na Grécia sobre a forma como a crise dos refugiados lhes estava a estragar as férias. Já o tema Evil terá resultado da leitura do poema Days, de Philip Larkin (ver abaixo). Para Shah, o «dia» é a normalidade, fora do qual surgem os medos e os ódios.

 

---

 

What are days for?

Days are where we live.

They come, they wake us

Time and time over.

They are to be happy in:

Where can we live but days?

Ah, solving that question

Brings the priest and the doctor

In their long coats

Running over the fields.

Philip Larkin

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O preço da obsessão

por Sérgio de Almeida Correia, em 18.10.17

Foi caro, muito caro, estupidamente caro.

É difícil governar sem distância em relação ao aparelho, afastado do país, respondendo-se às questões colocadas como se o respondente fosse algum dos antecessores de muito má memória, daqueles que primaram pela pesporrência e teimosia, reincidindo naquilo em que não se podia reincidir e que foi objecto de severa crítica no passado.

O resultado é que depois se gere politicamente tarde, contabilisticamente, mal e num momento em que as falhas são duplamente censuradas. Assim se deixa arder um importante capital de confiança nas pessoas e no partido que governa.

Porém, o pior de tudo não foi isso. Com ou sem moção de censura, qualquer que seja o resultado da votação, que importa pouco face à ausência de alternativas políticas credíveis, pior é quando se deixa arder a esperança na regeneração das instituições. 

Quem é que quer saber do défice, da imagem do primeiro-ministro, do desemprego ou dos números do crescimento perante a tragédia? Perante a perda estúpida de vidas humanas? Quem é que quer saber do resto quando tudo ardeu, quando a responsabilidade política surge in extremis e sacada a ferros, quando se fica à espera que chova?

 

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Nunca é de mais lembrar

por Pedro Correia, em 18.10.17

 

O secretário de Estado da Administração Interna, que agora mandou os portugueses apagar fogos, impelindo as "comunidades a ser pró-activas" no combate às chamas perante a ausência dos bombeiros e com os dispositivos de protecção civil em notório colapso, é precisamente o mesmo que a 17 de Maio, numa audição na Assembleia da República destinada a apresentar o "dispositivo especial de combate aos incêndios florestais", declarou isto: «Quero transmitir aos portugueses que temos um dispositivo capaz, devidamente estruturado e organizado, no qual temos plena e total confiança, para fazer frente ao período mais crítico dos incêndios florestais» (minuto 8 deste vídeo); «O País tem um dispositivo integrado, competente, forte e mobilizado para defender a floresta, o património e a vida dos portugueses.» (10' 30'' do vídeo).

Cento e sete mortos depois, cento e sete vítimas da fúria dos incêndios e da incúria estatal entretanto sepultadas, esta solene garantia prestada por Jorge Gomes na Casa da Democracia desfez-se em cinzas: não passava de propaganda vazia e barata. Nunca é de mais avivar memórias antes que alguns (ir)responsáveis procurem passar entre os pingos da chuva que começou a cair e já tardava.

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Frases de 2017 (44)

por Pedro Correia, em 18.10.17

«Sete séculos depois ardeu o pinhal de D. Dinis, o das "naus a haver", morreu o verde pinho do rei poeta. Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado.»

Manuel Alegre, hoje, no Diário de Notícias

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PEV?

por jpt, em 18.10.17

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O "Partido Ecologista "Os Verdes"" tem existência parlamentar há 30 anos. Tenho alguma curiosidade relativamente ao que fará diante da moção de censura apresentada ao governo. Devastação generalizada, inexistência de uma política florestal/ecológica condigna e competente. O icónico Pinhal de Leiria, sob responsabilidade estatal, dizimado. 

Que irá fazer o PEV? E o que dirá para o justificar?

 

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O xeque à geringonça.

por Luís Menezes Leitão, em 18.10.17

Sempre me impressionou a obsessão politicamente correcta de, perante o colapso total de serviços públicos, a oposição não aparecer a exigir a demissão dos responsáveis políticos, com medo de ser acusada de querer obter ganhos à custa de tragédias. Essa obsessão não ocorre em mais nenhum país do mundo, sendo com naturalidade que os responsáveis políticos se demitem quando ocorrem situações graves no seu ministério. Há dias a Ministra da Defesa da Holanda demitiu-se por causa de um acidente que vitimou dois soldados holandeses no Mali. Em Portugal ocorrem mais de cem mortos, e a Ministra da Administração Interna continua em funções, com a total cobertura política do Primeiro-Ministro. E os defensores do governo apresentam o argumento espantoso de que a sua saída não resolve o problema. E o facto de ela ficar não agrava o problema da falta de confiança dos portugueses nas instituições?

 

Assunção Cristas percebeu que era tempo de reagir e apresentou uma moção de censura ao governo. Face à blindagem com que a Constituição protege o governo, a moção de censura não tem quaisquer hipóteses de ser aprovada, uma vez que necessitaria de que a maioria absoluta dos deputados votasse a favor da mesma. Por isso, até toda a esquerda se podia abster que a moção de censura não passava. Mas a moção de censura é um claro xeque ao governo e por arrastamento aos partidos que o suportam. Porque, sendo a moção de censura baseada apenas na situação da administração interna, todo o governo vai ser obrigado a solidarizar-se com a respectiva ministra, pelo que vai assumir uma culpa colectiva por uma situação que a maioria dos portugueses ainda vê como um simples problema da ministra. E os partidos da extrema-esquerda terão que votar naturalmente a favor do governo, o que os responsabilizará também por esta situação. Qualquer tentativa de estes partidos descolarem do governo para as eleições de 2019 ficará irremediavelmente comprometida, razão pela qual o PCP protesta furiosamente contra estas "manobras parlamentares".

 

Com esta iniciativa Assunção Cristas coloca assim a geringonça em xeque. Obriga António Costa a ligar o destino de todo o seu governo ao de Constança Urbano de Sousa, anulando os efeitos políticos da sua recente vitória nas autarquias, e faz o mesmo aos partidos de extrema-esquerda, que não permite que ensaiem qualquer descolagem do governo. Isto é política no seu estado puro, sendo isso o que se espera que os políticos façam, especialmente quando estão na oposição. A nova liderança do PSD bem pode começar já a aprender alguma coisa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.10.17

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E a Noite Roda, de Alexandra Lucas Coelho

Romance

(reedição Companhia das Letras, 2017)

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Canções do século XXI (201)

por Pedro Correia, em 18.10.17

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Num país desamparado

por Pedro Correia, em 17.10.17

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 Foto: Paulo Novais/Lusa

 

Sentimo-nos por estes dias habitantes de um país sofrido, magoado, desamparado, órfão da protecção do Estado. Um país revoltado com tanta impreparação, tanto desleixo, tanta incúria, tanta incompetência.

Um país enlutado por duas tragédias ocorridas num intervalo de quatro meses que provocaram mais de uma centena de mortos e largas dezenas de feridos, muitos em estado grave.

Na sua excelente comunicação de há pouco ao País - o melhor discurso do seu mandato - Marcelo Rebelo de Sousa falou de tudo isto. Também ele sofrido, também ele magoado, também ele profundamente enlutado. Dando expressão contida mas iniludível a estes sentimentos. Mostrando assim, uma vez mais, como sabe estar em sintonia com os portugueses.

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O camponês da Ventosa

por Alexandre Guerra, em 17.10.17

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporado com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.
A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.
O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma "estrela" internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal...

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Cento e três

por Pedro Correia, em 17.10.17

 

Trinta e sete mortos confirmados até ao momento nos fogos que devastaram o País este domingo. O mesmo número das vítimas do atentado terrorista em Ancara, em Março de 2016. O mesmo número dos falecidos no violento sismo em Amatrice, em Itália, em Agosto de 2016. O mesmo número dos assassinados no morticínio num hotel de Manila, em Junho de 2017.

Trinta e sete, somados aos  65 mortos de Pedrógão. E ao  piloto que morreu a combater o fogo em Castro Daire.

Cento e três vidas ceifadas de forma inaceitável num país europeu do século XXI. O país da Web Summit, o país que exporta "modernidade". O país político que se entretém a legislar sobre a abertura de restaurantes a  animais de companhia mas é incapaz de zelar pela segurança e pela integridade física dos seus habitantes, tratados sempre como contribuintes pelo mesmo Estado que os ignora enquanto cidadãos.

 

ADENDA, às 17.25: O número de vítimas mortais de domingo, agora actualizado, eleva-se a 41. Superando portanto o dos mortos no atentado em Ancara, do sismo em Itália ou da chacina em Manila. Os incêndios em Portugal já provocaram este ano pelo menos 107 mortos.

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Arranjem um canalizador

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.10.17

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O ar já estava pesado. A terra ficou ainda mais com o inferno que persiste, pelo que aquela frase não podia ser mais apropriada: ''aquela merda ainda não entupiu... ”

 

Não se pode dizer que não tivessem feito tudo para isso. 

Quanto ao país, bom, já estava há muito. E não sei se haverá alguém que consiga desentupi-lo nas próximas décadas.

Não há purificadores do ar que cheguem. Nem mesmo em Marte.

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Fim da linha

por Diogo Noivo, em 17.10.17

O Secretário de Estado da Administração Interna disse que não podemos esperar pelos bombeiros: “Têm de ser as próprias comunidades a ser proactivas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver os problemas. Temos de nos autoproteger”. Traduzindo para português corrente, amanhem-se.

Já a Ministra da Administração Interna foi mais uma vez uma cornucópia de inanidades sem freio. Avisou o país de que “as comunidades têm de ser tornar mais resilientes às catástrofes”. Portanto, poucas lamúrias. Aliás, nada como a própria para dar o exemplo: “Para mim seria mais fácil, pessoalmente, ir-me embora e ter as férias que não tive.”

O Primeiro-Ministro podia salvar a honra do convento – ou pelo menos tentar -, mas decidiu amarrar-se politicamente ao quadro de miséria. Logo de manhã, perante uma pergunta incómoda de uma jornalista, pediu que não lhe provocassem o riso. Lamentavelmente, o cenário não era propício à galhofa, mas António Costa parece que teve opinião diferente. Depois, partiu para um aviso à navegação do povo português: habituem-se porque isto vai acontecer novamente. E não há “soluções mágicas” – talvez existam soluções técnicas e políticas, embora sobre estas o Primeiro-Ministro nada tenha dito. Não satisfeito, o Primeiro-Ministro colocou a cereja no topo do bolo quando, “naturalmente”, garantiu que a sua Ministra da Administração Interna tem condições para se manter no lugar, e classificou como infantis aqueles que pedem a demissão de Constança Urbano de Sousa.

 

Entretanto, à medida que o dia avançava, a área ardida crescia e o número de mortos aumentava. O Primeiro-Ministro anuncia então ao país que falará às 20 horas. Criada a expectativa, a António Costa pediam-se mínimos olímpicos: (i) distanciar-se da sucessão de indecências ditas por ele e pelos seus colegas de Governo; (ii) pedir desculpa ao país porque, afinal, é missão inalienável do Estado garantir a segurança de pessoas e bens e já vamos em 100 mortos num espaço de 4 meses.

Mas não. Tudo como d’antes, quartel-general em Abrantes. Na sua comunicação ao país, o Primeiro-Ministro limitou-se a repetir o que tinha dito depois do incêndio em Pedrógão. Não há consequências, não há lições, não há pedidos de desculpas. Por outras palavras, é favor circular porque não há nada de novo ou de relevante para ver. Por vontade própria, António Costa fica irremediavelmente amarrado à tragédia dos incêndios de 2017 e à inépcia que o próprio escolheu para tutelar o Ministério da Administração Interna.

A autoridade do Governo em matéria de segurança interna acabou ontem à noite.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.10.17

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Corações de Pedra, de Alfredo Barroso

Ensaios políticos e económicos

(edição Porto Editora, 2017)

"Por vontade expressa do autor, a presente obra não segue as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Do aproveitamento político

por Pedro Correia, em 17.10.17

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 Imagem da manifestação de ontem em Ourense: fogos mataram quatro pessoas na Galiza

 

Milhares de pessoas manifestaram-se ontem em várias cidades da Galiza reclamando a demissão da junta governativa na sequência dos dramáticos incêndios que provocaram a morte de quatro pessoas naquela região autónoma de Espanha. Na maior manifestação, em Santiago de Compostela, participaram representantes de todos os partidos políticos da oposição. Entre as palavras de ordem, gritou-se: "Um governo que improvisa é um terrorista."

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Provocações (15)

por Rui Herbon, em 17.10.17

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- Está lá? É do MAI?

- É sim.

- A ministra ainda está, ou já alguém lhe deu as merecidas férias?

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Canções do século XXI (200)

por Pedro Correia, em 17.10.17

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Impressiona a quantidade de gente que das suas tribunas na televisão, na imprensa, ou nas infames redes sociais continua a não perceber ou a fingir não perceber que o problema político do desastre de Pedrógão Grande em Junho e do novo desastre da zona Centro-Norte em Outubro não foi a meteorologia ou a floresta mas a (des)protecção civil. A meteorologia, como é evidente, não é culpa de nenhum Governo (deixemos a discussão sobre as alterações climáticas para outra ocasião), e a floresta até será responsabilidade (ou irresponsabilidade) parcial de Governos passados, presentes, e futuros; mas a organização actual das estruturas de prevenção a incêndios, a preparação corrente dos meios de combate ao fogo, e a coordenação dos meios de socorro a pessoas e bens são competências da responsabilidade do Governo presente (como foram de Governos passados, e serão de Governos futuros). E nesse campo, tanto em Junho como em Outubro, o Governo presente falhou em toda a linha, demonstrando a cada momento uma impreparação assustadora e uma arrogância desmedida - as declarações proferidas nas últimas 24 horas pelo Secretário de Estado da Administração Interna, pela Ministra da Administração Interna e pelo Primeiro-Ministro são mais do que irresponsáveis e insensíveis; são inaceitáveis. Não, a demissão dos responsáveis políticos do MAI não resolve nada em termos práticos - não recupera o que se perdeu, não resolve problemas estruturais de décadas, nem soluciona agora o que falhou há pouco. Mas perante os colapsos sucessivos a que assistimos, parece-me imperativo  afastar quem demonstrou de forma cabal não só não estar à altura dos cargos que ocupa, como também não ser capaz de fazer o que for necessário fazer daqui para a frente. É uma questão de responsabilidade política, sim, e também de capacidade política. Ou, neste caso, de irresponsabilidade política e de incapacidade política.

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