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The Art Of Slowing Down

por Alexandre Guerra, em 31.05.17

Arte, o único tema com direito a vídeo até ao momento. Grande malha.

 

Há uns dias, o agente do Slow J tinha-me perguntado se eu tinha gostado da “cena”. A “cena” a que ele se referia era o The Art Of Slowing Down (TAOSD), o novíssimo álbum de estreia do sadino João Batista Coelho, conhecido no mundo musical como Slow J. Eu não só gostei imenso da “cena”, como acho (a crítica ficou rendida) que estamos perante uma das melhores "cenas" feitas nos últimos anos em Portugal. É muito raro a música nacional oferecer-nos criações verdadeiramente inovadoras e disruptivas. É certo que há muita coisa com qualidade no mercado português, mas poucas merecedoras de um estatuto superior.  

 

“Eu estou aqui para fazer música nova”, disse há umas semanas este jovem de vinte e poucos anos numa entrevista ao Público. E fê-lo. Hip hop, R&B, rock, pop, electrónica, fado, semba, jazz, estão lá todos estes estilos, conciliados de uma forma irreverente e selvagem e ao mesmo tempo ordeira e precisa. É um daqueles álbuns que ouvimos com um prazer imenso na tranquilidade do lar, pela sua criatividade, pela sua qualidade, pelo rigor na produção. As letras cruas e acutilantes atingem-nos na alma.

 

(Ainda) Longe do panorama mainstream, Slow J estudou Engenharia de Som em Londres e demorou três anos a fazer este álbum. Ele já tinha criado algum buzz nos meandros da música nacional em 2015, aquando do lançamento do EP The Free Food Tape. Mas, agora, com o lançamento do álbum TAOSD, o nível é outro. Numa época de produção cultural massificada e de consumo imediato sem grande filtro crítico, é uma satisfação ver que há artistas que se entregam de corpo e alma à verdadeira criação artística.

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Já li o livro e vi o filme (186)

por Pedro Correia, em 31.05.17

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DIÁRIO DE UMA CRIADA DE QUARTO (1900)

Autor: Octave Mirbeau

Realizador: Jean Renoir (1946)

Realizador: Luis Buñuel (1964)

Implacável sátira à moral burguesa da sua época, esta obra-prima da literatura fascinou cineastas como o francês Renoir, filmando nos EUA, e o espanhol Buñuel, filmando em França. Paulette Goddard interpreta a criada no primeiro, mais poético; Jeanne Moreau no segundo, mais corrosivo.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 31.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

O RETRATO DE DORIAN GRAY – Oscar Wilde

(1891)

“Contém elementos desagradáveis”

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Entretanto...

por Rui Rocha, em 31.05.17

- Tá lá?
- Tou, Zé. Sou eu, o Carlinhos. Olha aí uma coisa. O apartamento que te cedi em Paris... foi em regime de arrendamento permanente ou de alojamento local?
- Mas tu tás parvo ou quê?
- Não, a sério, pá. Diz lá para eu ficar descansado. Não quero cá merdas com o condomínio.

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Convidado: FILIPE NUNES VICENTE

por Pedro Correia, em 31.05.17

 

Agincourt no estádio

 

Muito elogiada é a equipa que ataca pelos flancos, explorando as faixas laterais, ao invés daquela que afunila o seu jogo ofensivo. Ora, militarmente falando, flanco significa lado; a vantagem de que os agressores gozam, num ataque assim, reside no facto de os defensores adversários se terem de dividir. Com efeito, se se flanqueia ao mesmo tempo que se continua a ocupar a zona central, a concentração e disciplina dos defensores são afectadas. Isto pode ser observado em qualquer jogo de futebol: o lateral/extremo galopa até à linha de fundo e os centrais adversários tentam adivinhar a intenção precisa do malandro ao mesmo tempo que tentam controlar as rapaces que vão aparecendo na grande-área; por exemplo, os Jonas, os Ronaldos, os Nenés.

Agincourt, na temporada de 1415/16, foi um bom exemplo das virtudes do ataque pelos flancos ainda que noutro tipo de palco: Henrique V derrotou os franceses não obstante a inferioridade de efectivos (cinco para um a favor de Carlos VI). Este tipo de ofensiva introduz um elemento de desordem, no caso do futebol, na marcação esforçada e honesta; é insidioso e releva da ilusão. Pode ser utilizada  em superioridade ou igualdade numérica e constitui uma manobra ao dispor tanto da poderosa squadra como do Arrasquinha FC; habita, enfim, um universo popular e democrático.

O sucesso dos ingleses em Agincourt resultou do alargamento da chamada zona de morte, como explica John Keegan, que é definida pela extensão da arma prevalecente. Do ponto de vista da infantaria, trata-se, claro, da zona onde se travam os principais combates homem a homem. Em Agincourt a zona de morte foi alargada desde a frente da defesa francesa até aos seus flancos, permitindo às tropas de Henrique V um ataque envolvente. O resultado foi devastador no exército de Carlos VI (que era doido, ou talvez não, por isso não esteve na batalha).  

 

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A História está alagada de casos similares, desde Aníbal, inexorável com as tribos da Occitânia e do Ródano, ao longo da sua marcha sobre Roma, até ao flanquear da Linha Maginot pela tropa nazi. Curioso é observar, no caso do futebol, como o temperamento dos povos imagina formas diversas deste tipo de ofensiva. Bem sei que os tempos mudaram, as diferenças esbateram-se, mas podemos ainda imaginar diferenças de berço. Os britânicos e os nórdicos, quais soldados disciplinados, procuram os centros rectilíneos para a grande-área, que terminam em cabeceamentos certeiros; os sul-americanos e os latinos optam a maior parte das vezes por descobrir diferentes centímetros quadrados de relva, parando a meio, quando esperávamos que acelerassem, acelerando quando já nem os julgávamos lá. Como, por exemplo, Messi.

 

 

Filipe Nunes Vicente

(blogue DEPRESSÃO COLECTIVA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.05.17

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    O Tesouro, de Selma Lagerlöf

Tradução de Liliete Martins

Novela

(Reedição Cavalo de Ferro, 3.ª ed, 2017)

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Canções do século XXI (61)

por Pedro Correia, em 31.05.17

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Não é exactamente inédito vermos o fantástico a desbravar os territórios sinuosos da depressão - leia-se, a título de exemplo, Low, a notável banda desenhada em curso de Rick Remender e Greg Tocchini. Nem mesmo a incursão pelo género kaiju/mecha, tão caro à ficção científica japonesa, é exactamente original como metáfora neste tema - recorde-se a brilhante e retorcida série Neon Genesis Evangelion, através da qual Hideaki Anno terá exorcisado os seus próprios demónios em meados dos anos 90. Ainda assim, existe algo de profundamente refrescante em Colossal, o mais recente filme do realizador e argumentista espanhol Nacho Vigalondo. Talvez isso se deva à magnífica Gloria de Anne Hathaway, obrigada pelo desemprego e pelo refúgio no álcool a abandonar a cosmopolita Nova Iorque e a regressar à vila esquecida da sua infância, onde descobre que o seu descontrolo pessoal tem a consequência improvável de materializar um kaiju gigantesco em Seoul. Ou talvez se deva ao guião coeso, a alternar com mestria a ligeireza e o absurdo da premissa fundametnal do filme com o lado mais soturno dos fantasmas que Gloria enfrenta, sem nunca perder de vista a história que pretende contar. Ou talvez se deva à realização segura de Vigalondo, que num género com tendência para o som e para a fúria opta por um silêncio bem doseado e por uma sobriedade visual quase revolucionárias - sabe que é nas suas personagens, e não na pirotecnia, que reside o coração do filme, por mais fantásticos e colossais que sejam os monstros que projectam.

 

 

Ou talvez seja por tudo isto e por qualquer afinidade que cada espectador encontre com aquelas personagens, com os seus relacionamentos conturbados, com as situações que enfrentam, com as consequências imprevistas das suas acções e omissões. Pois por mais fantástica ou absurda que possa ser a premissa de Colossal, ela mais não é do que uma metáfora especialmente bem construída para uma ou outra situação que, cada um à sua maneira, todos acabamos por conhecer tão bem. 

 

(Colossal encontra-se actualmente em exibição numa mão-cheia de cinemas da grande Lisboa e do Porto)

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A mercearia reabriu

por Teresa Ribeiro, em 30.05.17

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Depois de uns dias fechada, com uma cruz na porta, a pequena mercearia reabriu, com os mesmos caixotes de fruta no passeio. Tudo igual, excepto a roupa da velhota, antes indistinta, agora uma mancha negra a assombrar pêssegos e limões. Ela e o marido, em guerrilha permanente, eram tema de piadas no bairro. As quezílias diárias deixavam-lhe o olhar velado, carregado de azedume e a ele uma expressão de enfado impossível de disfarçar. Para o cenário trivial de uma mercearia de bairro era drama em excesso, daí ter tanta graça aquele desconcerto a dois. 

O azedume dos olhos dela, por estes dias, desfez-se em tristeza. Todos comentam que de repente ficou uma sombra da mulher que foi. Amar um traste pode ter-lhe envenenado a vida, mas amar um desertor está a matá-la de vez.

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Música recente (100)

por José António Abreu, em 30.05.17

Joan Shelley, álbum Joan Shelley.

Um trabalho de Folk contemplativa, no qual os temas são deixados respirar e nenhuma nota - como nenhuma palavra - parece estar a mais.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.05.17

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    Kitsch, de Fritz Karpfen

Tradução de João Tiago Proença

Um estudo sobre a degenerescência da arte

(Edição Antígona, 2017)

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Ligação directa

por Pedro Correia, em 30.05.17

 

À Chic' Ana.

 

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Canções do século XXI (60)

por Pedro Correia, em 30.05.17

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Grandes ilusões e memória curta

por Luís Naves, em 29.05.17

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Durante setenta anos, a Europa Ocidental esteve sob protecção americana, com o evidente resultado de um prolongado período de paz e prosperidade. Esta aliança resistiu a todas as administrações, a várias crises (Suez, Berlim, Cuba, Kosovo), mas a chanceler Angela Merkel parece acreditar que é altura de tentar outra coisa: ela disse ontem que “os tempos em que podíamos confiar totalmente em outros [países] acabaram”, numa referência ao Reino Unido e aos EUA, aqueles por quererem abandonar a UE, estes por não cederem às posições europeias em matéria de globalização, financiamento da NATO e alterações climáticas.

O que a chanceler sugeriu, e que entretanto foi suavizado, corresponde à aparente subversão da ordem mundial definida em Ialta pelas potências vencedoras da II Guerra Mundial, devendo os europeus definir no futuro o seu destino. Essa conferência ainda não foi revogada e os vencedores são os mesmos (a Rússia é a herdeira legal da URSS). Para mais, a chanceler falou em nome dos ‘europeus’, não usando a expressão ‘nós, os alemães’. Ao considerar que já não se pode contar, como antes, com os aliados ingleses e americanos, assumindo-se como suposta ‘líder europeia‘, Merkel repetia uma ideia que faz o seu caminho na eurocracia: os principais obstáculos ao futuro da Europa são as nações que a compõem; se queremos mais integração e segurança, temos de vencer os nacionalismos.

A Alemanha, tão confiante nos benefícios de uma integração acelerada, admite livrar-se da tutela americana que lhe garantiu a independência. Compreende-se a frustração de Donald Trump e de Vladimir Putin, herdeiros dos vencedores de Ialta, que obviamente não vão facilitar estas ambições. Com a saída do Reino Unido da UE, provavelmente numa separação litigiosa, a chanceler enfrenta o seguinte panorama inédito: os ingleses (e americanos) estão cada vez mais fora da equação continental e não interferem; os franceses precisam dos mercados alemães; a Itália precisa de ajuda financeira alemã de emergência; a Polónia (enfim, mais o antigo Império Habsburgo) é pobre e precisa do investimento alemão; a Turquia não conta.

Isto, no fundo, é a Europa alemã que Bismarck sonhou e não tem nada a ver com as comunidades europeias e NATO, que visavam a protecção e reconstrução da Europa, integrando os derrotados num conjunto onde os vencedores seriam sempre dominantes. Não se percebe se a tese de Merkel é pacifista, mas há nas declarações um óbvio cálculo eleitoral de conquista de votos à esquerda. No seu partido, isto deve ser controverso, mas o mais incompreensível é o entusiasmo da esquerda europeia, talvez por causa do anti-americanismo. Na UE, os partidos de esquerda estão a dividir-se em relação à ortodoxia comunitária, os radicais a recusarem o europeísmo e a corrente social-democrata a trair os trabalhadores que foram sempre a sua base social, aplaudindo cada nova vitória dos conservadores ou dos social-liberais, enfim das forças pró-globalização. Para quem toma decisões, grandes fatias do eleitorado deixaram de contar.

Neste contexto, a ambição de levar a União Europeia para um caminho estratégico autónomo é mais um passo na direcção do beco sem saída. Podemos não gostar de Trump, mas abandonar uma aliança com os Estados Unidos que correu bem durante setenta anos, em troca de uma aventura que nem aos alemães convém, só pode ser uma grande ilusão ou um erro monumental.

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O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

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O esquecimento e a desmemória

por Pedro Correia, em 29.05.17

Caroline with her father, President John F. Kennedy

 

Em quatro dos cinco jornais diários generalistas de âmbito nacional que ainda se publicam em papel entre nós, não há hoje uma linha sobre o centenário de John Fitzgerald Kennedy, nascido a 29 de Maio de 1917.

Se o 35.º Presidente dos EUA tivesse sido futebolista, certamente não faltaria espaço para a efeméride num país onde dois canais de televisão supostamente especializados em "notícias" ocupam mais tempo a palrar sobre as tricas do futebol do que sobre qualquer outro tema.

Gastam-se demasiadas palavras a propósito da crise do jornalismo contemporâneo enquanto faltam exemplos concretos que configurem a tradução prática dessa crise - que é de modelo editorial, acima de tudo.

Pois aqui está um. Que devia envergonhar estes jornais que cultivam o esquecimento e se comportam como se a desmemória fosse uma virtude.

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Three Peaks

por Rui Rocha, em 29.05.17

Graças ao governo do Costa, a Laura Palmer não foi assassinada. Está só a fazer um banho de algas. O detective Dale foi substituído por uma mulher para cumprir as quotas. Um sobrinho do Carlos César é agora o Xerife Harry que tinha sucedido na função ao pai e ao avô. A Shelly Johnson deixou o Bobby Griggs e vive com a Donna Marie Hayward. Fizeram um contrato com uma barriga de aluguer mexicana. O Benjamin Horne, outrora o homem mais rico de Twin Peaks, veio viver para Portugal e comprou o palacete de Sintra em que o Phill Collins estava interessado. A filha, Audrey Horne, é colunista do DN. A árvore sussurrante é o Marques Mendes disfarçado de Estrunfe dos Óculos. A sério. Ninguém morre. Não percam tempo a ver a série na televisão. Aproveitem para descansar. Estão todos felizes. Os picos não são dois, são três. O Bloco, o PCP e o PS. O gigante encolheu e até o anão cresceu.

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A ver o Banda passar

por Rui Rocha, em 29.05.17

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Mesmo não sendo encarnado, como português sinto-me ultrajado. Então o David Banda que nós, inchados de orgulho patriótico, vimos com estes que a terra há-de comer vestido com a camisola do Benfica e que imaginávamos a dar cartas pelos estádios desse mundo fora, a levar o nome do país aos mais prestigiados certames futebolísticos, um verdadeiro Centeno da bola, afinal já andou por aí a sonhar com o Paris Saint Germain? Ai o carvalho!

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 29.05.17

COMENTÁRIOS EM CARTAS DE REJEIÇÃO DE EDITORES:

 

UMA CONSPIRAÇÃO DE ESTÚPIDOS – John Kennedy Toole

(1980)

“Obsessivamente estúpido e grotesco”.

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Convidado: MAURÍCIO BARRA

por Pedro Correia, em 29.05.17

 

Delitos de opinião

 

 

Primeiro Delito

Após a Comissão Europeia recomendar que Portugal deve sair do Procedimento por Défice Excessivo, encerrou-se simbolicamente o período que Portugal levou a recuperar (vá lá, ainda está no recobro) da gestão danosa, incompetente, irresponsável e (alegadamente) criminosa de Sócrates, que, enquanto foi primeiro-ministro, nos levou à beira do abismo da bancarrota.

O mérito desta saída, diz-se, foi do governo de Passos Coelho, que trouxe o défice de 12% para os 3%, e do governo de António Costa "que prosseguiu com sucesso esta caminhada histórica" (sic SIC)

Ora bem, este mérito não é uma estatística.

Este mérito foi uma obrigação.

Que durou oito anos.

E quem a pagou fomos todos nós, os portugueses.

Com o PSD, por um lado, e o PS, por outro lado, a imporem-nos as suas receitas que deveríamos cumprir para as pagarmos.

Mas, ao que parece, vamos ser obrigados a continuar a pagar.

Porque nenhum deles, nas funções de Estado para que foram eleitos, procedeu ao ajustamento estrutural do défice da República.

 

 

Segundo Delito

O ajustamento estrutural do défice, as famosas reformas estruturais, não se fizeram, nem se fazem, porque não interessam ao “centrão de interesses políticos e económicos” que se revezam e ocupam alternadamente a “mesa do Estado”.

Vivemos num sistema político endogâmico, que já vai na terceira geração, com uma lógica de ocupação do poder por parte de grupos de afinidades com um único objectivo: controlar o orçamento de Estado, compartilhar os interesses económicos, estar por “dentro “ das decisões financeiras (um caso exemplar foi a saída do Ministro Álvaro Santos Pereira do governo de Passos Coelho: enquanto estávamos todos distraídos com o rigor económico de Vítor Gaspar, o grande inimigo a abater era o verdadeiro reformista desse governo que queria uma economia de mercado a funcionar normalmente, com regulação, escrutínio, investimento em novos sectores estratégicos, sem protecção aos monopólios rendeiros da economia portuguesa. Foi corrido. Paulo Portas fez o seu “número” e o tempo, que entretanto passou, demonstrou os resultados que se pretendia com a sua ridícula irrevogabilidade).

Somos um país pequeno, com uma economia de mercado limitada, onde poucas grandes empresas controlam os vectores essenciais da economia (energia, combustíveis e comunicações), onde as PME’s (sobretudo P’s) ora investem, criam emprego, exportam e alimentam o mercado interno, ora estão muitas vezes descapitalizadas dependendo de apoios “distribuídos” pelo Estado, com uma miríade de micro empresas familiares que são as veias capilares desta economiazinha, com um sistema financeiro em grande parte arguido e em trânsito para ser julgado, que tenta, qual fénix, ressurgir do pântano imoral e antiético em que se afundou, com um quadro legislativo que em parte resulta das relações espúrias de grupos parlamentares permissíveis a interesses particulares, com uma pequena economia paralela que garante a parca sobrevivência e os últimos resquícios de dignidade de trabalho a quem pouco ou quase nada tem, um país onde três milhões setecentos e oitenta e dois mil portugueses se levantam todos os dias para ir trabalhar para sustentarem as suas famílias e as receitas do Estado, e seiscentos e sessenta e três mil funcionários do Estado têm emprego garantido com benefícios por motivos eleitorais (com a excepção merecida dos que trabalham na saúde, emergência, protecção civil e segurança interna e externa)*

*Dados Pordata para 2016

 

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Terceiro Delito

E assim vamos continuar?

Talvez não por muito mais tempo. Mais do que alguns desejam, menos do que alguns quereriam.

A sociedade civil que se interessa sobre a sua vida e a vida dos outros, a grande franja de moderados que não se sentem representados, os democratas que não querem que o país caia em projectos radicais que ponham em causa o seu conforto económico, social e de segurança, os que abominam e se envergonham da corrupção endémica que hoje está perfeitamente investigada e identificada, são os novos agentes de mudança e já começaram a participar nos diferentes níveis da actividade cívica. Vão querer decidir o seu próprio destino.

Ou o PSD e o PS compreendem e se adaptam ao tempo que passa, ou os eleitores desvinculam-se progressivamente. Porque eles, por si só, já mudaram.

É o Novo Centro, democrata e humanista, que despreza o “centrão”.

Nas eleições autárquicas, verificou-se isso claramente.

Nas eleições presidenciais, brutalmente.

Porque começam a estar fartos.

Estão fartos das limitações desta democracia que é uma rotunda da qual não saímos e voltamos sempre ao mesmo sítio, fartos dos complexos de esquerda e direita que estão sempre ao lado dos problemas contra as soluções, fartos das mesmas receitas ideológicas de sempre que futebolizaram e infantilizaram o combate político.

São portugueses europeus.

Não querem continuar a ser um "Portugal dos Pequeninos".

 

 

Quarto Delito

Já repararam que, se vivêssemos num regime presidencialista, o actual sistema partidário estava todo esfrangalhado?

 

 

 

Maurício Barra

(blogue GRANDE HOTEL)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.05.17

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   Uma Faca nos Dentes, de António José Forte

Prefácio de Herberto Helder

Poesia

(Reedição Antígona, 2017)

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Canções do século XXI (59)

por Pedro Correia, em 29.05.17

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Um novo truque...

por Helena Sacadura Cabral, em 28.05.17

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Existe um novo meio - inteligente - especial para assaltar e roubar mulheres. Começou nas garagens dos Centros Comerciais, mas está a alastrar a outro género de locais. 

De que se trata, então? Uma rapariga gira e educada aproxima-se de si com um papelinho impregnado com o último perfume X, ou lança na sua mão umas gotas do dito. 

O aroma até parece agradável, mas é por segundos. A droga colocada no mesmo e aspirada põe qualquer um sem reacção e à mercê do que lhe possam querer fazer...
Não sei se há homens a prestar o mesmo serviço. Mas eles são pouco dados a este tipo de experiências. De qualquer modo aqui fica o alerta a quem possa interessar!

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Fotografias tiradas por aí (357)

por José António Abreu, em 28.05.17

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São Pedro da Afurada, Vila Nova de Gaia, 2010. 

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Leituras

por Pedro Correia, em 28.05.17

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«Graças aos progressos da ciência, qualquer confusão entre história e lenda se torna cada vez menos possível. Uma acaba por fazer justiça à outra.»

Júlio Verne, A Invasão do Mar (1905), p. 41

Antígona, Lisboa, 2005. Tradução de Luís Leitão

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.05.17

«Somos nós que criamos os ídolos danados em falando ad nauseam sobre as suas acções cobardes, em lhes dando inesgotável tempo de antena e voz à vergonha letal que cometeram, que não é de todo terror, é apenas um absurdo corrosivo sem nome e sem raiz, que nunca deveria ter tido história, porque esta escória alimenta-se da mediatização .
Também não acredito que não se saiba onde está e quem é que instiga a extinção da vida como palavra de um deus qualquer.
Ter medo é definhar, é esconder-se nas frestas, é não existir. É dar vitórias a sicários do vazio.
Recuso-me a ter medo. Morrer, morremos todos um dia.

Mais um louco resolveu suicidar-se e massacrar crianças inocentes em nome de um futuro brilhante no qual estará bem morto. O Massacre dos Inocentes também aconteceu e não foi terrorismo, foi política.»

 

Da nossa leitora há Maria Dulce Fernandes. A propósito deste texto da Inês Pedrosa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.17

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  A Lógica ou a Arte de Pensar, de Antoine Arnauld e Pierre Nicole

Tradução, apresentação e notas de Nuno Fonseca

Filosofia

(Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 2016)

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Canções do século XXI (58)

por Pedro Correia, em 28.05.17

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Pensamento da semana

por Sérgio de Almeida Correia, em 27.05.17

A tolerância, a verdade, o partido, o politicamente correcto, o amor ao próximo ou à pátria não devem ser um obstáculo à reflexão. A reflexão não é um incómodo. A sua falta, o silêncio e o permanente desconversar é que são uma fuga que nos torna intolerantes, ímpios e pequeninos. A reflexão sem voz é um acto colectivamente inútil.

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 27.05.17

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O DEUS DAS MOSCAS – William Golding

(1954)

“Não nos parece que tenha sido bem sucedido a trabalhar uma ideia que admitimos poder ser promissora”.

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Leituras

por Pedro Correia, em 27.05.17

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«O que é a memória? Devíamos encontrar outro nome para a maneira como vemos os acontecimentos passados que ainda estão vivos dentro de nós.»

John Le CarréO Túnel de Pombos (2016), p. 330

Ed. Dom Quixote, Lisboa, 2016. Tradução de Ana Saldanha

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O blog da semana

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.17

O meu blog da semana chama-se Nascer na Praia e encontra-se em http://nascernapraia.blogspot.pt/. Porquê este? Porque me surpreende sempre, o que confesso já não é facil. E eu gosto de ser surpreendida. Cada vez mais.

Já não tenho paciência para o expectável, como acontece sempre com tantos blogs em que a matéria (prima) é a política ou o futebol. O mundo existe para além destes temas e parece que ninguém dá por isso. O Nascer na Praia foge ao estereotipo!

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Há 40 anos, em 27 de Maio de 1977, iniciou-se em Angola uma purga dentro do MPLA que terá resultado em mais de 30.000 vítimas mortais. A cisão no partido então presidido por Agostinho Neto teve repercussões na esquerda portuguesa. A linha mais ortodoxa dentro do PCP lançou um manto de silêncio sobre a barbárie. Outra corrente, hoje sobretudo representada no Bloco de Esquerda, tinha evidente afinidade com muitas das vítimas do massacre: Sita Valles, Nito Alves, José Van Dunem ou Rui Coelho para só citar alguns. É à luz destes factos históricos que deve ser lida a posição de total distanciamentodo do regime agora encabeçado por José Eduardo dos Santos que o Bloco de Esquerda mantém. Mas é então errado que o Bloco adopte uma posição de condenação radical do poder corrupto e manchado de sangue de Luanda? Obviamente que não. Mas vale o que vale. Não encontramos no Bloco a mesma coerência quando se trata de avaliar outros regimes totalitários e violentos de esquerda (sobre os de direita o Bloco tem naturalmente uma posição explícita e faz muito bem). No caso da Venezuela, por exemplo, onde se esperava indignação, temos silêncio. A posição do Bloco sobre Angola não resulta portanto de um imperativo ético enquanto tal, transponível para qualquer outra geografia ou momento onde exista violação das mais elementares liberdades e direitos, mas de uma ferida histórica que continua aberta.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.17

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  O Homem da Nave, de Aquilino Ribeiro

Prefácio de Álvaro Domingues

Crónicas da Serra da Nave

(Reedição Bertrand, 2017)

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Canções do século XXI (57)

por Pedro Correia, em 27.05.17

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Frases de 2017 (19)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Como mulher, a dr.ª Assunção Cristas sabe bem que, para se trabalhar, não se pode usar espartilho nem a saia travada. A saia tem de ser larga e, se necessário, vestir calças, que ultimamente não se sabe onde andam. Custam a ver

Gonçalo da Câmara Pereira, vice-presidente do PPM, na celebração de um acordo pré-eleitoral com o CDS em Lisboa (14 de Maio)

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Frases de 2017 (20)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Tenho calçado botas e calças de ganga muitas vezes para estar nos bairros sociais.»

Assunção Cristas, presidente do CDS, na mesma ocasião

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Música recente (99)

por José António Abreu, em 26.05.17

The Mountain Goats, álbum Goths.

Os Mountain Goats são basicamente John Darnielle, que, desde 1994, já lançou 16 álbuns. Vários abordam recordações da juventude, mais ou menos ficcionadas. Goths contém uma série de histórias sobre inadaptados tentando encontrar um lugar no panorama gótico das décadas de 1980 e 1990. O décimo primeiro tema intitula-se For The Portuguese Goth Metal Bands. Mesmo prestando atenção à letra, ainda não entendi bem porquê.

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Desafio aos leitores

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Quem poderá ser o Emmanuel Macron português?

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Convidado: JOÃO LISBOA

por Pedro Correia, em 26.05.17

 

Utopias

 

Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho – , alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”.

Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava “L’Atlas des Utopies”, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita “Utopia” – acerca de cujo autor os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à “República”, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Umberto Eco, por exemplo, em “Serendipities: Language and Lunacy”, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável raccord com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que  "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

 

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Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no “Alfabeto de Ben Sirach”. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático esse, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

 

 

João Lisboa

(blogue PROVAS DE CONTACTO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.05.17

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 História Natural da Estupidez, de Paul Tabori

Tradução de Fernando de Morais

Ensaio

(Reedição Book Builders, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Aura Garrido

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Amanhã

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.05.17

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Amanhã será dia 27 de Maio. Um amanhã diferente daquele que em tempos foi cantado. Uma data triste para Angola, uma data feita de memórias dolorosas. E porque à dor ninguém escapa, envio daqui um forte e fraterno abraço ao Zé, com votos de que o lançamento seja um sucesso e o seu trabalho útil para as gerações vindouras. Angola continua a precisar de todos. E de ter memória da dor.

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Canções do século XXI (56)

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

«Fernando Medina foi criticado por se ter deslocado ao hotel de Madonna, para lhe dar as boas-vindas e ajudá-la a encontrar casa. Há quem diga que se subjugou aos caprichos da cantora, que ela é que devia ter ido à Câmara. Discordo: foi golpe de génio. Se Madonna tivesse de ir do Ritz à praça do Município, demorava três horas só para se desembaraçar da rotunda do Marquês. Provavelmente, desistia de morar numa cidade tão caótica. E perdíamos a honra de ter entre nós a Miley Cyrus dos anos oitenta.

Até há pouco tempo, o sítio onde tivera mais dificuldade em orientar-me fora a medina da cidade de Fez. Agora é a cidade que Medina fez.»

 

José Diogo Quintela, no Correio da Manhã

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Penso rápido (84)

por Pedro Correia, em 25.05.17

Nem só jovens "radicalizados" filhos de imigrantes e nascidos já na Europa ruminam ódio à civilização europeia. Pela sua abertura, pela sua tolerância, pelo seu cosmopolitismo, pelo seu abraço acolhedor à diversidade.
Muitos europeus ancestrais estão na primeira linha do ódio à Europa. Odeiam a democracia liberal europeia e suspiram por um big bang que possa devolver-nos às cavernas.
Esses são os cúmplices morais dos terroristas - os que lhes dão alento e resguardo. Muitos deles acoitam-se sob pseudónimo nas redes sociais, onde exibem os instintos mais predadores e primitivos.
A avaliar pelo que escrevem, já regressaram emocionalmente às cavernas. Ou, no fundo, nunca de lá saíram.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

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  Tempo de Combate, de Baptista-Bastos

Crónicas

(Edição Parsifal, 2014)

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Os pregadores do modo de vida

por Inês Pedrosa, em 25.05.17

Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015

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Canções do século XXI (55)

por Pedro Correia, em 25.05.17

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De Volta dos Livros

por Francisca Prieto, em 24.05.17

Numa livraria do aeroporto de Atlanta, uma senhora idosa agarra num volume de As Cinquentas Sombras de Grey e comenta para outro cliente da loja, num delicioso sotaque sulista - “I heard this is a lovely book”.

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