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Não perguntes

por Bandeira, em 31.01.17

Passo algum tempo no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Algumas caras de assunto perfunctório, outras que podiam ser cavadas num vaso grego. Um homem põe a senha dele a dez centímetros da minha cara. Se faço o favor de lhe dizer em que número vai a senha “C”. O monitor está a dois metros de nós; infiro que não veja os números por estar sem óculos. “Vai no 64”. É o número dele. Observo-o enquanto se atira contra a pesada porta de vidro. Vai aflito. Espero que não perca a casa, o carro, os filhos. Senta-se, a funcionária corresponde aos bons dias. Consigo imaginar o diálogo que se segue. “Enviámos-lhe vários avisos por carta”. “Não duvido, minha senhora, mas vocês ficaram com os meus óculos e eu, sem eles, não sou capaz de ler”.

Não perguntes por quem dobram os sinos.

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Frases de 2017 (3)

por Pedro Correia, em 31.01.17

«O PSD não conta para nada.»

António Costa, no Parlamento (27 de Janeiro)

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Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder

por Alexandre Guerra, em 31.01.17

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma "boca" ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a "insuspeita" FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do "inauguration day" em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a "bomba" da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a "immigration order". Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

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Música recente (66)

por José António Abreu, em 31.01.17

Kid Koala featuring Emiliana Torrini, álbum Music to Draw To: Satellite.

Onze temas instrumentais, em registo ambiental, mais sete com a voz da islandesa Emiliana Torrini, num estilo ligeiramente mais electro-pop.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 31.01.17

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Tenho Cinco Minutos para Contar uma História, de Fernando Assis Pacheco

Prefácio de João Pacheco

Crónicas

(edição Tinta da China, 2017)

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Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.

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RH Music Box (366)

por Rui Herbon, em 31.01.17

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Autor: Sun Ra

 

Álbum: We Travel The Space Ways (1967)

 

Em escuta: Space Loneliness

 

 

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 30.01.17

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 Rita e Catarina Almada Negreiros com a avó, Sarah Afonso (1983)

 

1

Confesso-me cada vez mais farto do culto da banalidade, da apologia da irrelevância, da propagação do mau gosto em doses cavalares: o jornalismo anda a copiar o pior das redes sociais. Com o mesmo esquematismo, a mesma superficialidade, a mesma falta de memória.

Quantas vezes não vos sucedeu já, como sucede com frequência comigo, comprar jornais que não vos apetece ler por absoluta falta de matéria noticiosa digna desse nome?

 

2

Voltei a fazer o exercício este fim de semana ao comprar vários jornais num quiosque: encontrar lá assunto com interesse é quase como pesquisar agulha no palheiro. Deparamos com a despudorada invasão da privacidade das chamadas "figuras públicas", o boato travestido de notícia, a conversa de porteira armada em "análise política", o crime mais boçal erigido em matéria informativa de excelência, a sistemática tentativa de nivelar tudo por baixo.

Felizmente ainda existem inesperados oásis de qualidade, remando contra a maré dominante. Ao folhear a revista Magazine, adquirida com o Diário de Notícias, deparo com uma entrevista de rara qualidade às duas netas de Almada Negreiros, Rita e Catarina. Que evocam recordações do avô, uma das figuras mais relevantes da cultura portuguesa do século XX, e também da avó, a pintora Sarah Afonso. É uma entrevista longa, para ler devagar, saborear. Com revelações familiares, mas sem indiscrições. Uma entrevista com linguagem elegante, com emoção contida, como quase já não se usa. Estão de parabéns as entrevistadas e a jornalista Alexandra Tavares-Teles, que tão bem soube dialogar com elas.

 

3

Descubro no suplemento de outro jornal - o P2, do Público - uma crónica que me prende igualmente a atenção. É assinada por uma redactora deste diário, Maria João Lopes, e também vai contra a corrente, sublinhando a importância do olhar, insubstituível no percurso diário de um profissional da informação. O universo de um jornalista não pode confinar-se às quatro paredes de uma redacção, por maior que esta seja, nem a um ecrã de computador, por mais longe que pretenda conduzir-nos. Nada no mundo virtual substitui o mundo real. Com os seus ruídos, os seus odores, as suas rugosidades, as suas asperezas, a sua inesperada e estonteante fragmentação.

A cronista fala-nos um pouco de tudo isto. "Andar a pé conta-me tantas histórias como abrir o jornal todos os dias. Faz-me falta andar a pé horas, perceber que essa ideia dos tempos mortos afinal não existe, que esse tempo morto está vivo. Um repórter tem de andar a pé, sem medo de se perder e de perder tempo. Porque vai chegar muitas vezes (ou sempre) a lado nenhum. Mas aí vai haver, claro, uma história para contar".

Nada tão fora de moda, nada tão urgente. Valeu a pena comprar o Público só para ler este texto que incentiva os repórteres a caminhar.

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Palavras para recordar (15)

por Pedro Correia, em 30.01.17

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MANUEL CARVALHO DA SILVA

Expresso, 26 de Maio de 2007

«Só fiz greve uma vez na vida. Foi antes do 25 de Abril, na empresa a que ainda pertenço.»

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SULTÕES DO SWING redescobertos

por José Navarro de Andrade, em 30.01.17

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Aquando do atroz incêndio que desfez em cinzas o Hotel Splendid, na Av. da Liberdade, julgou-se perdida para sempre a memória das sofisticadas soirées dançantes das meias-noites de Sexta-feira.
Até que no verão do ano passado num leilão do Sotheby’s foi levado à praça o espólio da Baronesa de Koenigswarter: 3 caixotes em pau-ferro do Maiombe, minuciosamente numerados 1, 2 e 3. Dado que o aval do revestimento creditava os dotes do conteúdo, as arcas mereceram a atenção dos licitadores e foi com algum custo que o Serviço Público as arrematou.
Devassados os cofres a pé-de-cabra revelou-se o tesouro: as fitas magnéticas com o registo de todos os SULTÕES DO SWING, os requintados saraus do Hotel Splendid!
Após uma laboriosa obra de restauro levada a cabo nos apetrechados laboratórios do Serviço Público, em breve Portugal, e por extensão o mundo, poderão voltar a escutar o insuperável glamour das noites de Sexta para Sábado do Hotel Splendid.

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Há dívida para além do défice

por Rui Rocha, em 30.01.17

Há um par de semanas, Portugal pagou 4,2% de juros pela emissão de dívida a 10 anos. Entretanto, em entrevista à SIC, o Presidente Marcelo sossegou-nos: logo após a emissão os juros tinham regressado a níveis muito mais confortáveis. Hoje, as yields da obrigação portuguesa a 10 anos voltaram a ultrapassar os 4,2%. Passaram oito dias desde a entrevista do Presidente Marcelo.

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Fim do bar aberto?

por Diogo Noivo, em 30.01.17

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 Carlos Silva tenta explicar a Arménio Carlos o que é um papel assinado

 

Por dever de um ofício que tive em tempos, participei em várias reuniões com centrais sindicais ou com sindicatos a elas associados. Recordo-me que negociar com a UGT e com os seus afiliados era muito duro, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista político. Não era fácil chegar a acordos, mas era possível. Já com a CGTP o processo era substancialmente mais fácil: raramente se negociava. A central liderada por Arménio Carlos entrava nas negociações dizendo que não ia negociar – porque era contra o sistema capitalista de mercado, porque considerava a austeridade um crime comparável ao Holocausto, ou por qualquer outra razão que não admitia excepções ou cedências. No entanto, exigia sempre permanecer à mesa. Ficava calada, ou a colocar cascas de banana com o intuito de descarrilar o processo negocial. Em resumo, a UGT cedia em troca de cedências dos seus interlocutores; a CGTP queria obter cedências, mas nunca estava preparada para abdicar de uma vírgula.
Outra grande diferença entre as duas centrais sindicais está nos limites. Para a CGTP vale tudo. Em 2013, participei numa negociação com sindicatos afectos à UGT e à CGTP. Foi um processo moroso, difícil, mas lá chegámos a uma base comum de entendimento. Quando nos preparávamos para assinar o acordo, um dos sindicatos próximos da CGTP aparece com uma nova reivindicação: queriam que os trabalhadores em apreço deixassem de pagar a parte correspondente ao subsídio de desemprego na contribuição para a Segurança Social. O argumento? Simples: somos funcionários públicos, nunca seremos despedidos, logo não faz sentido estarmos a contribuir para o subsídio de desemprego dos outros. Importa ter em mente que 2013 foi o annus horribilis do desemprego na Europa. Neste ano os portugueses mostram ter uma solidariedade à prova de bala, mas para este sindicato qualquer argumento – mesmo que eticamente abjecto – valia para dinamitar o acordo.


A única central que obrigou os sucessivos Governos a ceder foi a UGT. Se tivermos presente que os ganhos reais para os trabalhadores se obtêm por via de negociações ou de acordos entre sindicatos, patronato e Governo, uma parte muito importante dos ganhos laborais em Portugal deve-se à UGT. O que tem um custo para esta central sindical. Ao assinarem os acordos são de imediato acusados de traição pela CGTP. Na psique do sindicalismo radical, apostada numa luta que os levará à vitória final, os Governos são por definição entidades mefistofélicas. Como tal, um acordo, mesmo que vantajoso, funda-se num pecado capital inaceitável. No fundo, para a CGTP, entrar num acordo substantivo com um Governo implica mutilar a sua identidade política e ideológica. Por essa razão, em 2006, a única vez em que a CGTP aceitou subscrever um acordo a sério (um momento tão inédito que é considerado um marco histórico), não houve cerimónia de assinatura. A central sindical, liderada na altura pelo inefável Carvalho da Silva, assinava com vergonha, ainda que do acordo resultasse um aumento do salário mínimo. E, claro, foi uma questão de tempo até que a CGTP imputasse os aspectos negativos do documento à UGT.
Carlos Silva, Secretário Geral da UGT, terá chegado ao seu limite. Se a CGTP quer uma adenda ao último acordo de concertação social, então que o assine primeiro. É um mínimo olímpico. Veremos se a CGTP se qualifica. Para a central sindical de Arménio Carlos, a relação com os sucessivos Governos tem sido uma espécie de bar aberto: entram, servem-se, fazem a festa, e alguém que pague a conta. Esperemos que Carlos Silva seja bem-sucedido na missão de trazer um módico de decência ao estabelecimento.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 30.01.17

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O Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek

Tradução e notas de Lumir Nahodil

Romance

(reedição Tinta da China, 2017)

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RH Music Box (365)

por Rui Herbon, em 30.01.17

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Autor: Walkabouts

 

Álbum: Train Leaves At Eight (2000)

 

Em escuta: Man From Reno

 

 

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Blogue da semana

por Joana Nave, em 29.01.17

A minha escolha desta semana vai para um blogue que considero muito inspirador: Becoming Minimalist. Mais que uma tendência, considero o estilo minimalista uma escolha para simplificar a complexidade com que somos confrontados diariamente nas nossas vidas demasiado preenchidas. Menos pode ser mais, se nos focarmos no que é essencial e no que traz verdadeiro valor acrescentado, no que nos completa e permite saborear o momento presente, sem estarmos presos ao caos com que enchemos os espaços que nos rodeiam e, principalmente, a nossa mente.

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Leituras

por Pedro Correia, em 29.01.17

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«Raramente se morre por se ter perdido alguém. Creio que se morre mais frequentemente por alguém que não se teve.»

ColetteGigi (1944), p. 138

Ed. A Sangue Frio, Lisboa, 2012. Tradução de José Saramago

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Fotografias tiradas por aí (338 a 340)

por José António Abreu, em 29.01.17

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Jamor, 2008.

 

Para celebrar o décimo oitavo título do Grande Slam de Roger Federer, conseguido hoje, aos trinta e cinco anos, no Open da Austrália, numa final em 5 partidas contra Rafael Nadal, depois de ambos terem estado fora do circuito, lesionados. Os courts e as bolas em Melbourne estavam este ano um pouco mais rápidos, providenciando condições de jogo parecidas com as que eram frequentes até há dez-quinze anos. O resultado foi o renascimento dos jogadores de ataque. No quadro feminino, Venus Williams, de 36 anos, chegou a uma final de um torneio do Grande Slam pela primeira vez desde 2009 (perdeu para a irmã, Serena, um ano mais nova).

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 29.01.17

«Apesar das sugestões razoáveis que propôs, é lastimável que a nossa Academia das Ciências tivesse aprovado um péssimo acordo ortográfico que não acrescenta nada de bom à nossa História.»

Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, no Correio da Manhã

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Resistência activa ao aborto ortográfico (123)

por Pedro Correia, em 29.01.17

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Évora, Janeiro de 2017

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Viagem ao Egipto (20).

por Luís Menezes Leitão, em 29.01.17

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Para concluir estes já longos apontamentos da minha viagem ao Egipto, falta falar dos colossos de Mémnon. Estes colossos são tudo o que resta do que se julga ser um gigantesco templo funerário construído pelo Faraó Amenófis III, cuja entrada era guardada por estes dois enormes colossos. Mas o templo foi sucessivamente destruído pelas cheias do Nilo e pela invasão das areias, restando apenas os colossos. Estes mesmos, porém, ainda ruiriam parcialmente antes da nossa era por um terramoto ocorrido em 27 a. C., que abriu uma fenda na cabeça de um dos colossos.

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Essa fenda causou, porém, um fenómeno estranho, já que a estátua passou a cantar ao amanhecer, segundo se julga devido a um fenómeno de concentração de humidade dentro da fenda, que seria expelida com o surgimento dos raios do sol. Por isso, os gregos passaram a associar a estátua a Mémnon, herói da guerra de Tróia. Segundo Homero refere na Ilíada, Mémnon era um rei etíope, que levou um exército para Tróia, em ordem a defender Príamo da invasão grega. No entanto, foi morto por Aquiles em vingança pela morte do seu companheiro Antíloquo. Por isso, depois da sua morte, a sua mãe Eos, a deusa da aurora, passou a chorar a morte do filho todos os dias à alvorada. Em resultado disto, até o nome de Amenófis III deixou de estar associado a estas estátuas, a benefício de uma nova mitologia.

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Mas o choro de Eos duraria apenas duzentos anos, um instante na história milenar do Egipto, uma vez que o imperador romano Septímio Severo, em 199 d.C., mandou reparar a fenda na estátua, que desde então nunca mais cantou.

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Olhando para estes colossos, tem-se a verdadeira sensação da eternidade. Como dizia Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Muda-se o ser e muda-se a confiança. Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades". Estes colossos foram construídos em homenagem a um faraó, foram destruídos, passaram a cantar, foram associados a um herói grego, deixaram de cantar, e aqui agora permanecem, como testemunhos de um tempo perdido, cuja busca agora termina.

 

Finis

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 29.01.17

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O Rei Lear, de William Shakespeare

Tradução, introdução e notas de M. Gomes da Torre

Teatro

(reedição Relógio d' Água, 2016)

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RH Music Box (364)

por Rui Herbon, em 29.01.17

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Autor: Leonard Cohen

 

Álbum: You Want It Darker (2016)

 

Em escuta: You Want It Darker

 

 

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Retratos da minha viagem ao Egipto

por João André, em 28.01.17

Depois de todos estes apontamentos da viagem do Luís, decidi ir ao meu baú e ir procurar as minhas fotografias preferidas das que tirei quando estive no Egipto, em 2011. Nessa viagem comecei em Luxor, desci até Ashwan e depois fui de comboio para o Cairo. Não deixo notas sobre os locais, que o Luís já deixou bastantes e melhores que as minhas (aproveito e deixo links apenas para os posts dele). Apenas as ditas fotografias e os locais onde foram tiradas (esperando não fazer asneiras). Quem tenha curiosidade, pode sempre perguntar alguma coisa mais sobre elas.

 

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Vista a partir da entrada do templo de Edfu (creio).

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Voltando do templo de Hatchepsut (estaria nas costas).

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Crianças a brincar num ramo do Nilo.

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A caminho da ilha de Philae.

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No templo de Ísis, ilha de Philae.

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Templo de Karnak.

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Cairo, visto da mesquita de Mohammed Ali.

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 Pirâmides de Gizé, Cairo.

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Templo de Kom Ombo.

 

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John Hurt (1940 - 2017)

por João Campos, em 28.01.17

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Conta a lenda de que a célebre chestburster scene foi filmada sem que o elenco soubesse de que a criatura alienígena iria explodir em sangue e entranhas do peito de John Hurt - ideia de Ridley Scott para obter do elenco de Alien uma reacção mais genuína. O resultado foi uma das mais icónicas cenas do cinema tanto de horror como de ficção científica - e uma que o próprio John Hurt parodiaria oito anos depois no Spaceballs do lendário Mel Brooks. Hurt foi o oprimido Winston em 1984, o revolucionário Gilliam em Snowpiercer e o tirano Sutler em V for Vendetta; foi o Elephant Man de David Lynch e o Professor Broom dos dois Hellboy de Guillermo Del Toro (duas adaptações de banda desenhada tristemente subvalorizadas e esquecidas). Entrou, entre muitos outros filmes e inúmeras séries televisivas, em Only Lovers Left AliveTinker Taylor Soldier SpyMelancholiaJackie (a estrear em breve), Dr. Who, Merlin e The Storyteller. Emprestou também a sua voz inconfundível à animação - foi, por exemplo, o Aragorn da adaptação animada de The Lord of the Rings realizada por Ralph Bakshi em 1978. Não havia - não há - muitos actores com o seu carisma. John Hurt morreu hoje, aos 77 anos. 

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E vão quatro

por Pedro Correia, em 28.01.17

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Vogais e Consoantes Politicamente Incorrectas do Acordo Ortográfico (Guerra & Paz, 2013)

Novo Dicionário da Comunicação (coordenação, Chiado Editora, 2015)

Presidenciáveis (Topbooks, 2015)

Política de A a Z (Contraponto, 2017)

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.01.17

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«A única Odisseia que tinha era a da Europa-América, que pecava, tal como a Ilíada, pela fraca qualidade da tradução (na minha humilde opinião). Folhei a Odisseia de Frederico Lourenço há dias numa livraria e fiquei encantado, assim como o Livro Aberto e o livro Lugar Supraceleste, do mesmo autor.
Fiquei com vontade de levar tudo. A minha carteira é que não se convenceu. Vou seguir o conselho do ex-Presidente do Supremo Tribunal, "qualquer coisa" Noronha. Comprá-la-ei aos bochechos.

Há dias numa jantarada entre vários camaradas não consegui defender, eficazmente, a pertinência da utilidade da filosofia e da cultura, em geral. Eles, os meus confrades todos das ciências ditas exactas. Ocorreu-me dizer apenas que a filosofia ensina-nos o caminho da sabedoria, sendo esta o bom modo de dar uso à inteligência. De formular a pergunta acertada, onde reside, afinal, toda a Ciência (a resposta-verdade é passageira, a pergunta fica sempre).
Contudo apontaram-me para a televisão e o ar condicionado, e perguntaram-me: diga-me que obras filosóficas dão tanto consolo ao corpo como aquelas? Apeteceu-me partir os ditos aparelhos, mas preferi pegar no vinho que tinha à minha beira.

Afinal que utilidade têm as ciências ditas humanísticas no tempo de alta-tecnologia, em que o que conta é tudo o que se vê e palpa? Não teremos morto também o Espirito, quando decidimos matar Deus?
Como conseguimos convencer da maior utilidade, para a Humanidade, de uma Odisseia, uma Ilíada, um Corão, uma Bíblia, umas Cartas a Lucílio, quando comparadas com um Iphone, ou uma PS4?»

 

Do nosso leitor Borda d'Água. A propósito deste meu postal.

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Liberalidades

por Rui Rocha, em 28.01.17

O Expresso revela hoje, em 1ª página, que o ex-líder do Montepio é suspeito de receber 1,5 milhões de euros do construtor José Guilherme. Não percebo o motivo para tal destaque. Ricardo Salgado recebeu do mesmo José Guilherme 14 milhões de euros e o ilustre causídico Calvão da Silva, que serviu depois a Pátria como Ministro do último governo de Passos Coelho durante uns dias e uma inundação em Albufeira, teve oportunidade de esclarecer em parecer fundamentado que:

"O espírito de entreajuda e solidariedade é um princípio geral de uma sociedade e é natural, pois, que um amigo possa e tenha gosto em dar sugestões, conselho ou informações a outro amigo, sendo que não é a circunstância de ser administrador ou presidente executivo de um banco que o priva dessa liberdade fundamental. E se alguém decide dar dinheiro de presente (liberalidade) em reconhecimento desse conselho, como José Guilherme deu a Ricardo Salgado, isso não põe em causa a idoneidade de quem recebe".

Cá está. Uma situação em tudo semelhante. A única diferença é o montante. Salgado e Guilherme eram mais chegados. Ou Salgado dava melhores conselhos.

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É um nightmare!

por Teresa Ribeiro, em 28.01.17

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Hoje quando saía de casa olhei o céu e imediatamente saltou dos confins da minha memória a expressão "chove a potes". Sorri de mim para mim. Essas palavras faziam parte do fraseado da minha avó. Acho que já não as oiço há anos. Há expressões que carregamos de tanta ternura que quando as usamos é como se fosse um agasalho. Por isso gosto de as revisitar. No entanto o que se usa agora, mais que nunca, são os vocábulos de importação. Comecei por ouvi-los com mais insistência em reuniões de trabalho (kick off, meeting point, status, fee, statement, empowerment, boost, icebreaker, core business...). Mas agora é também quando penduramos o heterónimo que usamos no trabalho: entre amigos saltam frases como "foi um nightmare", "nada como um pouco de facetime", "ele é um risk taker", "precisamos de quality time".

O que se passa connosco? Já houve quem respondesse aos meus protestos insinuando que estou uma bota de elástico (oops! shall I say "elastic boot"?) e que globalização também é isto. A mim o que me parece é que continuamos tendencialmente saloios, sempre deslumbrados com o que é estrangeiro e prontos a descartar ou desvalorizar o que é nosso. Se assim não fosse não haveria tanta gente a abraçar o Acordo Ortográfico sem pestanejar. No mundo empresarial, então, é um a ver se te avias. Como se resistir à adopção do "aborto", pelo menos até ver como isto fica, fosse um sinal de decadência. Whatever...

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.01.17

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Alguma Coisa Negro, de Jacques Roubaud

Tradução e posfácio de José Mário Silva

Prefácio de Gonçalo M. Tavares

Poesia

(edição Tinta da China, 2017)

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RH Music Box (363)

por Rui Herbon, em 28.01.17

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Autor: Style Council

 

Álbum: Our Favourite Shop (1985)

 

Em escuta: The Boy Who Cried Wolf

 

 

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Imagens da sessão de lançamento

por Pedro Correia, em 27.01.17

Quatro fotografias da sessão de lançamento da Política de A a Z, de que falo em pormenor aqui.

 

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 José Ribeiro e Castro com João Pereira de Faria, do Corte Inglés

 

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 António Carmona Rodrigues, ex-presidente da Câmara de Lisboa

 

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 Francisco Moita Flores

 

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  Feliciano Barreiras Duarte (PSD) e António Galamba (PS)

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Vamos cá ver. O facto de o Dr. Costa ter uma visão dos mandatos que vai exercendo exclusivamente orientada para o afago do próprio ego, interesse e ambição pessoal define-o, mas não vincula os diferentes interlocutores que partilham o espaço político. O Dr. Passos Coelho, para além de, como todos nós, representar-se a si próprio conforme pode, foi eleito para dar voz no Parlamento a todos os que votaram no PSD. Quando o Dr. Passos Coelho pergunta ao Dr. Costa qual seria o valor do défice sem manobras de diversão, fá-lo porque entende que há uma parte significativa dos portugueses que gostava efectivamente de dispor dessa informação. E entende bem. Desde logo porque não sendo impossível obtê-la por outros meios, é importante que seja o primeiro-ministro a dizê-lo. E depois, porque sendo ele a dizê-lo é mais fácil contrastar a informação com a prosódia e proverbial fanfarronice do Dr. Costa. Por isso, não sendo propriamente uma surpresa que o Dr. Costa recuse responder ou que remeta uma resposta para quando o "Diabo chegar" (o estilo chocarreiro e velhaco é tão natural ao Dr. Costa como a própria transpiração), não é demais sublinhar que tal constitui uma óbvia e grave falta de respeito pelos princípios democráticos e pelos eleitores, Ora, se não se pode esperar da legião de pataratas comprados pela política de reversões (que são aliás, embora não façam ideia, os principais destinatários dessas faltas de respeito), nem do tutor com residência oficial em Belém, nem muito menos da 2ª triste figura do Estado, que alguma vez levantem a voz para colocar o Dr. Costa no seu devido lugar, é importante que não sejamos cúmplices por omissão e que não deixemos passar a situação em claro. É evidente que o meio exige contenção e que não é possível descrever aqui o Dr. Costa com todas as letras. Mas é obrigatório, pelo menos, que fique registado que o Dr. Costa se comporta como um bandalho. 

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Da arte do possível

por Pedro Correia, em 27.01.17

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«O ainda jovem Mario Vargas Llosa perguntou certa vez a Jorge Luis Borges, numa entrevista para a televisão francesa, o que era para ele a política. O grande escritor argentino deu-lhe uma resposta lapidar: "É uma das formas do tédio." Esta frase reflecte exemplarmente o carácter fastidioso da vida política, que só pode ser protagonizada com eficácia por quem sinta genuína vocação pela condução dos destinos de uma determinada comunidade - a nível de freguesia, município, região ou país - sem temer os choques que o exercício da governação sempre enfrenta.

A política é a arte do possível aplicada num momento muito concreto e numa circunstância muito específica: compete aos intelectuais como Borges, sonhadores e visionários por natureza, imaginar outros mundos, imunes à implacável e entediante lógica dos factos. Não admira que uma das primeiras recomendações que os políticos veteranos costumam dar aos seus jovens colegas é a de ajustar os desejos às realidades: em política, raras vezes compensa ter razão antes do tempo.»

 

Excerto do verbete POLÍTICA, do livro Política de A a Z

(edição Contraponto, 2017)

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'Política de A a Z': sala cheia

por Pedro Correia, em 27.01.17

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Não me lembro, sinceramente, de uma sessão de apresentação de um livro tão concorrida no piso 7 do Corte Inglés, de onde se desfruta um dos panoramas mais belos de Lisboa. Ontem a sala encheu-se na apresentação da Política de A a Z, o dicionário enciclopédico que a editora Contraponto - pertencente ao grupo Bertrand-Círculo - apresenta como "um guia para compreender todos os segredos da política" e considera "altamente recomendado para políticos". Mas também para jornalistas, líderes de opinião, estudantes e cidadãos em geral - permito-me acrescentar, como co-autor desta obra, que tem 333 entradas. De Absolutismo a Zé-Povinho.

Havia deputados, autarcas, escritores, vários jornalistas, muita gente amiga. Tive o gosto de encontrar por lá companheiros de diversas etapas profissionais e quatro colegas de blogue - a Inês Pedrosa, a Teresa Ribeiro, o Diogo Noivo e o Luís Naves. E também leitores do DELITO, que gosto sempre de conhecer nestas ocasiões.

 

Foi igualmente com imenso gosto que vi dois políticos que muito estimo acederem ao meu convite para apresentarem a Política de A a Z: José Ribeiro e Castro, que foi deputado logo na primeira legislatura democrática e presidente do CDS, e António Galamba, ex-secretário nacional do PS, ex-deputado e último governador civil de Lisboa. Dois benfiquistas que merecem o maior respeito do sportinguista que escreve estas linhas. Por pensarem pela própria cabeça e nunca terem hesitado em remar contra a maré dentro dos seus próprios partidos, dando assim genuínas lições de cidadania. Agradeço aqui as palavras lisonjeiras e porventura imerecidas que ontem proferiram, recomendando a leitura deste livro.

O Rodrigo Gonçalves e eu sublinhámos que uma das intenções da obra é colmatar uma lacuna do mercado editorial português num ano em que tanto se falará em política, por cá e lá fora. A propósito da nova administração norte-americana, dos processos eleitorais em França, Holanda e Alemanha, das eleições autárquicas portuguesas e do centenário da Revolução de Outubro na Rússia.

 

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A sessão terminou quase duas horas após as primeiras pessoas terem chegado ao sétimo piso do Corte Inglés. E depois de uma longa sessão de autógrafos, etapa que tanto parece maçar alguns autores mas que protagonizo sempre com muito agrado (este é já o meu quarto livro). Porque me recorda sempre quando estava eu do lado de lá, na fila dos autógrafos, para conseguir a assinatura de alguém que admirava ou estimava.

Hei-de falar disso aqui muito em breve. Para já, fica a minha recomendação para que espreitem esta Política de A a Z. Se me permitem a imodéstia, sou capaz de apostar desde já que vão gostar.

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Música recente (65)

por José António Abreu, em 27.01.17

 Rita Wilson, álbum Rita Wilson.

Imensos actores cantam, outros tocam banjo. Rita Wilson (que, com Tom Hanks, forma um dos casais do mundo do show business com que é mais fácil simpatizar) será apenas mais um exemplo. Mas canta bastante bem, neste seu segundo álbum, ao contrário do que aconteceu no primeiro, até escreveu as letras e, honestamente, hoje apetece-me algo alegre e inconsequente.

 

(É provável que esta tendência para associar alegria a inconsequência diga muito sobre mim.)

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Síndrome de Stendhal e tal

por Bandeira, em 27.01.17

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de... Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam 'nervos'; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.01.17

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A Forma das Ruínas, de Juan Gabriel Vásquez

Tradução de Vasco Gato

Romance

(edição Alfaguara, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 27.01.17

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Laura Sierra

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Viagem ao Egipto (19).

por Luís Menezes Leitão, em 27.01.17

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Muito perto do Vale dos Reis, encontra-se o templo da rainha Hatchepsut, a única mulher que assumiu no Egipto a dignidade de faraó. Mulher de Tutmés II, quando ele morreu, em lugar de se limitar a assumir a regência em nome do seu enteado Tutmés III, decidiu ela própria coroar-se faraó, passando a governar o país.

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Em sua homenagem foi construído este magnífico templo, estando a rainha representada como qualquer outro faraó, incluindo com uma barba postiça.

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O reinado de Hatchepsut não foi, no entanto, aceite pelo seu enteado, Tutmés III, que, quando lhe sucedeu, mandou apagar todas as representações da madrasta, querendo eliminar o seu reinado da memória colectiva. Tanto foi assim que o calendário que mandou elaborar transita directamente do reinado de Tutmés II para o de Tutmés III, apagando à maneira orwelliana o reinado de Hatchepsut da história do Egipto.

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Tutmés III não se atreveu, no entanto, a desafiar os sacerdotes, destruindo o templo que a rainha tinha querido construir. E assim este magnífico templo permanece até aos nossos dias, recordando para a posteridade a corajosa história de uma mulher se atreveu a assumir um cargo até então reservado aos homens.

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RH Music Box (362)

por Rui Herbon, em 27.01.17

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Autor: Steven Wilson

 

Álbum: The Raven That Refused To Sing... And Other Stories (2012)

 

Em escuta: Drive Home

 

 

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Trump

por José António Abreu, em 26.01.17

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Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia.

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Já li o livro e vi o filme (169)

por Pedro Correia, em 26.01.17

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EXODUS (1958)

Autor: Leon Uris

Realizador: Otto Preminger (1960)

A saga do regresso dos judeus à Terra Prometida após dois mil anos de perseguições deu origem a este monumental romance, o maior sucesso de vendas nos EUA desde E Tudo o Vento Levou. Os bons desempenhos de Paul Newman e Eva Marie Saint não dão grande alento ao filme, mais conhecido pela banda sonora de Ernest Gold.

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De Belém, com afecto

por Diogo Noivo, em 26.01.17

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O conceito "pós-facto" já entrou no léxico diário. Trump é a epítome desse mundo detestável onde a realidade é torcida e retorcida com o intuito de servir agendas próprias, ignorando os interesses nacionais e, por definição, os factos. Cá, em Portugal, não temos disso. Ou se calhar temos, mas a coisa é menos grave porque é feita com abraços, afecto e votos de saudinha a quem passa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.01.17

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A Ilha de Martim Vaz, de Jonuel Gonçalves

Romance

(reedição Guerra & Paz, 2017)

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RH Music Box (361)

por Rui Herbon, em 26.01.17

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Autor: Mark-Almond

 

Álbum: 73 (1973)

 

Em escuta: Lonely Girl

 

 

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Intervalo publicitário

por Pedro Correia, em 25.01.17

Aqui fica o convite para a sessão de apresentação deste livro. Amanhã, às 18.30, no Corte Inglés (Lisboa).

Um convite dirigido aos meus colegas de blogue e a todos os nossos leitores.

Gostava de vos ver por lá.

 

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MARCELO, O MEDIADOR

por Rui Rocha, em 25.01.17

 

17.12.2016 - "O Presidente da República serviu de mediador numa conversa entre o fundador e director do Teatro da Cornucópia, Luís Miguel Cintra, e o ministro da Cultura para evitar o fim desta companhia".
19.12.2016 - "Em comunicado, Luís Miguel Cintra esclarece "equívoco" criado após visita de Marcelo. Teatro vai mesmo fechar no início do ano".

 

11.01.2017 - "Marcelo obtém do Rei de Espanha garantia de que não serão tomadas decisões unilaterais sobre Almaraz".
12.01.2017 - "Não há acordo sobre Almaraz. Portugal avança com queixa em Bruxelas".

 

29.12.2016 - "Marcelo e Passos almoçam em Belém".
13.01.2017 - "Passos votará contra redução da TSU"

 

22.01.2017 – “Em entrevista a jornalistas da SIC, Marcelo revela confiança: ainda é possível consenso para a redução da TSU”.
25.01.2017 – “Redução da TSU chumbada na Assembleia da República”.

 

(post em actualização permanente)

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TSU e o mau da fita

por José António Abreu, em 25.01.17

1. Economia

Em Portugal, ninguém questiona que tudo passe pelo Estado e tudo dependa do Estado. Ao lidar com o sector público mas também com o privado, o governo age como se o dinheiro dos contribuintes fosse inesgotável e a economia de uma resiliência à prova de bala. Daqui nasce um círculo vicioso: a economia cresce pouco, o Estado não obtém os recursos pretendidos, o orçamento público apresenta défices crónicos, os impostos e a dívida aumentam, a economia cresce ainda menos. Tudo isto perante a complacência – quando não o aplauso – das associações patronais, dos sindicatos, da maioria dos comentadores, do Presidente da República. A polémica em torno da TSU constitui mais um exemplo desta lógica. A medida é péssima: apoia-se em dinheiro dos contribuintes, serve de contraponto a um aumento exagerado (porque muito superior aos ganhos de produtividade) do salário mínimo (já demasiado próximo do salário mediano), e, num país onde ele abrange vinte e tal por cento dos trabalhadores, incentiva as empresas a usá-lo ainda mais. Porém, isto não impediu que as associações patronais a sancionassem. Em vez de defenderem medidas que permitam a subida do salário mediano e forcem o Estado a um nível superior de eficiência (descidas de impostos ou simplificação de processos burocráticos, por exemplo), escolheram (escolhem sempre) alinhar numa lógica de subsidiação, apoiada em cada vez mais regras e excepções. Ou seja: em Portugal, as associações patronais são uma parte não apenas activa mas entusiasta no crescimento desmesurado do Estado - e, por conseguinte, no agravamento dos problemas dos seus próprios associados.

 

2. Política

Passos Coelho é um espinho cravado no sistema político nacional. O homem recusa-se a seguir o guião. Parece que, de repente, até decidiu fazer política. Indivíduos mais atentos teriam notado a forma como ele deu a volta a Paulo Portas em 2013; como aguentou críticas ferozes, vaticínios catastrofistas e distorções variadas (que, evidentemente, nada tinham a ver com «pós-verdade» ou «factos alternativos») enquanto foi primeiro-ministro; como, quebrando a tradição nacional de que uma pessoa não se «rebaixa» a um papel menos importante do que outro já desempenhado, assumiu o lugar de deputado após a queda do seu governo às mãos da «geringonça». Na verdade, Passos é um político. Um excelente político. Nas últimas semanas, António Costa – este sim, considerado por todos um político exímio, para além de um negociador imbatível – deu-lhe oportunidade para o demonstrar. Costa fechou um acordo que violava a Constituição (o escândalo mediático que teria surgido há apenas um par de anos...) e para o qual não garantira apoio parlamentar. Para o fazer passar, contava com a passividade do PCP, do Bloco – ou do PSD. Os dois primeiros foram iguais a si mesmos e mostraram que o governo de Portugal não é estável nem credível (quanto a duradouro, veremos). Por seu turno, Passos resolveu finalmente assumir o papel de líder da oposição e cumprir o que prometera aquando da tomada de posse da «geringonça»: forçá-la a governar. Nos dias seguintes, verificou-se que Costa tinha quase toda a gente «importante» com ele: a intelligentsia mediática, os «patrões», a UGT, a facção «bem-pensante» do PSD, o Presidente da República. Só que Passos aguentou muito mais durante os anos da Troika. Não cedeu, e fez bem. Contudo, assumiu um risco: para os poderes instalados (os mesmos que Ricardo Salgado elogiou explícita e implicitamente no artigo que escreveu aquando da morte de Mário Soares), é cada vez mais importante afastá-lo da liderança do PSD.

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Dois anos é muito tempo

por Pedro Correia, em 25.01.17

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Lembram-se? Faz hoje dois anos. O Syriza venceu por escassa margem a eleição legislativa na Grécia e foi quanto bastou para a Europa mediática - cada vez mais dissociada do pulsar real das sociedades - se erguer em hossanas ao suposto novo Ulisses que resgataria o povo helénico de todas as humilhações.

Por cá, o Jornal de Notícias concedeu uma rara manchete "editorializada" a um tema internacional proclamando: "Grécia - o princípio do fim da austeridade". O Público foi menos sucinto mas ainda mais crédulo no seu título garrafal da primeira página: "Grécia vira a página da austeridade e deixa Europa a fazer contas".

 

Numa interminável cascata verbal, sucediam-se as efusões de júbilo. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", celebrava Ana Gomes. "Terminou a austeridade pura e dura na Grécia", sentenciou Freitas do Amaral. "A Grécia renasceu hoje", entusiasmou-se José Castro Caldas. "A Europa vai ter de ceder", ameaçava Nicolau Santos.

O pintor Leonel Moura, fazendo "análise política" pela via da estética, apontou como causa do triunfo eleitoral da esquerda radical grega "a boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis". Boaventura Sousa Santos, do alto da sua cátedra coimbrã, imaginou o líder do Syriza equiparado a Charles de Gaulle em 1944: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa." Já Catarina Martins, fiel aos clássicos, optou por parafrasear Marx: "Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo."

 

Eram os tempos da tenebrosa "senhora Merkel" que, qual vampira, nos sugava até à última gota de sangue. A mesma que, ao visitar Lisboa, foi crismada de assassina a nazi. "Queríamos queimar a Merkel viva", gritaram vozes num incendiário directo televisivo. Francisco Louçã, com o seu sofisticado vocabulário político, chamava-lhe "assaltante" e "pirata".

Mas as coisas mudaram. A "austeridade" não só não terminou na Grécia como se tornou ainda mais dura e draconiana, com um novo  programa de resgate e um referendo inútil que Tsipras convocou para logo o deitar para o lixo, para utilizar a elegante expressão da líder do Bloco de Esquerda.

O pintor Moura não voltou a pronunciar-se sobre os supostos atributos estéticos do duo Tsipras-Varoufakis, aliás desfeito numa das primeiras curvas do sinuoso caminho da governação que o Syriza tem experimentado. Um partido afinal igual aos outros mal segura as rédeas da governação, numa Europa hoje assolada por um sem-fim de novos problemas - do terrorismo às migrações maciças, passando pelo espectro da sua própria desagregação devido à onda dos populismos emergentes, quase todos de matriz identitária, parentes próximos dos que devastaram o continente noutras épocas, de péssima memória.

 

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 Varoufakui e Tsipras: um duo volatilizado

 

Com o espaço comunitário sob a ameaça da desagregação, na sequência do referendo britânico de Junho passado, e o cenário da tomada do poder por forças extremistas em França ou na Holanda, além da crescente tendência dos europeus de Leste para rejeitarem a política comunitária, sem esquecer as pulsões anti-imigratórias que já se estenderam à península escandinava, ninguém voltou a falar de Tsipras.

Varoufakis volatilizou-se.

A "segunda libertação da Europa" não passou de um sonho de uma noite de Inverno de um simpático sociólogo de Coimbra.

E Merkel tornou-se a última legítima herdeira da sólida aliança entre democratas-cristãos e sociais-democratas que garantiu sete décadas de paz, prosperidade e progresso ao continente europeu. Passou a ser elogiada por muitos que ainda há pouco a detestavam.

Não por acaso, é cada vez mais contestada em casa pelo populismo vociferante, em perfeita identificação com o ar dos tempos.

 

A vitória eleitoral do Syriza aconteceu apenas há dois anos mas parece ter ocorrido há uma eternidade. Comprovando que, quando se fala em política, o nosso planeta parece girar muito mais rapidamente em torno do seu eixo.

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De acordo com dados oficiais divulgados pelo Ministério da Justiça, o estratosférico registo de actividade dos 20 tribunais reabertos em Janeiro é o seguinte: 1 julgamento, 469 atendimentos ao balcão, 380 pedidos de certificado de registo criminal e 623 actos não especificados (suponho que nestes não estarão contabilizadas diligências como limar as unhas e registar o euromilhões).

Deixando de fora o julgamento, e tendo como referência um quadro de dois funcionários por tribunal, temos que, em média, cada um destes briosos servidores da coisa pública esteve envolvido, por dia útil (é uma forma de dizer), em:

1,17 atendimentos;

0,95 emissões de registo criminal;
1,55 actos não especificados.

Numa famosa telenovela da década de 80, o Prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, passava os seus dias à espera que alguém morresse na vila para poder inaugurar o cemitério que mandara construir com o objectivo de obter o favor popular. Agora, na segunda década do sécuo XXI, não tarda teremos Costa, o nosso pequeno Paraguaçu, a queixar-se que os habitantes de Mêda, Boticas, Penela ou Portel não estão a colaborar porque não dedicam tempo suficiente à pequena criminalidade. Ao contrário do que acontecia em Sucupira, em Portugal, um dia destes, ainda morremos todos a rir. 

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