Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




As canções da minha vida (4)

por Pedro Correia, em 28.02.17

amalia-rodrigues-amalia-no-olympia[1].jpg

 

COIMBRA

1947

 

Lá em casa, desde os tempos da minha mais remota infância, sempre houve canções. Recordo-me de a minha mãe cantar vezes sem conta – e com ela aprendi largas dezenas, talvez centenas, de cantigas. Também o meu pai cantarolava, com menos jeito e um repertório menos vasto – mas foi quanto bastou para dele herdar umas tantas. E ambas as avós me transmitiram igualmente este gene e este gosto de cantar a qualquer momento: são raras as ocasiões em que uma música não me acompanha. Sem necessitar de auriculares.

Foi numa temporada em casa da minha avó materna, teria eu uns cinco anos, que a ouvi cantar Coimbra pela primeira vez. Lembro-me como se fosse hoje: passava ela roupa a ferro enquanto lhe saíam aqueles versos que logo me atraíram a atenção: «Coimbra é uma lição / de sonho e tradição / o livro é uma canção / e a lua, a faculdade.» Não tardei a repeti-la, incapaz no entanto de me aperceber ainda das subtilezas da letra – de tal maneira que durante algum tempo cantarolava “Olívia é uma mulher”. Fazia algum sentido, para o rapazinho que eu era, que a mulher fosse um livro?

Hoje admito que houvesse tanto de nostalgia como de júbilo na cantoria da avó Maria, desenraizada da sua Coimbra natal, onde raras vezes regressou após o casamento. Uma cidade que também passei a considerar minha já em adulto: a voz do sangue nunca nos abandona.

 

Muitos ignoram que Coimbra nasceu no cinema. Corria o ano de 1947, ia estrear-se a longa-metragem Capas Negras, com Amália Rodrigues e Alberto Ribeiro a encabeçar o elenco - cantores-actores de quem o público exigia ouvir trinados. O realizador Armando de Miranda - que sete anos antes divulgara a canção O Meu Alentejo  no filme  Pão Nosso - encomendou uma cantiga emblemática a um dos maiores duos de autores da música popular portuguesa: o compositor Raul Ferrão (1890-1953) e o letrista José Galhardo (1905-1967), que só tiveram de tirar da gaveta uma composição guardada desde 1939.

Assim nasceu esta belíssima Coimbra, interpretada pela primeira vez por Alberto Ribeiro (um dos estudantes no filme, juntamente com Artur Agostinho e Igrejas Caeiro) mas cedo popularizada por Luís Piçarra e pela própria Amália, que a cantou durante anos nos seus espectáculos e a incluiu no seu primeiro LP editado em Portugal, Amália no Olympia (1957).

Capas Negras foi um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português: permaneceu 22 semanas em cartaz, atraindo cerca de 200 mil espectadores ao Condes, sala lisboeta onde se estreou.

 

O tema de Ferrão e Galhardo não tardou a correr mundo, tanto em versões instrumentais como vocais, sob o título genérico Abril em Portugal adaptado ao respectivo idioma, tornando-se no mais perdurável cartaz turístico do nosso país em forma de música. Logo em 1947 o compositor e letrista irlandês Jimmy Kennedy (1902-1984) elaborou os versos ingleses do tema, que viria a ser celebrizado nas vozes de Louis Armstrong, Bing CrosbyVic Damone e Tony Martin. Em 1953 ascenderia ao segundo lugar do top da Billboard, na versão instrumental da orquestra de Les Baxter. Outras se seguiram, incluindo as de Xavier Cugat e Ray Conniff.

Em francês foi popularizada a partir de 1950 por Yvette Giraud e Eartha Kitt, com versos de Jacques Larue (1906-1961).

Roberto CarlosJulio IglesiasCaetano Veloso - entre tantos outros - também lhe deram voz.

Mas ainda hoje estou convencido de que nunca ninguém a cantou tão bem como a minha avó.

«Coimbra do choupal / Ainda és capital / Do amor em Portugal, ainda. / Coimbra onde uma vez / Com lágrimas se fez / A história dessa Inês tão linda.»

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Música recente (74)

por José António Abreu, em 28.02.17

Rhiannon Giddens, álbum Freedom Highway.

Giddens já passou por vários projectos. Este é o seu segundo álbum a solo. O primeiro, lançado em 2015, tinha o número mínimo de originais para não poder ser classificado com exclusivamente de versões. Desta feita, nove dos doze temas são originais, mas alguns parecem tão genuínos que é como se pudessem ter sido compostos em meados do século XIX e cantados em torno de fogueiras no Texas ou em plantações de algodão no Louisiana. Há aqui uma preocupação com a história dos Estados Unidos, com as lutas, os sacrifícios e a violência que ela incluiu. A canção At the Purchaser's Option, no vídeo acima, é inspirada num anúncio verdadeiro, no qual uma escrava de 22 anos é oferecida para venda, ficando à consideração do comprador a inclusão no negócio da sua filha de nove meses. Outros temas estabelecem relações com os tempos actuais, através das letras mas também da música, que inclui espirituais negros, blues, folk, country, toques de jazz, até mesmo hip-hop. Estranho mas acessível, tradicional mas desafiante, duro mas inspirador, atrevo-me a afirmar, após somente um par de audições, que vai constituir um dos meus álbuns do ano.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.02.17

1484574520_AxaXpCkqDZsKqjqmPNt[1].jpg

 

As Novas Aventuras de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe

Tradução de Virgílio Tenreiro Viseu

Romance

(edição E-primatur, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Vai levar a palma ao Saraiva

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.17

"Basta o residente não ser “habitual”, isto é, ser estrangeiro ou ter regressado de uma estadia de mais de cinco anos fora do país, para Portugal ser um domicílio fiscal muito agradável. No portal das finanças, está confessado o objectivo de “atrair beneficiários de pensões obtidas no estrangeiro”. Resultou no caso da Suécia, donde as partidas para Portugal terão triplicado entre 2011 e 2014."

 

Se António Costa tivesse alterado o regime teria feito mal porque Portugal precisava dessas receitas. Como até agora ainda não o alterou, António Costa faz mal na mesma. É lógico, de acordo com a irrepreensível lógica do historiador Rui Ramos.

Apenas lamento que Rui Ramos não tivesse perguntado na altura, isto é, no tempo do governo da coligação PSD/CDS-PP, quando essas partidas da Suécia para Portugal ajudaram a compor as contas de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque (e ainda assim foram insuficientes para atingirem um défice de acordo com as exigências de Bruxelas), se também então podíamos ser suecos.

É que se o Governo de Passos Coelho (o das ajudas de custo e despesas de representação), do "Dr." Relvas (o da licenciatura a jacto) e do Dr. Macedo (o dos vistos gold) me tivesse permitido, nessa altura, ser sueco, talvez hoje, a milhares de quilómetros, não me sentisse tão português e tão parecido com os gregos de cada vez que transfiro dinheiro para pagar as contribuições da minha futura reforma.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Então e os outros?

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.02.17

 

pedro ferraz da costa fiscaliza tap.jpg

"Acho extraordinário que seja possível deitar pela janela fora dezenas de milhares de milhões de euros e ninguém preste contas sobre o que é que aconteceu. O que é que o Banco de Portugal andou a fazer durante estes anos todos? Porque é que os senhores que saem, depois de não terem conseguido tomar conta dos recados, depois já podem voltar? Porque é que há esta dança de cadeiras e ninguém assume responsabilidades em relação a assunto nenhum? O que é que nos garante que não vai voltar a acontecer?"

"Porque é que neste caso [CGD], que custa ao erário público milhares de milhões, não se pode saber?"

"Ameaça ao regime? Pobre regime se depende só disso. Era uma ameaça aos ladrões."

"Como é que é possível pensar que uma tão grande parte da população aceita que uma parte importante dos impostos, que paga com esforço, seja para cobrir coisas que ninguém sabe bem o que é que foi? Lança-se suspeições sobre tudo no geral. Eu não acredito que todas as pessoas se portem mal. Agora, acho que é muito útil saber-se que, quando se tem determinados lugares, se pode ser responsabilizado pelo que se faz. Em Portugal, temos muita dificuldade em sair deste bom rapazismo, onde ninguém diz mal de ninguém, ninguém critica, porque ‘amanhã também posso precisar’. É um ambiente péssimo."

 

Alertado pelo título de uma notícia do Observador, fui ler a entrevista de Pedro Ferraz da Costa ao ECO (economia online).

Há muitos pontos em que estou em clara divergência com Pedro Ferraz da Costa, Presidente do Conselho Directivo do Fórum para a Competitividade, mas não posso deixar de concordar com ele quanto às transcrições que acima faço.

Distâncias à parte, aquilo para que o entrevistado chama a atenção não constitui nada de novo. Em causa estão factos cujo conhecimento está ao alcance de qualquer cidadão minimamente interessado, factos que ciclicamente se repetem, de tal forma que ao fim de quatro décadas de democracia são quase que assumidos como se fossem normais. Só assim, aliás, se compreende que se continuem a fazer as coisas como sempre se fizeram, nunca se percebendo muito bem quem se quer ou se está a proteger nesse modo de assim fazer. A começar pelas comissões parlamentares de inquérito que não raro só servem para o espectáculo mediático.

E embora não deixe de ser preocupante que se tenha chegado ao ponto de ser um patrão, num país de tantos trabalhadores, a fazer tais afirmações e a colocar as interrogações que todos a nós próprios há muito devíamos ter formulado, importaria não restringir o âmbito dessas questões ao universo da CGD. Eu também quero saber, e todos devíamos querer saber, quem foram, quem são, os tipos (não vou ao ponto de lhes chamar "ladrões") que beneficiaram com as moscambilhas da PT, do BES, do BANIF e de todas essas empresas que andando paredes-meias com o Estado e com alguma maltosa que andou, e que ainda anda, alguns de forma dissimulada, pela política e os partidos, beneficiam das negociatas, dos esquemas e dos empréstimos, não prestando contas a ninguém, sendo permanentemente desresponsabilizados e dando cabo dos milhões que depois sobram para os portugueses pagarem.

É fundamental saber, até para que no futuro não haja governantes a incluírem em comitivas oficiais empresários em situação de insolvência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (394)

por Rui Herbon, em 28.02.17

41GX57R6EAL._SY300_.jpg

 

 

Autor: Juana Molina

 

Álbum: Tres Cosas (2002)

 

Em escuta: Sálvese Quien Pueda

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções da minha vida (3)

por Pedro Correia, em 27.02.17

R130005215[1].jpg

 

C'EST SI BON

1948

 

Algumas canções acompanham-nos vida fora, etapa após etapa. Estão presentes quando precisamos delas. Ajudam-nos a encarar a vida com doçura, a desvendar-lhe a face mais prazenteira e sorridente.

Acontece com esta, minha parceira de tantas manhãs inundadas de sol. Segue-me desde a adolescência: julgo que a escutei pela primeira vez no meu ano de caloiro no liceu. Vivíamos muito longe de Portugal, numa cidade do antigo império colonial, sem televisão, onde os bailaricos eram um dos divertimentos mais assíduos, com música ao vivo improvisada a partir dos acordes das orquestras de Paul Mauriat e James Last escutadas no leitor de cassetes – novidade absoluta à época.

 

Foi numa dessas cassetes, em versão instrumental, que ouvi pela primeira vez C’ Est Si Bon. Ainda sem saber que as célebres nove primeiras notas deste tema musical haviam surgido por inspiração do acaso ao compositor Henri Betti (1917-2005), quando passeava nas emblemáticas arcadas da sua Nice natal num dia do Verão de 1947. Pianista habituado a acompanhar Maurice Chevalier nos anos da ocupação nazi em França, Betti não tardou a completar a partitura, pedindo de seguida ao seu amigo André Hornez (1905-89), exímio escritor de canções, que lhe improvisasse uma letra.

Assim surgiu um dos mais famosos marcos da canção francesa, então no auge pelas vozes de Edith Piaf, Charles Trenet e do jovem Yves Montand, entre tantos outros. Foi precisamente a Montand que Betti e Hornez remeteram a canção, inicialmente destinada a ser incluída no seu novo repertório, numa série de espectáculos no parisiense Théâtre de l’ Étoile, a partir de Outubro desse ano. Mas o cantor preferiu guardá-la e foi ultrapassado por outro intérprete: a estreia de C’est Si Bon ocorreu a 18 de Janeiro de 1948 na rádio e um mês depois em registo discográfico, com 2 minutos e 40 segundos de duração, na voz do malogrado Jean Marco acompanhado pela popular orquestra de Jacques Hélian.

Começava a ser um sucesso quando Montand enfim a gravou, em Maio. E ficou para sempre associado ao tema, que deu várias voltas ao mundo em diversos idiomas – incluindo o inglês, gravado por Louis Armstrong com a orquestra de Sy Oliver, em Junho de 1950, e o português, interpretado pela brasileira Rita Lee, com letra de Roberto de Carvalho (1988).

Uma das versões mais famosas teve como intérprete Dean Martin, no seu álbum French Style, datado de 1962.

 

C’ Est Si Bon, um foxtrop sensual e festivo, perdura como símbolo musical daqueles trinta anos gloriosos da Europa que se ergueu das cinzas da guerra e se reinventou com uma energia digna de causar inveja ao mundo.

Tempos irrepetíveis, em que todos os sonhos prometiam tornar-se realidade e em que não faltava quem acreditasse que nunca mais guerra alguma voltaria a obscurecer os dias.

 

«C'est si bon / De partir n'importe ou, / Bras dessus, bras dessous, / En chantant des chansons. / C'est si bon / De se dir' des mots doux, / Des petits rien du tout / Mais qui en disent long.»

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Então e a indústria de Hollywood? Tão avançada, tão progressista, tão activista, tão pelos direitos, tão pelas minorias, tão anti-estereótipo, tão anti-Trump. E depois, vai-se a ver e é na própria cerimónia dos Óscares que se perpetua a discriminação de género. Um Óscar para o melhor actor e outro para a melhor actriz? Porquê? O que é que a Academia quer dizer com isso? Acaso as mulheres não seriam capazes de ganhar aos homens se concorressem na mesma categoria? É isso? É o contrário? E os intergénero? Onde está o Óscar para os intergénero? Pelo Óscar unificado para o melhor desempenho sem discriminação de género, já! E, se for preciso, com quotas, para evitar abusos. E, já agora, o Óscar para o melhor desempenho animal? O PAN não diz nada? Mas que vergonha é esta? E os preocupadinhos com o brinquedo para meninos e para meninas do McDonald´s? Onde é que andam?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Palavras para recordar (19)

por Pedro Correia, em 27.02.17

imagesHDPQ1XAU.jpg

 

ALBERTO JOÃO JARDIM

Jornal da Madeira, 24 de Dezembro de 2011

«Resta saber se Portugal, com a independência nacional em parte bastante perdida, ainda é um Estado democrático de Direito.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Perdoai-lhes que não sabem o que fazem

por Rui Rocha, em 27.02.17

A Ryanair, por exemplo, tem partidas do Porto para Roma Ciampino às quartas com regresso às segundas. Marcando com antecedência, encontras viagens de ida e volta para duas pessoas por 150 euros. Cinco noites de hotel com mais que razoável conforto na capital italiana saem-te por 450 euros. Estimemos ainda um total de 400 euros para transportes e alimentação. Estamos portanto a falar de um custo total de 1000 euros para duas pessoas para 6 dias e 5 noites em Roma com a possibilidade de visitar o Coliseu, a Fontana de Trevi ou o Fórum Romano. Se fizeres questão, podes ir ao Vaticano no Domingo ver o Papa. Entretanto, leio que estão a pagar 1000 euros por uma noite em saco-cama para dois adultos durante a visita papal a Fátima. Deus me perdoe, mas é preciso ser-se parvo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.02.17

th_72414cb6a57e756d13984d10339137c1_1485701146C_Qu

 

 O que faria eu se estivesse no meu lugar?, de Celso Filipe

Entrevistas com António Lobo Antunes

(edição Planeta, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O «êxito» nacional - rapidinhas

por José António Abreu, em 27.02.17

O crescimento.

Ficou abaixo do que o PS prometera. Ficou abaixo do que, segundo o PS, teria sido com um governo PSD-CDS. Ficou abaixo do que foi em 2015. Ficou acima das previsões mais pessimistas.

 

A dívida.

A resolução do Banif foi precipitada para 2015. A recapitalização da Caixa foi adiada para 2017. Ainda assim, subiu em termos absolutos e talvez em percentagem do PIB.

 

A austeridade.

Foi transferida dos salários para os equipamentos e para o material, dos funcionários públicos para a generalidade dos cidadãos, desapareceu dos noticiários e, por conseguinte, terminou.

 

Os juros.

«Para o infinito e mais além», anunciaria Buzz Lightyear.
 

O investimento.

Foi aplicado em publicidade institucional.

 

A transparência e a ética republicana.

Completamente garantidas pela inviolabilidade das mensagens sms.

 

O PCP e o Bloco.

Desta vez são cúmplices.

 

O presidente.

O indivíduo deslumbrado que tenta parecer um gajo porreiro, emite opinião sobre tudo, inventa factos e distribui facadinhas nas costas. Que melhor representante do país se poderia arranjar?

 

O défice.

Com ou sem o perdão fiscal, o congelamento do investimento, a venda dos F-16, as cativações, a reavaliação de activos, o atraso nos pagamentos a fornecedores?

 

«O défice mais baixo da democracia portuguesa.»

Onde é que já ouvi isto?

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (393)

por Rui Herbon, em 27.02.17

XAT-1245384967.jpg

 

 

Autor: Tamba Trio

 

Álbum: Tamba Trio (1962)

 

Em escuta: Nós E O Mar

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leituras

por Pedro Correia, em 26.02.17

IMG[1].jpg

 

«Aquele que desespera dos acontecimentos é um cobarde, mas aquele que tem esperança na condição humana é um louco

Albert CamusCadernos II (1964), p. 98

Ed. Livros do Brasil. Tradução de António Quadros. Colecção Miniatura, n.º 162

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fotografias tiradas por aí (344)

por José António Abreu, em 26.02.17

Blogue_paisagem51_Candal_SLousã_2017.jpg

Candal, Serra da Lousã, 2017.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 26.02.17

«Um processo aqui, um caso de corrupção ali, uns empréstimos sem retorno, uns favores a amigos, uns assaltos a empresas, algumas manipulações do mercado, umas transferências para offshores, muita mentira e uma prodigiosa incompetência fizeram da "jóia da coroa" o que ela parece hoje e que faz com que os políticos tenham receio do pântano. Fica-se cada vez mais com a impressão de que o caso da Caixa é o caso do regime: tudo anda ligado, da política à banca, da PT aos telemóveis, das águas aos petróleos, da electricidade à celulose, do BES ao Banif, do BPN ao BCP... Podem fazer-se todos os inquéritos imagináveis, ficará sempre algo de fora, aparecerá sempre, à última hora, novo facto inesperado que permita negociação futura e ocultação passada. Debaixo de cada pedra há lacrau ou veneno. E muitos parecem interessados em esconder e esquecer. Mas acrescentam sempre qualquer coisa. (...) Se a democracia portuguesa não consegue apurar responsabilidades, julgar culpados, castigar nepotes e afilhados e refazer um banco seguro e honesto, se a democracia portuguesa tal não conseguir, condena-se a si própria. O processo da Caixa corre o risco de vir a ser o processo do regime.»

António Barreto, no Diário de Notícias

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.02.17

a898fe231dda756b7d3abb761c2af059_XL[1].jpg

 

Santos e Milagres, de Alexandre Borges

Uma história portuguesa de Deus

(edição Casa das Letras, 2017)

"O autor escreve segundo a antiga ortografia"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Antes tarde

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.02.17

"Tendo em conta o tempo que decorreu entre os factos e o presente e tendo tido agora a oportunidade de revisitar os documentos que têm sido noticiados, nomeadamente os apresentados pelos serviços para publicação de informação estatística das transferências transfronteiriças, considero legitima a interpretação dos serviços que levou à não publicação das estatísticas no portal das Finanças. Assumo, por isso, a responsabilidade política pela não publicação das referidas estatísticas."

Só fica a faltar a assunção de responsabilidades pelos seus exaltados superiores, que vêem conspirações e indignidades em tudo o que não lhes convenha em matéria de apuramento de responsabilidades. Entretanto, puxem uma cadeira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da semana.

por Luís Menezes Leitão, em 26.02.17

Desde que me conheço sempre fui um apaixonado por livros, pelo que costumo comprar com regularidade as novidades que surgem no mercado editorial. Mas também sempre me interessaram as obras que já não se conseguem encontrar, nem sequer nos alfarrabistas. E para isso a única possibilidade que temos é ir às bibliotecas. Passam-se momentos magníficos nas bibliotecas, normalmente edifícios com salas amplas e enormes galerias, em que os funcionários velam pelo silêncio como se fossem guardiões de um templo. Normalmente temos por isso um tempo de espera em silêncio nessa sala até que nos tragam finalmente a preciosidade que procurámos em vão durante tanto tempo. Depois resta-nos esperar que o horário da biblioteca seja compatível com o tempo que precisamos para ler essa obra. Neste mundo da internet e do audiovisual, as bibliotecas merecem uma atenção especial, sendo por isso importante um blogue que a elas se dedica. O Bibliotequices é por isso o blogue da semana. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (392)

por Rui Herbon, em 26.02.17

R-473294-1349353671-6633.jpeg.jpg

 

 

Autor: Gigi

 

Álbum: Gigi (2001)

 

Em escuta: Tew Ante Sew

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sala cheia também em Braga

por Pedro Correia, em 25.02.17

16997731_1896393907311455_4688203950433299862_n[1]

 Marques Mendes esta tarde, durante a apresentação do livro

 

Mais de cem pessoas acorreram esta tarde à Livraria Bertrand no Shopping Liberdade, em Braga, para a sessão de apresentação da Política de A a Zrepetindo o êxito ocorrido em Lisboa, a 26 de Janeiro.

Diversas figuras da política local - não apenas a nível da cidade mas do distrito - compareceram neste evento, que contou com a apresentação de Luís Marques Mendes, conselheiro de Estado e ex-presidente do PSD, e Nuno Almeida Barreto, membro da Comissão Política Distrital do PS.

Marcaram presença, por exemplo, o deputado socialista Joaquim Barreto, líder do PS-Braga, e o ex-deputado Ricardo Gonçalves, actual membro da Comissão Nacional do PS. Tive o prazer de reencontrar também, entre amigos e conhecidos, duas grandes figuras da blogosfera: o nosso Rui Rocha e José Meireles Graça, do imprescindível Gremlin Literário.

Darei destaque autónomo, noutro texto, às simpáticas e generosas palavras de Marques Mendes nesta sessão de promoção da obra, que assino em parceria com Rodrigo Gonçalves. Política de A a Z é um dicionário enciclopédico com 333 entradas - de Absolutismo a Zé Povinho - que pretende encurtar distâncias entre eleitores e eleitos, descodificando e descomplicando o jargão político. "Esta obra é um acto de cidadania", sublinhou Nuno Barreto.

O livro - divulgado pela editora Contraponto como "um guia para compreender todos os segredos da política" - pretende colmatar uma lacuna do mercado editorial português num ano em que muito se falará em política, por cá e lá fora. A propósito da nova administração norte-americana, dos processos eleitorais em França, Holanda e Alemanha, das eleições autárquicas portuguesas e do centenário da Revolução de Outubro na Rússia.

A próxima sessão de apresentação está prevista para o Porto, a 9 de Março.

 

2017-02-25 16.46.29.jpg

 Exemplares da 'Política de A a Z', na Bertrand de Braga

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamento da semana

por Teresa Ribeiro, em 25.02.17

Em defesa de Centeno há que reconhecer que a solução que ele encontrou para convencer António Domingues a ir para a CGD foi muito fora da caixa.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

Distracções

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.17

708524.jpeg

 (foto Daniel Rocha/Público)

O País arranjou mais um motivo para se entreter, para se perder em discussões estéreis e, provavelmente, arranjar mais uma comissão para não concluir coisa alguma.

É normal que em Portugal os dirigentes se desresponsabilizem de cada vez que há problemas nas áreas sob a sua responsabilidade ou que as suas receitas não dêem os resultados esperados. E tanto faz que sejam membros do Governo, actuais ou passados, autarcas, administradores de empresas ou responsáveis partidários. As excepções são raras e contam-se pelos dedos de uma mão.

Todavia, não existe nada de mais reprovável num dirigente do que não só desresponsabilizar-se como ainda aproveitar para atirar responsabilidades para os inferiores hierárquicos. Como se eles, dirigentes, não estivessem lá para exercerem o poder, para mandarem, para tomarem decisões, para assumirem os riscos do mando, para usufruírem dos respectivos benefícios e cumprirem as obrigações que se esperam de um dirigente, das quais uma das menos olvidável será a do legado e do exemplo que deixem para os seus subordinados, embora sejam poucos os que se preocupam com a imagem que transmitem para dentro e para fora da organização a que pertencem.

Os maus exemplos têm-se multiplicado, alguns começando mesmo na Presidência da República e na Gomes Teixeira. De S. Bento, e do papel de alguns deputados, há muito que deixou de fazer sentido falar-se do que a maioria por ali faz, pois são poucos, em especial nos maiores partidos, os que produzem algo de útil e fazem mais do que levantar o braço ou carregar num botão nos momentos das votações, funcionalizada como está, a todos os níveis, a política e o exercício da função de deputado. São deputados mas se estivessem a picar o ponto num qualquer serviço da administração pública ou numa fábrica ninguém notaria a sua falta. 

O que neste momento se repete com a saga das "offshores", com as estatísticas que ficaram por divulgar, com os 10 mil milhões que voaram nas barbas do fisco, do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais e dos titulares das Finanças, corresponde ao padrão habitual (e repare-se que não estou a discutir se era devido o pagamento de quaisquer impostos ou não). Uma vergonha que é a imagem de uma boa parte da nossa elite dirigente, daquilo que temos à disposição nos partidos e nos Governos e um exemplo da forma como os responsáveis são os primeiros a se desqualificarem, protegendo os partidos essa recorrente desresponsabilização.

Sempre pensei que responsáveis políticos, administrativos e empresariais que se limitam a colocar "vistos" nas informações e propostas que lhes chegam remetidas pelos subalternos dariam excelentes amanuenses, servindo para tudo menos para dirigir o que quer que fosse. Como se essa gente não fosse paga para dirigir, orientar e decidir.

Atirar para a Autoridade Tributária a responsabilidade pelas consequências dos seus próprios "vistos" (o que é que um tipo faz com um "visto"?), bem como a ausência de resposta às propostas que lhe foram enviadas para a divulgação das estatísticas, não está ao nível do que se espera de um secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, mas sim ao nível de um cabo de esquadra.

Não admira, pois, que à medida que se vai sabendo mais alguma coisa sobre o que foi o descalabro da gestão de Núncio e do CDS-PP nos Assuntos Fiscais, um cidadão normal fique preocupado ao recordar-se de ouvir o "atira-culpas" dizer que "quando os socialistas gastarem o dinheiro que ainda resta e a festa acabar, o CDS tem de estar preparado para exercer uma vez mais o exercício do poder e a sua acção governativa". 

Como já se viu que latosa é coisa que não lhe falta, calculo que para Núncio o dinheiro que os socialistas andam a gastar será aquele que resta, ou seja, aquele que ele e os seus pares no Governo não conseguiram que saísse do país com os tais 10 mil milhões, já que só assim se compreende a desfaçatez com que o afirma.

Mas esse é um problema do visado e do partido que lhe dá guarida.

o modo como tudo isto é visto pela direcção do partido a que Paulo Núncio pertence, que se permite afirmar "que sobre o combate à fraude e à evasão fiscal, nós estamos muito tranquilos, porque sabemos muito bem o que fizemos no anterior Governo" (vê-se), é um problema dos seus militantes, dos seus eleitores e de todos nós. Como também foi, e ainda é um problema de todos nós, só para referir alguns exemplos, o que aconteceu com José Sócrates ou com as PPP, com o desempenho presidencial de Cavaco Silva, com a CGD, com a PT ou com o modo como as nossas autoridades judiciárias continuam a investigar e a julgar.

Seria por isso bom que os portugueses não se distraíssem com os núncios e as freiras que por aí arengam, nem com os seus números de feira, perdendo de vista o essencial.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.02.17

1470480305_fY5dOg71IJrZx6P10uy[1].jpg

 

Jurgen - Uma Comédia da Justiça, de James Branch Cabell

Tradução de Virgílio Tenreiro Viseu e António Hawthorne Barrento

Romance

(edição E-primatur, 2016)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

RH Music Box (391)

por Rui Herbon, em 25.02.17

01978c_3721317a1e924d4bbdb0a11a68a1eac1.jpg_256

 

 

Autor: Anelis Assumpção

 

Álbum: Amigos Imaginários (2014)

 

Em escuta: Mau Juízo

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Braga, amanhã, às 17 horas

por Pedro Correia, em 24.02.17

thumbnail_CONVITE_Política%20de%20A%20a%20Z_BRAGA

Autoria e outros dados (tags, etc)

Já li o livro e vi o filme (173)

por Pedro Correia, em 24.02.17

9789896413842[1].png

014-letter-from-an-unknown-woman-theredlist[1].jpg

 

CARTA DE UMA DESCONHECIDA (1922)

Autor: Stefan Zweig

Realizador: Max Ophüls (1948)

O pungente conto epistolar do grande escritor austríaco inspirou o filme homónimo de Ophüls, cineasta alemão exilado em Hollywood, originando um dos mais inesquecíveis melodramas da Sétima Arte. Com Joan Fontaine e Louis Jourdan.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Música recente (73)

por José António Abreu, em 24.02.17

Ty Segall, álbum Ty Segall.

Um dos comentários a este vídeo no Youtube é cruel: «dad music». Seja. Apreciar rock de garagem estará fora de moda, mas estar fora de moda pode ser uma maneira de combater as tendências para a uniformidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

De facto inaceitável.

por Luís Menezes Leitão, em 24.02.17

Dou inteira razão à Ministra sueca. É de facto inaceitável que um país se proponha isentar reformados estrangeiros de imposto sobre as pensões ao mesmo tempo que sangra os seus nacionais com taxas de imposto sobre o rendimento expropriatórias e, não contente com isso, ainda vem a seguir lançar mais impostos sobre o património que os desgraçados ainda conseguiram poupar, apesar da sangria fiscal sobre o seu rendimento. Se os reformados suecos estão cá a residir, e beneficiam dos nossos serviços públicos, então que paguem impostos como toda a gente. Basta o que basta!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 24.02.17

9789722533201_As afinidades electivas[1].jpg

 

As Afinidades Electivas, de Johann Wolfgang Goethe

Tradução de Maria Assunção Pinto Correia

Romance

(edição Bertrand, 2017)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Belles toujours

por Pedro Correia, em 24.02.17

15547012_mcqIw[1].jpg

 

Oceana Basílio

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (390)

por Rui Herbon, em 24.02.17

original.jpg

 

 

Autor: Sun Ra

 

Álbum: The Antique Blacks (1974)

 

Em escuta: This Song Is Dedicated To Nature's God

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções da minha vida (2)

por Pedro Correia, em 23.02.17

Porgy_and_Bess_(Armstrong_&_Fitzgerald)[1].jpg

 

SUMMERTIME

1935

 

Já não me recordo qual foi a primeira vez que a ouvi. Mas sei bem que me prendeu para sempre. Com aquela toada dolente e melancólica - cantiga de embalar inspirada em espirituais negros, memória musical de uma América sulista ainda com ecos da escravatura.

É impossível ficar indiferente ao sortilégio desta canção composta pelo inigualável George Gershwin (1898-1937), talvez inspirado nas melopeias eslavas que a mãe Rosa, imigrante russa transplantada para Brooklyn, lhe entoava no berço.

Summertime é o mais inesquecível trecho da ópera Porgy and Bess que Gershwin, no auge da sua fama como compositor, estreou em Outubro de 1935 na Broadway. E a partir daí ganhou asas, adquirindo expressão própria: tornou-se um inconfundível standard de jazz, interpretado em mais de 25 mil versões oficialmente registadas ao longo de oito décadas de história da música norte-americana em múltiplas vozes - de Billie Holiday a Norah Jones, passando por Janis Joplin. Sem esquecer a notável versão dos Sheiks em Portugal (1965).

 

Stephen Sondheim elegeu-a como a mais bela canção de sempre - não apenas pela hipnótica partitura do judeu novaiorquino mas também pelos versos de DuBose Heyward (1885-1940), autor do romance Porgy (1925), no qual a ópera se inspirou, e do libretto de Porgy and Bess, em parceria com Ira Gershwin (1896-1983), irmão de George. Poema e pauta combinam na perfeição, sugerindo a languidez estival a que alude a palavra inicial. Precisamente a que dá origem ao título.

Holiday foi a primeira a gravá-la com sucesso, em Setembro de 1936. Mas ninguém a interpretou de forma tão calorosa e envolvente como Ella Fitzgerald, num dos melhores álbuns que a história discográfica já registou: Porgy and Bess, em dueto com Louis Armstrong, que também canta além de nos propiciar o luxurioso som do seu trompete.

Escuto uma vez e outra o CD - e é sempre como se fosse a primeira vez. São 4 minutos e 58 segundos de pura arte musical, gravados em Agosto de 1957. No ano seguinte Porgy and Bess saltaria enfim do teatro musicado e do disco para o cinema, com o filme homónimo de Otto Preminger interpretado por Sidney Poitier, Dorothy Dandridge, Sammy Davis Jr, Pearl Bailey e Diahann Carroll. Um elenco só negro, por imposição de Ira Gershwin, detentor dos direitos da obra. Anos antes recusara a ridícula sugestão de Harry Cohn, patrão da Columbia Pictures, de rodar o filme com Fred Astaire e Rita Hayworth maquilhados de afro-americanos.

 

Dou por mim inúmeras vezes a trautear Summertime. Seja para celebrar os dias estivais, seja para antecipá-los. Crente como Ruy Belo que "é triste no Outono concluir que era o Verão a única estação".

Conheço-me bem: é sempre bom sinal.

 

«Summertime / And the livin' is easy / Fish are jumpin' / And the cotton is high // Your daddy's rich / And your mamma's good lookin' / So hush little baby / Don't you cry // One of these mornings / You're going to rise up singing / Then you'll spread your wings / And you'll fly to the sky.»

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ele que se chegue à frente

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

antonio_domingues_1-925x578.jpg

 (foto JE, Cristina Bernardo)

Começo a ficar nauseado com as notícias que leio da novela da CGD. Estou cansado da conversa dos sms de António Domingues para Mário Centeno. Eu sei que há quem não queira que sejam divulgados, apesar de poder perceber a razão. E também que o Presidente da República tivesse ficado incomodado com a situação.

Estou por isso mesmo de acordo com a proposta do líder parlamentar do BE.

Se o Dr. António Domingues faz tanta questão em "enterrar" o ministro das Finanças, por se sentir enganado, despeitado ou injustiçado, então que se chegue à frente. E em vez de andar a verter os sms pelos amigos aos bochechos, que depois os vão mostrar ao Presidente da República, aos jornais e a todos os que com eles tomam café, e que no dia seguinte reproduzem veladamente o respectivo conteúdo sem que a gente (opinião pública, cidadãos normais) possa saber quem verdadeiramente está a falar verdade ou a mentir, o ideal é que tenha a coragem de os mostrar de uma vez por todas para se acabar com o forró e não se perder tempo com comissões e merdas quejandas tão ao gosto daquela rapaziada das "jotas" de São Bento.

O Dr. António Domingues que convoque uma conferência de imprensa e distribua uma impressão dos sms à comunicação social. Será a única maneira das comunicações ficarem acessíveis a todos de uma vez e de cada um poder tirar, sem filtros nem intermediários, as respectivas conclusões.

Não acredito que alguém na posição de António Domingues, com o seu currículo e tão elevado sentido da honra e da palavra, necessite de andar a passar a informação dos sms, às escondidas, para o Observador e o Correio da Manhã. A não ser que haja que cumprir a agenda de alguém, haja mais alguma coisa que ainda não nos tenha sido dita ou lhe falte uma outra coisa. 

De qualquer modo, seja qual for a razão, será bom que se despache. Não vale a pena continuar com esta farsa. O País tem mais que fazer do que perder tempo com novelas deste jaez. Era só o que faltava ter agora de aturar um tipo de conversa como este, vindo de onde vem, sobre os sms.

Acabem lá com isso. O Dr. Domingues que seja homenzinho e mostre ter sentido de responsabilidade. Ninguém é insubstituível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.02.17

1475430088_RtLFLZU5n6dtspSCub9[1].jpg

 

Grandes Esperanças, de Charles Dickens

Tradução de Armando de Morais

Romance

(edição E-primatur, 2016)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Mais um caso para o Poirot

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.02.17

hercule-poirot.jpg

O ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desconhece de que assunto se trata. Eu também. Os inspectores tributários querem ver esclarecido o destino de 10 mil milhões de euros. Eu também. O Ministério das Finanças e os partidos, através dos seus deputados no parlamento, querem saber o que se passou. Eu também.

Entretanto, "[h]á oito meses que estão a marinar no Parlamento várias propostas para combater a “criminalidade económica, financeira e fiscal”". Só há oito meses?

Longe de Portugal, perdido como já estou no meio de tantas "reformas" do Estado, da Administração Pública e de tudo e mais alguma coisa, creio que a pessoa ideal para esclarecer o que aconteceu aos milhões, e todos os outros mistérios que assolam o nosso país, é o meu velho amigo Hercule Poirot. É tipo para fazer um trabalho limpinho. Não cobra honorários, desconhece o que são horas extraordinárias ou subsídios, não é funcionário do Estado, não depende de nenhum partido, não pede emprestado aos amigos, nunca foi ao BES, não conhece ninguém na CGD, e ainda confidenciou-me que não faz tenções de se reformar. 

Para já, é uma sorte que se saiba quem são os beneficiários do subsídio de lavagem. Desta parte está o Poirot livre. Mas, pelo sim, pelo não, o melhor é que ele também investigue se todos os que recebem o subsídio tinham um carro para lavar. Ainda me lembro de em tempos haver uns figurões que recebiam um subsídio de residência, por estarem deslocados em Lisboa, tendo casa própria na capital. E houve um que até foi a correr mudar a residência para o Algarve para passar a receber o subsídio.

Em Portugal, nestas coisas das lavagens, seja dos carros ou dos milhões, sabe-se sempre quem paga e quem fica sem os milhões, tal como nos subsídios. Mas nunca se sabe muito bem quem lava o quê e a quem. Nem com que mão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (389)

por Rui Herbon, em 23.02.17

R-235613-1464978778-1270.jpeg.jpg

 

 

Autor: Aisha Kandisha's Jarring Effects

 

Álbum: Shabeesation (1993)

 

Em escuta: A Muey A Muey

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 22.02.17

«A Lituânia passou entre 2008 e 2010 por um ajustamento duríssimo, com reduções dos salários públicos de 20% a 30%, com cortes nas pensões acima de 10%, com toda a coreografia dramática das exigências do FMI (pobreza, desemprego, desesperança) e se está hoje onde está é porque o sacrifício valeu a pena. O mesmo aconteceu na Irlanda. Ou, em parte, na Espanha. Se Portugal continua a ter ainda hoje um PIB abaixo do que registava em 2009, se cresce a ritmo de caracol, se a pobreza se mantém na ordem dos 20% da população e se continua a ser ultrapassado pelo cão e o gato, é porque o sacrifício não valeu a pena. Afinal, Portugal não deixou de ser um paraíso para as corporações patrocinadas pelo Estado. Não deixou de ser condescendente com ministros que fogem à verdade. Permite fugas de dez mil milhões de euros para os off-shores perante a passividade das autoridades tributárias. Subalterniza a Matemática e o Português nas escolas. Dá horários de privilégio a funcionários públicos. Isenta os restaurantes da equidade fiscal.»

Manuel Carvalho, no Público

Autoria e outros dados (tags, etc)

As canções da minha vida (1)

por Pedro Correia, em 22.02.17

Brel Lavalse[1].png

 

LA VALSE A MILLE TEMPS

1959

 

Escutei-a pela primeira vez aos 15 ou 16 anos, quando comprei um “33 rotações” de Jacques Brel, que logo se tornou num dos álbuns que mais rodaram no meu gira-discos portátil, fiel companheiro desses anos de adolescência. Um álbum de 1972, simplesmente intitulado Jacques Brel. Mantenho-o bem preservado e ainda a ele regresso em momentos de indizível nostalgia.

La Valse a Mille Temps era o penúltimo tema dessa colectânea de grandes êxitos de Brel (1929-78), belga que se despediu demasiado cedo da vida mas deixou um rasto inapagável na música de raiz francófona. Vendeu 25 milhões de discos sem nunca atraiçoar os seus ideais artísticos. Compôs, escreveu e interpretou canções que são pequenos tesouros da narrativa musicada, cruzando a trova medieval de cariz romântico com a balada de protesto contra o conformismo burguês que sempre combateu.

 

O tema nasceu em 1959, quando Brel era cabeça de cartaz no Bobino, uma das mais famosas salas de espectáculos de Paris. Nesse ano prodigioso da sua carreira, concebeu também o inimitável e arrepiante Ne Me Quitte Pas. As duas canções integrariam o quarto LP do belga, surgido ainda em 1959. Com a valsa a abrir o álbum (cuja capa aqui reproduzo), justamente galardoado com o Prémio da Academia do Disco Francês.

Com 3 minutos e 48 segundos de duração na gravação original (de 14 de Setembro de 1959, com orquestra conduzida pelo maestro François Rauber), La Valse a Mille Temps começa como valsa lenta e bonançosa e vai rodando num crescendo cada vez mais acelerado e jubilatório até ao limite do impronunciável, ao jeito de um carrossel descomandado, ameaçando vencer o cantor pela exaustão. Não por acaso, poucos foram os que se atreveram a emular Brel nesta que é uma das suas mais extraordinárias interpretações. Um deles foi Carlos do Carmo, que em 1980 superou com distinção o desafio no mítico palco do Olympia, também na capital francesa. Do espectáculo sairia aquele que é talvez o seu melhor disco gravado ao vivo.

 

Só há pouco tempo me apercebi: esta é uma das canções que mais vezes me acompanham. Dou por mim a trauteá-la, a assobiá-la, no seu rodopiar festivo, como quando a escutei pela primeira vez naquelas manhãs de ilusória Primavera perpétua, quando o tempo parecia ter vocação para eternizar-se ao comando da voz de Brel soando a princípio quase infantil nesse compasso ternário de caixinha de música.

«Au premier temps de la valse / Toute seule tu souris déjà / Au premier temps de la valse / Je suis seul mais je t'aperçois / Et Paris qui bat la mesure / Paris qui mesure notre émoi / Et Paris qui bat la mesure / Me murmure, murmure tout bas...»

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Intervalo publicitário

por Pedro Correia, em 22.02.17

Como o País não é só Lisboa, longe disso, aqui fica o convite para uma nova sessão de apresentação da Política de A a Z, desta vez em Braga. No próximo sábado, às 17 horas, na Livraria Bertrand do Shopping Liberdade Street Fashion. Com intervenções de Luís Marques Mendes e Nuno Barreto.

Um convite dirigido aos meus colegas de blogue e a todos os nossos leitores da capital minhota.

Gostava muito de vos ver por lá.

 

thumbnail_CONVITE_Política%20de%20A%20a%20Z_BRAGA

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.02.17

ocasokurilov[1].jpg

 

O Caso Kurílov, de Irène Némirowskiy

Tradução e apresentação de Aníbal Fernandes

Romance

(edição Sistema Solar, 2016)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Isto está a animar

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.02.17

Divida_Publica_bruta_em_percentagem_do_PIB_entre_1

 

Pois é, contra factos não há argumentos, diz ele. 

Então e a dívida, que Passos Coelho, Gaspar e Maria Luís Albuquerque andaram durante quatro longos anos a fazer que encolhiam, e que António Costa está aflito para conseguir controlar, isso não interessa?

Já nem falo dos 10 mil milhões que entre 2011 e 2014, a Autoridade Tributária, na altura sujeita aos olhinhos da coligação PSD/CDS-PP, deixou sair de Portugal para paraísos fiscais, porque lá virá o tempo em que também mais essa roupa se lavará. Temo é que haja nódoas e odores que já não saiam e que também não possam ser imputadas aos antecessores.

O melhor mesmo, enquanto não sair o segundo volume da nova edição da sebenta do Prof. Cavaco, é aguardar pelas explicações do Prof. Bambo, personalidade de reconhecido mérito junto dos meios judiciais. Ele deverá ser, neste momento, o único capaz de se pronunciar sobre o que está a acontecer, e sobre o que mais irá acontecer aos portugueses, sem correr o risco de lhe serem chamados nomes feios. Por exemplo, como "burlão". 

Autoria e outros dados (tags, etc)

RH Music Box (388)

por Rui Herbon, em 22.02.17

cover_23381812112009.jpg

 

 

Autor: David Sylvian

 

Álbum: Blemish (2003)

 

Em escuta: A Fire In The Forest

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Modo de Vida (46)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 21.02.17

Há uns meses, andava eu pelo Porto, encontrei o 'Pensadora das Coisas Pensadas', da Agustina. Comprei-o, que ainda o não tinha, e abri uma página ao acaso, para nesse acaso me fixar na primeira frase que me surgisse. É um hábito antigo, este, o de abrir ao acaso os livros dos autores de que gosto muito, como que para receber uma inspiração, um conselho. Tiro uma fotografia, registo o dia, e procuro onde aplicar o ensinamento. Ontem dei pela fotografia que tirei ao 'Pensadora das Coisas Pensadas', num imprevisto exacto, oportuno: "O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única. A harmonia depende possivelmente de que deveríamos impor menos as fórmulas de felicidade, que é bom senso de raros, e aceitar redimensionando-a pela responsabilidade própria, a incoerência de todos".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou com Adele: Lemonade é o álbum do ano

por Alexandre Guerra, em 21.02.17

Admito que, entre tantos assuntos da maior importância nacional e internacional, as minhas atenções viraram-se para uma discussão menos profícua que ocorreu nos últimos dias, mas que me suscitou bastante curiosidade. Até percebi a razão de existir, mas para ter certezas tive que ir ouvir os álbuns “25” de Adele e “Lemonade” de Beyoncé (este último andava para ouvi-lo desde que fora lançado). Apesar da minha estranheza inicial e das muitas críticas que se fizeram ouvir, percebo agora porque razão o Grammy de Melhor Álbum do Ano tenha ido para o “25”. Não concordo com a decisão, mas percebo-a à luz daquilo que são os Grammy que, à semelhança dos Óscares, premeiam e dão primazia ao “mainstream”. Não quer isto dizer que o vencedor não seja de grande qualidade musical porque, neste campo, Adele mostra bem os seus pergaminhos e apresenta um álbum pop mais “baladeiro”, bastante bem conseguido, mas sem grandes rasgos criativos e inofensivo em termos de mensagem. Não tem (nem pretende ter) aquele arrojo social e politicamente disruptor que o “Lemonade” de Beyoncé tem e que pretende colocar em causa a ordem estabelecida. E quando se trata de “agitar as águas”, por mais brilhante que seja o álbum (que é), o conservadorismo destas organizações fala mais alto. Neste aspecto, até acho que os Óscares têm sido mais “atrevidos” do que os Grammy que, no ano passado, voltaram a errar ao permitir que o sublime, poderoso, provocador e aclamadíssimo “To Pimp a Butterfly" de Kendrick Lamar perdesse o prémio de Melhor Álbum do Ano para “1989” de Taylor Swift. Da minha parte, não tenho dúvidas de que "To Pimp a Butterlfly" foi o melhor álbum de 2015, tal como fiquei rendido ao "Lemonade" de Beyoncé, uma artista que se assume neste álbum com uma grandeza artística e social, um patamar que Adele não conseguiu alcançar com o seu "25".

 

"Formation", umas das músicas mais interventivas de Beyoncé no muito bem conseguido álbum "Lemonade". 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

A falta de memória dos jornais

por Pedro Correia, em 21.02.17

ng6278924[1].jpg

José Fernandes Fafe (1927-2017) com Fidel Castro quando foi embaixador em Havana

 

Li hoje seis jornais diários. Cinco deles, ao contrário do que se impunha, não concederam qualquer destaque à morte de José Fernandes Fafe - embaixador, escritor, político, grande figura do século XX português, uma daquelas pessoas de quem se diria sem favor algum que a sua vida dava um romance.

Conspirou contra o salazarismo, foi protagonista de diversos episódios da resistência à ditadura. Após a Revolução dos Cravos tornou-se um dos primeiros embaixadores "políticos" do nosso regime democrático por decisão de Mário Soares, ministro dos Negócios Estrangeiros pós-25 de Abril, como muito bem lembra Francisco Seixas da Costa no seu blogue, Duas ou Três Coisas.

Tornou-se assim embaixador residente em Cuba, onde conheceu toda a elite do regime comunista, incluindo Fidel Castro, que biografou num  livro muito interessante, cheio de revelações sobre o tirano que governou a ilha com mão de ferro entre 1959 e 2006. As rotas da diplomacia levaram-no ainda a ser embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Morreu ontem, aos 90 anos e com uma vida cheia. Mas quase toda a imprensa se esqueceu de assinalar o facto com o destaque que se impunha. Incluindo a mais antiga, precisamente a que tinha maior obrigação de avivar as memórias dos leitores. Por ironia, só no mais jovem título da nossa imprensa em papel - o diário i - encontrei um obituário digno do intelectual e do cidadão que Fernandes Fafe foi. Por ironia também, num texto de duas páginas (sem hiperligação disponível) assinado por Sebastião Bugalho, um dos mais jovens jornalistas políticos portugueses.

Os restantes, lamentavelmente, fizeram de conta que não sabiam. Ou não sabiam mesmo, num dia em que os cinco jornais generalistas concederam nada menos de 24 páginas a noticiário avulso sobre futebol.

A crise do jornalismo, de que tanto se fala, tem muito a ver com estas omissões. Cada uma delas é grave. Todas somadas, tornam-se imperdoáveis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Música recente (72)

por José António Abreu, em 21.02.17

The Invisible, álbum Patience.

Os Invisible são Dave Okumu, produtor do primeiro álbum de Jessie Ware, guitarrista da malograda Amy Winehouse, e Tom Herbert e Leo Taylor, colaboradores habituais de Adele. A música que fazem evita a velocidade e a grandiloquência; trata-se de pop electrónica, mas num registo contemplativo e melancólico. Alguns dos melhores temas do álbum incluem convidadas (Anna Calvi, por exemplo).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 21.02.17

 

FL1891P461413.jpg

 

 

Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/4



O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D